Recordações de Mons. Tabosa: MEU PAI – Texto de Jonas Marinho Araújo

Penso que não vou conseguir. A saudade bate primeiro. Recordações são muitas.

Era bem gordo e era chamado de seu Luís barrigudo. Pele alva, gostava de ficar com a barriga de fora por causa do calor.  Sua alegria era nata e, aonde chegava, acabava a tristeza. Achava isto uma delícia.

Todos os anos, na festa do Padroeiro da cidade, O MÁRTIR SÃO SEBEBASTIÃO, havia um leilão. Era promovido pelo padre para despesas paroquiais. Uma festa inesquecível. Eu vibrava principalmente quando papai comparecia para arrematar as prendas. As prendas eram doações dos fiéis, constituíam de carneiros, sacos de farinha, jerimum e outras coisas.  Traziam no lombo de jumentos de suas longínquas moradias. Todos queriam contribuir com o que conseguiam pela luta de seu trabalho. Prenda mais valiosa como um garrote era doação dos mais ricos, como por ex. do meu pai.

A cerveja era assim: Um copo, quem dá mais. Um audacioso dizia tanto para seu Luís não beber. Era o bastante. Papai dizia mais tanto para beber e a brincadeira ia longe. Dá para esquecer? A cerveja era quente e era bebida com gosto, ninguém reclamava e acho que nem notava. Começava cedo e ia até à meia noite. O leilão só acontecia uma vez por ano. E era no meio da Praça Principal, na avenida. A banda de música tocava o tempo todo. Era uma animação. Todos juntos, ricos e pobres, de pé ao redor da mesa enorme, cheia das ofertas.  Cada bolo de botar agua da boca. As mulheres caprichavam na feitura e no sabor. QUEM DÁ MAIS NO BOLO DE DONA FULANA? De dona TOTONIA? – minha mãe—e aí a rivalidade pegava fogo—e meu pai não deixava que ninguém arrematasse por preço baixo. Quanto mais rica a pessoa que fazia o bolo, mais caro ficava. As mulheres dos ricos caprichavam e ficavam orgulhosas comentando o valor de sua oferta. Santa rivalidade. Rendia dinheiro para a Paroquia.

A moçada ficava ao redor, paquerando, rindo à toa como é próprio da juventude. Muitas bancas de venda, café, bolo, manzape, tapioca e tudo o que era gostoso. Sempre comparecia por lá, ainda era pequeno, meu irmão mais velho preferia a companhia das moças. Papai me dava um dinheirinho, mirrado sim, mas servia, comprava de manzape. Eu era doido por manzape e, ainda hoje, quando por lá ando, compro um pedaço, mais para recordar do que para saborear.

Por último estive na serra e fui olhar como se fabrica. É numa trempe feita no chão, com lenha em baixo para o fogo. Na LAGOA VELHA todos os sábados, são feitos para vender na feira em MONSENHOR TABOSA. Não chega para quem quer. Certa vez, fiquei olhando, como se diz hoje ao vivo, como é a fabricação. Continua igual.

O padre saia alegre. Todos os homens importantes da sociedade compareciam. Nesta nossa terrinha havia uma descriminação que ninguém notava. Havia os da primeira classe e os da segunda. Todos admitiam e era absolutamente natural. Havia por ex. as festas da primeira que só eram frequentadas por estes e festas da segunda. As festas da segunda podiam ser frequentadas pelos da primeira e eram mui bem recebidos, mas estes da segunda, jamais podiam ir a uma festa da primeira. Apreciavam de longe. Como eu pertencia à primeira frequentei muitas boas festas da segunda lá no ZECA DA CUTA que ficava no bairro RABO DA GATA. As da primeira eram no clube MUÇAMBE, na zona nobre da cidade.

Papai era muito religioso e todas as noites rezava o terço com a gente e mamãe. Era na alcova, deitado na rede, mamãe na cama e a meninada de joelho no chão. Em baixo da rede ficava o seu cachimbo, para fumar depois do terço. O sono batia logo e todo o mundo cochilava. AVE MARIA cheia de graças, BENDITO É O FRUTO, continuava monótono. Lá pelo meio, papai se lembrava de que depois tinha que fumar, era costume. Maria, gritava, negra sem vergonha, prepara o café.  Continuava a reza interrompida: DO VOSSO VENTRE JESUS. Maria respondia da cozinha: Não sou fogo, mas caprichava e saia um café de primeira.

Tinha um quartinho no mercado central onde fazia os seus negócios. Vendia farinha e a gente ia entregar as sacas num armazém. Sempre gostei de rapadura e comprava da Serra Grande e me dava pedaços enormes. Mamãe não consentia aquilo era exagero e papai me levava meio escondido para apreciar o de que tanto apreciava. Seu Zé meu irmão acompanhava, mas quem se deleitava mesmo era eu. Hoje ainda gosto, mas a tal da idade e de uma tal de uma possibilidade de diabete me tornou bem mais moderado.

Nossos banhos de açude ficaram inesquecíveis. Nadava bem e me incentivava e assim brincávamos horas e horas neste lazer, vamos dizer bom demais. Era aficionado por banho frio. Lá em casa havia um tanque feito de cimento. Pela manhã, agua dormida era gelada, papai de madrugada ia e tomava aquele banho e, de longe, quando acordado me lembro dos seus gritos de prazer. Quando já médico e há pouco tempo visitei a velha casa, e não havia mais o tanque do papai.

Outra coisa me traz saudade. Mons. Tabosa, apesar de ficar situada numa serra, A SERRA DAS MATAS, naquele tempo muito fria, não produzia frutas. Tudo vinha da Serra Grande.  Aos sábados ia um caminhão comprar laranja e rapadura da Sussuanha, a melhor daquelas bandas. Vinham dois surrões cheios para nosso deleite da laranja mais doce do Ceará. Papai era farto chamava a gente e era o dia todo a chupar laranja. Porque certos gestos ficam tão retidos no consciente e inconsciente?

Os cangaceiros chegam amanhã foi a notícia do dia. Eram o terror do sertão. Não havia nenhum meio de comunicação, só um telegrafo feito aos gritos. Segredos revelados, toda cidade sabia de qualquer notícia que por ali chegasse. Papai chamou seus empregados que moravam nos sítios, deu-lhes armas uma espingarda das antigas, mesmo naquele tempo. Fechou as portas e janelas e nós todos dentro esperando, apreensivos para a luta prevista. Um sucesso de medo e de perca de adrenalina. Qualquer barulhinho, nossos capangas, armas na mão, a espreitar, pela janela semiaberta, a chegada dos fora da lei. Frustação geral: Era Fakes News. Nossos heróis saíram vencedores e só havia esta hipótese.

Gosto dele seu jeitão, sua alegria, seu carinho com a gente. Ia para o sertão nos chamava tomar banho nos açudes, comer rapadura na bodega, nos incentivando para a vida. Seu ponto fraco era quando morria uma rês- uma vaca ou um touro- me causava agonia. Tinha medo de ficar pobre e isto repercutiu em mim, quase até um dia deste. Quando fui para o Seminário e sabia da morte de uma vaca, dizia pronto agora tenho que voltar. Para Fortaleza, quando vim estudar o medo persistia e também na Faculdade. Como são esquisitos esses tempos de criança! Como são persistentes as marcas que deixam! Procurei não deixar marcas para meus próprios filhos, mas parece que as coisas neste campo são mais complexas.

Não havia papo mais profundo entre nós, nem eu nem ele, tínhamos capacidade para isto. A lei era o respeito, coisa boa, sim, mas pobre para formar um coração carente de tudo. Uma coisa ficou e de vital importância: O Amor e este amor que está sendo espargido nesta minha geração abençoada de 5 filhos bonitos e saudáveis.

Dr. JONAS MARINHO ARAÚJO, natural de Monsenhor Tabosa, estudou no Seminário da Betânia, em Sobral, é Médico Otorrinolaringologista, em Fortaleza.

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