O SEMINÁRIO DE SOBRAL

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Reminiscências:

JONAS MARINHO ARAÚJO

Quatro horas da manhã. Acorda, filho está na hora. Um frio de rachar. Naquela época o clima era muito diferente dos dias de hoje. A cidadezinha passava de 8 dias sem ver a luz do sol. Era delicioso. Névoa tensa todos os dias até em pleno verão.

A missa era às 5 horas e, principalmente, as senhoras, Filhas de Maria, de véu e mangas longas, curtindo o frio, iam assistir ao sagrado mistério. As bodegas algumas já abertas para aqueles que suavizavam o frio com uma boa pinga chamada de Oião, de fabricação local.

O rapaz, escolhido por meu pai, já estava no ponto com dois cavalos selados. Estava esperando por mim. Era o dia de minha ida. Tinha que partir. Mamãe já havia preparado a galinha torrada com uma farofa com manteiga da terra. Era o nosso almoço, A viagem era longa, enfadonha, necessário se fazia uma galinha bem-feita e temperada. Ia abandonar toda aquela boa vida. O momento havia chegado.

Muito tempo depois fui entender que tudo é volátil, se some se esvai, mas o cosmos conspira e deixou a lembrança ainda bem acesa. É o consolo, é o lenitivo da dor e da saudade. Tinha que fazer 70 quilômetros nos lombos do velho cavalo para alcançar a cidade próxima por onde passava o trem de ferro. No meio dia pedíamos abrigo numa casa da beira da estrada. Povo hospitaleiro mandava nos abancar e, sentados, curtíamos a refeição feita pelas mãos de minha mãe que ficava saudosa com lágrimas nos olhos com saudade do filho que partiu para o Seminário de Sobral para ser padre.

Para ser padre todo sacrifício era válido. Estas lembranças bateram fortes e, 60 anos depois, voltei para rever não só o local, mas também para saber que emoções me viriam.  O mesmo prédio, a mesma casa. Fiquei parado em frente ao local que me abrigou por 4 anos. Um quarteirão de uma construção sólida de muitos anos e de muitas estórias. Por lá passaram gerações de seminaristas que se tornarem padres e bispos espalhados por Brasil afora levando paz e a palavra do Senhor. Tempos de muita fé, dos dogmas, das certezas e do domínio de espírito sobre a matéria.

Curioso, passo pelo largo portão e começo a comtemplar. O mesmo piso, a sala do refeitório, os corredores espaçosos de largas janelas espargindo luz por toda a casa. As salas de aula e o local da capela onde frequentei por muitas horas. O professor de português era um esquisitão que morava solitário atrás do Seminário. Tinha fama do maior conhecedor da língua portuguesa. Professor Mariano. Guardei o nome não sei por quê. Pensei, acho que era aqui a sua sala.

Seminário Menor de São José, de Sobral – Ceará

O grande prédio tinha dois lados ligados por um enorme corredor. Por ali passei muitas vezes para me confessar com um velho padre jesuíta que ficava em sua cela esperando a confissão dos seminaristas. A sua missão era está. Quase todos os dias tinha pecado para confessar e me arrepender. Pecado mortal. Arrependia-me e até chorava às vezes, para melhor ser compreendido por Deus e assim merecer o perdão. O velho confessor já me conhecia e até o senhor Bispo tomou conhecimento deste seminarista tão pecador. Não era pecador era escrupuloso, via pecado em tudo. Chegou ao ponto do próprio senhor Bispo chegar para mim e dizer eu fico responsável por todos os seus pecados. Nem isto me deu jeito.

Hoje, entendo como é difícil para uma consciência fanatizada, ou dominada por um sentimento, se libertar numa autocensura ou num autoconhecimento. Quase não me sai. Boa vontade nunca faltou em mim e procurei tudo que existia de cursos, de psicólogos, de conselho de amigos e também do auxílio de todas outras religiões. Fiquei ateu por um tempo. Vivi uma ditadura o mais difícil dos tempos.   Estava parado, estático, fora do tempo e do espaço num momento mágico e num tempo longínquo do que vivia.

Em certo momento fiquei sentado no salão principal daquele casarão, era o salão do recreio dos seminaristas depois das aulas. O bispo, pessoa sagrada e o representante direto de Deus na terra, estava também ali numa atitude de simplicidade e humildade. Dom José fazia destas coisas. Era a pessoa mais importante de Sobral, o primeiro Bispo venerado por todos não só porque era de família nobre, mas realmente um grande empreendedor, fazia tudo por sua cidade natal. Sobral era D. José, era uma personagem. Quando se zangava, se fechava no Palácio, não queria falar com ninguém. Lembro-me de certa vez quando expulsou um seminarista por uma besteira qualquer que nem me lembro mais e foi uma luta para se dignar a perdoar depois de muitos pedidos de clemência de padres seus amigos.

São lembranças que não sei por que ficaram gravadas na cabeça de um adolescente que não podia entender atitudes tão estranhas para uma pessoa tão sagrada como um bispo. Comecei a pensar na minha vida ali como tinha sido. Cheguei lá com 12 anos; fui convencido, a vontade de meus pais era esta, seria para eles o maior orgulho ter um filho padre.  

JONAS MARINHO ARAÚJO, de Mons. Tabosa, Médico Otorrinolaringologista, em Fortaleza, estudou no Seminário da Betânia na década de 40. Texto escrito em 28 de junho de 2020

        

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