LITERATURA CEARENSE: SEMINÁRIO DE SOBRAL: AS BASES NECESSÁRIAS PARA A VIDA, por Francisco Ramiro Pereira

Início de 1964. Com treze anos completos chego ao Seminário São José de Sobral, vindo de uma pequena e seca fazenda de Santana do Acaraú onde era vigário o Pe. Joviniano Loiola Sampaio. Foi ele que providenciou para mim uma vaga lá a pedido de meus pais e tias. Ia cursar a quarta série do ginasial.

A experiência de Seminário não era nova para mim, pois já havia estado por três anos na Escola Apostólica Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Floresta (Álvaro Weyne), em Fortaleza que era na realidade um seminário da Congregação do Sagrado Coração de Jesus – SCJ, originária da Holanda. Deste seminário fui convidado a sair pelo reitor sob a alegação de que eu era muito novo e que se quisesse poderia voltar mais tarde. Meus pais resolveram insistir. Naquela época eu não tinha muita noção da minha questão vocacional, mas já tinha colocado uns olhares bem gordos numa menina também santanense, Neila, que viria a ser minha esposa dez anos depois.

Logo de início estranhei bastante a quantidade de livros não religiosos da Biblioteca, pois do outro seminário de onde eu vinha só havia leitura de livros católicos. E mais impressionado fiquei na insistência de nosso professor de português, Pe. Osvaldo que sempre nos estimulava a leitura: “Leiam Machado!”. A partir daí passei a me acostumar com os livros.

Deste ano lembro ainda dos professores: Pe. Lira (História); Pe. Manfredo (Religião); Pe. Moésia-”Monsieur”; Temístocles (Matemática). Já não lembro dos professores das demais matérias.

Este ano foi muito rico para mim em todos os aspectos, principalmente por sermos tratados já quase como adultos, quase decidindo sobre nosso comportamento, diferentemente de dos anos anteriores no outro seminário.

Das lembranças mais marcantes que ficaram deste ano cito algumas agora: Sexta-Feira Santa. Nós seminaristas saímos de batina preta sob o sol escaldante para as cerimônias das 15 horas na Catedral. Eu com sapatos de borracha preta já um pouco rasgados e meia de nylon mal lavada e já com alguns dias de uso. Durante o percurso foram acumulando nos sapatos suor e terra. Ao chegar na nossa posição na igreja resolvi tirar o sapato para aliviar o incômodo. O resultado foi catastrófico, mau cheiro e reclamações imediatas…

– Início de abril passeando pala livraria “Feira do Livro” li num jornal sobre a “gloriosa”, foi nessa ocasião que tomei ciência que existia um governo no país, pois até aquele dia não tinha a real noção disto.

– Recreio após o almoço. O indefectível serviço de som à época comandado por Miguel Milério Lira (Massapê). Boleros e tangos de toda ordem. Ele próprio se cognominava Miguel Aceves Mejia.

– Domingos à tarde. Horário de visitas. Divertimento meu e de outros colegas. Olhar as mocinhas parentes dos seminaristas que vinham visitá-los.

– Lembro dos comentários sobre bispos taxados de “comunistas”, o que era muito estranho para mim que já havia visto muitos filmes de propaganda dos USA.

Dos colegas ainda lembro de alguns: Regis (Sobral); Vanderlan (Reriutaba); Macário (Ipueiras); Juarez (Novo Oriente), deste eu tinha certa inveja por ele ter um tio padre; Israel (Crateús); Lucivan (Ubajara); os Aguiar Moura (Sobral); Edmilson (Sobral); Matos (Itarema); Haroldo (Santana).

Vai chegando o final do ano e nosso reitor à época Pe. Zé Linhares foi subitamente convidado a fazer um curso na Alemanha. Acho que por incompatibilidade com o povo da “gloriosa”. Antes, porém de transmitir o cargo para o novo reitor, Pe. Sadoc, ele chamou todos os seminaristas para uma conversa pessoal. A mim ele disse: “Ramiro, você não tem vocação para ser Padre, se eu fosse continuar aqui você não iria para a Prainha. Mas vou deixar isso a cargo do Sadoc”. Fui. Passei o ano de 1965 no Seminário da Prainha. Ao final do ano fui convidado pela terceira vez a sair por falta de vocação. Não por meu critério mas pelo dos padres de lá. Chorei como uma criança.

E agora? O que fazer? Voltar para a enxada? Meus pais não tinham condições de me colocar em outro colégio. Novamente a intervenção do Pe. Joviniano me colocou de novo na Betânia. Agora não mais como seminarista. Morava lá num quarto, tomava as refeições após os seminaristas, estudava no Colégio Estadual Professor Arruda e fazia alguns trabalhos esporádicos para o seminário e para o “Correio da Semana”. Mas a irresponsabilidade do agora rapazote foi tal que fui reprovado, perdi a vaga no Colégio e a “boquinha” no seminário.

Novamente a ameaça da enxada. Mas fui acolhido por um tio em Caucaia. Este me pôs no prumo. Trabalhei na lanchonete dele por um ano e meio e a partir daí trilhei caminhos mais retos.

Comecei a trabalhar aos dezessete anos no Serviço Telefônico de Fortaleza (depois Teleceará) como datilógrafo e logo em seguida como Programador e Analista de Sistemas.

Entrei na Faculdade de Ciências Econômicas da UFC em 1969, mas só fui terminar o curso em 1978 já em Brasília. Em 1974 casei e logo em seguida fui morar em Brasília. Aqui trabalhei na Telebrasília (OI), Telebrás e Ministério das Comunicações como Analista de Sistemas.

Desde 1998, aos 48 anos estou aposentado, após 30 anos de serviço, antecipado por ter sido vitimado de doença coronariana. Mas estou me sentindo muito bem agora aos 64 anos. Bem vividos.

A família aos poucos foi crescendo. Hoje tenho duas filhas e um filho, todos casados, trabalhando e bem na vida. Tenho também oito netinhos, alegrias de meu início de velhice.

Detalhando mais sobre minha família:

Sou casado desde 1974 com Maria Neila Araújo Pereira, de Santana do Acaraú, formada em Engenharia Civil e em Fisioterapia, aposentada como funcionária do Banco Central do Brasil;

Nossa primeira filha é Andréa Araújo Pereira, brasiliense, bacharela em Relações Internacionais, Gestora Pública do Ministério do Planejamento, casou-se com João Aurélio Mendes Braga de Sousa, baiano, Engenheiro Civil e Bacharel em Direito, Gestor Público no Ministério da Justiça. Têm três filhos, Pedro Luís Pereira Braga de Sousa, Davi Pereira Braga de Sousa e Manuela Pereira Braga de Sousa. Nossa segunda filha é Denise Maria Araújo Pereira, brasiliense, bacharela em Direito, trabalha no Superior Tribunal de Justiça, casou-se com Thiago Cezar Gomes Melo, mato-grossense, bacharel em Ciência da Computação, artesão. Têm três filhos, Matheus Pereira Melo, Tomás Pereira Melo e José Pereira Melo. Nosso caçula é Lucas Araújo Pereira, brasiliense, bacharel em Ciência da Computação, Major do Corpo de Bombeiro do DF, casou-se com Fernanda de Souza Nogueira, brasiliense, bacharela em Turismo e técnica em Hematologia e trabalha no Hospital das Forças Armadas. Têm duas filhas, Isabela de Souza Pereira e Marina de Souza Pereira.

Para concluir quero registrar que os cinco anos de seminário foram de suma importância, tanto nos aspectos de formação física e de caráter quanto de formação escolar e religiosa, propiciando as bases necessárias para a vida.

FRANCISCO RAMIRO PEREIRA, Betanista de Santana do Acaraú. No Seminário de Sobral, de 1964 a 1967

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *