Literatura Cearense: “Betanista, Graças a Deus” de José Célio Fonteles, na Betânia, de 1955 a 1960)

A casa da infância. Não é assim que os analistas pedem para descrever logo nas primeiras entrevistas, cônscios da riqueza de pistas explicativas destes edifícios para o caráter do analisando? Além do meu primeiro e virginal abrigo (não tão virginal assim, helàsl) lá na friorenta Ibiapaba, dos dez aos 22 anos, só tive casas conventuais para chamar de meu lar. Por obra e graça de outros ou, como querem os lacanianos, do Grande Outro.

Era infância, portanto, ainda a revolta adolescência, mais adiante. Direi apenas que era uma casa com sótão e porão. E a pletora de relembranças advindas destes dois recantos. O mais dependerá de minha timudês (assim mesmo com u). Tão tímida e muda que, já na primeira noite que lá passei, fiz xixi na cama, com cerimônia de perguntar onde era. Que sono (e sonhos), tumultuados os daquela noite inaugural, pontuados, volta e meia, pela urgência fisiológica. E pelos restos diurnos de que também se compõem os sonhos: A entrega da petição para ingressar no seminário. Em que arquivo dormirá hoje este papel solenemente selado na Cúria e despachado pelo Senhor Bispo durante o café posprandial? Literalmente numa corte de conde onde os próprios padres serviam o café? Tudo eram novidades para o menino velho matuto.

    Digamos que são cenas do porão das lembranças, local soturno onde eram deixadas malas e canastras e só revisitado a cada fim de semestre para retirá-las a caminho das férias. Neste recôndito cheguei a ambientar um conto intitulado A república dos meninos de preto, inédito, ainda bem. Recorri a efemérides do final da década de 50 e constatei de relevante a sagração de bispo de meu padrinho Dom Coutinho, a entrevista com D. Adelmo Machado Cavalcante, visitador dos seminários, que aboliu a camisola de dormir.  E o jubileu de Dom José, presentes o cardeal do Rio e o Núncio, aquele mesmo que recusou a avionetta do Pe. Palhano. Destoando das maravilhas sulferinas, deparei com a modesta batina de Dom Lustosa, cobrando a este primeiranista: “ Daqui a 60 anos espero convite para o teu jubileu”.

No meio do caminho de nossas idas e vindas (sempre em forma) tinha uma capela e seu mistério. O do Preciosíssimo Sangue. Como José em Nazaré, tínhamos o mistério acontecendo dentro de casa, só que, no meu caso, os limites não deixaram dele apropriar-me a contento. E em se tratando de uma Betânia, haveria também os mistérios de Marta, os agridoces mistérios do cotidiano de nossa rotina despojada. Onde andará dona Maria Minerva, a lavadeira; atendi algumas vezes no consultório a familiares do Felipe, o marceneiro, ofícios ambos muito bem cotados na Bíblia. Na supervisão das atividades de apoio, as irmãs Hermenhilde e Tarcisia e sua coorte de postulantes (inesquecíveis seus brötchen de leite no café da manhã).

Meu irmão Gonzaga que também na Betânia concluiu o sexto ano relembra comigo a solidão claustral ali vigente, sobretudo nos crepúsculos, aureolados a poente pelos alcantis da Serra da Meruoca e pelos da Pedra do Barriga, a nordeste. A caixa d’água (imponente reserva devida à operosidade do ecônomo, Pe. Arnóbio) era o refúgio para estes momentos de incerteza.

“O dia começa às cinco horas com o primeiro toque da sineta. Todos se levantam, arrumam suas camas e recitam, sob a regência de um prefeito, o Te Deum, um canto de louvor a Deus pela graça de ter alcançado aquele novo dia. Terminada essa oração, todos descem pela rouparia, em fila, batina por cima da camisola. Ali, tiram a batina, trocam a camisola pelo calção e a camiseta e fazem vinte minutos de exercício físico no pátio. Seguem, então, para o banho (as portas dos banheiros são serradas pela metade para que as pernas dos alunos possam ser vistas pelo disciplinário). Depois, retornam à rouparia, vestem calça e a camisa e, por cima, a batina. Penteados e calçados, entram na fila e se dirigem à capela para a missa. À missa, segue-se o café, antecedido de uma leitura. Nova fila, e todos se dirigem para as salas de aula. A manhã se completa com um recreio de meia hora, ás nove e meia; nova bateria de aulas, e o almoço às onze e meia. Na hora do almoço, acontecem os avisos e a leitura do martirológio romano, sobre a vida dos santos mártires.

A tarde tem menos aulas e mais calor (o calor de Sobral!).

Todos se dedicam ao estudo das matérias e à realização das tarefas escolares. Divide-se a tarde em duas partes intercaladas de um recreio de meia hora para a merenda. No primeiro momento, as aulas; no segundo, os chamados silêncios, as horas de recolhimento para estudo. São cumpridos nas salas de aula e rigorosamente fiscalizados pelos bedéis. Pelas cinco horas, há um tempo livre, aproveitado para a prática de esportes ou para leitura na biblioteca ou convescote.

 A noite começa com um terço na hora do Angelus. Segue-se o jantar. Um novo recreio longo. Novo silencio, nova oração na capela que termina com o canto a Nossa Senhora: Virgo Maria / Immaculata/ ora pro nobis/ora pro nobis. O canto é repetido três vezes. Novo retorno à rouparia para vestir a camisola, fila para o dormitório. Ali, um novo canto em latim, o Magnificat, uma das belas páginas da Bíblia, a comunicação de Maria à sua prima Isabel de que o Senhor a escolhera para ser a mãe de Jesus. Quando os seminaristas rezavam este poema queriam agradecer a Deus o privilégio de terem sido distinguidos pela vocação sacerdotal. E, ufa! Finalmente, o sono”. Achegas recolhidas do colega Juarez Leitão, na biografia de seu tio padre.

  Em situação vexatória, acho-me, pois, no canto da tela onde escrevo, já leio o aviso Trojan horse detected, alusivo talvez ao plágio retro.  Parecido com um doidinho que aparecia todo ano em setembros como este nas moagens do seminário ferial da Meruoca; nós o púnhamos para dançar no meio da roda, e ele pedia, num sorriso imbecil: – Peraí, deixa eu primeiro pegar o pulume (prumo, aplomb).

Acho ter merecido a reprimenda de um colega, quando dei a impressão de nossos quase 20 reencontros: -Somos todos masoquistas, por gostarmos de mexer com navalhas na própria carne. – . Em um deles, com sua modéstia peculiar, pediu-me meu ex-mestre de química um explicativo para a depressão. Repassei-lhe o vigente, a questão da depleção dos neurotransmissores.  Sua mente de asceta objeta: – Pode ser; mas o Getsêmani retrata-me outro modo de encará-la.

Em agosto de 66, efetuei meu desligamento, tomando ciência na ocasião da eleição para bispo de meu professor de química, padre Manuel Edmilson, uma referência para me tornar médico. A outra, o padre Zé Linhares, mestre de história natural. Inclinação para as letras? A primeira de que me lembro, o oficio de bibliotecário (conquistado no voto) da Cruzada Pio Literária São Tarcísio, à época sob a orientação do Padre Osvaldo, acho que li toda a sua coleção das edições salesianas, compostas em formato de bolso na gráfica do colégio Santa Rosa em Niterói. As missões dos filhos de Dom Bosco entre os índios bororos, em Mato Grosso. Quase palmilhei as mesmas trilhas do casal Claude e Dinah Levi-Strauss, em “Tristes trópicos”. Visões bem divergentes, a dos missionários e a da corrente filosófica do estruturalismo.

Na primeira investida heteroafetiva, descamuflei minhas reais intenções: – Epouse moi, mon enfant. E ela: – Será válido esperar? – Terminou o Concílio Vaticano II, “desfazendo ilusões, matando enganos”. Nenhuma flexibilização à vista na disciplina do celibato. Em 15 de agosto de 66, tamquam abortivus, comuniquei a Dom Valfrido meu ingresso no rol dos “chamados e não escolhidos”. Não resistira, apesar da sinceridade, à prova de fogo do “estágio probatório” e “cacei” entre os registros o tal papel admissional de meus pesadelos de novato. Debalde, e nova surpresa: um atestado in fide parochi sobre o seminarista que, em férias, manifestava-se “livre com seculares, maxime com senhorinhas”. Uma delas virou mãe dos meus 4 filhos.

Forçosamente homoafeições haveriam de medrar ali, ante este enfoque ginófobo, no salve-se quem puder das explosões hormonais, as rotuladas “amizades particulares”.

Ou como me advertiu um antigo porteiro: – Célio, você parece que anda meio relcalcado com o seminário. Isso aqui agora é uma falcudade, Célio.

Encerro estas desconexas lembranças com um novembro de inauguração do gabinete musical Bethoven. Oradores o pai do padre Manfredo, dr. Ribeiro Ramos e o Reitor Austregésilo, um desentoado confesso, empenhando-se ao máximo para este expressivo aporte cultural. Se eu tivesse cuidado melhor de minha educação musical, e, por extensão, artística e sentimental, teria dado conta talvez da opção voluntária pelo celibato e das outras dificuldades que antolhavam ao sacerdócio. O tímido mutismo do início desta crônica terminaria implicando os sermões a pregar. E a limitada disponibilidade para a escuta, tão indispensável no confessionário. Ambas, disposições internas de temperamento, não atreladas à fisiologia, como a que teve de superar o patrono Ludwig Bethoven no auge de sua criatividade musical. Dom misterioso, o da vocação: apenas 17%, dos que entram, saem pela porta estreita da ordenação. Sim, é verdade o batido chavão: A gente sai do seminário, mas o seminário não sai da gente.

José Célio Fonteles, de São Benedito-Ce. – Betanista, Médico e Jornalista. Este texto está no livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura

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