Seminário de Sobral: REMINISCÊNCIAS PRAZEROSAS

Em outra oportunidade, já escrevi sobre “as coisas” do meu querido Seminário São José de Sobral. Fatos e circunstâncias inusitados, às vezes, curiosos. Relevo o possessivo para salientar o bem-querer que sempre devotei àquela instituição de ensino, formação humana e religiosa.

Betanista JOÃO EDISON ANDRADE

Quando ali convivi – foram seis anos – algo me chamava a atenção e de certo modo me fascinava: a disciplina imposta e vivida naquele seminário. Disciplina rigorosa, no entanto, racional e objetiva. E no tocante a esta disciplina, uma tradição considerada notável: a Nomeação de Cargos e o consequente exercício dessas funções.

No início de cada semestre o Pe. Reitor reunia os seus pupilos para anunciar a nomeação de cargos. Muita expectativa em torno do esperado anúncio. Guardadas as devidas proporções, comparada à curiosidade quanto à indicação de ministros ou de secretários, quando do início de cada governo. Era um momento solene e de suspense.

Diversos e peculiares os cargos indicados. Vejamos:

 Acendedor de luz – isso mesmo: o pequeno da fila nomeado é quem deveria acender as luzes dos corredores quando da passagem para as diversas dependências do enorme casarão da Betânia.

apagador de luz o último da fila.

encarregado do dormitório – abrir, fechar e zelar pela sua manutenção (minha primeira função).

encarregado da roupariatambém abrir, fechar e mantê-la em ordem.

Sineteirotinha como encargo anunciar, com de toques na sineta pendurada no pátio interno, o início e o término dos diversos momentos ou atividades. Uma curiosidade: poucos estavam aptos para exercer o cargo, posto que somente quem possuía relógio poderia ser nomeado e eram poucos os que o tinham. Considerada também uma tarefa de muita responsabilidade.

responsável pelo livro de tombo – uma espécie de diário que deveria registrar os fatos importantes ocorridos a cada dia no âmbito daquela instituição.

 encarregado de “puxar” as orações na capela: se não estou enganado, chamado de hebdomadário. Normalmente, os indicados eram aqueles que tinham um bom timbre de voz e com “cara de santo”, como eu.

Harmonista – dois ou três exerciam esse cargo, pois tinham que saber tocar harmônio, instrumento musical da família do órgão, de palheta com foles e teclados, conforme definição do Mons. Sabino Loyola em seu dicionário de liturgia. A função era acompanhar os cânticos na capela.

Vinham depois os cargos mais importantes:

Bedel – responsável pela disciplina e ordem nas respectivas classes ou salas de aula.

sacristão. Pasmem!– o mais cobiçado. Por dois motivos: tinha ele a liberdade de sair do salão de estudos ou mesmo deixar a capela para arrumar os paramentos, cuidar da lâmpada do Santíssimo, providenciar velas, etc; também, lhe era permitido, ou pelo menos tolerado, tomar o restinho de vinho que sobrasse das galhetas após a missa, ou mesmo “economizar” para que no final da semana sobrasse um pouquinho na garrafa, uma vez que “a freirinha” encarregada estipulava a cota para cada semana. Por vezes, às escondidas, surrupiava e comia algumas hóstias antes de serem consagradas.

Finalmente, o mais esperado e de maior expectativa:

Prefeito – Prefeito dos “menores” e Prefeito dos “maiores”. Havia Prefeito “bonzinho” como fora o Valdery, meu primeiro prefeito, hoje Pe. Valdery, Vigário de Cruz, e prefeito “durão”, às vezes intransigente e chato. Sempre escolhidos entre os das últimas séries. Na verdade, ninguém queria ser Prefeito, principalmente Prefeito dos menores. Eram muitas as suas prerrogativas, inclusive a atribuição de nota mensal de comportamento. Um cargo, portanto, de prestígio e de muita responsabilidade. A autoridade do Prefeito era tida como coisa séria. Desrespeitá-la implicava em falta grave.

Encerro, reafirmando que me foi prazeroso discorrer sobre “as coisas” do meu Seminário da Betânia. Os seis anos vividos naquele educandário de formação para o sacerdócio me marcaram profunda e positivamente. Lá, iniciei minha formação intelectual e humanística, forjei o meu caráter, disciplinei o meu comportamento social, aprimorei a minha convivência com Deus e com meus semelhantes, enfim, aprendi a ser homem, pois assimilei bem o ideário do nosso inesquecível Reitor, Pe. Austregésilo, que rezava a Deus, pedindo paz, juízo e vergonha.

JOÃO EDISON ANDRADE, de Sobral, é Professor Universitário, na UVA. Autor deste texto, extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura, Edições UVA, 2015.

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