LITERATURA CEARENSE: O SEMINÁRIO E SEU VOCABULÁRIO PRÓPRIO

FRANCISCO JOSÉ   AGUIAR MOURA, na Betânia de 1962 a 1967

Para quem frequentou o seminário com o verdadeiro ideal de ser padre, e entre esses privilegiados me coloco, a vida no internato antes de ser um peso, era uma satisfação. Tudo, então, era mais bem aproveitado – a disciplina, o estudo, a espiritualidade e, por que não dizer, o divertimento sadio como a prática de esportes, especialmente o futebol.

Já não alcancei D. José, quando seminarista, mas sua obra e sua especial predileção pelo Seminário e seus seminaristas ainda ecoavam nos corredores e sentia-se ainda no clima o calor de sua passagem. As suas visitas constantes ao Seminário, quase sempre acompanhadas dos famosos “feriados de sineta” (dois toques rápidos), só para se divertir com a algazarra resultante; as idas dos seminaristas em revezamento ao Palácio; tudo era objeto de comentários e agradáveis recordações.

Outra figura muito comentada, e que infelizmente também não alcancei, foi o já falecido bispo D. Austregésilo, grande reitor, homem famoso por sua personalidade marcante, irascível e rigoroso.

Enquanto se cantava o “Mitte, Domine”, pedindo-se mais operários para a messe, nós tínhamos o raro privilégio de ter à nossa disposição vários padres residentes, como professores, educadores e orientadores espirituais.

Havia uma diversidade de dons entre os seminaristas, com pessoas de todas as partes, com suas manias, aptidões e folclore. O especialista em salto de altura, o comedor de filhote de passarinho, o pessimista, os escritores, autodidatas, os grandes craques do futebol de salão e de campo, os grandes cantores. Diversidade de dons, mas um só ideal, o sacerdócio.

No apoio logístico especial destaque para a dedicação das irmãs franciscanas que faziam um grande trabalho, literalmente oculto, na cozinha e enfermaria, destacando-se a superiora, Madre Ermenhilde, verdadeira mãe, dedicada e diligente, um anjo alemão de olhos verdes, coadjuvada por várias moças postulantes à ordem, que chamávamos de puelletas.

A par de tudo isso, tinha o nosso querido Seminário um vocabulário próprio, fielmente transmitido de geração a geração. Vou tentar trazer a lume o que a memória ajudar, em ordem alfabética, como convém a um dicionário. Não sei se poderia, data venia, chamar essa linguagem de BETANÊS?

BINAR ou TRINAR – Para os padres significava celebrar a Santa Missa duas ou três vezes no mesmo dia. Para nós, seminaristas, repetir a merenda duas ou três vezes, voltando para o final da fila, conforme permitisse a quantidade.

CHOCAR – Fazer qualquer coisa no salão de estudos que não fosse estudar. Exemplos: jogar botão protegido pela tampa da carteira; arrumar e desarrumar sucessivas vezes a escrivaninha para matar o tempo; fazer escultura com gilete ou canivete na tampa da carteira.

CHUMBADO – Fenômeno que acontecia a miúde na volta das férias. O indivíduo chegava triste, cabisbaixo, capiongo, perambulando pelos cantos, sem aquela alegria habitual. Era a senha para não dizer APAIXONADO. Com pouco tempo o infeliz “deixava a batina”.

DEIXAR A BATINA – Sair do Seminário. Abandonar as fileiras sagradas.

FAZER BONECA – Nos tempos da batina, enrolar sua ponta, à moda de fazer uma boneca de pano, e colocá-la na cara do colega que falasse alguma besteira ou coisa pueril, como a compará-lo com uma criança, em idade de brincadeiras de boneca.

FAZER PÍULA Limpar as narinas com o dedo.

FUNDOS Jogadores ruins de bola, pernas-de-pau, nunca eram escolhidos para jogar a não ser para completar o número exigido na formação dos times e escolhidos para as posições mais ingratas, que ninguém queria ocupar, como goleiro. Mas tinha também o lado positivo. Foi assim que surgiu a vocação para goleiro do grande Liberato. Formavam, os fundos, a 4ª Divisão do futebol da Betânia, jogando somente entre si. A outra divisão era a dos BONS. Tanto os MAIORES quanto os MENORES tinham essas divisões.

FUSÃO – Houve época no Seminário em que era terminantemente proibido o contato da divisão dos seminaristas MAIORES com a dos MENORES, salvo em situações especiais por ocasião de festas. A essa união denominava-se fusão.

HÁBITO CORAL – Batina preta completa, sapatos e meias pretos, chapéu ou barrete.

PEBA – Antiquado, ultrapassado, reacionário, pertencente ao Antigo Testamento, que não aceitava nem participava das mudanças dos novos tempos. O principal representante dessa casta à nossa época era um seminarista de Itarema, discípulo e filho adotivo do Pe. Aristides, hoje dedicado professor em sua terra natal. O mesmo que TOMISTA no Seminário da Prainha.

PENCADOR – Essa raça encontra-se em qualquer lugar onde campeia o bicho homem.  É o nosso famoso bajulador. Era aquele seminarista que não perdia oportunidade de bajular o superior. Não podia ver um padre carregando uma pasta ou objeto mais pesado, que corria incontinenti para socorrê-lo. Os mais convictos e descarados às vezes quase arrancando das mãos o incômodo objeto.                                                                                                                                              

PITO – Carão, repreensão pública. Houve pitos homéricos que ficaram famosos e comentados por muitos anos.

PUELLETAS – Moças que ajudavam as irmãs nos serviços do refeitório. Como as orelhas das freiras, sabíamos da sua existência, mas não lhes víamos o rosto.

QUEIMADOR DE PNEU – Dizia-se do indivíduo com constantes problemas de gases, tendo um seminarista de Mocambo como expressão máxima.

SABUGUEIRO – Delator, que “entregava” os colegas aos prefeitos e superiores, muitas vezes por escrúpulo e até bem-intencionado.

SERRAR – Limpar com o indicador em movimento de vai-vem os entre-dedos dos pés, depois de um dia inteiro de sapato e meia preta no calor de Sobral.

Havia ainda outros termos como AMIZADE PARTICULAR, PEGAR MASSA, FORÇAS ARMADAS, etc.

Muitas saudades e recordações nos deixou o Seminário de São José, do bairro da Betânia, em Sobral, e tudo que somos hoje devemos em grande parte ao tempo que lá passamos, principalmente no que concerne a disciplina, cultura e vida religiosa. Felizmente podemos matar um pouco das saudades nos encontros periódicos dos Betanistas. Neles nos reencontramos e relembramos, sempre com muito carinho e sentida saudade, aqueles tempos vividos. A participação tem sido satisfatória, uma vez que, de 230 cadastrados, comparecem em média 50. Já foram realizados dezoito encontros, sendo o primeiro em 30/05/1987, por ocasião do lançamento do Livro EXÍGUAS do Pe. Osvaldo Carneiro Chaves, e outros ainda virão, com certeza.

“Vindo à tona novamente, nesse salgado rio da vida”, feliz expressão do Betanista, poeta e escritor Juarez Leitão em seu poema FAROL DE ALEXANDRIA dedicado ao mestre maior Pe. Osvaldo Carneiro Chaves, formei-me em engenharia civil pelo Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Ceará, em 1973.

Ainda como estagiário comecei a trabalhar numa grande empresa de engenharia do estado, Construtora Omar O’Grady, de construção pesada, hoje já extinta, onde passei dez anos.  Em 1984 iniciei, juntamente com um engenheiro da mesma empresa, a aventura do empreendedorismo, adquirindo o controle acionário da Construtora Beta S/A, empresa fundada em 1952, também de construção pesada, onde permaneço até hoje.

Constituí família com a sobralense Ângela Maria Paula Pessoa Moura (in memoriam), com quem tive duas filhas, Ana Kássia e Ana Karla, três netas, Luana, Marina e Ângela. Com o falecimento da minha esposa em 18/07/2012, depois de 35 anos de casamento, sinto o chamado de Deus para retomar a antiga vocação e me dedicar à Igreja Católica Apostólica Romana. Estou cursando a Escola Diaconal da Arquidiocese de Fortaleza, formadora de diáconos permanentes.

Há dois anos viúvo, continuo em período de discernimento, contando com a força da graça de Deus e as orações e a torcida dos Betanistas para realizar a minha vocação. “Há eunucos que se fizeram eunucos por amor do reino dos céus. ” (Mateus 19,12).

Benedicamus Domino. Deo gratias.


Turma do 4º Ano Ginasial:                                                                                                                                                              EM CIMA: Orion Paiva, Murílio Vasconcelos, Flávio Ribeiro, Adail Fontenele, Izac Silveira.                                                                                EM BAIXO: Lira Coutinho,Edvaldo Mourão,Zé Maria Cisne, AGUIAR MOURA, Assis Matos.
 

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