Literatura Cearense

NO SEMINÁRIO, FIZ GRANDES AMIZADES.

Sebastião TEOBERTO Mourão LANDIM, na Betânia de 1956 a 1960

Teoberto Mourão Landim

Nasceu em 2 de março de 1943. Filho de Francisco Furtado Landim e de Heleônidas Mourão Landim, costuma dizer que seus pais e os irmãos são cearenses, e ele, por um acidente de percurso, nasceu em PIO IX, no Piauí, mas se considera cearense, por aqui ter chegado com seis meses de idade e ao Ceará dever toda a sua formação.

Os dez primeiros anos viveu em Ararendá, no sopé da Serra da Ibiapaba, clã dos Mourões e núcleo dos familiares maternos. No início dos anos de 1950 a família se transfere para a cidade de Crateús, onde Teoberto Landim e os irmãos foram matriculados no Instituto Santa Inês, escola de Ensino Fundamental, dirigida pela legendária professora Francisca de Araújo Rosa, respeitada educadora nos tempos da palmatória. Ficou apenas dois anos em Crateús, sendo logo encaminhado por seu padrinho, Pe. Francisco Soares Leitão, vigário de Nova Russas, para o Seminário Diocesano São José, de Sobral, com bolsa de estudo doada pela Diocese de Niterói, do Rio de Janeiro.

No Seminário interessou-se pelos estudos clássicos. Cinco anos depois descobriu que não tinha vocação para o sacerdócio, e, contrariando a vontade dos pais, deixou a batina em 8 de dezembro de 1960. Como os estudos feitos no Seminário não eram equivalentes aos dos colégios leigos, matriculou-se no Colégio Estadual Lyceu do Ceará depois de exames de adaptação. Concluiu o Ensino Médio em 1963 e no ano seguinte fez os preparatórios, ingressando em 1965 no Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Licenciou-se em Letras Vernáculas e respectivas literaturas em 1968, período crítico da ditadura, que não permitiu a colação de grau coletiva, tendo esta sido feita na própria secretaria da Faculdade.  Desde 1965 Teoberto Landim exerce o magistério, lecionando em vários colégios de Fortaleza, entre os quais o Colégio Arminda de Araújo, onde começou, e nos Colégios, Santo Inácio, Santa Cecília, Júlia Jorge, Imaculada Conceição. Além de professor foi diretor dos colégios Demócrito Rocha e João Pontes, ambos da CNEC, e do Curso Equipe – pré-vestibular.

Ingressou no magistério superior como professor de Literatura Brasileira do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará em março de 1977, e, em abril de 1995, fez concurso para a classe de Professor Titular de Literatura Brasileira da mesma Universidade, onde permaneceu até 2013, aposentado pela compulsória.

Em 1980 Teoberto Landim foi cursar o mestrado em Letras na PUC/RJ, concluindo em junho de 1983, e logo em seguida ingressa no Curso de doutorado em Letras na mesma Instituição. Concluídos os créditos, ganhou bolsa do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) da Alemanha onde deu continuidade aos seus estudos na Universidade de Colônia, concluindo sua tese de doutorado e defendendo-a em 1989. A partir de então, suas relações com a Universidade de Colônia lhe valeram vários convites para retornar, ora como Professor Visitante, ministrando curso de literatura e cultura brasileira, ora como Professor Pesquisador, com a colaboração do Professor Doutor Helmut Feldmann, e, atualmente, com o Professor Doutor Claudius Armsbruster, diretor do Instituto de Estudos Luso-Brasileiro, daquela Universidade.

No setor administrativo da UFC, Teoberto Landim foi, por várias vezes, chefe do Departamento de Literatura e Coordenador do Curso de Mestrado em Letras, onde orientou muitas dissertações de mestrado. Foi também Diretor do Centro de Letras e Artes da UVA, em Sobral, por quatro anos.

Atualmente, aposentado, se dedica à pesquisa acadêmica, o que lhe tem rendido muitas publicações: Conversa fiada(contos) – 1983; Tocando em miúdos(ensaios) – 1984; Busca (romance) – 1985;  Literatura sem fronteiras(ensaios)  – 1990; Seca: a estação do inferno(ensaios) – 1992;  Colheita tropical(ensaios) – 2000; A próxima estação (romance)  – 2002; Escritos do cotidiano(ensaios) – 2003; Ideia, pra que te quero(ensaios) – 2004; Seca: a estação do inferno – 2a. ed.(ensaios) – 2005, além de artigos publicados em jornais e revistas especializados. Em 2009 publicou seu livro de poesia: As noites acumuladas dos meus dias, e em 2014 publicou seu segundo livro de poesia, Agreste Avena. Em 1990, Teoberto Landim foi eleito membro da Academia Cearense de Letras, titular da cadeira nº 37, cujo patrono é Tomás Lopes.

Em 2010 foi nomeado pelo Governador Cid Gomes Conselheiro do Conselho Estadual de Educação onde ocupa a função de Presidente da Câmara de Educação Básica.

UM DESTINO MAL TRAÇADO.

Era uma noite de dezembro de 1955. Meu pai chegou de viagem, vinha de Nova Russas, cidade vizinha, sem avisar. Trazia no semblante uma alegria bem diferente de outras oportunidades preocupantes. Ninguém na Estação para recebê-lo, apenas o capataz carregando sua maleta. Até mesmo minha mãe se surpreendeu com sua chegada fora de época. Eu e meus irmãos ficamos na expectativa do que deveria ter acontecido. Revimos nossas travessuras com medo de castigo…  Mas não, logo minha mãe serviu o jantar e sem muita delonga, ele me olhou firme e disse: você vai para o seminário de Sobral, no próximo ano. E completou: seu padrinho arranjou uma bolsa de estudo com a Diocese de Niterói, do Rio de Janeiro. Na próxima semana você vai comigo para Nova Russas. O Antônio seminarista vai preparar vocês para o exame de admissão, em fevereiro. Este vocês… éramos cinco candidatos, José Arteiro e Luiz Torres (o Mimoso), ambos de Ararendá; Cicero Matos e Erivaldo Pedrosa (de Nova Russas) e eu, um fora do lugar. Quando nos encontramos pela primeira vez nas aulas, vi em suas caras tudo, menos futuros padres. Fizemos os exames e todos ficamos no Preliminar, que correspondia ao quinto ano primário, na linguagem de hoje, o 5º ano do Ensino Fundamental. 

O ritual de vestimenta da batina foi muito emocionante. O canto entoado pelas vozes da Scola Cantorum, e a harmonia que despertava sentimentos celestiais saiam das mãos mágicas do João Bosco, ora das do Jairo Linhares, parecia que estávamos no céu. Depois foi que me toquei que, com pensamentos não tão angelicais, não poderia eu estar no céu… estávamos mesmo na Betânia. Mas os olhos fulminantes da menina Núbia, irmã do Antônio seminarista, me perturbaram por muito tempo, foi meu primeiro alumbramento e a certeza de que minha vida no seminário era por tempo determinado. Engraçado, nunca falamos de amor um para o outro, apenas nos olhávamos. Mas tudo passou tão rápido que passei a aceitar que a distância e o tempo são agentes destruidores de sentimentos como esses.

No velho e saudoso casarão da Betânia, vivi antagonismos: ora momentos hilariantes, ora momentos de muita seriedade. Um desses momentos engraçados vivi nas aulas de Geografia, o professor era o Pe. Marconi Montezuma que sempre chegava atrasado. Mas quando chegava à sala parecia que dava aula brincando. Um dia no primeiro ano ginasial, ele mandou que todos abríssemos o atlas geográfico… e começou a falar das capitais dos estados brasileiros; aprendíamos o nome e aprendíamos a localizar no mapa. Um certo momento, ele percebeu que o Mimoso (Luiz Torres) estava cochilando… o padre professor saiu do sério… jogou um pedaço de giz nele, se lastimou de ser professor, e, ajoelhado orou: Senhor, fazei desse desgraçado um professor. Talvez que com medo de ser padre e/ou professor, o Mimoso só ficou um ano no seminário.

              Certa vez alguém no seminário descobriu o gosto do padre professor de Francês  por histórias em quadrinhos, que aliás éramos proibidos de ler. O colega Antônio dos Santos, na época das provas, conseguia, não sei por que meios, essas tais revistas, e as distribuía pelas janelas da sala de aula. Depois que o professor passava a prova e que se deparava com as revistinhas, se esquecia do tempo e das aulas; e aí a pescaria corria solta. Olha, leitor, fique certo, tudo era sem maldade…

              Os melhores dias do seminário eram sempre a quarta-feira, sábado à tarde e domingo. Era dia de futebol. Afinal éramos jovens, praticamente era nossa melhor diversão. Vez por outra se organizava um campeonato. Num desses campeonatos me destaquei como goleiro, e meu time foi para decisão. O Wanderley era o dono do time, e me viu nervoso na véspera do jogo final. Seus familiares moravam em Sobral, julgo que por esse motivo foi fácil para ele conseguir uns comprimidos de tranquilizante. O resultado dessa história foi que acabei com minha carreira futebolística… fiquei sem ação nas traves e não via nem por onde a bola passava, tomei seis gols nesse dia.

              Foi no seminário que fiz grandes amizades. Muitas delas manifestadas quando já estávamos no mundo, aqui fora. Tinha admiração por muitos mestres. Na época, meu reitor era o Padre Austregésilo de Mesquita Filho, depois tornou-se bispo. Era uma figura admirável, apesar de me pegar no pé porque sempre fui péssimo aluno de matemática. Quando sai do seminário, uns seis meses depois, o encontrei no trem, eu ia para Crateús e ele para Nova Russas, ia ajudar nos festejos da padroeira. Ao cumprimentá-lo, ele me deu um abraço, e foi logo indagando: e a matemática? E eu respondi: o pouco que aprendi com o senhor foi o bastante para passar num concurso público federal (Correios). Ele foi responsável também por eu ter passado cinco anos no seminário; porque pelo gosto de meu bem mal diretor espiritual eu teria saído no mesmo ano. Ele, diretor espiritual, se escandalizava quando eu lhe dizia que não conseguia esquecer a menina Núbia, irmã do Antônio seminarista.

              Ainda ouço o ranger dos pneus da bicicleta do Pe. Osvaldo Chaves, nos longos corredores do casarão da Betânia, ele foi o melhor, o mais culto de todos. Com ele aprendi a ler e interpretar, aprendi a gramática, aprendi a ser o professor que fui até bem pouco tempo. Devo a ele meu interesse pelas letras. Seus ensinamentos foram importantes na minha vida acadêmica e profissional. Tornei-me professor de literatura, mas confesso, não cheguei aos seus pés.

              Estudei latim brincando de ler Pinóquio, com o Pe. Sadoc recém-chegado de Roma. Confesso que a metodologia falhou porque faltou interação com a gramática latina. Tanto que, no segundo ano, nos faltou conhecimento de todas as declinações. Falha superada com o Pe. Arnóbio, com sua paciência e bondade nos preparou para lermos Virgílio no primeiro semestre do quarto ano com o Pe. Edmilson Cruz. Não sei por que razão, no segundo semestre o Pe. Edmilson sai, e entra em sala para estudarmos Cícero e suas Catilinária um padre professor com um “burro” debaixo do braço. Para nós alunos, usar o “burro” era pecado mortal, mas para o professor que entrava era sua salvação. Por questão de ética deixo em segredo o nome dele.

              O seminário foi um espaço privilegiado para o meu desenvolvimento, uma usina de sentidos, sentidos de vida (ética), e de convivência (moral), e não passei por outra instituição social de que possa dizer o mesmo. Foi lá que aprendi que a transmissão dos valores culturais não se dá automaticamente, mas depende do modo de interação com o contexto. Desse modo, minha passagem pelo seminário foi profundamente marcada pela tarefa nem sempre fácil que é desenvolver em cada um, que lá está enclausurado, a sua autoestima, ensinar a se relacionar, a resolver seus conflitos particulares e o autocontrole de suas decisões e emoções.

              Entendi depois de muitos anos que o seminário como espaço que privilegiava a dimensão afetiva, contemplando a autoestima e o reconhecimento das potencialidades de cada um, colaborava para o desenvolvimento pleno de cada seminarista, quer ele seguisse a vida sacerdotal, quer fosse um cidadão comum.

              Portanto, a afetividade influencia positiva ou negativamente no processo de formação. Ela atua como fio condutor, nas palavras de Piaget como “elemento energético”, capaz de estimular o individuo a buscar o novo. Com fundamento na análise piagetiana sobre as relações entre afeto e cognição, compreendi que a afetividade não modifica as estruturas cognitivas, mas atua como fornecedora do sucesso ou do atraso. Afetividade é, assim, energia, impulso, motivação das condutas, é o que dirige o sujeito para um e não para outro objeto, é o que faz com que o sujeito escolha e valorize uma e não outra ação.

              Como disse antes, ingressei no seminário sem saber o que queria. Entendia o que meus pais queriam: um filho padre. Minha tenra idade não me permitia dizer o que eu queria, ou o que não queria… predominava a vontade dos pais. Minha aprendizagem no seminário me levou aos poucos a uma preparação para a saída honrosa, pois a conduta humana, qualquer que seja ela, possui dois elementos fundamentais: um estrutural (dado pela inteligência), que fornece os meios (cada vez mais complexos) que permitem solucionar os problemas que o mundo apresenta; e também o elemento energético (dado pela afetividade), que impulsiona o sujeito em direção a uma solução, a um objeto, valorizando mais, ou menos, suas ações, físicas e mentais, inserindo-as numa hierarquia valorativa.

              Foi nessa dimensão que me preparei para sair do seminário. Não sei se a conscientização emergia do todo ou da parte como ponto de partida, mas sei que o primeiro momento de minha conscientização foi o da dialética entre o vivido e o pensado no seminário e a ideologia nele contida, transmitida, sem crítica, sem tradição. Assim, no dia oito de dezembro de 1960, enquanto os colegas saíam em procissão no dia de Nossa Senhora, eu os acompanhava com lágrimas transbordando e inundando-me o rosto… eu já era um cidadão comum em busca de outros sonhos.

Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA, 2015 – Sobral – Ceará

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