Mês: julho 2020

O Seminário de Sobral me proporcionou uma vida feliz.

O nascimento foi em Santana do Acaraú, tradicional berço dos Vasconcelos, em 5 de maio de 1946. Meus pais Francisco Ademar Vasconcelos, industriário, e Maria Jandira Costa Vasconcelos, funcionária pública. Meus pais logo foram atraídos por Sobral que, já naquela época era o principal centro de desenvolvimento da região norte do Ceará. E foi esta cidade que testemunhou os meus primeiros passos e me ofereceu o cenário para as primeiras brincadeiras infantis.

Nelinho Vasconcelos

Foi em Sobral que tive as primeiras oportunidades de estudar. Foi no Ginásio São José onde fui privilegiado por ter entre os primeiros professores a poetisa Dinorah Tomaz Ramos, sobrinha do famoso príncipe dos poetas cearense, Padre Antônio Tomaz e esposa do renomado farmacêutico Dr. Ribeiro Ramos. Mais tarde, minha professora tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Câmara de Vereadores de Sobral.

Daqueles memoráveis tempos guardo a lembrança de alguns amigos: José Maria Linhares (betanista), Geraldo Magela Vasconcelos Arruda e Dorenildo Menezes Azevedo, Francisco Menezes de Carvalho (betanista).

A religiosidade de Sobral, àquela época, sob a influência de Dom José Tupinambá da Frota, seu primeiro vigário e também primeiro bispo, era impressionante. Praticamente tudo girava em torno da Igreja Católica. As celebrações religiosas eram de chamar atenção. As famílias cuidavam de encaminhar seus filhos, desde cedo, para os atos religiosos. E, naturalmente, como crianças, ficávamos todos encantados com aquele ritual solene que acontecia com muita frequência.

Tornei-me acólito da Paróquia do Patrocínio, que tinha como vigário o renomado Monsenhor José Osmar Carneiro que, por algum tempo, exercera a função de Reitor do Seminário Menor de Sobral. Aquela proximidade com a Igreja era um momento importante para todos os meninos que tinham o privilégio de ser acólitos. Vestíamos uma batina vermelha e um roquete branco para participar das solenidades litúrgicas. As celebrações da Semana Santa, as procissões, as missas solenes eram oportunidades especiais para os acólitos. Enquanto o povo ficava espalhado pela igreja, nos sentíamos privilegiados perto do altar e ao lado do celebrante.

Dali para o Seminário foi fácil. Tive o incentivo de minha mãe que era Presidente da Obra das Vocações Sacerdotais, uma instituição que tinha como objetivo disseminar entre os meninos o desejo de se transformarem em sacerdotes. Na família já tinha dois tios seminaristas: Edmilson e Edvanir Costa.

E no ano de 1958 entrei no Seminário Menor de Sobral que me proporcionou uma experiência inesquecível. Era tudo diferente, mas tudo muito organizado. A disciplina era algo marcante. Éramos mais de cem alunos que cumpríamos todos os horários com a máxima pontualidade. Respeitávamos rigorosamente todas as ordens. Se era momento de silêncio, ninguém ousava falar. Não por repressão, mas por convicção de sua importância. A convivência era algo extremamente saudável e foi tão marcante que ainda hoje nos sentimos irmãos de todos os contemporâneos do Seminário de Sobral.

Na recepção a D. João José da Mota e Albuquerque, em Sobral.

Havia um equilíbrio em tudo. Estudávamos em tempo integral que era a nossa principal obrigação. Mas tínhamos tempo para a oração e para o lazer. Sempre coletivamente. Dom José cuidou até de construir um Seminário em Meruoca onde passávamos a Semana da Pátria, cujo objetivo principal era o lazer. Escalávamos os morros que circundam a cidade, tínhamos engenho fazendo rapadura para nós, jogávamos e desenvolvíamos outras atividades de arte e cultura. Vez por outra, em datas muito especiais, éramos surpreendidos com duas badaladas rápidas na sineta: era um feriado extra. Alegria total.

Mas em 1962 percebi que me faltava o principal para prosseguir no Seminário. Descobri que me faltava a vocação para prosseguir. Começaram a surgir outros sonhos e deixei o Seminário. Não foi fácil deixar tantos amigos e um ambiente que até hoje mexe com minhas emoções.

Dei continuidade aos estudos no Colégio Sobralense, outra criação de Dom José e, depois na Escola Técnica Dom José. Iniciei a vida profissional no Banco da Lavoura de Minas Gerais. Naquela época, trabalhar em um banco era a grande aspiração dos jovens. Era sinal de estabilidade e de boas perspectivas. E lá fique de 64 a 66. Passei para outra atraente empresa que era a Companhia de Eletrificação do Ceará – CENORTE, onde fique até 1969. Passei depois dezesseis anos na MESBLA como Gerente Administrativo Financeiro

De 1987-1993 estive nas tradicionais Casas Pernambucanas como Chefe da Sessão Tesouraria. De1993-1996 passei para Eberle S/A, na condição de Chefe do Escritório Regional de Fortaleza. E, finalmente, de 1997 até este ano, na Centerquip Comercial de Equipamentos Ltda. como empresário na área de representação comercial. Agora, aposentado, estou tendo mais tempo para estar perto de minha querida família.

Casei-me com Maria do Socorro Magalhães Vasconcelos, funcionária pública estadual, e tivemos três filhos: Sandra, comerciante; Nelinho Filho, Economiário e Carlina, contadora. Temos sete netos maravilhosos: João Pedro, Ana Clara, Wilson Neto, Bruno, Tiago Lídia e Carlos Artur.

Residimos em Fortaleza desde 1969. Mesmo aposentado, continuo com atividades na área de representação comercial, mas não abro mão dos momentos de lazer em viagens de turismo, praias, passeios, com a família. Tudo isto sem esquecer o meu querido Ceará Sporting Club, paixão que me acompanha desde os tempos de criança. O Seminário de Sobral me proporcionou uma vida feliz. Graças a Deus!

MAMÃE FAZ 100 ANOS (quase)

Neste 27 de Julho de 2020 MARIA DE LOURDES MIRANDA DE ALBUQUERQUE (D. Lourdes), de Fortaleza CE, chega aos 98 anos podendo dizer como @s [email protected] épicos: VIM E VENCI. Texto de Mário Albuquerque

Nascida em Chaval, extremo norte do Ceará, conheceu aquele que viria ser seu marido e pai de seus 4 filhos e 5 filhas, [email protected] [email protected], Mário Albuquerque, na cidade de Camocim, durante a segunda guerra mundial, funcionário da extinta Panair do Brasil e militante do PCB.

Professora e funcionária pública federal aposentada, enfrentou, com a bravura própria das mães, os tempos ásperos da ditadura civil-militar de 1964, que prendeu 03 de seus filhos e 01 filha e duas noras, a que se somaram exílio e banimento, além da demissão branca do marido e a ameaça constante de prisão de [email protected] [email protected] Teve o lar invadido inúmeras vezes, mas nunca se dobrou. Sua residência serviu de embaixada para acolher e esconder perseguidos políticos.

Participou desde a primeira hora da luta pela anistia política, integrando o MFPA-CE, participação que se estendeu à luta sindical e popular e pela reconquista do Estado Democrático de Direito em nosso país.

Hoje aposentada, aos 98 anos, mantém-se ativa e ligada aos acontecimentos, se atualizando com a leitura diária de jornais, a que soma o uso do telefone fixo e do celular, potencializado com o fone de ouvido, além da atividade laboral na confecção de bonecas e outros objetos artesanais, com que ela presenteia amigos e amigas. As fotos são testemunhos disso.

Nossa mãe é uma guerreira vitoriosa.

Pedro, Nádja, Mário, Niedja, Célio, Neidja, Nadedja, Wilson e Joana

DIA 25 DE JULHO – DIA DO ESCRITOR

Texto de ANINHA MARTINS

O livro… Ah, o livro! Ele nos conta sobre tantas coisas, nos ensina sobre o passado, nos permite contemplar o presente e, até projetarmos o futuro. O livro nos fala tanto, nos faz ver a vida como ela é, nos aconselha e nos prepara para enfrentarmos o mundo.

Foi assim que iniciou o Ateneu, com uma frase dita pelo pai de Sérgio: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta. ” Nos mostrando que podemos nos preparar para o que ainda está por vir.

Os árcades, nos falam do simples, do bucólico e da calmaria campestre. E Iracema nos mostra as matas verdes e viçosas, mas sem o bucolismo, pois há a agitação das tribos, num reboliço de lutas, atravessadas pelas fechas dos guerreiros valentes, porém quebradas, como um pacto de paz.

Há livros denúncias, como nos revela O Cortiço e Germinal, querendo nos convencer que o ambiente é determinante dos nossos atos, nos confirmando o ditado popular que diz: “Dizes com quem tu andas que direis quem és. ” Porém, é desmentido por Capitu de Dom Casmurro e Madame Bovary, pois essas nos revelam que sentimentos nascem, não importa onde vivemos.

E, D. Quixote nos afirma que podemos inventar a realidade e lutarmos com os moinhos que encontramos nas estradas da vida. Assim como nos diz Peter Pan, para continuar na infância que é lá que moram os sonhos e até nos permite assistir vários pôr do sol em um mesmo dia, pois é só afastar um pouco a cadeira no pequeno planeta do Principezinho.

Existem livros que nos falam do real, do Tempo e o vento, dos Capitães de areia, do Grande Sertão Veredas e da Tenda dos Milagres, onde há porções para acabar com tantas Vidas Secas, assoladas pelas intempéries geográficas ou pelas desilusões do mundo. Outros confidenciam como vivem as mulheres Senhora de si, Diva ou Tereza Batista Cansada da Guerra e, até Tieta do Agreste ou As Três Marias, diferentes e tão iguais. É, todas tão iguais na busca incessante pela sua Hora da Estrela.

Assim, são os livros, armas importantes contra a ignorância e alienação, ferramentas de grande valor.

VELHO LICEU (I) texto de Jonas Marinho Araújo

Meu Liceu dos 18 anos. Quanta saudade e recordações! O mesmo prédio, o mesmo piso, janelas e portas com o mesmo estilo. Mais de 70 anos se passaram. Lembranças esmaecidas pelo tempo, algumas insistentemente presentes como a pedir clemência: Não me esqueçam.

Talvez o tipo mais conhecido de todos os alunos era um Bedel. Quando lá cheguei já era antigo e bem famoso. É pena, muita pena, não me lembrar nem mesmo do apelido. Este era o nome do encarregado da disciplina, era uma autoridade. Um funcionário humilde, mas cônscio de sua responsabilidade.  Austero e todo o mundo o obedecia.

O nosso herói recebia do diretor toda a força necessária para manter a disciplina. Tipo simpático trajava uma farda própria e se achava a própria autoridade. Olhava classe por classe para notar alguma indisciplina ou falta de respeito ao Professor. Este dava sua aula tranquilo, certo de que ninguém o interromperia em sua dissertação.

Liceu do Ceará

O LICEU era o mais famoso colégio do Ceará por ele passaram as maiores autoridades e as inteligências mais privilegiadas. O Magistrado muito bem pago. Os maiores e melhores professores faziam parte do seu corpo docente. Só passei para estudar por lá porque o ensino do Seminário era bom demais. Uma espécie de Vestibular. Não passei em matemática. Uma diferença pequena, décimos, mas como nas outras matérias fui bom de sobra fui aceito.

                Mocidade por si é leve, a vida lhe corre suave. Uma ocasião um jovem começou a etiquetar com um seu colega de turma. Todo dia a mesma coisa: “Ontem sonhei com tua mãe. ” De tanto repetir o mesmo insulto com sua mãezinha resolveu contar ao nosso Bedel. Este se indignou. “Chamou o insolente e lhe deu a sentença, sentença fatal: ” NÃO ME SONHE MAIS COM A MÃE DESTE MENINO”. Se você me sonhar de novo com a mãe deste menino vai ser expulso, viu? Foi agua na fervura. Nunca mais nosso amigo teve aquele sonho tão persistente.

                Estudei 4 anos e de lá parti para fazer vestibular de medicina na Universidade Federal do Recife. A maior aventura de um jovem cheio de dúvidas e incertezas do seu futuro.

                Todas as tardes pegávamos um bonde até a PRAÇA DO FERREIRA. Era um bonde elétrico. Todo aberto uma delícia. Ligado a uma rede elétrica que ficava no alto era facilmente desmontável. Levava quase uma hora para chegar. A gente desligava a eletricidade e o nosso transporte parava. Ninguém dizia nada ERA COISA DOS ALUNOS DO LICEU e riam da brincadeira. É bom lembrar que sempre íamos a pé e fazíamos como desforra porque nem sempre tínhamos dinheiro para pagar o nosso transporte elétrico e moderno.

                Lembro-me de um professor de inglês que chegava para a turma e dizia: A nota de todo o mundo vai ser três e quem não quiser eu examino.  Ai, quem quisesse ser examinado, sempre levava um zero. Nunca recusei a oferta melhor três do que zero. Porque ficam gravadas por tanto tempo fatos aparentemente insignificantes!!!  Pode servir de alerta para os que passam por estes momentos pensando que são tolices, simplesmente tolices que logo serão esquecidas. Às vezes, ficam retidas, mas como são gostosas de recordar!

Jonas Marinho Araújo, natural de Mons. Tabosa, Médico Otorrino, em Fortaleza -Ceará

Ao Padre Mestre Moésia Nogueira Borges

OS FEMININOS NOMES DAS CIDADES FRANCESAS

França dos lindos nomes de cidades,

Nomes tão femininos e sonantes:

Nice, Nancy, mesmo Paris, e  Nantes;

Lille, Nimes, Dijon…Quantas saudades

Guardo eu de ter visto essas cidades,

Cujos nomes são já aliciantes!

Também Bordeaux, e  Tours, e Metz… Eu antes

Não conhecerá nomes, na verdade,

Que fossem para mim tão fascinantes!

Nomes  entre agradáveis e solenes

São os de Perpignan, Toulouse e Rennes.

Vivo, assim, a curtir minhas saudades

Tanto dos nomes como das cidades

Que ouvi e vi, no meu andar infrene

Pela França, que sabe ter tão belos nomes

Para as suas, também, belas cidades!

Poeta, Professor, Betanista FRANCISCO JOSÉ LOIOLA RODRIGUES

Seminário de Sobral: UMA CASA, DOIS ENDEREÇOS, UM ÚNICO VALOR.

Nascemos e vivemos os primeiros anos de nossas vidas na casa dos nossos pais (Travessa General Tibúrcio, nº 249) e num segundo momento, na mesma casa de valores, em outro endereço, no Seminário Menor (no bairro da Betânia), em Sobral/CE, onde, o valor “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, se consolidou, enquanto aprendizado e prática de vida.

Francisco Henrique Pinheiro Ellery

Nossos pais: João Helly Ferreira Ellery e Djanira Pinheiro Ellery chegaram a Sobral em 1952, já com duas filhas: Hélia e Helenira. Em 1953 chegou Henrique (Cuico) e depois chegaram Helly, Maria do Carmo e Dalton. Portanto, uma família com o casal e seis filhos, sendo três mulheres e três homens. Todas muito queridos e amados.

Nos quinze anos em que fomos abrigados pelo calor afetivo e cultural da cidade, fomos guiados pelos ensinamentos e prática do Evangelho, segundo a Mamãe/Papai e Pe. Osvaldo.

Olhar, tratar e conviver com semelhantes em pé de igualdade, independentemente da condição sócio-econômica, racial ou de qualquer outra condição, foi o que brotou desta Casa comum em endereços distintos, onde Helly/Djanira, nossos pais, ao lado do Pe. Osvaldo, do Seminário Menor, e outros, escreveram uma extraordinária História de amor, que se irradiou em benefícios para todos nós, transformando o município em extensão da nossa Casa.

Para exemplificar como ocorria o aprendizado e a prática, relatamos aqui algumas vivências: Ler a bíblia, ir para a escola, rezar, ir à missa, conversar e brincar na calçada da casa com os vizinhos, no início da noite. Estas eram ações e ensinamentos, que se casavam com a escala de higienização do banheiro único, compartilhado entre a família e a empregada doméstica: “um dia os filhos homens, no outro as filhas mulheres e no seguinte a empregada doméstica”. Éramos todos iguais.

Desde a idade de quatro anos fomos, eu em particular, alucinados por futebol. Como ser um zagueiro vigoroso, resultava – às vezes – em conflitos físicos, isso determinava reações na nossa mãe, quando tomava conhecimento dessas ocorrências, como a que aqui registramos: “você não deve brigar com ninguém, se for obrigado a isso, que nunca seja pelo outro ser pobre ou preto, pois se essa tiver sido a motivação da desavença, não sei qual será o resultado final da batalha, mas aqui em Casa você irá apanhar”.

Nominamos aqui, pelo cognome, o nome incompleto, a grafia errada, mas muito amor e carinho, pessoas que protagonizaram parte considerável das construções das nossas vidas, certos de que pessoas de igual importância deixarão de ser citadas: Sr. Lulu e as professoras Da. Iracema, esposa, Lucema e Rejane, filhas; Dr. José Nilson e Da. Vilma, esposa, filhos Ana Maria, Socorrinha, Gorete, Zé Modesto, grande amigo de infância, Zé Nilson; Dr. Bernardo, nosso vizinho; Airton Rocha e Da. Nicinha, esposa, e os filhos Graça, Ida, Rosinha, Binga, grande amigo de infância, Pedoca; Sr. Aluísio e Da. Leda, esposa, Gerim, os filhos Menca, Expedito e irmã; Sr. Arão e esposa, Deeto, Aluisio… filha(o)s, Sr. Abelardo e Da. Hilza (esposa), Carlos, Abelardo, Raimundo, Sonia, filha(o)s e tantos outros, que se perpetuaram em nossas mentes e carinhoso espaço no coração, como dezenas e dezenas de outra(o)s sobralenses natos ou não.

Em 1965, cremos, fomos (eu) para o Seminário Diocesano de Sobral – Seminário Menor – Seminário de Dom José, bispo e ator exponencial da História sobralense. Foram dois anos de vida compartilhada com os colegas seminaristas, padres, freiras e a (o) s trabalhadora (e) da Casa.

Também aqui nominamos algumas pessoas: Zezinho Frota, Pimpão, Juarez e Zé Maria Leitão, Raimundinho (hoje querido vizinho, em Eusébio/CE), Lucivaldo, Isaac, Aguiar Moura, Lucivan, Pe. Osvaldo Chaves, Mons. Sadoc e Fontenele, Pe. Lira, Tupinambá, Manfredo, Irmã Hermenhild, os bispos Dom Walfrido e Dom Mota, como irmãos parceiros nessa maravilhosa aventura terrestre, onde exercitamos o aprendizado de descobrirmos nossos erros, fazer do aprendizado um vigoroso elo de amor ao outro, irmanados na solidariedade e generosidade plenas, transcendendo os limites das relações interpessoais e religiosas, irradiando-se pelas águas, árvores, animais e toda a energia cósmica, tendo Deus como coordenador de toda essa brincadeira.

Ver e viver segundo o que se citou acima exige um exemplo prático de Escola, com mestres afinados com os valores cristãos, ecumênicos e humanos mais nobres e plebeus. Assim, escolhemos uma Historinha, tendo por ator principal o Pe. Osvaldo, para, em nome de todos nós, mostrarmos a pregação e prática de tratamento igualitário e justo, guardando uma coerência sólida entre o idealizado verbalizado e a ação concreta no dia a dia.

Em sala de aula, o Padre que se absteve do acesso a bens materiais, além do essencial, embora a exuberância do saber o habilitasse, para diferenciar-se do povo. Optou por igualar-se. Exigia que, ao se interromper uma aula, que se pedisse licença: em primeiro lugar à turma e, em segundo lugar, ao professor. Um dia chegou o superior hierárquico, adentrou na sala de aula, sem pedir licença, e passou a repreender severamente os alunos, por traquinagens ocorridas no Seminário. Então, ocorreu o seguinte diálogo:

Superior Hierárquico: SH;

Pe. Oswaldo: PO.

SH – Tomei conhecimento

PO – Por favor, caro …, retire-se e peça licença para interromper a aula.

Silêncio, recomposição de humores, SH retira-se da sala de aula, fecha a porta. Depois, bate à porta, com toques sutis e…

SH – com licença turma, com licença Pe. Oswaldo.

PO – queira nos honrar com sua presença. Vamos receber uma das maiores autoridades intelectuais e eclesiásticas de Sobral, da Igreja, …

Assim foi reintroduzido o nosso SH na sala de aula.

Naquele momento, à grandeza do Professor sábio em conhecimentos, reafirmou-se a coerência de um Homem fiel, na prática, à justiça e igualdade entre todos, independentemente do poder ou do ter.

Este sábio de conhecimentos e da opção preferencial pelos pobres (depois soubemos, pela irmã Helenira, que – em diferentes espaços – esta opção era muito compartilhada com o Pe. Albani) jamais perdeu a estima e generosidade por todos os filhos de Deus e com isso nos deixou o legado que hoje, após décadas de distância da Betânia, nos instigam a estarmos tentando ser melhores: “amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, não apenas na hora da missa ou do discurso, mas nas ações do dia a dia.

Contamos uma historinha ocorrida durante a militância popular, num evento em São Paulo/SP, num congresso do movimento sindical bancário, para ilustrar a importância do Seminário em nossas vidas. Um dos oradores, diante de uma plenária, com mais de 300 pessoas, reportou-se ao nosso nome, levantando a hipótese de que nós (eu) deveríamos ser profundos conhecedores da Teoria Marxista, para sermos tão convictos sobre o socialismo. Ao acessarmos ao púlpito/microfone, diante da mesma plenária, nos referimos ao reporte, afirmando para toda (o) s que conhecíamos Karl Marx de poucas e superficiais leituras, mas que a citada convicção vinha do Evangelho de Jesus Cristo, segundo a Mamãe e o Pe. Oswaldo. Houve muitos risos.

Assim, a nossa passagem pela vida tem sido composta pelo encontro com essas pessoas maravilhosas; seis fantásticos filhos; uma Terra que pede nossa ajuda e compromisso para continuar viva; uma passagem pelo BANDECE (Banco de Desenvolvimento do Estado do Ceara – depois BEC – hoje Bradesco), uma pela UFC, uma aposentadoria pelo Banco do Brasil, como o meu pai (quase 30 anos de atividade laboral); uma militância sindical longa e, acreditamos vigorosa, Sindicato dos Bancários do Ceará, popular (CUT), partidária (entre os 100 primeiros filiados ao PT, no Ceará, eu), formação superior em Agronomia; muitas partidas de futebol jogadas, e, finalmente, perene tentativa de ser fiel e coerente com os ensinamentos, afetos e dignidade diante das dores sentidas pelos outros e por nós mesmos.

A Casa foi UMA: onde o se ensinar e se viver a solidariedade foi a identidade da moradia; os endereços foram DOIS: a casa dos nossos pais, na Travessa General Tibúrcio, nº249 – hoje do Sr. José Tupinambá da Frota e o Seminário Diocesano de Sobral – Seminário Menor de São José, na Betânia; UM valor: o amor a Deus e ao próximo, como a nós mesmos.

AGRADECIMENTOS.

A toda (o) s que estão conosco caminhando em busca de Deus ou que a Ele já chegaram. Mais uma vez gostaria de citar nomes: a (o) s amada (o) s filha (o) s: Paulo Henrique Mamede Ellery, Luiza Amélia Mamede Ellery, Mario Helly Mamede Ellery – o Marcelo, o Marcelinho (10/5/1984 # 24/4/2012, que optou por ir ao encontro de Deus, muito cedo, 70 dias antes do nosso pai Helly, com apenas 27anos. Foi o reverso de um parto, uma dor monumental, uma saudade profunda e renitente, dentro de um novo mundo, onde a resignação e a busca pelo riso e a alegria tornaram-se desafios Hercúleos), Marilda Oliveira Ellery e Vinicius Oliveira Ellery; nossos queridos pais  Helly Ellery e Dejanira (28/5/1995 e 4/7/2014); Irma(o)s: Hélia, Helenira, Helly, Maria do Carmo e Dalton; esposa, ex-esposa:  Jaqueline Honório de Oliveira (amor que, segundo os nossos filhos, nos está suportando – o que não é fácil – até hoje) e Regina Fátima Mamede Ellery; neta(o)s: Sarah Medeiros Ellery, Ian Medeiros Ellery e Maria Fernanda Holanda Ellery; nora: Mariana Monte Holanda Ellery; genro: Fernando Herta Bolsas;   e a(o)s nova(o)s irmã(o)s maravilhosamente doados por Deus aqui na Terra: Renata Mamede, Luis Carlos Mamede (grande parceiro de juventude, Banco do Brasil, como jogador de futebol, mesa de bebida, sindicato, partido político, etc.), Paulo Mamede, Maria Amélia Mamede, Fernando Oliveira, Ciente Oliveira, Vianda (Vida) Oliveira, demais Oliveiras e, finalmente, Pe. Oswaldo Chaves.

A todos a nossa mais profunda gratidão por se terem permitido viver conosco alguma etapa desta aventura e um grande abraço no coração.

A BOA VIDA Ao Mestre Osvaldo Chaves – de Francisco José Rodrigues

É certo que, no céu, não se terá saudade

Da vida aqui vivida, esta confusa vida

Entre prazer e dor e entre também bondade

E maldade, a maldade que a torna até suicida.

É certo que, no céu, não se terá saudade…

Mas eu não tenho pressa alguma pela ida

A esse vasto lugar de só felicidade.

Pois, que se me retarde ao máximo a partida!

E se saiba que eu muito sofro neste mundo,

Onde por engrenagens sempre estou passando

E onde oscilo, também, da superfície ao fundo.

Porém, eu a viver andei-me acostumando,

De tal sorte que às vezes — ai de mim! — confundo

Com a do céu a vida que eu estou levando.

Poeta, Professor, Betanista
FRANCISCO JOSÉ RODRIGUES

Recordações de Mons. Tabosa: MEU PAI – Texto de Jonas Marinho Araújo

Penso que não vou conseguir. A saudade bate primeiro. Recordações são muitas.

Era bem gordo e era chamado de seu Luís barrigudo. Pele alva, gostava de ficar com a barriga de fora por causa do calor.  Sua alegria era nata e, aonde chegava, acabava a tristeza. Achava isto uma delícia.

Todos os anos, na festa do Padroeiro da cidade, O MÁRTIR SÃO SEBEBASTIÃO, havia um leilão. Era promovido pelo padre para despesas paroquiais. Uma festa inesquecível. Eu vibrava principalmente quando papai comparecia para arrematar as prendas. As prendas eram doações dos fiéis, constituíam de carneiros, sacos de farinha, jerimum e outras coisas.  Traziam no lombo de jumentos de suas longínquas moradias. Todos queriam contribuir com o que conseguiam pela luta de seu trabalho. Prenda mais valiosa como um garrote era doação dos mais ricos, como por ex. do meu pai.

A cerveja era assim: Um copo, quem dá mais. Um audacioso dizia tanto para seu Luís não beber. Era o bastante. Papai dizia mais tanto para beber e a brincadeira ia longe. Dá para esquecer? A cerveja era quente e era bebida com gosto, ninguém reclamava e acho que nem notava. Começava cedo e ia até à meia noite. O leilão só acontecia uma vez por ano. E era no meio da Praça Principal, na avenida. A banda de música tocava o tempo todo. Era uma animação. Todos juntos, ricos e pobres, de pé ao redor da mesa enorme, cheia das ofertas.  Cada bolo de botar agua da boca. As mulheres caprichavam na feitura e no sabor. QUEM DÁ MAIS NO BOLO DE DONA FULANA? De dona TOTONIA? – minha mãe—e aí a rivalidade pegava fogo—e meu pai não deixava que ninguém arrematasse por preço baixo. Quanto mais rica a pessoa que fazia o bolo, mais caro ficava. As mulheres dos ricos caprichavam e ficavam orgulhosas comentando o valor de sua oferta. Santa rivalidade. Rendia dinheiro para a Paroquia.

A moçada ficava ao redor, paquerando, rindo à toa como é próprio da juventude. Muitas bancas de venda, café, bolo, manzape, tapioca e tudo o que era gostoso. Sempre comparecia por lá, ainda era pequeno, meu irmão mais velho preferia a companhia das moças. Papai me dava um dinheirinho, mirrado sim, mas servia, comprava de manzape. Eu era doido por manzape e, ainda hoje, quando por lá ando, compro um pedaço, mais para recordar do que para saborear.

Por último estive na serra e fui olhar como se fabrica. É numa trempe feita no chão, com lenha em baixo para o fogo. Na LAGOA VELHA todos os sábados, são feitos para vender na feira em MONSENHOR TABOSA. Não chega para quem quer. Certa vez, fiquei olhando, como se diz hoje ao vivo, como é a fabricação. Continua igual.

O padre saia alegre. Todos os homens importantes da sociedade compareciam. Nesta nossa terrinha havia uma descriminação que ninguém notava. Havia os da primeira classe e os da segunda. Todos admitiam e era absolutamente natural. Havia por ex. as festas da primeira que só eram frequentadas por estes e festas da segunda. As festas da segunda podiam ser frequentadas pelos da primeira e eram mui bem recebidos, mas estes da segunda, jamais podiam ir a uma festa da primeira. Apreciavam de longe. Como eu pertencia à primeira frequentei muitas boas festas da segunda lá no ZECA DA CUTA que ficava no bairro RABO DA GATA. As da primeira eram no clube MUÇAMBE, na zona nobre da cidade.

Papai era muito religioso e todas as noites rezava o terço com a gente e mamãe. Era na alcova, deitado na rede, mamãe na cama e a meninada de joelho no chão. Em baixo da rede ficava o seu cachimbo, para fumar depois do terço. O sono batia logo e todo o mundo cochilava. AVE MARIA cheia de graças, BENDITO É O FRUTO, continuava monótono. Lá pelo meio, papai se lembrava de que depois tinha que fumar, era costume. Maria, gritava, negra sem vergonha, prepara o café.  Continuava a reza interrompida: DO VOSSO VENTRE JESUS. Maria respondia da cozinha: Não sou fogo, mas caprichava e saia um café de primeira.

Tinha um quartinho no mercado central onde fazia os seus negócios. Vendia farinha e a gente ia entregar as sacas num armazém. Sempre gostei de rapadura e comprava da Serra Grande e me dava pedaços enormes. Mamãe não consentia aquilo era exagero e papai me levava meio escondido para apreciar o de que tanto apreciava. Seu Zé meu irmão acompanhava, mas quem se deleitava mesmo era eu. Hoje ainda gosto, mas a tal da idade e de uma tal de uma possibilidade de diabete me tornou bem mais moderado.

Nossos banhos de açude ficaram inesquecíveis. Nadava bem e me incentivava e assim brincávamos horas e horas neste lazer, vamos dizer bom demais. Era aficionado por banho frio. Lá em casa havia um tanque feito de cimento. Pela manhã, agua dormida era gelada, papai de madrugada ia e tomava aquele banho e, de longe, quando acordado me lembro dos seus gritos de prazer. Quando já médico e há pouco tempo visitei a velha casa, e não havia mais o tanque do papai.

Outra coisa me traz saudade. Mons. Tabosa, apesar de ficar situada numa serra, A SERRA DAS MATAS, naquele tempo muito fria, não produzia frutas. Tudo vinha da Serra Grande.  Aos sábados ia um caminhão comprar laranja e rapadura da Sussuanha, a melhor daquelas bandas. Vinham dois surrões cheios para nosso deleite da laranja mais doce do Ceará. Papai era farto chamava a gente e era o dia todo a chupar laranja. Porque certos gestos ficam tão retidos no consciente e inconsciente?

Os cangaceiros chegam amanhã foi a notícia do dia. Eram o terror do sertão. Não havia nenhum meio de comunicação, só um telegrafo feito aos gritos. Segredos revelados, toda cidade sabia de qualquer notícia que por ali chegasse. Papai chamou seus empregados que moravam nos sítios, deu-lhes armas uma espingarda das antigas, mesmo naquele tempo. Fechou as portas e janelas e nós todos dentro esperando, apreensivos para a luta prevista. Um sucesso de medo e de perca de adrenalina. Qualquer barulhinho, nossos capangas, armas na mão, a espreitar, pela janela semiaberta, a chegada dos fora da lei. Frustação geral: Era Fakes News. Nossos heróis saíram vencedores e só havia esta hipótese.

Gosto dele seu jeitão, sua alegria, seu carinho com a gente. Ia para o sertão nos chamava tomar banho nos açudes, comer rapadura na bodega, nos incentivando para a vida. Seu ponto fraco era quando morria uma rês- uma vaca ou um touro- me causava agonia. Tinha medo de ficar pobre e isto repercutiu em mim, quase até um dia deste. Quando fui para o Seminário e sabia da morte de uma vaca, dizia pronto agora tenho que voltar. Para Fortaleza, quando vim estudar o medo persistia e também na Faculdade. Como são esquisitos esses tempos de criança! Como são persistentes as marcas que deixam! Procurei não deixar marcas para meus próprios filhos, mas parece que as coisas neste campo são mais complexas.

Não havia papo mais profundo entre nós, nem eu nem ele, tínhamos capacidade para isto. A lei era o respeito, coisa boa, sim, mas pobre para formar um coração carente de tudo. Uma coisa ficou e de vital importância: O Amor e este amor que está sendo espargido nesta minha geração abençoada de 5 filhos bonitos e saudáveis.

Dr. JONAS MARINHO ARAÚJO, natural de Monsenhor Tabosa, estudou no Seminário da Betânia, em Sobral, é Médico Otorrinolaringologista, em Fortaleza.