VELHO LICEU (I) texto de Jonas Marinho Araújo

Meu Liceu dos 18 anos. Quanta saudade e recordações! O mesmo prédio, o mesmo piso, janelas e portas com o mesmo estilo. Mais de 70 anos se passaram. Lembranças esmaecidas pelo tempo, algumas insistentemente presentes como a pedir clemência: Não me esqueçam.

Talvez o tipo mais conhecido de todos os alunos era um Bedel. Quando lá cheguei já era antigo e bem famoso. É pena, muita pena, não me lembrar nem mesmo do apelido. Este era o nome do encarregado da disciplina, era uma autoridade. Um funcionário humilde, mas cônscio de sua responsabilidade.  Austero e todo o mundo o obedecia.

O nosso herói recebia do diretor toda a força necessária para manter a disciplina. Tipo simpático trajava uma farda própria e se achava a própria autoridade. Olhava classe por classe para notar alguma indisciplina ou falta de respeito ao Professor. Este dava sua aula tranquilo, certo de que ninguém o interromperia em sua dissertação.

Liceu do Ceará

O LICEU era o mais famoso colégio do Ceará por ele passaram as maiores autoridades e as inteligências mais privilegiadas. O Magistrado muito bem pago. Os maiores e melhores professores faziam parte do seu corpo docente. Só passei para estudar por lá porque o ensino do Seminário era bom demais. Uma espécie de Vestibular. Não passei em matemática. Uma diferença pequena, décimos, mas como nas outras matérias fui bom de sobra fui aceito.

                Mocidade por si é leve, a vida lhe corre suave. Uma ocasião um jovem começou a etiquetar com um seu colega de turma. Todo dia a mesma coisa: “Ontem sonhei com tua mãe. ” De tanto repetir o mesmo insulto com sua mãezinha resolveu contar ao nosso Bedel. Este se indignou. “Chamou o insolente e lhe deu a sentença, sentença fatal: ” NÃO ME SONHE MAIS COM A MÃE DESTE MENINO”. Se você me sonhar de novo com a mãe deste menino vai ser expulso, viu? Foi agua na fervura. Nunca mais nosso amigo teve aquele sonho tão persistente.

                Estudei 4 anos e de lá parti para fazer vestibular de medicina na Universidade Federal do Recife. A maior aventura de um jovem cheio de dúvidas e incertezas do seu futuro.

                Todas as tardes pegávamos um bonde até a PRAÇA DO FERREIRA. Era um bonde elétrico. Todo aberto uma delícia. Ligado a uma rede elétrica que ficava no alto era facilmente desmontável. Levava quase uma hora para chegar. A gente desligava a eletricidade e o nosso transporte parava. Ninguém dizia nada ERA COISA DOS ALUNOS DO LICEU e riam da brincadeira. É bom lembrar que sempre íamos a pé e fazíamos como desforra porque nem sempre tínhamos dinheiro para pagar o nosso transporte elétrico e moderno.

                Lembro-me de um professor de inglês que chegava para a turma e dizia: A nota de todo o mundo vai ser três e quem não quiser eu examino.  Ai, quem quisesse ser examinado, sempre levava um zero. Nunca recusei a oferta melhor três do que zero. Porque ficam gravadas por tanto tempo fatos aparentemente insignificantes!!!  Pode servir de alerta para os que passam por estes momentos pensando que são tolices, simplesmente tolices que logo serão esquecidas. Às vezes, ficam retidas, mas como são gostosas de recordar!

Jonas Marinho Araújo, natural de Mons. Tabosa, Médico Otorrino, em Fortaleza -Ceará

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *