CRATEÚS: O MERCADO MANOEL CARDOSO Texto de Flávio Machado e Silva

Volto a me referir a um patrimônio histórico de Crateús. Cedo da minha vida conheci o Mercado Manoel Cardoso, que em homenagem ao seu construtor teve esta titulação. Foi construído na gestão do intendente Jacó de Melo Falcão e inaugurado em 05 de agosto de 1904, num terreno aforado por Alexandre Ferreira do Bonfim, que na penúltima década do século XIX, era procurador da câmara municipal. A inauguração ocorreu antes de Crateús ser elevada à categoria de cidade.

 Popularmente, ficou conhecido por mercado velho, após a construção do Mercado João Afonso na década de 1960. Até aquela data o Mercado Manoel Cardoso, era o maior centro comercial de Crateús. Para lá, diariamente, a população se dirigia a fim de comprar todos os produtos necessários para consumo das nossas famílias. O construtor Manoel Cardoso era o pai do senhor Gentil Cardoso, este, um dos homens mais patrimoniados da história de Crateús. Era um cidadão grande na estatura e na riqueza. Foi um proprietário urbano e agropecuarista de Crateús. Em letras bem visíveis as iniciais MC, em alto relevo, ornamentavam a parte superior de cada portão de entrada, como lembrança do construtor Manoel Cardoso.

Aquele centro comercial é uma das maiores lembranças de muitos crateuenses. Tinha 35 anos quando sofreu uma grande reforma na gestão do prefeito Antonio de Melo Rosa. Na década de 1950, eu morava no antigo Bairro da Ilha e muitas vezes acompanhei meu pai Izauro Machado Portela ao mercado, para fazer as compras diárias. Em tempos passados as famílias tinham as compras como uma das primeiras obrigações do dia. O mercado abrigava dezenas de comerciantes vendendo os mais diversos produtos. Depois das compras meu pai seguia para o seu ofício de comerciante e eu voltava para casa com os mantimentos, dentro de uma cesta. Era um tempo que só algumas famílias ricas dispunham de geladeiras a gás. Portanto, aqueles produtos perecíveis que não tinham como ser conservados eram comprados diariamente por famílias mais simples.

Além de ser um centro comercial, o mercado era também um importante local de comunicação. Cedinho de cada dia ocorriam as primeiras conversas e troca de informações entre as pessoas que moravam na cidade e algumas que chegavam do interior trazendo notícias de chuvas, rios cheios, plantações e muito mais, pois naquele tempo não existia rádio e nenhum outro tipo de comunicação, além das amplificadoras.

Aquele espaço abrigou centenas de comerciantes que ao longo dos anos, por determinação do tempo e do ciclo natural da vida, se sucederam nos diversos pontos que compõem aquele centro comercial.

Na década de 1950 bem no centro da parte interna, existiam muitos boxes, que abrigavam o mercado da carne. Ali atuavam Agileu Nunes, Chico Rodrigues, Chico Piauí, João Laureano, João Eva, Zé de Paula, Leal Sampaio, Cícero Zacarias, Jaime Bibino, Nicarion Sampaio, Venceslau Pereira, Benedito Boca Preta, Cicero Mereré, Cícero Catrevagem, Menor, Gerardo Banda Vermelha, Euclides Sampaio, entre outros cujos nomes fugiram da minha memória. O gado era abatido à tarde, no curral do açougue, que ficava perto do Alto, nome do cabaré da cidade. As bandas de boi eram transportadas em lombos de animais ou em carroças. Os porcos e carneiros eram abatidos em lugares diversos e levados por quem os abatiam. Próximo dali o local era ocupado por diversas bancas onde se vendiam frutas e outros produtos vindos da Serra Grande. Havia um local destinado aos feirantes e aos vendedores de louças de barro (potes, quartinhas, alguidares, tachas, panelas, fogareiros, cofrinhos e outras louças artesanais) produzidas pelas louceiras das cajás, Paulo Temóteo e dona Joana, Nicolau e dona Candinha, dona Maria Dilena e suas filhas Toinha e Cícera, Maria Vieira e Gonçala Cirilo, além de outras, que nos sábados iam vender seus produtos na feira semanal.

Havia um local próprio para as cafezeiras que também eram cozinheiras e preparavam comidas para vender. Ainda me lembro da Izabel Venâncio que era bem gorda, da Candinha, Zefinha, Regina, Adélia, Maria Lica, Maria Tão e Felismina.

Seu Manoel Odorico, vizinho da minha família, morador do Bairro da Ilha, homem negro, bem alto, cedinho abria o mercado. Existia um trilho de ferro dependurado no interior daquele centro comercial e quatro vezes durante o dia era acionado, indicando as horas. Com uma barra de ferro, o encarregado batia no trilho para anunciar a hora de abertura, hora do almoço, etc. O vulgo popular chamava de cachorra, aqueles equipamentos; Cada batida representava um latido da cachorra. Este ofício foi desenvolvido também pelo seu Sinésio.

A parte interna do mercado era circundada por lojas, mercearias e bodegas que compunha a parte externa. Minha recordação tem início na Casa Beija Flor de João Melo Cavalcante, o homem de maior tino comercial daquele tempo. Sua loja era a mais completa, portanto, local que dispunha de tudo para se comprar. Estendia-se até a loja de Otacilio Soares, onde ficava o portão do lado norte, cuja entrada abrigava o seu Préto que vendia raízes medicinais. Logo depois estavam as lojas de Zé Melo, de Mamede Melo, Zeca Mano e na esquina o comércio de Chico Leitão, que vendia selas, cangalhas, gibões, chapéus de couro, peias, marra de chocalho e outros utensílios feitos de sola.

Em seguida, dando para a Rua Dr. Moreira da Rocha estava a barbearia do seu Amarante, que abrigava também a alfaiataria de Osterno Santiago, este assassinado em 1950 no seu local de trabalho. Vizinho, as bodegas de Raimundo Melo, Antonio Mota, as lojas de Rodrigo Costa, depois a de Mimoso Mota e a loja de tecidos de Enoque Eugênio Cavalcante que em certa madrugada sofreu um incêndio. Em seguida, na atual Rua Barão do Rio Branco, ficava o comércio de Antonio Ricardo, Gonçalo Melo Cavalcante, loja de Tobias Resende, depois a do seu Severino. Na esquina, Rua Dom Pedro II, ficava A SERTANEJA, loja de tecidos que pertencia ao seu Antonio Soares de Oliveira. Logo depois as bodegas de Antonio Bezerra Resende, comércio de Zé Novinho e Manoel Ferrim. Depois do portão, as lojas de Cirilo Soares, João Mota e Juvenal Melo Cavalcante. Todos estes comerciantes, sucederam outros e no decorrer dos tempos foram sucedidos, um a um e hoje estão memorizados e permanecem na história daquele grande centro comercial de Crateús.

No final da década de 1990, cada ponto comercial do velho mercado, que pertencia à prefeitura, foi doado aos seus permissionários, na gestão do prefeito Paulo Nazareno Soares Rosa. A partir daí começaram muitas reformas e sucessivas modificações que vêm alterando as características iniciais e estrutura física daquele centro comercial. Uma Associação, através de sua diretoria, administra o mercado que atualmente é conhecido por outra denominação.

Agora a lembrança e a saudade se apoderam de nós e esbarram na dificuldade de desvendar os segredos da vida e os mistérios da morte. Sentimos grande nostalgia ao mergulharmos no tempo e nas recordações de tanta gente que contribuiu para o progresso e história desta terra, sempre responsáveis e focados no futuro das suas famílias.

FLÁVIO MACHADO

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