NÃO PODEMOS RESPIRAR…- Floyd explica! Texto de Crispiniano Neto (*)

O assassinato do negro George Floyd, nos Estados Unidos por um policial branco, com a punição leve, só acontecendo depois de quatro dias de protestos violentos, explica muita coisa, de lá e de cá.

São dois modelos diferentes de racismo. Lá é explícito, aqui é dissimulado, falsificado, com uma grande mentira chamada “Democracia Racial”, que vende, nos livros de História, a falsa ideia de que houve uma miscigenação pacífica no Brasil que superou as divergências e as sequelas e cicatrizes de 300 anos de escravidão, cujas bases continuam vivas, mesmo 132 anos depois da Lei Áurea, onde a Princesa Isabel declarou extinta a escravidão, mas nos seus dois artigos, nem a palavra “negro” constava.

Joaquim Nabuco, abolicionista pernambucano, de quem fiz uma biografia em Literatura de Cordel, disse que uma frase célebre: “Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão”. E a obra da escravidão não foi destruída, permanece entre nós, em forma de Racismo, Preconceito, Discriminação, Exclusão Social. Enfim, tudo de ruim que continua infelicitando a vida brasileira.

Ninguém se engane. Lula perdeu muito junto à classe média, quando estabeleceu a política de cotas nas universidades, coisa há muito praticada nos Estados Unidos para reparar a dívida histórica com aqueles que atravessaram o oceano presos em argolas e aqui foram vendidos como gado, separados pais de filhos, maridos de esposas, irmãos de irmãs, tudo isto depois de destruírem suas tribos nas selvas e cidadelas africanas onde se faziam verdadeiras matanças de guerreiros e, dos que sobravam, traziam os homens fortes para o trabalho e as mulheres boas de cria e de leite, passando velhos, doentes, defeituosos e crianças, roubando “a mercadoria de qualidade” e descartando “o resto”.

Hoje no Brasil temos mais de 70% dos analfabetos, negros e pardos; nessa faixa também são os Sem Teto e os Sem Terra; Pretos e pardos são também mais de 70% dos assassinos e dos assassinados na guerra, não declarada, das ruas brasileiras; mais de 70% dos desempregados também são pretos e pardos. Nas filas do SUS e nos corredores dos hospitais padecem três negros ou pardos para cada branco.

Todos os dias vemos um policial humilhando um negro, ou até um branco ou branca humilhando um policial quando é o negro que está de farda. Do ano passado para cá, só no Rio de Janeiro, assassinaram mais de vinte crianças e adolescentes. Quase todos eram pretos. Quando muito eram os pardos, filhos e de pretos e pretas.

No Brasil, pequenas notas de repúdio pela morte de João Pedro, de 14 anos, assassinado pela Polícia Civil em casa no último dia 18. O episódio foi comparado com a morte de Floyd, ocorrida na última terça-feira, que despertou fortes mobilizações nos EUA.

Na última quinta-feira, dia em que as manifestações explodiram nos Estados Unidos e se espraiaram pela Europa, Bolsonaro brindou com um copo de leite junto de aliados durante live presidencial. O episódio foi considerado por especialistas como um aceno à supremacistas brancos. O copo de leite é um símbolo adotado por grupos extremistas. Logo após a live do presidente, o blogueiro Allan dos Santos repetiu o gesto e disse “entendedores entenderão”.

O resumo da ópera é que o Brasil está sendo governado por nazifascistas. O racismo nunca foi tão explícito. Nem a velha “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, serve mais à direita ensandecida que (des)governa nosso País…

O assassinato de Floyd, nos Estados Unidos e, principalmente, a impunidade com o policial assassino que é alvo de 18 inquéritos, dos quais saiu ileso de 16, é um assunto brasileiro, na medida em que se sabe que aqui a impunidade é muito maior.

No nosso Rio Grande do Norte, na década que vai de 2008 a 2018 assassinaram oito mil jovens. Deles, 80%, ou seja, 6.400 eram pretos e pardos… E pobres.

Floyd explica a nossa tragédia social.

(*) Crispiniano Neto é poeta, Diretor da Fundação José Augusto – FJA, no Rio Grande do Norte. É integrante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, na cadeira de número 26, que tem como patrono, Luis da Câmara Cascudo, da Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel e da Academia Mossoroense de Letras; membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.

Como poeta tem mais de 170 folhetos de Literatura de Cordel publicados, com mais de três milhões exemplares espalhados pelo Brasil e outros países. Publicou 22 livros publicados, com mais de 200 mil exemplares vendidos.

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