Recordações de Mons. Tabosa: MOMENTOS – Texto de Jonas Marinho Araújo

São tempos inesquecíveis os da primeira infância. A natureza é sábia e parece que advinha o bem e alegria que fazem ficar no coração de um velho de 90 anos, quando este velho cria coragem e relembra aqueles momentos passados. Acho que deviam ser mais duradoiros! Passam tão ligeiros! Uma nuvem que se dispersa nos fins de tarde de verão! Nuvem que parte sim, mas deixa gravada, bem no âmago, a marca indelével da saudade. É o que venho sentindo mais profundamente neste tempo difícil do Corona 19.

O Corona 10 ou o COVID19, foi para mim, um fenômeno que jamais vai ser esquecido na história da humanidade. Silencioso, numa velocidade espantosa invadiu toda a terra: foi uma pandemia de um vírus, vírus desconhecido que aflorou pelo desmatamento e outras agressões impostas pelo homem na nossa bela natureza.

No microscópio parece com uma coroa, daí este nome. Começou na China e, em pouco tempo, já se encontrava na LAGOA VELHA, o lugar mais ermo e distante do mundo e também o mais gostoso. Muitos e muitos ainda rolos de tintas vão ser precisos para as penas privilegiadas descreverem os horrores deste tempo. Em mim despertou a memória.  

Pouco a pouco foram surgindo lembranças longínquas, efeito da sobra de tempo e do laser. Este tão precioso e procurado tempo sobrou para todo o mundo. Houve um decreto do governo estadual proibindo alguém sair na rua. Coisa estranha! O dia todo em casa. Paciência acabou em primeiro lugar e agora todo o mundo gastando o juízo.  O queixume de “O TEMPO NUM INSTANTE PASSA” acabou, agora está é sobrando: “Não tenho tempo para brincar com os filhos. Conversar com o, ou a companheira ficou fácil”.

O COVID19 despertou muita gente, e a mim também. Foi seu lado bom. Em tudo há dois lados. É ter harmonia e boa vontade para conseguir ver. Estão completando 90 dias que não saio de casa. Ontem peguei o carro botei a máscara fechei os vidros e desci para ir ao consultório, passando pelo centro, vi a praia de Iracema. Fiquei triste, quase deprimido. A cidade semideserta, lojas fechadas, rapazolas com suas flanelas surradas acenando para os carros indiferentes. Pessoas tristes, com máscaras já gastas e suadas indiferentes uns aos outros. Recolhi-me, voltei para meu apartamento, agora mais gostoso. Surgiu assim o desejo de dizer o que senti nestes momentos e surgiu também o de recordar tempos passados, acho que para amenizar as dores do presente.   

Já se foram 85 anos destes acontecimentos. Monsenhor Tabosa nem cidade ainda era e sim um Distrito de Tamboril, a cidade sede, situada a 70 quilômetros de distância. Tudo dependia de lá, fato que deixava todos frustrados.  Verbas, mesmo poucas, quase por aqui não chegavam. Não havia prefeito. Era um indicado, chamado subprefeito.  No caso o Prefeito de Tamboril, a cidade   sede, era quem nomeava e escolhia a pessoa para reger com direitos absolutos o distrito subordinado. Já se votava naquele tempo, voto a bico de pena, bem observado e vigiado. O voto era o de cabresto. Houve, no entanto, uma época que nem eleições controladas havia, foi o tempo da ditadura do Getúlio Vargas. O coronel dizia o escolhido e este seu escolhido se tornava o representante legitimo de todo o povo. Conta-se até, a troco de prosa, que um eleitor mais sabido quis saber o nome de seu candidato. O coronel quase ofendido diz:  Cabra o voto é secreto.  São estórias repetidas que chegaram a mim depois de muito tempo.

Havia um lenitivo. Um padre morava, lá de modo permanente, que pertencia à Diocese de Sobral. Assim a autoridade civil era dividida pela religiosa que era mais amena e misericordiosa. Mais misericordiosa porque o representante do prefeito que comandava Mons. Tabosa tinha poder para prender e de soltar qualquer cidadão mesmo sabendo que estava cometendo uma arbitrariedade. O Padre interferia e era obedecido. O cidadão tinha alguma proteção. O padre apartava as brigas nos dias da feira aos domingos.

Num destes dias, 2 caboclos se pegaram de faca. Foi um rebuliço corre-corre daqueles. As moças e rapazes nestas épocas paqueravam neste mesmo local que ficava no barracão, local onde se vendia carne: Era o açougue. O Shopping da cidade o local mais grã-fino. Corre, chama o padre, senão o desastre vai ser grande, dois caboclos com faca um perigo mortal. Ninguém tinha coragem para se meter. Neste tempo eu era pequeno e mesmo se fosse grande, com certeza, não iria me arriscar. Padre estava na Igreja e veio correndo e com sua moral apartou a briga e ainda obrigou a fazerem as pazes. A Fé venceu.

A cidade ficava cheia de ambulantes vendendo milho, feijão, verde, verdura, rapadura, farinha, farinha d’água, beiju e tapioca, frutas da época manga, caju e o que desse algum lucro. Dinheiro era difícil, mais do que hoje, mas havia muita fartura porque não tinha para onde vender. Era a chamada FEIRA que ficava bem no meio da rua, ou melhor, da praça grande.  Foi um tempo delicioso.

A impressão que tenho é que volto a viver todas as aventuras maravilhosas que ficaram retidas na memória de criança. Não dava valor aqueles momentos, não sabia que eram tão preciosos num futuro longínquo. Pode servir de alerta. Quem sabe qual é o motor que faz sentir e viver o presente!!! Tinha um irmão, seu Zé, quase da mesma idade minha. Muito meu amigo e companheiro de brincadeiras e de choro. Ainda hoje recordo dele com o coração partido, com saudade daqueles dias felizes e brincadeiras inocentes daqueles tempos distantes. Tínhamos cada qual um carneiro, carneiro transporte, uma moto moderna. O do José chamava atenção de todo o mundo, acredite, marchava como um cavalo dos bons, braiava com passadas iguais e compassadas. A bride era um cabresto, que fazia a nossa “moto” fazer todas as manobras graciosas de um carneiro. Era todo branco. Um sucesso. Não dá mesmo saudade? É exagero?

Todos os dias montados em nossos carneiros íamos deixar as vacas leiteiras pela manhã na VOLTA DO RIO, distante um quilometro da sede. A Baia tirava o leite de todas bem cedinho. Baia foi criada lá em casa desde os 12 anos. À tardinha íamos buscar, todas com bucho cheios do capim verde.

Papai tinha muitas reses, gado miúdo e crescido e todos os anos, vinham do sertão principalmente no tempo de as secas pastarem na propriedade que possuía na serra. Lá permaneciam até que o inverno voltasse. Quando a pastagem diminua usavam a palma e o xique-xique. Uma trabalheira daquelas! Papai puxava os cabelos quando morria uma vaca e se queixava na nossa frente. Ficava triste demais.

Ainda hoje sou amarrado com dinheiro não sei bem se só por causa disto. Acho que não, mas pelo menos alguma coisa acho ainda que pode ter sido do trauma e da tristeza que sentia quando meu pai se queixava. Hoje vejo o que um pai ou uma mãe podem influenciar na formação de um filho. Uma parte da gente veio já pronta e outra criada por aqui mesmo.

Quem ainda puder pensar nisto é bem capaz de encontrar algum pedaço de razão. Lá em casa éramos oito: 3 homens e 5 mulheres. Não esperava, mas continuo por aqui, agora contando estas histórias, gostosas historias quase perdidas na memória. José, o Seu Zé e o Sebastião, um grande amigo, além de irmão, me esperam para recordar tudo isto no seio da eternidade. Monica e Franci, amigas do peito e de tantas recordações estão também junto a nosso PAI CELESTE. Estela Judith e Terezinha, curtindo aqui comigo este papo gostoso.  Fomos criados com leite, era leite de manhã, de tarde e de noite e queijo que vinha da fazenda: O SACO DO JUAZEIRO. Há pouco tempo, estive lá, faltou-me o fôlego. A casa, já em ruinas, fiquei triste. Tantas noites ali passadas. Pão de milho pela manhã, leite do peito da vaca. O curral das vacas bem pertinho. Lembro subia na porteira com medo do touro. Pronto para pular touro brabo, pensava eu, qualquer descuido e fim da brincadeira. Minha mãe gritava menino sai daí o boi te pega. Não queria conversa, saia correndo para o abrigo seguro do seu colo.

O açude estava intato. Lembro ainda hoje quando meu pai, junto com seus auxiliares, construiu aquela barragem. Foi a salvação para o gado. Ficava em frente à casa da fazenda, um pulo. O banho era gostoso, agua limpa, cristalina. Naquele sertão agua era difícil. Em Fortaleza também.  Todos os anos passávamos todos, o mês de férias escolares por lá. Leite mugido, tirado do peito da vaca, bem quentinho. Tomava dois copos


(*) Jonas Marinho Araújo, de Mons. Tabosa, é Betanista, Médico/Otorrino, casado com Maria Tereza Cavalcante Marinho Araújo, de Pedra Branca. Residentes em Fortaleza.

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