Mês: abril 2020

Prof. Carlos Augusto Santos

A MALDADE PRESIDENCIAL DO DIA

Ofuscado pelos desdobramentos que cercaram a demissão do ex-ministro Moro, sua “delação” ao vivo e a resposta vespertina do circunlóquio presidencial, o veto INTEGRAL da PROFISSÃO DE HISTORIADOR somente hoje veio à baila nas redes sociais. Que já era esperado esta atitude, todos já sabíamos. Agora, resta ao Congresso Nacional rejeitar o VETO e por fim numa luta de décadas pelo reconhecimento.


No entanto, fico aqui pensando com meus botões, como fica a cabeça de alunos que fazem faculdade de história e professores que votaram neste sujeito. Quais serão as explicações? Há de ter algumas e não me venham contestar com o discurso juridiquês, que esse serve para explicar tudo, até o inexplicável. Boa semana a todos!

Prof. Carlos Augusto Santos

Camocim, 27/04/2020. 41º Dia de Quarentena.

Os historiadores saberão contar

Raimundo Nonato Rodrigues de Souza estuda a escravidão no Ceará; enquanto viveu Aparecida se dedicou na organização de arquivos em Pernambuco e no Ceará; Agenor Soares Silva Júnior, se ocupa de entender como o sagrado se constitui nos espaços urbanos cearenses; Denis Melo Melo, vive a prescrutar as práticas letradas e os sons citadinos da heráldica Sobral; Edvanir Silveira, por seu turno, pesquisa sobre a política das cidades do noroeste cearense em tempos de ditadura; Antônia, adentrou nas memórias do homem sertanejo para entender as migrações deste; Carlos Augusto Santos, procura vislumbrar as experiências dos trabalhadores urbanos ao longo do leito da extinta Estrada de Ferro de Sobral.


Eles estiveram reunidos em Camocim no início dos anos 2000, não para esperar o trem e seguir viagem. Mas, para socializar estes temas entre si num planejamento do Curso de História da UVA. Naquela época, já sonhavam e discutiam a possibilidade de um dia serem reconhecidos como profissionais da História. Tantos outros e outros tantos, em outros cantos continuam na tarefa de dar significados aos fatos históricos.

Professores de História da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA


O tempo passou e muito se aprimorou e se transformou o projeto de regulamentação da profissão de historiador. Ao tempo dos políticos o mesmo foi aprovado e levado à sanção presidencial.
Quis o tempo que ele viesse nestes tempos tormentosos e, na barafunda diária que preside o desgoverno atual, o veto veio de maneira INTEGRAL, talvez por não ter argumentos sólidos para sua efetivação, preferiu-se a opção odiosa de quem nega a própria história.


Os historiadores saberão contar esta história futuramente, seja revivendo momentos fotográficos, na trincheira da luta ou na espera insana de ver seus esforços, suas pesquisas, recompensados e reconhecidos, firmes na vigilância que lhes são peculiares.

Prof. Carlos Augusto Santos

Camocim, 27/04/2020. 41º Dia da Quarentena

LITERATURA CEARENSE

O MELHOR TEMPO DE MINHA VIDA, escrito por                                                             ABDORAL EUFRASINO DE PINHO – na Betânia de 1959 a 1961                                                            

Meus primeiros estudos foram com a professora Madalena. Carrasca, como se dizia à época, predominava a palmatória como castigo. Também estudei com a professora Rosa (Rosinha) e as aulas eram na casa do senhor Manoel Vitor. Sobressaía-se quem lesse o texto com voz mais alta, por exemplo “bê a ba, bê é bé, bê i bi”. Também tive um professor de formação religiosa, chamado José Odete Albuquerque. Todos de saudosa memória…

O meu ingresso ao Seminário São José, a Betânia, começou com uma queda. Atarantado, talvez, pela emoção de estar chegando àquele casarão tão afamado, tropecei nos batentes da calçada e fui ao chão com todo o corpo. Alguém me ajudou a levantar e, assim, naturalmente encabulado, transpus a porta de entrada daquela casa, imaginando que estava dando um passo muito importante em minha vida.

            Vinha de minha pequena Poranga, antiga vila de Várzea Formosa, na Zona Norte do Estado, no planalto ibiapabano. A denominação tem origem tupy-guarani e quer dizer Vista Bonita. Nosso município foi emancipado de Ipueiras em 1957.

            Sou filho do fazendeiro José Rodrigues de Pinho, primeiro prefeito de Poranga, e de Itelvina Silvina de Pinho.

            Antes de chegar à Betânia, fui aluno interno do Pré-Seminário, em 1957 e 1958. Esse estabelecimento, que funcionava no mesmo prédio do Instituto dos Oblatos Diocesanos, chamava-se Escola São Luiz Gonzaga e era dirigido pelo padre Joaquim Arnóbio de Andrade. O coordenador era o padre Tupinambá Melo, filho de Ipueiras.  Quando de férias, ficava lá na Matriz de São Gonçalo.

            Naquele fevereiro de 1959 eu era um adolescente de quinze anos, já que nasci em 1944. Minha família fazia fé que me tornasse um piedoso seminarista e depois um sacerdote da Santa Madre Igreja. O meu primo Gonçalo Pinho me precedera no seminário e fora um dos incentivadores para que eu também seguisse a carreira eclesiástica. Aliás, devo ao hoje Monsenhor Gonçalo, destacada figura do clero sobralense, toda uma gama de apoio e aconselhamento, mercê de suas altas qualidades morais e da condição de parente e amigo solidário, com quem sempre contei e a quem, agora, proclamo a minha gratidão. O meu irmão Abdias também muito me incentivou: queria ver o irmão padre.

            Os primeiros dias de seminarista foram de entrosamento e adaptação. De certo modo não estranhei a disciplina, pois era semelhante a do Pré-Seminário. Acordar às cinco da matina com uma oração em latim. Em seguida, descer para a rouparia e, depois das providências de asseio, seguir em fila pelos longos corredores para a capela do Preciosíssimo Sangue para a missa. A rotina prosseguia com o café coletivo e as aulas da manhã, o almoço e um bom intervalo de recreio antes do período da tarde. A tarde era dedicada aos estudos e preparação dos deveres escolares. Havia um outro intervalo para a merenda, por volta das 15 horas e o grande hiato da tardinha até a hora do jantar.

            O expediente era duro, o que valorizava muito as horas de recreios. Eu, que sempre gostei de futebol, aproveitava vigorosamente os momentos de lazer, sobretudo o do final do dia, para bater bola com meus companheiros, entre os quais me sobressaia como atacante, quer no futebol de salão, quer no de poeira.

            Fui, sem falsa modéstia, o melhor atleta de meu tempo no seminário, artilheiro louvado e invejado. O time da Betânia, formado por Liberato (goleiro), Rogério, Leopoldo e Ody Mourão, se cobriu de glórias nos campeonatos de futebol de salão. Em Sobral ninguém nos vencia. Nem mesmo o Benfica, do saudoso Luiz Camocim, que além de futebolista tinha na cidade uma loja de calçados, onde comprei um dos meus primeiros sapatos de luxo (Vulcabras) pela quantia de 50 mil réis. No futebol de campo também se destacavam o Cícero Matos (goleiro), filho de Nova Russas, o Narcélio Gomes, o Catunda, o Vitorino, o Zé Alcy, o Zé Welington Ximenes, o Chico Welington, o Jocélio, o Flávio Machado, o Luciano Lobo e muitos outros. Estávamos no vigor da adolescência e o futebol era uma das vias de extravasamento de energia e emoções.

             Fora e dentro do esporte fiz muitos amigos nos três anos de permanência na Betânia. Tenho o maior prazer de encontrá-los ainda hoje nas circunstâncias da vida e nos encontros de confraternização organizados pelo dedicado Aguiar Moura, na época, meu fã incondicional. Amigos como o Cristóvão, o Flávio Machado, o Vicente Cristino, o Abdias Fernandes, o Olavo, o Jocélio, o Luciano Lobo, o Liberato, o Rogério, o Flamarion Rodrigues, o Arimatéia Mourão (Guexe), o Fernando da Dona Ieda, o Eduardo e o João Aguiar (meu irmão camarada) …

            Durante o campeonato interno do Seminário houve uma parada de jogo, porque Aguiar Moura, torcendo por mim, e Vicente Cristino, torcendo pelo Ody, começaram a brigar agarrados dentro da quadra, e precisou apelar para a “turma deixa disso” para apartar a briga. 

            O tempo, que enruga a felicidade e pulveriza as verdes alegrias da juventude, de vez em quando, nos traz as tristes notícias da morte. Quantos dos nossos colegas, lépidos e felizes meninos com quem repartimos aqueles tempos de internato, já ficaram pela estrada e transcenderam desta vida! Onde estão meus amigos François Martins (com aquela gargalhada estrepitosa), Ody Mourão (com sua arte magnífica de cortar dois, três e executar golaços), Antônio Machado, o Xânspsis, (com suas histórias de Crateús), José Alcy (sempre muito educado, querendo dar conselhos) e tantos outros que foram chamados talvez antes do tempo.

            Lembro de meus professores, competentes mestres, que a gente só reconhece inteiramente muitos anos depois. Muitos também já se foram, como o Padre Lira, professor de História, sempre dizendo que “a gente só é feliz quando faz os outros felizes! ” O santo Padre Edson, professor de Geografia, zelador cuidadoso da moral. O padre Albany, tipo espontâneo e brincalhão, que era, acho, diretor espiritual. Padre Moésia, o monsieur, professor de francês, com aquela calma de índio Tremembé. O padre Tupinambá, que também gostava muito de futebol e, muitas vezes, apitou as partidas. Todos partiram. Partiu também o vigário de Poranga da época em que eu era seminarista, Pe. Luís Santos do Amarante Lima. A ele tinha que me apresentar quando chegava de férias e pedir a sua autorização sempre que eu precisasse me ausentar do município. O Pe. Luís desempenhou papel importante nas origens da nossa paróquia, que está completando 60 anos.

            Graças a Deus muitos ainda estão entre nós. Como o padre Edmilson, hoje bispo Dom Edimilson Cruz, cidadão muito conceituado por suas atitudes políticas e expressão da verdade. O padre José Linhares, que foi nosso reitor, hoje deputado federal, reeleito tantas vezes. Também tínhamos o padre Austregésilo, que era o reitor. Padre Reitor nomeado Bispo de Afogado de Ingazeira (PE), Dom Francisco, homem de decisão firme, quando dizia uma coisa era categórico, ele sempre dizia: “O Diabo pode deixar de ser Diabo, mas eu não deixo de ser homem”. O padre Luizito, uma das maiores inteligências que conheci, professor aposentado da Universidade da Paraíba. E o grande mestre de Português, o padre Osvaldo Chaves (Salvete Pueri), o homem mais temido do seminário pelo rigor com que ministrava e cobrava a lições do vernáculo. Um gênio, já naquele tempo reconhecido e que hoje é uma personalidade destacada na história sobralense, alvo constante de homenagens. Hoje entendemos porque era severo e exigente conosco. Achava que devíamos conhecer bem a língua pátria, instrumento fundamental em qualquer profissão que fôssemos exercer.

            Quando havia feriado era uma graça. No meu caso, a oportunidade de jogar e brilhar no campo. Naquela idade o aplauso faz bem ao ego. Quantas vezes fui dormir feliz depois de receber as manifestações de admiração pelo meu desempenho no jogo. Uma vez o time do Ceará visitou o seminário e jogamos salão com alguns elementos do escrete alvinegro. O Benício, um ídolo do time, elogiou meu jeito de jogar e chegou a dizer que eu tinha futuro no futebol profissional. Fiquei nas nuvens.

            Um dia, entendi que não tinha vocação para o sacerdócio. Não era a minha praia. Comecei a sentir os apelos da carne e comecei a namorar nas férias. Voltei “chumbado” e, no fim do ano, bati em retirada.

            Fiz vestibular e ingressei na Faculdade de Agronomia. Formado, voltei para a minha terra e, por contingências familiares e necessidade de participar, tornei-me político. Meu pai fora um dos fundadores do município. Meu irmão, Antônio Eufrasino Neto, era deputado estadual. Por quatro vezes governei Poranga, procurando dar à minha terra condições de desenvolvimento. Dentro de meus limites humanos pugnei pelo melhor para o meu povo. Aproveito para homenagear a professora Maria Marinho, que, como eu, foi também estudar em Sobral e o fez com muitas dificuldades, pois pertencia a uma família humilde. Estudou no Colégio Sant’Ana. Formada, veio a ser competente e renomada professora em Poranga. Hoje, aposentada, recebe a gratidão de todos que se beneficiaram do seu abnegado magistério.

            A atividade pública, como tudo na vida, traz alegrias e decepções. Gostei de ser prefeito de minha terra. É um sonho de todo munícipe ser prefeito da sua cidade e, além de tudo, um exercício de cidadania. Lamento ter sofrido uma traição, vinda de quem menos esperava. Terminei minha carreira política apunhalado pelas costas. Coisas da vida…

            Tive tragédias maiores. A maior delas, ter perdido meu irmão, Eufrasino Neto, num acidente automobilístico quando estava no esplendor da vida, ainda cheio de perspectivas. Paciência…

ABDORAL EUFRASINO DE PINHO e família

Hoje, no patamar dos 70 anos, casado com Maria Cameli de Almeida Pinho (agrônoma – EMATERCE), o amor de minha vida, e pai de Arabelli, Moema, Igor e Thargus, avô coruja e ainda sonhador de vastos horizontes, relembro com saudade o velho seminário da Betânia, confessando sinceramente: VIVI ALI UM DOS MAIS VENTUROSOS MOMENTOS DE MINHA VIDA!

PRIMEIRO PLANO – 24 DE ABRIL

Este período de isolamento social tem ativado a criatividade de muitas pessoas e instituições. Cada um escolhendo a melhor forma de conviver com a situação.

No meu caso, estou aproveitando, especialmente, para ler e escrever. São duas atividades de que gosto muito.

Li um livro muito interessante “Maria Madalena – O Evangelho segundo Maria”, de Armando Avena. A primeira parte, narrado por Maria. A segunda por Maria Madalena.

Estou escrevendo um livro sobre pessoas da minha cidade, que conheci no meu tempo de menino. Até os 13 anos, quando saí para estudar no Seminário de Sobral. Até o início de 1955.

É um giro de casa em casa, da pequenina cidade, com meu olhar de menino, para preservar histórias interessantes daquelas pessoas que, a seu modo, lançaram as bases de nosso futuro.

Estou contando com a colaboração de pessoas a quem pedi um relato sobre os seus respectivos pais. Algumas, já as recebi. Muito boas.

Também realizando uma experiência de aprendizagem de piano/teclado, à distância, contando com a orientação da Professora Ivana Sá, em Sobral, e eu em Fortaleza.

A propósito, o Instituto IETOS, da Professora Muldiane Pedroza vem dando continuidade aos cursos de graduação, com aulas à distância.  No Juá, Irauçuba, há muito entusiasmo da turma de Pedagogia.

Aliás, estive com esta turma algumas vezes e sempre percebo que, apesar das dificuldades de deslocamentos e outras limitações, a turma está sempre bem motivada.

Tudo resultado da ação das Professoras Lídia e Muldiane que asseguram um acompanhamento permanente e não permitem que o grupo tenha um curso de faz de conta. (fotos)

Turma de Pedagogia, em Juá, Irauçuba
Professora Mestra MULDIANE PEDROZA, Diretora do IETOS

Tem-se visto que muitas pessoas que subestimaram e até debocharam do isolamento social encontraram o vírus, de alguma forma. Agora se arrependem do que disseram.

Os médicos cubanos, tão mal recebidos na chegada e, depois, expulsos do Brasil, andam pelo mundo afora cuidando de pacientes do COVID 19. E são muito bem recebidos.

A região norte está em festa com a sangria do Araras, depois de nove anos. Se não fosse o isolamento social, multidões estavam lá, vendo aquele espetáculo da natureza.

Nesta edição, de nossa coluna de Literatura Cearense, está a história de Abdoral Eufrasino de Pinho, de Poranga, extraída do livro “SEMINÁRIO DA BETANIA – AD VITAM -65 Declarações de Amor. ”

Meu Mundo Literatura, por Aninha Martins

Aninha Martins

Gosto do meu mundo, de verdades criadas, pois ONDE HÁ VERDADE, HÁ POESIA.

E o que é a verdade?

Se tudo é tão relativo… Então, me deixo cair no abismo, tal como ALICE, no meu PAÍS DAS MARAVILHAS e, mergulho nas palavras, como em uma piscina de bolinhas, me permitindo sentir, como se eu tivesse em UMA MÁQUINA DE INVENTAR INSTANTES, instantes de sonhos e realidades permitidas.

Converso com DRUMOND e proseio no ALPENDRE, com RACHEL, balançando na rede onde D. GUIDINHA costuma descansar, para, daqui a pouco, fazer uma caminhada ao lado de GUIMARÃES, pelas Veredas do Grande Sertão e encontrar GRACILIANO e, os três, observar as VIDAS SECAS, periodicamente, pois quando a chuva cair, tudo renascerá…

E, no SILÊNCIO DO ENTARDECER, ouço uma voz que diz: DEIXE PARA MAIS TARDE para tentar entender! Vivo o momento, ao som de TOM, até sentir OS RESPINGOS DA MADRUGADA, quando canta O FAZEDOR DE AMANHECER, num CONCERTO A CÉU ABERTO, alertando que o dia está a caminho, e molho os pés NO ORVALHO DAS MANHÃS.

E assim, como o PEQUENO PRÍNCIPE, rego a flor mais importante, aquela pela qual me responsabilizei, planto tantas outras e faço doces no tacho deixado por CORA, para enfeitar e adoçar as horas, até chegar o momento em que, de mãos dadas com BANDEIRA, seguiremos rumo à PASÁRGADA, e sentaremos ao lado do PRINCIPEZINHO, para assistirmos, quantas vezes quisermos, o espetáculo do fim de tarde e logo após, contemplar A LUA, DEPOIS DO SOL,  perceber COMO A NOITE É LONGA, ao lado de PESSOA e seu tantos outros, me deixar OUVIR ESTRELAS contidas na VIA LÁCTEA com BILAC, como VAGA MÚSICA entoada por CECÍLIA.

Mas o meu SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO chega ao fim… Preciso voltar à minha outra realidade, convicta de que existe muito MAIS DE MIM escondido em mim mesma, pois o que OS OLHOS NÃO VEEM, O CORAÇÃO SENTE. E, como fez com sua TRAPEZISTA DO CIRCO, BIVAR me chama, me trazendo de volta da CIDADE DE PAPEL.

ANINHA MARTINS, de IPU – Escritora, Professora e Poetisa

O RESTO É SECUNDÁRIO, PERECÍVEL! por Aninha Martins.

Aninha Martins

Sou um homem de negócios, vivo em meio aos números, cifrões, máquinas e aparatos tecnológicos.

Isso mostra a frieza do contexto em que sou inserido, o que contribui para ter um pensamento mais técnico, embora, sinta, tenha fortes emoções, mas quase todas voltadas às preocupações com o que não está indo bem ou o que pode surgir para impedir meu avanço capitalista.

Nesse momento, não poderia ser diferente, mais do que nunca, me preocupo com o meu futuro financeiro e, consequentemente, acabo deixando de lado a minha preocupação com o meu bem maior, a vida.

Percebi isso, ao pensar que todo meu patrimônio só tem sentido se eu estiver bem, com saúde. Percebi que tudo que conquistei é importante, porém, passageiro, a vida terrena, tem prazo.

Então, me convenço de que o mais relevante é aproveitar, da melhor maneira possível, o que realmente tem valor: o calor humano, a natureza, as batidas do coração e o pulsar da vida. O resto, é secundário, perecível.

ANINHA MARTINS, de Ipu: Professora, Escritora e Poetisa.

OBS: Texto inspirado em um amigo empresário, preocupado sobretudo, com o futuro de sua empresa.

Do JORNAL O POVO: 10 municípios do Ceará estão com aulas remotas; na rede privada, 7 em cada 10 escolas

Segundo o Sinepe-CE, 25% das escolas particulares optaram por férias antecipadas no último mês para se adaptar ao ensino emergencial remoto

Por Ítalo Cosme, do Jornal O POVO, de 20/03/2020

Dos 184 municípios cearenses, cerca de 110 estão com aulas remotas nas escolas públicas do ensino fundamental (1º ao 9º ano). Em relação às escolas privadas, considerando todas as etapas do ensino, sete a cada dez ofertam conteúdo desta forma. O restante optou por antecipar as férias escolares, mas retornam em maio próximo. Os levantamentos são da seccional cearense da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do Ceará (Sinepe), respectivamente.

Conforme a Undime, órgão de assessoramento e orientação aos dirigentes municipais de educação, a pesquisa recebeu respostas de 144 municípios. Desses, 80 aplicam conteúdo que deve ser aproveitado na carga horária mínima de 800 horas exigidas pelo Ministério da Educação (MEC). Outros 30 usam atividades remotas, mas ainda há incertezas se o material alcançará às exigências para validação. No restante, 34, não há nada sendo aplicado.

Tendo em vista esses dois últimos conjuntos de cidades, a Undime-CE montou um grupo de trabalho, com seis dirigentes educacionais, para orientar como se preparar e retornar às escolas. Conforme a presidente do órgão e secretária de educação do município de Crateús, Luiza Aurélia Costa, durante a semana de aula, os professores devem preparar o alunado para, na sexta-feira, encaminhar atividades a serem feitas em casa. A cada exercício serão atribuídos minutos de estudo.

“No final, o tempo deve compor a carga horária exigida. Assim, os professores terão condições de aferir se o estudante conseguiu apreender as competências propostas”, considera. O material deve ser disponibilizado às cidades. As orientações são feitas aos técnicos em educação das localidades. As recomendações são para o ensino fundamental. Uma coletânea de atividades está sendo feita para o ensino fundamental.

No entanto, a líder educacional confessa não conseguir mensurar a qualidade do ensino ofertado nos municípios que adotaram a educação remota. “O que fizemos foi para saber se há a oferta, qual o percentual atingia, como o município está realizando e se melhorou as condições de conectividade, cada município tem o poder discricionário de optar pela atividade.” 

Luiza destaca que algumas redes de ensino do Ceará, como a de Fortaleza, São Gonçalo do Amarante e Eusébio, começaram a investir e apresentam condições favoráveis para a oferta dessa modalidade.

“Os municípios não investem em softwares ou aplicativos, por conta disso não há capacitação dos professores para isso. Há limitação desses profissionais no uso de mídias. Não é algo universal, mas há um alto percentual assim. A baixa escolaridade dos pais influencia consideravelmente na orientação domiciliar das atividades”, comenta ainda sobre os fatores que dificultam aulas remotas.

Por outro lado, o cenário se desenha de forma diferente na rede de ensino privado, mas ainda assim é desafiador, segundo o professor Airton Oliveira, presidente do Sinepe-CE. O representante destaca que 25% das escolas particulares optaram por férias antecipadas no último mês para reforçar os sistemas e adaptar para o ensino emergencial remoto. Enquanto o restante, intensificou as atividades domiciliares e ganhou um novo ator no processo de aprendizagem: os pais. Há 4,9 mil unidades particulares no Estado.

“A escola tem de ser ágil. Não podemos ficar de braços cruzados se essa pandemia chegar a agosto. É um novo modelo. É um momento de resolução imediata para salvar o ano letivo na educação básica e o semestre, no ensino superior”, considera. Oliveira frisa ainda que muitas instituições se endividam para adaptar e receber a demanda dos estudantes em um ambiente virtual.

“É uma modalidade que vai permanecer. Esse período tem atraído o interesse dos alunos e despertado famílias a se envolverem mais. Talvez, apareça uma ou outra resistência porque querem delegar a obrigação da educação apenas à escola. Mas a educação domiciliar é uma riqueza porque os pais estão participando, convivendo e nós estamos em permanente contato.”

Para ele, há receio por parte do Ministério Público do Ceará se o conteúdo está sendo cumprido. Ele afirma que as escolas estão repassando de forma correta o material. “Na volta, vamos fazer a avaliação. Nós iremos fazer reforço daquilo que pode não ter sido compreendido, utilizar o mês de julho, dezembro e janeiro para complementar o ano letivo”, garante.

Municípios vivem incertezas no alcance de conteúdo durante isolamento

A rede de ensino de 64 municípios, monitorados pela seccional cearense da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), enfrenta problemas para chegar aos alunos durante a suspensão das aulas presenciais. Em Banabuiú, distante 216,6 quilômetros de Fortaleza, foi adotada a estratégia de aulas emergências remotas. No entanto, o formato não alcança todos os estudantes. Enquanto em Catunda, a 266,9 km da capital cearense, o método deve ser adotado apenas após a retomada do calendário escolar. 

Dirigente educacional do município de Banabuiú, Imaculada Silveira desenha um cenário precário quando se trata de ambientes virtuais. Para a gestora, em tempos de situações extraordinárias, há necessidade de se entender o novo cenário. “Para o público maior, está interessante. As coisas estão fluindo. Mesmo eu não conseguindo atingir percentual interessante. Nós estamos aprendendo no dia a dia”, afirma.

Segundo Silveira, a experiência bem sucedidas de outras localidade serve como parâmetro para o município, que tem na rede 3,2 mil estudantes. A secretária afirma que o principal recurso utilizado é o WhatsApp. “A gente está tentando levar as orientações pedagógicas por meio das próprias pessoas que moram na região.”    

Apesar disso, Imaculada destaca que a equipe técnica trabalha para o voltar já com calendário adaptado. “Tudo o que tínhamos feito em outubro, novembro e dezembro, estamos refazendo para que a criança tenha o que lhe é de direito: educação de qualidade”, projeta.

Enquanto isso, em Catunda, o responsável pela educação do município, Rondinele de Oliveira,  utiliza do rádio para se comunicar com o alunado das 12 unidades de ensino. “Estamos aguardando o retorno das aulas para fazer as atividades remotas dos alunos.” Ele destaca que, por enquanto, a plataforma sonora é usada apenas para informação às comunidades. Um programa semanal é veiculado no rádio. 

“Este é o momento para tranquilizar as famílias, para entender que não se trata de férias, mas de isolamento social”. Segundo ele, dicas em vídeos são divulgadas nas redes sociais do município para orientar pais em como lidar com a criança em casa. Para algumas séries, os professores deixam atividades em casa ou enviam por WhatsApp.

“Vai chegar o momento de montar um programa de rádio por disciplina.  E vamos fazer no mês de maio. Se isso se estender mais, vamos sentar e elaborar os programas.  O aluno vai perder muito. Quando se trata da educação infantil e anos iniciais, a presença do professor, o espaço escolar é essencial para que o aprendizado aconteça. Sem contar que parte das famílias não têm instrução”, considera.

Aquiraz e Jijoca de Jericoacoara recebem apoio da Fundação Lemann

Os municípios de Aquiraz, na Região Metropolitana de Fortaleza, e Jijoca de Jericoacoara, distante 283,4 quilômetros da capital cearense, foram selecionadas pela Fundação Lemann para receber apoio técnico para o ensino remoto. O suporte deve durar dois meses, mas há possibilidade de renovação. A interrupção no calendário escolar ocorreu para prevenção ao contágio do novo coronavírus.  

O apoio é personalizado conforme o cenário e as necessidades específicas de cada uma das cidades e o planejamento de todas as ações feito com a participação e envolvimento das equipes de cada rede.

“Nada substitui o trabalho do professor e a vivência em sala de aula, mas é vital que busquemos medidas de redução de danos para os alunos, com materiais de qualidade pedagógica e de fácil acesso”, diz Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann.

O apoio da fundação envolve diagnóstico dos desafios e condições da rede de ensino; e planejamento de ações de ensino remoto, com co-construção ou finalização de planejamentos já iniciados. O item inclui a curadoria de conteúdos pedagógicos de qualidade (analógicos e digitais) e o apontamento de estratégias para garantir a aprendizagem remota.

Além disso, há o apoio à implementação das ações planejadas. Por fim, acompanhamento para aprimorar as ações em curso. Depois de tudo isso, há uma sistematização e divulgação das ações, visando a multiplicação de práticas que se provarem efetivas.

Carga horária

A partir de consulta feita pela Undime, 80 municípios do Ceará responderam que estão aplicando conteúdo que deve ser aproveitado na carga horária mínima de 800 horas exigidas pelo MEC.

Literatura Cearense –

O INESQUECÍVEL SEMINÁRIO DA BETÂNIA, depoimento de Modesto Siebra Coelho, na Betânia: (1962 e 1963)

Este texto é produto da memória que guardo dos fatos. O prazer de fazê-lo é incomensurável e apesar da natural fragilidade do recurso utilizado, espero ser fiel no que narrar. A publicação de uma coletânea reunindo nossos feitos e memórias, a partir do Seminário Diocesano de São José de Sobral, nossa casa por vários anos, à ocasião das comemorações dos 100 Anos da Diocese de Sobral, ecoa como acontecimento histórico. O Seminário é uma das joias raras da Diocese e nós, ex-seminaristas, nos sentimos honrados por fazer parte de sua história e por poder transmitir aos nossos familiares, amigos, admiradores e seguidores, por meio de registros e relatos singulares, um legado de nossas experiências de vida.

Como e porque fui para o Seminário

Filho de pais católicos engajados, desde cedo comecei a receber os estímulos que me levariam aoSeminário. Aos sete anos de idade, já testemunhava seu Vicente Siebra e dona Ana Maria, preceptores voluntários quando jovens, discutindo à mesa, os rumos que queriam para os seus filhos e filhas. Éramos sete e meu pai depois de recitar a futura profissão de seis, voltava-se para mim e, de modo firme, transparecendo contentamento, decretava: você, Modesto, vai para o Seminário. Vai ser padre! A hora era a das refeições em família e eu saboreava o que ouvia com entusiasmo e inocente satisfação. Na minha “grande família” já havia primo padre, prima freira e seminaristas. Via-me cercado de boas influências. Fiz da ideia um ideal: iria para o Seminário! Queria ser padre! Meus pais sabiam o que isso significava. O Seminário destacava-se como referência de Educação e padre era esteio na sociedade por sua sublime missão.

Logo fui aceito como membro da Cruzada Eucarística, virei coroinha requisitado para as missas de domingo e ingressei na Escola Preparatória para o Seminário, a Escola Cura d`Ars, da Paróquia de Itapipoca, cujos orientadores eram o Pe. Francisco Abelardo Ferreira Lima e o Pe. Paulo Eduardo de Andrade Pontes. O primeiro destacou-se por seu papel como incansável estruturador das campanhas que conduziriam à criação da Diocese de Itapipoca (1971) e o segundo, o seu primeiro Bispo Diocesano. Na Escola Cura d’Ars, fiz três anos de estudos regulares e de preparação cívica, moral, religiosa e disciplinar para a empreitada que viria. A professora Benedita Magalhães apresentou de público o seu relatório: eu estava pronto! Os padres aprovaram a minha preparação e, como faziam com outros jovens da Paróquia, me confiaram ao Seminário Arquidiocesano de Fortaleza. Era 12 de fevereiro de 1958, tinha treze anos de idade. De Itapipoca a Fortaleza, sozinho e apreensivo, por cinco horas de sacolejante e poeirenta viagem de ônibus, não tirei das mãos a carta de apresentação que bem acomodada conduzia dentro do Livro do Seminarista que ainda hoje conservo entre os meus guardados, presente do primo Franciné Ferreira que seria ordenado padre nesse mesmo ano.

Minha Turma no Seminário de Sobral (1962 e 1963)

Minha passagem pelo Seminário de São José de Sobral, o inesquecível Seminário da Betânia, se dá do início de 1962 ao final de 1963. Entrei no 4º Ano Ginasial. Foram dois anos que marcaram a minha vida para sempre, tanto pelo que vi, quanto pelo que vivenciei.

Lembro-me bem de cada um dos colegas de classe. Passados 50 anos, ainda sou capaz de descrever rostos, falar sobre o caráter, discorrer sobre modos de vida em comunidade, comentar sobre o desempenho intelectual e cultural, esportivo e de vida religiosa de todos da minha turma. Creio que, da mesma maneira, também ainda se lembrem de mim, o Novato da Prainha, alcunha de vida curta que me conferiu o Padre Luizito, logo na chegada, em fevereiro de 1962, ao curso de acalorada discussão sobre tempos e conjugação do verbo anômalo latino volere, conhecimento que eu trazia dos estudos do latim no Seminário da Prainha, onde no 3º Ano Ginasial já se traduziam trechos de Cícero e, no 4º Ano, de Virgílio.

Não éramos santos nem demônios. Éramos jovens vibrantes, alegres, audaciosos, cheios de sonhos, convicções e angústias pessoais, empenhados nos estudos, convivendo com harmonia, preparando-nos para a vida e para o sacerdócio. Como quaisquer jovens, desentendíamo-nos e nos entendíamos à velocidade das confissões espirituais costumeiras.

Sempre afirmei que a melhor coisa que me ocorreu na vida foi ter ido estudar no Seminário de Sobral. Ali encontrei uma instituição reformulada, aberta, onde se respirava liberdade e os seminaristas conviviam sem grandes distanciamentos entre si mesmos e com seus dirigentes, professores ou orientadores. A Betânia, naquele momento, contava com uma pequena equipe de padres-professores que aos nossos olhos era qualificada, harmônica e bem comandada.

Vinha de um Seminário grande e bem mais fechado, onde a expressão “falar com o Reitor” carregava amplos significados. De plano, senti a diferença e, sem demora, procurei me integrar. Para ilustrar a abertura a que me refiro, resumo uma historinha que se passou comigo. Mal completara um mês de casa, passei por um perrengue danado. A seleção de futebol do Seminário, da qual eu já era um dos volantes, jogava contra um bom time da cidade de Massapê, capitaneado pelo ex-seminarista José Arlindo Soares, primo do Pe. João Batista Frota, e no meio da partida recebo um bilhetinho para comparecer ao Gabinete do Reitor. O chamado me desnorteou. Passei o restante do jogo preocupado e a me perguntar: – O que esse Reitor quer comigo? Nem bem cheguei aqui e já estou sendo chamado ao seu Gabinete. Que fiz eu? Será alguma repreensão? Irá me mandar para casa? Nossa seleção não perdeu a partida. Cheguei até a fazer gol, mas, naquele dia, meu desempenho em campo sofreu críticas. E, de tão atordoado com o tal bilhete, fui parar no Gabinete do Reitor ainda em trajes de jogo.

Até ali, eu ainda não havia entendido por completo que estava em um Seminário onde as relações interpessoais eram menos distantes e mais abertas. Padre Zé, como carinhosamente o chamávamos, soubera que eu tinha letra boa e queria apenas que eu fosse a todas as classes e escrevesse um aviso seu aos seminaristas. Pena que eu não lembre o texto que com letras ainda mais caprichadas, em meia tarde, grafei em todas as salas de aulas. O contato com o Reitor e a deferência simples que me concedeu transformaram-se em estalos que, a pouco e pouco, me levariam a superar medos tolos e a conquistar a segurança de que precisava como jovem em formação. E mais, foi porta para outras missões que não tardou em me delegar esse admirável pequeno-grande Mestre e que trariam sólidos reflexos a um amadurecimento que ainda buscava.

Modesto Siebra Coelho

 declamando o poema Perfil de Hospício, de Alberico Bruno, em evento público no Salão Nobre do Seminário de Sobral – Ceará (1963), em homenagem às famílias dos seminaristas.

Ao longo do tempo, afirmei sempre que a minha vida foi moldada na minha família e nos Seminários em que estudei. O caráter, disciplina, princípios, valores cívicos, morais e religiosos, a disposição para o trabalho e o prazer pelos estudos tiveram suas referências básicas tecidas nesses dois ambientes.

A formação que passei a receber no Seminário de Sobral, além de especial, veio à hora certa. Despertou-me! Abriu minha mente para as primeiras compreensões de mundo e sociedade, do papel da Igreja, de desenvolvimento e subdesenvolvimento, de lutas sociais, de responsabilidade individual e coletiva. Discutíamos o Concilio como gente grande.

Ali, no âmbito do estudo das escolas literárias e de leituras que, pessoalmente, priorizava, nasceriam os primeiros contatos do quintanista com as obras de Machado, Gorki, Eça, Fernando Pessoa, Euclides da Cunha, Graciliano, Mário e Oswald de Andrade, e com a poesia de Castro Alves, Bandeira, Drummond, Vinicius, Jorge de Lima, Geir Campos, Cecília Meireles, encontradas na nossa Biblioteca, ou que adquiria por iniciativa própria.

Os ares saídos da JEC por vezes, nos atiravam a leituras mais ousadas, e para não chamar a atenção encapavam-se os livros que circulavam entre membros do pequeno circuito dos jecistas. Recordo-me de Ody Mourão me passando para leitura, sobrecapado, o romance A Mãe, de Máximo Gorki, obra que, à época, despertava entusiasmo político e seduzia jovens leitores no mundo inteiro.

Serei eternamente reconhecido ao Pe. José Linhares, nosso Reitor, por alguns atos que tiveram influência positiva na minha formação: a escolha para integrar o núcleo da Juventude Estudantil Católica-JEC, ao lado de José Carlos Sabóia, Ody Mourão, François Torres, José Henrique Leal e Abner Melo; a minha indicação para concorrer por eleição direta ao cargo de Secretário Geral da OVS; a designação como Prefeito de Disciplina, com menos de um ano da minha chegada ao Seminário de Sobral; a minha escalação para atuar em peças teatrais (dramas) que eram encenadas para a comunidade interna, seus familiares e convidados.

Serei para sempre grato ao estimado Pe. Oswaldo Chaves por me incentivar à leitura e à escrita e a publicar o meu primeiro texto no Correio da Semana. Por certo período, anos depois me tornei colaborador assíduo desse histórico semanário da Diocese. Estes fatos e gestos aparentemente simples tiveram enorme significação para a autoestima de um tímido jovem em formação. Foi no Seminário de Sobral que tive a percepção de que começava a me descobrir, a me conscientizar, como dizíamos na linguagem do internato.

O tempo, o destino e os caminhos vão distanciando as pessoas, mas bem que eu gostaria de voltar no tempo e me ver no velho Casarão da Betânia, em dia normal de funcionamento. E como outrora, descontraído e à sombra de seus seculares oitizeiros, com direito a trilha sonora vinda da inconfundível Rádio Itamarati, comandada por Chico Sampaio e José Arimatéia Mourão, ficar a jogar conversa fora entre os velhos amigos do 4º Ano Ginasial (1962): Abdoral Pinho, Bruno Alves, Cristóvão Aragão, Flávio Machado, Erasmo Aguiar, Luciano Lobo, Flamarion Rodrigues, Wellington Meneses, Francisco Cunha, Fernando Frota, Jorge Linhares, Joviniano Lopes e Wellington Aguiar.

Fora da turma construí também amizades que se perenizaram: Pe. Albani Linhares, Pe. Luizito Dias, Pe. Sadoc Araújo, François Torres, Francisco José Rodrigues, Juarez Leitão, Aguiar Moura, Raimundo Vanderlan, Antônio Viana, Hairton de Carvalho, Vicente Abdias, José Inácio, dentre tantos outros.

Para mim, extraordinária e valorosa foi, ainda, a convivência, de 1994 a 2000, no próprio Casarão da Betânia que se tornara campus-sede da UVA, com vários outros ex-betanistas de períodos e turmas diferentes dos meus. Para ali voltei como Professor Visitante, com muita satisfação, depois de 30 anos, para, ao lado de proeminentes profissionais, participar da revolucionária gestão do Reitor, Professor José Teodoro Soares, ele, também, um ex-betanista de alto coturno e homem-político, atualmente. Naquele momento, ocupavam postos de relevância na administração superior da instituição, os professores José Vitorino, Leunam Gomes, José Cândido, João Edison Andrade, Benedito Aguiar e José Portela.

Todas as turmas reunidas, do 1º ao 6º Ano, compúnhamos uma comunidade de cerca de 160 seminaristas. Havia tempo para rezar, estudar e recrear. O recreio era uma festa só! A vida fluía levemente. Tempos inesquecíveis aqueles! Era assim que eu me sentia. Feliz por estar ali!

A decisão de deixar o Seminário (dezembro de 1965)

Nenhum de nós desconhece a máxima do Evangelho: “muitos são chamados e poucos os escolhidos” Ao término do Seminário Menor, após muita reflexão, concluí que não era um dos escolhidos e redirecionaria a minha vida. Ante as minhas sólidas convicções até ali, mudar de rumo seria uma decisão doída e de muito sofrimento interior. Foram meses de diálogo com o vigário da paróquia, com o orientador espiritual e com amigos mais experientes. Fizera uma preparação para ingressar, entendi que deveria fazer outra para deixar o Seminário. Não foi fácil, mas acertei em fazê-la.

            Da minha turma dos anos de 1962 e 1963, em Sobral, nenhum se ordenou padre. Mas, fruto da formação que receberam e dos alicerces que ali souberam construir, todos foram exitosos nos novos caminhos buscados e vêm desempenhando brilhantes trajetórias profissionais na Advocacia, Medicina, Engenharia, Agronomia, Geografia e outras.

Formação e Trajetória Profissional

Deixei o Seminário em 1965 e um mês depois ingressei na Universidade. A pressa foi estratégia para driblar sofrimentos. A orientação do Pe. Francisco Luz, meu professor de História na Prainha, Diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade Federal do Ceará, morador do Seminário, foi decisiva. Expus-lhe que buscava algo diferente. Não me interessavam os cursos tradicionais.  – “Ingresse, então, em interessante curso que a UFC acaba de implantar; você poderá atuar como professor, como geógrafo, ou nos dois campos, desde que faça a Licenciatura e o Bacharelado”, foram as suas palavras. Depois de várias conversas, optei pela Geografia como caminho profissional, obtendo a Licenciatura Plena em 1970 e o Bacharelado, em 1971. Estava habilitado para o exercício do magistério e de atividades técnicas como geógrafo. Logo ingressei no ensino superior para nunca mais largar. Iniciei na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Cajazeiras, da Diocese dessa cidade paraibana e, paralelamente, atuei no Ensino Público Estadual como professor de ensino médio. Por concurso público, em 1976, deu-se o meu ingresso como professor na Universidade Federal da Paraíba.

Professor, geógrafo, pesquisador, dirigente universitário é, de forma genérica, como organizo uma estruturação para a minha já longeva atuação e trajetória profissional. 

Vieram os de Aperfeiçoamento de Professores de Geografia pelo IBGE (1972); cursos de Especialização em nível de Mestrado em Planejamento Urbano e Metodologia de Projetos na Escola Nacional de Serviços Urbanos, Rio de Janeiro (1974/1975); Elaboração de Projetos e Metodologia de Pesquisas pela Fundação Getúlio Vargas (1977); Mestrado em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade de Paris III – Sorbonne Nouvelle (1989-1990).

Na Universidade Federal da Paraíba-UFPB, atuei como professor de diversas disciplinas da Geografia Física e Geografia Humana. Exerci os cargos de Pró-Reitor de Administração, Assessor de Planejamento, Diretor do Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Chefe do Departamento de Geociências, Prefeito Universitário e Diretor da Editora Universitária. Na Universidade Estadual Vale do Acaraú-UVA: Pró-Reitor de Administração, Diretor do Centro de Letras e Ciências Sociais, Diretor da Casa da Geografia, Coordenador do Núcleo de Desenvolvimento Local. Na Fundação de Ensino Superior de Cajazeiras-FESC: Chefe do Departamento de Ciências Exatas e Sociais. No Instituto Ensino Superior da Paraíba-IESP: Diretor Acadêmico e Diretor de Recursos Humanos. No Governo Municipal: Secretário de Administração e Planejamento da Prefeitura de Cajazeiras-Paraíba. No Governo Estadual: Assessor de Planejamento da Secretaria de Planejamento do Governo da Paraíba. No ensino privado: Diretor do Colégio Sobralense GEO.

Função atual: Diretor Administrativo da Universidade Aberta Vida, em João Pessoa-Paraíba.

Dentre outros, fui pesquisador e Coordenador Geral do Projeto Geografia e Ecologia da Paraíba – Convênio UFPB/CNPq-Brasil e CNRS/Universidade de Bordeaux, França (1980/1984) e do Projeto de Delimitação e Regionalização do Brasil Semiárido – Acordo CNPq/UFPB (1982/1984). 

(Discurso ao receber o título de Cidadão Paraibano – 2010)

Entre os principais trabalhos que publiquei, cito: A Nova Onda no Transporte Urbano – Mototáxi, livro, Sobral-Fortaleza, (1997); De Sobral ao Global – Um percurso pela questão urbana, livro, Sobral-Fortaleza, (2000); L’homme traditionnel dans l’environnement sertanejo, cap. de livro, Bordeaux-França (1980); Brésil: des capitales universitaires aux technopoles, cap. de livro, Paris (1994). Sobral Ceará (Brazil), cap. de livro, Fortaleza-Ceará (2005). Em 1990, defendi a dissertação de Mestrado intitulada: Le développement de la Sc. & T. dans le Nordeste Brésilien: le cas du pole technologique de Campina Grande, na Universidade Paris III, Sorbonne Nouvelle, Paris (1990).

Membro da Associação dos Geógrafos Brasileiros-AGB. Membro Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano-IHGP desde 2010.

Ao curso destes escritos, mencionei os agentes e atores religiosos importantes para a minha formação básica, com os Seminários como referência; ao seu final, menciono os agentes e atores universitários que, ao me convocarem para funções de relevância, agregaram valores incalculáveis à trajetória profissional que construí. Entre outros, cito os ex-Reitores: Gualberto de Andrade, Lynaldo Cavalcante, Milton Paiva, Berilo Borba, Jackson Carneiro, Antônio Sobrinho, Teodoro Soares e Antônio Colaço.

Diz-se comumente que toda profissão é sacerdócio. É certo que desisti do sacerdócio que almejava e dei outro rumo à vida, mas é igualmente verdadeiro que me sinto realizado com as escolhas que fiz e seguro para afirmar que transformei a atuação em Educação e a profissão de professor que abracei em novo sacerdócio ao qual me dedico até hoje.

Minha Família

Sou casado com Maria Wanderly Oliveira Siebra Coelho, Pedagoga e Historiadora. A cerimônia do nosso casamento, em 10 de abril de 1972, foi celebrada pelo Padre José Nilson de Oliveira Lima (in memoriam), então vigário da paróquia de Wanderly, meu professor na Prainha e um amigo de toda a vida. Nossos filhos: Andrea Oliveira Siebra Coelho Vinet, professora universitária no Canadá (Universidade de Ottawa) e Marcos Oliveira Siebra Coelho, médico, residente no Rio de Janeiro. Andrea é casada com Philippe Jean Lucien Vinet, engenheiro TI. Residem em Ottawa e nos deram os netinhos Julie Siebra Coelho Vinet e Olivier Siebra Coelho Vinet.

Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA, Sobral, 2015, escrito por MODESTO SIEBRA COELHO, em João Pessoa, agosto de 2014.

COMÉDIA OU TRAGÉDIA? Autoria de Aninha Martins

Em meio a tudo isso que estamos vivendo, mesmo tendo fé, esperança, confiança em Deus, ninguém pode negar que existe medo, tristeza, muitas dúvidas e incertezas, é fato. E precisamos de alguém que nos transmita conforto e leve a sério essa situação.

Agora, mais do que nunca, vejo que estamos entrando em um verdadeiro caos. Me custa acreditar que esse “louco”, infelizmente, não tem outro adjetivo para atribuir ao presidente do Brasil, nomeou uma outra criatura que parece ser igual ou pior que ele para ocupar o cargo de Ministro da Saúde.

Detesto politicagem, não tenho nenhum partido político e como sei que as pessoas costumam ter ‘político de estimação’, onde tudo que esse faz é louvável, assim como tudo que a oposição faz ‘é ilegal, é imoral’, não acredito muito no que me dizem em relação a algum.

Então, prefiro conferir, e vendo um vídeo com a fala do novo ministro (tomara que seja fake!). Tive a certeza: estamos assistindo o nosso país viver uma eterna peça teatral, oscilando entre a comédia e a tragédia…

Aninha Martins, de Ipu – Professora, Escritora e Poetisa

EU VI ANJOS

EU VI ANJOS! *  

Eu sabia dos anjos sobre os quais minha mãe me falava na minha infância. O Anjo da Guarda, por exemplo, que nos protege a mandado de Deus. Ele me era apresentado em estampas com enormes asas e as mãos gesticulando prontidão para proteger as crianças.  Depois soube de outros anjos como o que anunciou o nascimento de Jesus e os serafins que o profeta Isaias viu ao redor do Senhor assentado em alto e sublime trono (Is.6).

Hoje em dia, Anjo até virou moda. Anjinhos que servem de adornos, de lembranças, de presentes. Até secretárias, recepcionistas e telefonistas menos preparadas criaram o hábito de chamar cliente de “meu anjo”.

Mas eu quero mesmo é falar a respeito dos anjos que eu vi. Vim, sim! Só que esses anjos que eu vi e conheci de perto e com os quais até fale, são diferentes daquelas figuras bem pintadas e desenhadas. Não têm rosto de criancinha nem cabelos encaracolados, com cachinhos e topetes caídos na testa. Os anjos que conheci, com os quais fiquei encantado, extasiado e reverente até, não têm semblante tranquilo…. embora nos transmitam muita tranquilidade.

Esses anjos que eu conheci e aprendi a admirar, convicto de que são mensageiros de Deus, são diferentes dos seres humanos  – embora sofram como os seres humanos comuns.

Não são seres sobrenaturais, porém não agem com naturalidade. Suas vestes não são resplandecentes, porém, são, geralmente, brancas embora possam ser verdes, beges, azuis e, às vezes, até desbotadas e amarrotadas. Nunca estão impecáveis, pois suas atividades não que seus trajes estejam impecáveis. Impecáveis são suas mãos habilidosas, são suas atenções fixas nos gestos e nos sintomas de quem os rodeiam. Seus ouvidos estão atentos aos sinais dos alarmes dos muitos aparelhos que estão à sua volta que podem tocar intermitentemente. Sua atenção está voltada para uma lágrima vertida ou para a tentativa de um sorriso a se esboçar no rosto inerte de alguém.

Estes anjos choram em silêncio com o gemido de quem sofre ao seu lado, e dão pulos de alegria com o tênue sinal de melhora de alguém que já estava sem esperança.

Esses anjos existem. Sim, existem. São vocacionados por Deus. Mensageiros de Deus. São os braços de Deus; as próprias mãos de Deus; são o toque de Deus, trazendo alento aos que sofrem, afofando-lhes o leito da dor, conforme disse o salmista (Sl.41,3).

Ah, como é lindo o sorriso desses anjos. Como é resplandecente o semblante desses anjos. Como é bom ter a certeza de que esses anjos existem e estão por perto na hora da dor.

Sim. EU VI ANJOS. Eles não “aparecem”. Eles estão sempre lá nas UTIs, nos hospitais, nas clínicas e home cares.

Como é maravilhoso pronunciar os nomes desses anjos: ENFERMEIROS, TECNICOS E AUXILIARES DE ENFERMAGEM e DEMAIS PROFISSIONAIS DE SAÚDE.

Graças a Deus porque esses anjos existem! Existem sim. Eu os vi.

* Texto de ELIAS AZULAY – Prof. Aposentado da UFMA, Jornalista, Relações Públicas.

São Luís, Ma.12/04/2020.