Seminário de Sobral: UMA CASA, DOIS ENDEREÇOS, UM ÚNICO VALOR.

Nascemos e vivemos os primeiros anos de nossas vidas na casa dos nossos pais (Travessa General Tibúrcio, nº 249) e num segundo momento, na mesma casa de valores, em outro endereço, no Seminário Menor (no bairro da Betânia), em Sobral/CE, onde, o valor “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, se consolidou, enquanto aprendizado e prática de vida.

Francisco Henrique Pinheiro Ellery

Nossos pais: João Helly Ferreira Ellery e Djanira Pinheiro Ellery chegaram a Sobral em 1952, já com duas filhas: Hélia e Helenira. Em 1953 chegou Henrique (Cuico) e depois chegaram Helly, Maria do Carmo e Dalton. Portanto, uma família com o casal e seis filhos, sendo três mulheres e três homens. Todas muito queridos e amados.

Nos quinze anos em que fomos abrigados pelo calor afetivo e cultural da cidade, fomos guiados pelos ensinamentos e prática do Evangelho, segundo a Mamãe/Papai e Pe. Osvaldo.

Olhar, tratar e conviver com semelhantes em pé de igualdade, independentemente da condição sócio-econômica, racial ou de qualquer outra condição, foi o que brotou desta Casa comum em endereços distintos, onde Helly/Djanira, nossos pais, ao lado do Pe. Osvaldo, do Seminário Menor, e outros, escreveram uma extraordinária História de amor, que se irradiou em benefícios para todos nós, transformando o município em extensão da nossa Casa.

Para exemplificar como ocorria o aprendizado e a prática, relatamos aqui algumas vivências: Ler a bíblia, ir para a escola, rezar, ir à missa, conversar e brincar na calçada da casa com os vizinhos, no início da noite. Estas eram ações e ensinamentos, que se casavam com a escala de higienização do banheiro único, compartilhado entre a família e a empregada doméstica: “um dia os filhos homens, no outro as filhas mulheres e no seguinte a empregada doméstica”. Éramos todos iguais.

Desde a idade de quatro anos fomos, eu em particular, alucinados por futebol. Como ser um zagueiro vigoroso, resultava – às vezes – em conflitos físicos, isso determinava reações na nossa mãe, quando tomava conhecimento dessas ocorrências, como a que aqui registramos: “você não deve brigar com ninguém, se for obrigado a isso, que nunca seja pelo outro ser pobre ou preto, pois se essa tiver sido a motivação da desavença, não sei qual será o resultado final da batalha, mas aqui em Casa você irá apanhar”.

Nominamos aqui, pelo cognome, o nome incompleto, a grafia errada, mas muito amor e carinho, pessoas que protagonizaram parte considerável das construções das nossas vidas, certos de que pessoas de igual importância deixarão de ser citadas: Sr. Lulu e as professoras Da. Iracema, esposa, Lucema e Rejane, filhas; Dr. José Nilson e Da. Vilma, esposa, filhos Ana Maria, Socorrinha, Gorete, Zé Modesto, grande amigo de infância, Zé Nilson; Dr. Bernardo, nosso vizinho; Airton Rocha e Da. Nicinha, esposa, e os filhos Graça, Ida, Rosinha, Binga, grande amigo de infância, Pedoca; Sr. Aluísio e Da. Leda, esposa, Gerim, os filhos Menca, Expedito e irmã; Sr. Arão e esposa, Deeto, Aluisio… filha(o)s, Sr. Abelardo e Da. Hilza (esposa), Carlos, Abelardo, Raimundo, Sonia, filha(o)s e tantos outros, que se perpetuaram em nossas mentes e carinhoso espaço no coração, como dezenas e dezenas de outra(o)s sobralenses natos ou não.

Em 1965, cremos, fomos (eu) para o Seminário Diocesano de Sobral – Seminário Menor – Seminário de Dom José, bispo e ator exponencial da História sobralense. Foram dois anos de vida compartilhada com os colegas seminaristas, padres, freiras e a (o) s trabalhadora (e) da Casa.

Também aqui nominamos algumas pessoas: Zezinho Frota, Pimpão, Juarez e Zé Maria Leitão, Raimundinho (hoje querido vizinho, em Eusébio/CE), Lucivaldo, Isaac, Aguiar Moura, Lucivan, Pe. Osvaldo Chaves, Mons. Sadoc e Fontenele, Pe. Lira, Tupinambá, Manfredo, Irmã Hermenhild, os bispos Dom Walfrido e Dom Mota, como irmãos parceiros nessa maravilhosa aventura terrestre, onde exercitamos o aprendizado de descobrirmos nossos erros, fazer do aprendizado um vigoroso elo de amor ao outro, irmanados na solidariedade e generosidade plenas, transcendendo os limites das relações interpessoais e religiosas, irradiando-se pelas águas, árvores, animais e toda a energia cósmica, tendo Deus como coordenador de toda essa brincadeira.

Ver e viver segundo o que se citou acima exige um exemplo prático de Escola, com mestres afinados com os valores cristãos, ecumênicos e humanos mais nobres e plebeus. Assim, escolhemos uma Historinha, tendo por ator principal o Pe. Osvaldo, para, em nome de todos nós, mostrarmos a pregação e prática de tratamento igualitário e justo, guardando uma coerência sólida entre o idealizado verbalizado e a ação concreta no dia a dia.

Em sala de aula, o Padre que se absteve do acesso a bens materiais, além do essencial, embora a exuberância do saber o habilitasse, para diferenciar-se do povo. Optou por igualar-se. Exigia que, ao se interromper uma aula, que se pedisse licença: em primeiro lugar à turma e, em segundo lugar, ao professor. Um dia chegou o superior hierárquico, adentrou na sala de aula, sem pedir licença, e passou a repreender severamente os alunos, por traquinagens ocorridas no Seminário. Então, ocorreu o seguinte diálogo:

Superior Hierárquico: SH;

Pe. Oswaldo: PO.

SH – Tomei conhecimento

PO – Por favor, caro …, retire-se e peça licença para interromper a aula.

Silêncio, recomposição de humores, SH retira-se da sala de aula, fecha a porta. Depois, bate à porta, com toques sutis e…

SH – com licença turma, com licença Pe. Oswaldo.

PO – queira nos honrar com sua presença. Vamos receber uma das maiores autoridades intelectuais e eclesiásticas de Sobral, da Igreja, …

Assim foi reintroduzido o nosso SH na sala de aula.

Naquele momento, à grandeza do Professor sábio em conhecimentos, reafirmou-se a coerência de um Homem fiel, na prática, à justiça e igualdade entre todos, independentemente do poder ou do ter.

Este sábio de conhecimentos e da opção preferencial pelos pobres (depois soubemos, pela irmã Helenira, que – em diferentes espaços – esta opção era muito compartilhada com o Pe. Albani) jamais perdeu a estima e generosidade por todos os filhos de Deus e com isso nos deixou o legado que hoje, após décadas de distância da Betânia, nos instigam a estarmos tentando ser melhores: “amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, não apenas na hora da missa ou do discurso, mas nas ações do dia a dia.

Contamos uma historinha ocorrida durante a militância popular, num evento em São Paulo/SP, num congresso do movimento sindical bancário, para ilustrar a importância do Seminário em nossas vidas. Um dos oradores, diante de uma plenária, com mais de 300 pessoas, reportou-se ao nosso nome, levantando a hipótese de que nós (eu) deveríamos ser profundos conhecedores da Teoria Marxista, para sermos tão convictos sobre o socialismo. Ao acessarmos ao púlpito/microfone, diante da mesma plenária, nos referimos ao reporte, afirmando para toda (o) s que conhecíamos Karl Marx de poucas e superficiais leituras, mas que a citada convicção vinha do Evangelho de Jesus Cristo, segundo a Mamãe e o Pe. Oswaldo. Houve muitos risos.

Assim, a nossa passagem pela vida tem sido composta pelo encontro com essas pessoas maravilhosas; seis fantásticos filhos; uma Terra que pede nossa ajuda e compromisso para continuar viva; uma passagem pelo BANDECE (Banco de Desenvolvimento do Estado do Ceara – depois BEC – hoje Bradesco), uma pela UFC, uma aposentadoria pelo Banco do Brasil, como o meu pai (quase 30 anos de atividade laboral); uma militância sindical longa e, acreditamos vigorosa, Sindicato dos Bancários do Ceará, popular (CUT), partidária (entre os 100 primeiros filiados ao PT, no Ceará, eu), formação superior em Agronomia; muitas partidas de futebol jogadas, e, finalmente, perene tentativa de ser fiel e coerente com os ensinamentos, afetos e dignidade diante das dores sentidas pelos outros e por nós mesmos.

A Casa foi UMA: onde o se ensinar e se viver a solidariedade foi a identidade da moradia; os endereços foram DOIS: a casa dos nossos pais, na Travessa General Tibúrcio, nº249 – hoje do Sr. José Tupinambá da Frota e o Seminário Diocesano de Sobral – Seminário Menor de São José, na Betânia; UM valor: o amor a Deus e ao próximo, como a nós mesmos.

AGRADECIMENTOS.

A toda (o) s que estão conosco caminhando em busca de Deus ou que a Ele já chegaram. Mais uma vez gostaria de citar nomes: a (o) s amada (o) s filha (o) s: Paulo Henrique Mamede Ellery, Luiza Amélia Mamede Ellery, Mario Helly Mamede Ellery – o Marcelo, o Marcelinho (10/5/1984 # 24/4/2012, que optou por ir ao encontro de Deus, muito cedo, 70 dias antes do nosso pai Helly, com apenas 27anos. Foi o reverso de um parto, uma dor monumental, uma saudade profunda e renitente, dentro de um novo mundo, onde a resignação e a busca pelo riso e a alegria tornaram-se desafios Hercúleos), Marilda Oliveira Ellery e Vinicius Oliveira Ellery; nossos queridos pais  Helly Ellery e Dejanira (28/5/1995 e 4/7/2014); Irma(o)s: Hélia, Helenira, Helly, Maria do Carmo e Dalton; esposa, ex-esposa:  Jaqueline Honório de Oliveira (amor que, segundo os nossos filhos, nos está suportando – o que não é fácil – até hoje) e Regina Fátima Mamede Ellery; neta(o)s: Sarah Medeiros Ellery, Ian Medeiros Ellery e Maria Fernanda Holanda Ellery; nora: Mariana Monte Holanda Ellery; genro: Fernando Herta Bolsas;   e a(o)s nova(o)s irmã(o)s maravilhosamente doados por Deus aqui na Terra: Renata Mamede, Luis Carlos Mamede (grande parceiro de juventude, Banco do Brasil, como jogador de futebol, mesa de bebida, sindicato, partido político, etc.), Paulo Mamede, Maria Amélia Mamede, Fernando Oliveira, Ciente Oliveira, Vianda (Vida) Oliveira, demais Oliveiras e, finalmente, Pe. Oswaldo Chaves.

A todos a nossa mais profunda gratidão por se terem permitido viver conosco alguma etapa desta aventura e um grande abraço no coração.

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