Literatura Cearense

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Em Sobral: a bondade dos padres

Antônio Marcelo Farias, na Betânia, de 1956 a 1961

Já no sexto ano, numa aula de Português, o Padre Osvaldo Chaves passou-nos uma tarefa. Era uma pesquisa sobre os hábitos, os costumes, o folclore, as lendas, as características de uma cidade do interior. Com a ideia que tinha de Sobral, imaginava que estava dispensado da tarefa e arrisquei lá do fundo da sala:

-Padre Osvaldo, neste caso eu estou dispensado, não é?

-Por que, Marcelo, perguntou o professor, escandindo bem o meu nome, como sempre o fazia.

-Eu moro em Sobral…

Esta era a concepção da cidade em que nasci, em nove de janeiro de 1942. Sobral era o centro do mundo. Não podia ter características próprias de cidade do interior. Aquela ideia fora sendo sedimentada ao longo dos meus primeiros anos de vida por tudo que eu via e ouvia. Era a cidade em que muitas casas possuíam piano que era tocado pelas belas moças que habitavam as mais bonitas casas. Sobral tinha um Bispo Conde que presidia solenidades litúrgicas memoráveis. Sobral tinha um Arco do Triunfo que deixava todo mundo encantado. Tinha a única estação de rádio da região norte do Ceará: Rádio Iracema. Em 1955, o representante do Papa estivera em Sobral para as Bodas de Ouro de nosso Bispo Conde. Cardeais, bispos e padres acorreram de todo canto para aquela grande festa. Sobral não era igual às demais cidades.

Meus pais, Sebastião Lopes de Farias e Angelita Liberato de Carvalho Farias cuidavam dos filhos com um carinho todo especial. Ele era funcionário do Banco do Brasil, um emprego cobiçado por muita gente. Dava status. Minha mãe cuidava das tarefas domésticas, dando atenção especial à educação dos filhos. Indiretamente, a ação do Bispo Dom José Tupinambá da Frota, sobralense, estimulando as famílias para a educação dos filhos, chegava a todos os lares. E o próprio Bispo tomou a iniciativa de criar os principais colégios da cidade para motivar as famílias.

Uma das instituições foi o Colégio Santana onde tive a honra de estudar. Era dirigido pelas Irmãs Filhas de Santana. Foi lá que fiz o Jardim da Infância sob a orientação da Mestra Ema.

Era um privilégio poder estudar naquele Colégio que ainda hoje honra a cidade de Sobral.  Destaca-se pela imponência de suas instalações e pela qualidade de seu ensino. Era a continuação de nossas casas. De amigos de infância, ainda guardo na memória os nomes de Raimundo Adolfo Soares, José Roberto Vieira, Haroldo Parente e Wanderley Barreto Lima que também foi contemporâneo no Seminário de Sobral.

O próprio ambiente no Colégio Santana, o clima religioso que existia na cidade, as aulas de catecismo com Dona Jurandir Verniaud, os atos religiosos na Catedral, na Igreja do Rosário e na Igreja do Patrocínio, celebrados respectivamente por Mons. Domingos Araújo, Mons. Francisco Felipe Fontenele e Mons. José Osmar Carneiro, já despertavam a atenção de qualquer criança. Os atos religiosos, especialmente da Semana Santa, presididos por Dom José, sensibilizavam a todos. Qual o menino que não gostaria de estar lá no altar, ao lado do Bispo e de tantos padres? A leitura frequente do jornal católico Correio da Semana também exercia muita influência.

Todo aquele ambiente despertava a atenção das crianças, além do clima religioso do ambiente familiar. Todas as famílias acalentavam o sonho de ter um filho padre. Naquele tempo em que todos os padres e seminaristas usavam batinas pretas, não era raro vê-los circulando pela cidade despertando a atenção da comunidade. Dava certo “status”. Eu tinha que seguir aquele caminho. Era o que me passava pela cabeça.

Comecei pelo Pré-Seminário, uma instituição criada pelo Mons. Joaquim Arnóbio de Andrade, que tinha quase o mesmo sistema do Seminário e era ajudado pelo Padre Francisco Tupinambá Melo. Além disto, também funcionava na Betânia, no mesmo prédio do Seminário Menor de São José de Sobral. Lá eu estudei nos anos de 1954 e 1955.

A aproximação com o Seminário aumentou a vontade de mudar-me para lá. Isto aconteceu em 1956. As diferenças que senti no tocante às regras de conduta foram mínimas. A grande diferença era o fato de ter que estar sempre vestido de batina preta e um sistema de aula bem mais avançado. Afinal de contas estava começando o Ginásio.

Foi um período extraordinário. O que mais me marcou no Seminário: foi a bondade dos padres. Todos extremamente dedicados e empenhados na transmissão de conhecimentos humanísticos. Como me recordo dos sermões e “avisos” do padre Austregésilo, das conferências e preleções do padre Manuel Edmilson Cruz, das aulas de “civilidade” do padre José Linhares, verdadeiro código de comportamento humano em sociedade,  das excelentes aulas de Geografia, do padre Marconi Freire Montezuma, das aulas de literatura, do padre Oswaldo Carneiro Chaves, das aulas de História, do padre Edson Frota, de Grego, do padre Albani,  de Latim do padre Francisco Sadoc e de Francês do padre Moésia Nogueira Borges. Inesquecível a Semana da Pátria na Serra da Meruoca em que o nosso tempo era praticamente dedicado exclusivamente ao lazer; os famosos torneios de futebol que me cabia a tarefa de organizar.

Também se tornaram inesquecíveis as sessões lítero-musicais, as festas comemorativas, as reuniões do Grêmio Dom José e da Cruzada São Tarcísio, animadas pelo canto orfeônico. Como não recordar a melodia do canto gregoriano, ecoando pela capela do Preciosíssimo Sangue: Veni creator, Stabat Mater, Salve Regina. Ainda ecoam nos meus ouvidos outras melodias que entoávamos diariamente: Virgo Maria, Mitte, Domine.

No Seminário de Sobral fiquei até 1961. Após cursar o primeiro ano de Filosofia, no Seminário Regional do Nordeste, em Olinda, concluí que deveria seguir outro caminho e saí em 1962. Tinha que procurar a minha realização humana, não como padre, mas me formando em Engenharia e com objetivo de constituir uma família. Preparei-me para o vestibular e cursei Engenharia na Universidade Federal do Ceará de 1965 a 1970 quando me graduei.

Exerci a minha atividade profissional como Engenheiro Químico em várias empresas da região de São Paulo. Casei-me em 1972, no dia nove de dezembro, com Maria Stela Paiva Farias, cearense, de Fortaleza, graduada em Serviço Social e minha contemporânea nos tempos da UFC. De nosso casamento nasceram: Marcela Paiva Farias, graduada em Farmácia e Bioquímica, pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, atuando na área de Pesquisa Clínica; Leonardo Paiva Farias, graduado em Biologia pelo Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo, com Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado pelo Instituto Butantã. 

Depois de uma longa caminhada de atividades no mundo do estudo e do trabalho, chega o tempo do repouso merecido, cheio de boas recordações, mesclado com alguns passeios pelo Chile, Argentina, Colômbia e pelo mundo dos sonhos que sempre nos acompanham. Depois de tudo é muito bom constatar que tudo valeu pena!

Antônio Marcelo Liberato Farias, cearense de Sobral, Engenheiro Químico, residente em São Paulo – texto escrito para o livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura.

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