Mês: agosto 2020

Muito do meu comportamento foi herança do que aprendi no Seminário

Nasci no município de Ibiapina, na majestosa Serra da Ibiapaba que une o Ceará ao Piauí. Uma encantadora região, especialmente abençoada por Deus para produzir tudo. Minha cidade fica exatamente no meio, entre os nove municípios da região.

Filho de Pedro Aragão Ximenes e Maria Eulália Lima Aragão. Meu pai era comerciante, proprietário de uma loja de tecidos e minha mãe era responsável pelos afazeres domésticos, que não eram poucos, pois tinham 13 filhos.

Antônio Renato Lima Aragão –Na Betânia 1947/1948

Meus primeiros professores foram os dos Grupos Escolares Municipais que, infelizmente, não me recordo os nomes.

Minha mãe e meu pai eram católicos fervorosos. Todos os dias, antes de dormir, a família se reunia para rezar o terço. Daí porque todos os filhos foram seguidores dos preceitos religiosos cristãos. A maioria estudou em colégios católicos, em Fortaleza, Tianguá e Sobral, e três filhas se tornaram freiras.

A minha mãe tinha um grande desejo de ter um filho padre, daí porque colocou quatro deles em seminários. Mas, apesar dos esforços, nenhum seguiu a vocação sacerdotal a ponto de torna-se padre.

Entrei no Seminário Diocesano de Sobral, em 1947, permanecendo até 1948 e, como todos os que tiveram a felicidade de lá estudar, guardo as melhores lembranças. O que mais me marcou no seminário foram, na verdade, os ensinamentos religiosos, morais e humanos recebidos. Inclusive, guardo-os até hoje. Muito do meu comportamento foi herança do que aprendi no Seminário. Tenho boas recordações de professores como, Pe. Arnóbio e, principalmente, do Reitor, que era o Pe. José Osmar Carneiro.

Por sinal, ainda guardo comigo um Boletim onde estão registradas as minhas primeiras notas no Seminário, de fevereiro de 1947, com a assinatura do Reitor Mons. José Osmar Carneiro. Como se pode observar, nas quatro primeiras, Procedimento, Aplicação, Civilidade e Asseio, eu era muito bom. Nota dez em tudo. Em Doutrina Cristã, tirei um 8; Em Português 4 e ¾. Não cheguei a um 5. Em compensação quase chego a um 10 em Latim. Foi 9,1/4; Matemática: 7,5; Ciências Físicas e Naturais: 6,5; Na Geografia parece que já se anunciava uma tendência, com a nota 8; História da Civilização: 6.  Na Música, já se via que não era meu forte, embora ainda hoje guarde a música da D. Carminha: 4,5. Felizmente nenhuma reprovação.

Também me lembro bastante, das visitas que fazíamos em Sobral, aos sábados, às igrejas da cidade. Era aquele desfile de seminaristas, todos de batina preta, em fila, pelas ruas de Sobral. Aquilo também despertava a atenção de outros meninos e de suas famílias. E depois voltávamos para Betânia, onde ficava o nosso Seminário.

Uma lembrança que ainda guardo comigo era o passeio anual que fazíamos à Serra da Meruoca, em companhia de Dom José. Lembro-me, também, que Dom José pedia a uma senhora, já de idade avançada, chamada Dona Carminha, que cantava, penso que em francês, com alguns que lembram o alemão. Não se sabe a origem da música e, muito menos, como D. Carminha aprendeu lá na Meruoca. Mas de tanto ser repetida, na minha cabeça ficaram os sons que, ainda hoje, estão gravados.  Como D. José era poliglota, certamente sabia de que se tratava. A seguinte canção ainda hoje me vem a cabeça:

 “Bin von sec, le vin e bon, ge gru gru de le le fon fon, bin von bin von ge tic tic le vin e bon”.

Como nem no Google consegui descobrir, fica aí o desafio para os contemporâneos que talvez tenham melhores informações sobre a origem da canção.

Saí do Seminário, na verdade, porque não tinha vocação para o sacerdócio. Em seguida, fui para o Colégio Sobralense, como interno.  Era dirigido pelo Monsenhor Aloísio Pinto.

Posteriormente vim para Fortaleza, onde estudei no Liceu do Ceará e formei-me em Geografia, pela Universidade Estadual, onde fui professor. Fiz concurso para o órgão da SUDEC – Superintendência de Desenvolvimento do Estado do Ceará, e posteriormente, fundei a Superintendência Estadual do meio Ambiente- SEMACE, onde fui Superintendente por 12 anos. Atualmente, sou Gerente do Núcleo de Meio Ambiente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará – FIEC.

Sou casado, há quase 50 anos, com Betty Costa Aragão, maravilhosa esposa e mãe. Natural do estado de Roraima, me deu dois abençoados filhos: Maria Eulália Costa Aragão, técnica concursada da SEMACE e Raphael Costa Aragão, engenheiro da CAGECE, os quais me deram dois netos, Eduardo e Gabriel.

Como lazer tenho uma casa em Guaramiranga onde me reúno com a família e amigos e tenho feito viagens. Já fiz várias, a última foi visitando todos os Santuários Marianos da Europa.

Barbosa, meu amigo Barbosa!

ntrei no Liceu do Ceará sem conhecer ninguém. Vinha do Seminário de Sobral. Ano de 1.946, 16 anos. Primeira saída de casa para a clausura do Seminário em Sobral. Criado entre serras, sem transporte e estradas, já vivia numa solidão, ilusão de liberdade! Ai, parti para um regime de internato, a mesma situação, o mesmo desolamento, mudou apenas o local.

Dr. Jonas Marinho Araújo e Maria Tereza

Prédio enorme, pessoas estranhas. Caras fechadas, muita disciplina, rigidez própria da época. Refeitório grande para muita gente. Dormitório em camas paralelas quase se tocando. Horário rígido de quartel. O mundo para mim girava em torno de dogmas, de verdades absolutas, coração de criança do interior. A capital era um sonho, possibilidade rara onde podia obter conhecimentos e me salvar de uma vida limitada demais do sertão onde nasci.

Mons. Tabosa. Serra das Matas. Longe demais e muitas vezes ouvi: Aqui é o fim do mundo. Clima frio, quase muito frio, propício para o recolhimento. Todo o mundo agasalhado. De manhã cedo, hora da missa, as pessoas encolhidas se largavam céleres, queixos batendo, para ouvir a prédica da salvação. Minha mãe não perdia uma missa das 5, saia sozinha com seu chale no pescoço. Possuía uma cadeira cativa na Igreja e quando agora estive por lá, sua cadeira não estava mais, só o local que não me saiu da mente. Aquele clima gostoso nunca saiu do meu pensar. As pessoas, os tipos próprios de cada lugar, as amigas de minha mãe. As casas, os momentos vividos por aqueles locais. Meus amigos de brinquedo! Por isso que o poeta canta: “Ó que saudades que tenho…”!  O sol se fazia furtivo e muitas vezes passava de 7 ou mais dias sem mandar seu calor para aqueles corpos ansiosos e amortecidos pelo frio.

Nossa casa ficava bem no centro de tudo: Igreja, na mesma praça, um pulo, bem pertinho. Mercado, do outro lado, podia-se quase ouvir o lamento dos donos de lojas para vender seus produtos. Ainda, a chamada Avenida, onde a mocidade se reunia aos domingos e noites de festa para trocas de olhares e quando muito até um aperto, um abraço às escondidas e furtivamente um casto beijo na face. Vez ou outra volto lá.

Chegando hoje naquele mesmo local, fico a maturar a causa de tanta mudança. Tudo diferente, residências construídas no meio da praça, casas comerciais, um galpão para feira livre. Até a sede da Prefeitura. A bela praça, a grande praça do meu tempo, acabou. E o Tempo mudou. Quente, seco, poeira em abundância, sem vento e muito sol.

Olhando para o horizonte observei, horrorizado, que acabaram com as matas. As fruteiras sumiram, nem mesmo os pés de manga, tão em abundância. O homem destruindo seu próprio lar. Os riachos secaram. Queimaram tudo. Tudo tristeza, desolação. As secas vieram como vingança, a terra torrou, virou pedra, perdeu seu viço. Insensível a seu dever o homem chora pedindo a Deus e a São Sebastião que faça chover, que tenham piedade. Fazem procissões e vêm os frades franciscanos fazer retiro e rezar, rogando misericórdia. Outra seca agora bem mais viva. Clamor! Ninguém nos ouviu. Os céus nos abandonaram! É a cegueira e a festa dos que poderiam esclarecer a causa de tanto sofrimento.  Falam até em indústria da seca! 

Enfrentar uma capital com todos os seus mistérios foi um desafio quase intransponível. Um dilema, uma aventura. Sonhei vezes repetidas, procurando prever o que encontrar naquele mundo desconhecido. Soube de edifícios enormes, até chamados de arranha céus. O mar misterioso, diziam não se via o fim. Lojas enfeitadas todas como se fosse festa de S. SEBASTIÃO. As casas de morada tinham dois andares, luz elétrica e até vitrolas tocando o dia inteiro. Quis desistir! Procurei ajuda dos céus, recorri a nosso padroeiro, confessei os meus pecados e estou contando a história.

Subi no velho caminhão ainda em cima duma carrada de mamona rumo a meu destino. Raciocinei assim: Se PEDRO ALVARES CABRAL descobriu o Brasil em cima daqueles pobres barcos, por que eu não? Por que não? Repetia. Por que ter medo de descobrir Fortaleza? A coragem voltou, a força da razão ganhou. Desci do meu querido transporte numa pensão, situado à Rua Senador Pompeu. Tudo diferente, um horror de gente, gente bem vestida, mais de um jipe nas ruas. Movimento nunca visto estava querendo me assombrar. Hospedei-me, acalmei minha cabeça tomei um banho. As coisas foram se acomodando. No outro dia de manhã me aventurei e fui até o fim do quarteirão, parei, vi que a cidade não tinha fim, era grande demais. Voltei. Várias tentativas depois, já estava dominando as ruas e sabia já andar em Fortaleza! Triunfo afinal. Por fim meu pai alugou uma casa onde fui morar com minhas irmãs.

Consegui, a duras penas, uma vaga para estudar no LICEU. Colégio muito solicitado, melhores professores, o de maior prestígio em matéria de ensino. Telegrafei a meus pais anunciando a minha vitória, estava matriculado e as aulas iam começar. Enfrentar nova realidade, outros costumes, conhecer pessoas de todas as partes, fazer amizade, estudar com afinco. Um misto de incertezas, medo e de curiosidades. Que colegas encontrar, se havia trote e como conviver com professores catedráticos de tanta fama e prestígio. Drama de todo jeito. Cheguei lá. Meu nome matriculado chegou à realidade, a dura realidade! Agora é enfrentar.

A sorte não me deixou! Entrei na sala de aulas, sentei-me perto de um desconhecido. Mesma rotina todos os dias e terminei a conversar mais alegre com o meu companheiro. Surpresa: Encontrei um matuto igual a mim. Conhecia o vocabulário do sertão com uma diferença vital, era um matuto civilizado, proveniente de uma cidade perto da cidade grande. Conhecia alguma coisa do mundo. Puro acaso se é que ele existe. Seu nome Francisco Ibiapina Barbosa. Matuto bom de papo, um achado! Foi um alívio! Conversa vai, conversa vem, senti que gostava dele. Morava perto de mim e todos os dias por força do casual fazíamos nosso roteiro a pé rumo ao nosso LICEU. Mais curioso do que eu, perguntava sempre onde eu morava e se era só, quem fazia minha comida, coisas assim de gente do interior. Cada vez aumentava nossa amizade, aquela conversa fiada fazia parte de meu vocabulário.

Fui conhecer sua casa e ele também foi conhecer a minha. Apresentei a ele minha irmã. Ficamos conversando algum tempo. Voltamos a nossa rotina assistindo as aulas. Eu não conhecia ninguém, mas ele tinha um amigo que era professor de Inglês, o professor Deoclécio e isto lhe dava muito prestígio. Nosso conceito subiu diante dos outros alunos. Éramos conhecidos de um professor, falava com a gente como parceiros. Pouco a pouco nos firmamos e dominamos os costumes e fizemos muitas amizades. Aquele jeitão de gente do sertão do meu companheiro e aqueles meus hábitos do Seminário, por tabela, foram sendo esquecidos, substituídos por outros mais modernos.

Um tempão alegre, solto! Todos os dias no fim das aulas, em tropa, nos largávamos até a PRAÇA DO FERREIRA, cantando guarrachias, um canto alegre não sei de onde. Escurecia e a gente lá. Dinheiro curto não dava para cinema. Tempos inesquecíveis! Depois de muitos anos encontrei colegas desta época. Compenetrados, recordávamos, com saudade, momentos que já se foram. Quatro anos passaram ligeiro. Vestibular, a fera a nos espreitar. Decidi Medicina, mas antes tive que servir ao Exército no CPOR. E Barbosa?

Pois é, começou frequentar lá em casa, inventava qualquer motivo. Ora queria beber água, tinha esquecido por lá um livro e não sei mais o quê. Comecei a desconfiar. Adulava-me e pagava merenda, uma amizade danada. Quando cuidei o homem estava era apaixonado.

D. Monica não era de brincadeira, cabelos longos, muito bonitos, alegre, fala franca, pernas grossas e que rebolado possuía!  A pele era de veludo, um rosto modelado parece feito a pincel num molde de porcelana. Olhar franco, vivo, transmitia paz e confiança. Flechas de amor, de bondade, bondade pura das moças do sertão. Sua simplicidade, em transmitir seus sentimentos, era cativante, notada à flor da pele. Barbosa captou de relance todo aquele tesouro imaculado. Vivo demais e de uma inteligência rara impossível ficar indiferente diante de tanta abundância.

Mônica, minha querida irmã, na minha análise puxou a sinceridade da mamãe e a alegria do papai. Para onde fosse, levava alegria, não havia tristezas a seu redor. Nas festas em seu tempo de menina, recitava, fazia drama, representava, fazia qualquer papel para que lhe fosse solicitado. No nosso tempo, eram comuns as representações artísticas geralmente de temas religiosos, realizados no salão paroquial. Os chamados dramas. Toda a sociedade tomava parte e nos dias de representação era uma festa. Vigário e outras autoridades todas presentes. As artistas vibravam com as palmas recebidas e cada vez mais se aprimoravam na arte de representar. Uma atração muito aceita por todos. Geralmente aos domingos à noite.

A Igreja e o Padroeiro de Mons. Tabosa -Ce.

Tomava à frente das festas do padroeiro São SEBASTIÃO, organizava a procissão. Para o leilão tomava partido. Eram dois: O Azul E O ENCARNADO. A finalidade arrumar prendas junto à população e assim iam, de casa em casa, dentro e fora da cidade. Prendas para o leilão. Quem dá mais? O grito de animação dado para que os presentes arrematassem. Dinheiro para a IGREJA. Uma rivalidade sadia às vezes o AZUL ganhava no lucro, às vezes o ENCARNADO, o mesmo fim, a intenção sadia prevalecendo. Monica crescia em beleza externa e interna num vaso de alabastro. As quermesses, como eram animadas com o mesmo fim, faziam parte das festas de S. SEBASTIÃO. Vendiam guloseimas, a meninada adorava. Agoniava os pais pedindo dinheiro para gastar com as novidades e os brinquedos. Não sobrava nada. A coisa que não tomava parte era na corrida de cavalos. Partia do Cemitério até o centro uma farra dos donos de cavalos bonitos e fogosos.

Beleza e simpatia numa jovem, não há coração que não caia. Vou dizer nunca vi alguém mais doido por outra como o meu amigo. Homem apaixonado saia da frente! Vou fazer ODONTOLOGIA, me confessou. Eia, não era MEDICINA?  Retruquei na hora. É mais curta.  Vou me casar com sua irmã foi sua resposta curta e seca. Caí o queixo. O homem estava mesmo caidinho, deixou de fazer de Medicina, trocou por Odontologia. Por nada não, só para terminar mais cedo, e se casar logo. Quatro anos em vez de seis. Se tivesse engenho e arte como disse o poeta, para saber contar este romance, faria um POEMA DE AMOR! 

Inteligência rara passou bem no vestibular. Curso brilhante, muito estudioso dominou logo toda a matéria. Não se tornou PROFESSOR, porque teve uma desavença com o Diretor, o Dr. Torquato.

Chegou o dia, chegava ao céu: Casou-se com sua amada. Amor comovente! Acompanhei de perto seus momentos de ternura. Dava a impressão que voava, vivia num sétimo céu. Ria atoa e saltitava muitas vezes sem causa e motivo aparentes. Ali estava aberto um livro mostrando a força do amor. Bastava só apreciar. Tornaram-se um só corpo e uma só alma, origem de irmãos gêmeos numa eternidade sem fim. Nossa amiga logo notou e gostava. Desconfio: Muitas vezes se fazia de dodói para receber mais e mais palavras doces e dolentes.

Uma ocasião, já muito tempo depois, estava no SITIO LAGOA VELHA, EM MONS TABOSA. Eu, Gilberto, meu cunhado, Barbosa e Monica. Estávamos no alpendre apreciando o tempo e avistamos D Monica, ao longe, comendo sem pena e piedade uma tapioca e não sei o que mais. Barbosa gritando aflito: Minha filha o seu remédio. Gilberto olhou para mim, deu uma tossidinha e sorriu com a mão na boca. Disse será D. Monica? Respondi sim.   E ele na hora: Porque: Doente? Doente com este apetite, ela não está não.  Fiquei em dúvida até hoje.

Alugou casa, montou consultório. Trabalhava ligeiro para voltar logo e nunca mais sentiu tristeza. Se precisasse de alguma coisa a qualquer hora ia buscar em qualquer parte. Com tão ardente amor só podia nascer uma prole tão especial. Não se perdeu nenhum cada qual o mais solidário, o mais humano, os mais ensinamentos de Jesus. 

 “Uma ocasião nos encontrávamos por lá” eu e Sebastião e começamos a tomar de leve uma cervejinha. Barbosa trabalhava fora, em Palmácia aos sábados e chegava aos domingos. Tirou o nosso couro estávamos melados. O nosso IBIAPINA BARBOSA era um gozador impossível perder tão boa oportunidade.  Sebastião já deitado numa rede começou a falar de uma paquera antiga. O sono vindo, mas não esquecia o nome da sua querida. Repetia, molemente, até adormecer e talvez sonhar com um amor escondido no fundo de sua alma. Foi o papo do dia seguinte. Dois amigos, dois irmãos!

Morou primeiro na Vila S. José, no Jacareacanga. Passei por lá, nestes dias, reconheci a casa. Parei, desci do carro, duas lágrimas quentes surgiram de repente. Hospedei-me ali muitas vezes quando vinha do meu sertão, já médico, visitar a capital. Estive lá a convite do dr. POLICARPO, seu primogênito que, saudoso, me pediu para mostrar a primeira morada de seus pais.

Uma raridade na espécie humana! Muitas qualidades numa pessoa só! Confunde. Quando, prematuramente, partiu para outra dimensão não consegui me comover. Não chorei. Fiquei intrigado, éramos amigos dos tempos do Liceu. Descobri enfim: Foi tão generoso com o outro, tão solidário, que deixou aqui na terra a sua essência: O amor incondicional!

Logo que terminei meu curso de Medicina, em Recife, fui morar com meus pais em Mons. Tabosa onde passei 4 anos. Vida solitária demais não aguentava ficar por lá muito tempo sem uma saidinha. Quase todo o mês vinha a Fortaleza e era para a morada de d. Monica e Dr. Barbosa que me vinha e me hospedava nada de cerimônia. Tratado como se eu mesmo fosse o dono era assim que recebiam qualquer hóspede. Agora me lembrei da piada do coronel: Já muito velha, mas gostosa.

Chegou à casa de um coronel lá do sertão um pessoal do Banco do Brasil. Naquele tempo uma novidade e uma honra. O banquete de tirar água da boca. Coronel: o Sr. recebe muito bem aqui em sua casa os convidados, parabéns. Aí é que foi, o Coronel se aprumou na cadeira da cabeceira e disse inocentemente: Aqui na minha casa recebo todo o mundo muito bem por mais vagabundo que seja.

De tanto frequentar aquele meu segundo lar, tornei-me dono e eu mesmo não sabia se estava em minha própria casa. Aquela cativante maneira de me tratarem, firmou mais ainda uma amizade até nestes dias. Deus já os chamou e os mesmos laços de amor persistem numa prole de beleza e de amor herdados de tão rica fonte. Seus filhos, feitos da mesma energia, continuam transmitir paz e harmonia. Parecem possuir o dever de transmitir e de disseminar aquelas lições de harmonia e de paz de um lar feito de amor.

Pouco a pouco, praticando a sua profissão, o mundo foi conhecendo a grandeza daquele doutor tão abnegado. Trabalhava duro o dia inteiro no consultório e aos sábados e domingos, dava assistência aos mais necessitados que morassem no interior. Atendia a qualquer pessoa, não cobrava de ninguém. O cliente teria que tomar a iniciativa perguntar quanto devia. Alguns se aproveitavam e, mesmo podendo, só faziam agradecer. D. Monica danava-se e eu também. Era da sua natureza. Esta sua maneira de agir parecia mesmo nata, pois se alguém dele necessitasse dia ou noite abandonava tudo e ia ajudar.

Uma ocasião quando já morava em Fortaleza, Marcelo meu primeiro filho adoeceu. Morávamos numa casinha no PARQUE ARAXÁ. Febre não cedia, criança definhando, mesmo bem medicado. Ajudei o que pude, mas mole de natureza aguentei pouco tempo, fiquei a puxar os cabelos de aperreio. Maria Tereza depois da segunda noite esmoreceu. O nosso caridoso soube e se largou, fumou três carteiras de cigarro só na primeira noite e mais três na segunda e Marcelo escapou. Deu-lhe soro oral por duas noites seguidas de hora em hora. Obrigado Dr Barbosa, valeu a pena eu tanto alcovitar. Ele dizia para todo o mundo que eu alcovitava o seu namoro com minha irmã. Gaiatice.

Vivia fora do tempo e do espaço. Quando folgado de dinheiro trazia quase a feira toda para casa, era comida para toda banda. São pormenores que não dar para esquecer. Se metia a consertar tudo. Saia a marmota maior do mundo, mas funcionava era o que interessava. Botou uma bica para os banhos de chuva, um cano de esgoto dos antigos de bem um metro de comprimento e sabe onde? Bem de frente a casa. Água muita quando chovia era uma festa. Podia até ficar feio, mas funcionava.

Barbosa, meu amigo Barbosa, de tudo entendia, Muitas vezes desconfiei que era lorota, mas não era e sim se tratava de um sábio. Deixou-nos cedo demais, sua personalidade continua numa prole para a eternidade.

Texto de JONAS MARINHO ARAÚJO, de Monsenhor Tabosa, Médico Otorrinolaringologistas, em Fortaleza – 26/08/2020

Literatura Cearense

O ROMANCE E OS PERSONAGENS, de Eudes Sousa

Segundo o filósofo Lukács, as narrativas da história antiga, os mitos da Idade Média e os relatos chineses e indianos, teriam sido os precursores do romance histórico. Referindo-se à informação histórica e o passado apresentado como realidade acabada. Mas, aqui não queremos nos confrontar com o filósofo. No romance, o nosso confronto é com as personagens e o seu mundo.

Como se sabe, as mudanças se fazem numa velocidade tão rápida que já anunciaram a morte do romance histórico tradicional, que a sua narrativa seria uma forma de realçar valores passados, já na pós-modernidade, há uma reflexão sobre esses valores, o que representa uma reflexibilidade de interpretação dos personagens sobre os fatos históricos, que pode ser questionado em todas as formas de romances.

O grande crítico literário Frankin de Oliveira, diz que o melhor método para definir as tendências de uma literatura está como se comportam os personagens dos romances que é ela capaz de produzir. Assim, podemos afirmar que não devemos conceder privilégio ao romance em relação ao um estilo literário, mas mostrar as tendências formadas pelos personagens no romance.

Desta compreensão sobre o romance e de seus personagens já mereceram atenção de grandes escritores brasileiros, porque muitos deles estavam de acordo em seguirem os personagens, que os levavam diretamente ao mundo das mudanças. Sabiam eles que a literatura supera facilmente estas barreiras e que isso é uma das suas possibilidades. O romance, em suas raízes, é a vida cotidiana, que é vida do homem por inteiro, porque a sua prática exige a mobilização de todas as suas potencialidades. Daí nascem os grandes personagens.

Aqui gostaríamos de citar, entre muitos, o romance histórico “Os Tambores de São Luís”, de Josué Montello.  O negro Damião, personagem principal do romance, ele se insere no próprio centro do acontecer dos fatos históricos, que nos remete a uma realidade passada, dentro de uma visão presente nos reais problemas sociais.

Portanto, no romance, o personagem é um agente dotado de uma multiplicidade de vozes. A personagem reflete a trama das relações sociais, ou seja, os personagens passam a valer como paradigmas sociais. Como bem sintetiza Frankin de Oliveira, que é através do estudo das personagens que podemos refletir sobre o destino de uma literatura.

Mário de Andrade tinha razão, os grandes personagens que se criaram no Brasil, depois de Macunaíma. Vamos encontrá-lo vivenciado pelos João Valério, o Paulo Honório e o Fabiano, de Graciliano Ramos; o Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro; para citamos apenas alguns autores que modelaram suas personagens pelo tema lhe foi imposto por uma realidade social.

Na atmosfera gerada pela frustração de 30, houve autores como José Lins do Rego, com os personagens como Ricardo, Vitorino Papa-Rabo. Ricardo compreende o significado de uma greve política e caba preso; Vitorino luta, embora lute equivocadamente, sonhando restaurar um mundo perdido.

Por isso, o romance em geral é função da intensidade e da complexidade da vida social a qual se vincula dentro de um poder acusatório. Quando Edouard Maynial diz que o romance, como, de resto toda literatura, é, historicamente, um ato de denúncia e de protesto. Com esta observação, afirmamos é o que deve ser a missão civilizatória dos personagens no romance brasileiro. Como fez Machado de Assis, que proveu a radiografia da sociedade brasileira.

Mas, no Brasil depois de 1964 não sugiram romances com os personagens informados por uma visão crítica da realidade social. Trata-se de um tipo de carência como funciona a máquina social que fabrica o Brasil de hoje, que mostra aquilo que o cineasta Glauber Rocha chamou de a estética da fome.

Portanto, a literatura precisa de uma “galeria de personagens”, para sua definição. Por quê? Porque o romance do nosso tempo é para usar o pensamento literário de Lukács, a epopeia de um mundo abandonado por Deus, o mundo da burguesia que traiu seus compromissos revolucionários.

Vemos, que a sociedade brasileira de hoje tem uma nova classe social e um novo operariado. Em consequência, multiplicaram-se a situação da mulher, mudou o padrão ético. Um exemplo tem hoje, no País, mais de 20 milhões de menores abandonados. São mais de 20 milhões de crianças relegadas à miséria, condenadas ao crime. E assim se procede, com a vida do país comandado por tecnocratas e autoritaristas.

O romancista tem que operar no concreto, examinar os ingredientes da  sociedade brasileira, isto é, os representantes do fascismo e dos assassinos dos pobres, os defensores das torturas e da morte, todos aqueles que na história recente do país não medem esforços para impedir de se produzir avanços nas lutas centrais do povo brasileiro.

Por isso, um ficcionista brasileiro com senso de contemporaneidade, quer dizer, tem ingredientes a uma autêntica literatura em todas as formas de romances. 

Já disseram e repito: Balzac mostrou a importância desses ingredientes para ficção. Dostoioevski mostrou, também, a importância da rua para o romance, como se viu em muitos criadores literários regionalistas brasileiros. Por isso, em vez de falar-se de um passado de uma realidade acabada em literatura, deve-se apenas falar de suas transformações.

Afinal, quando questionamos o romance de todas as figuras estilísticas e de todos os recursos da arte de compor, queremos que os seus personagens se tornem contemporâneos de nossa realidade social. Não estamos pedindo que o romancista atue como ensaísta e nos dê ensaios socioeconômicos disfarçados em ficção. Estamos pedindo romance mesmo, construído rente ao real, capaz de ir às raízes das forças sociais que movem os destinos do povo brasileiro.

EUDES SOUSA, Jornalista e Critico Literário, cearense, residindo em São Luis do Maranhão

A PISTOLAGEM RADIOFÔNICA OU “ON LINE”, Leunam Gomes

A história do Rádio é cheia de muitos lances comoventes. O rádio já proporcionou momentos de grande alegria para os ouvintes.  Momentos de emoção, de crescimento intelectual, de aprendizagem.

Houve uma época em que, até para alfabetização, foi usado com muito sucesso. Era o tempo do Movimento de Educação de Base-MEB, quando as comunidades se reuniam em torno de um rádio de onda cativa para participar das escolas radiofônicas.  Muitas lições de cidadania e de convivência comunitária foram transmitidas e assimiladas por grupos comunitários.

O Rádio projetou muitos artistas que depois foram aproveitados pela televisão.  As mensagens musicais criaram muitos laços, possivelmente muitos casamentos.

Passados alguns anos e, paradoxalmente, depois de muitas conquistas tecnológicas, o rádio tem-se destacado mais pelos desenlaces que tem provocado.  Usado com fins políticos ou policiais, o rádio tem servido para jogar pessoas contra pessoas, famílias contra famílias, de forma totalmente irracional. Os programas que estimulam a amizade são considerados bregas, enquanto os de insultos são destaques.  Desenvolvem a pistolagem radiofônica.  Alugam a habilidade de falar e o instrumento de trabalho (o microfone) para prejudicar terceiros, tal como fazem os pistoleiros que alugam a habilidade de atirar e usam de seus revolveres para matar. 

Qualquer suposição sobre atitudes e comportamentos das pessoas é levada ao ar, ao julgamento da comunidade. A pessoa atingida, às vezes inocentemente, não dispõe dos mesmos instrumentos para defesa. Nem tem acesso ao rádio e nem possui habilidade de falar ao microfone em defesa pessoal ou familiar.  Fica difamada e sem defesa. É bem verdade que, quando se trata de pessoa conhecida da comunidade, o desgaste ocorre com o “radialista”.  Acontece que, em muitos casos, o “radialista” nem conhece as pessoas envolvidas e os laços que as unem.  Às vezes nem conhece bem a comunidade, é pessoa trazida de fora com a tarefa de fazer programas com objetivo de cuidar da promoção pessoal de donos ou arrendatários de rádio. Ele não consegue ser acreditado pela comunidade.  Faz barulho, maltrata o idioma, muita gente escuta, abertamente ou às escondidas, mas não desperta credibilidade.  Tal “profissional” nunca é convidado para eventos importantes da comunidade.

Pior ainda é quando isto acontece com rádios tidas como comunitárias, onde quem menos tem chance é a comunidade. Os serviços essenciais não são divulgados. O acesso é restrito a quem é do partido do “dono” da rádio.  Em período pré-eleitoral a situação torna-se muito mais grave.

Há também os usuários de microfones que se atribuem o direito de criticar a tudo e a todos. Acham-se entendedores de todos os assuntos. Colocam-se acima do bem e do mal. A maioria dos tais críticos jamais dirigiu alguma coisa, mas considera-se capacitado a orientar tudo. Não levantam questões, fazem logo afirmações. Não é deste tipo de profissional que o rádio precisa. E o próprio tempo se encarrega de colocar tais pessoas no seu devido lugar. É claro que a crítica é necessária aos administradores, mas o deboche não. É importante que os administradores sejam alertados para alguns problemas, mas isto deve ser feito com decência, com a seriedade de quem quer contribuir com a comunidade.

Os verdadeiros radialistas, que enobrecem a profissão, permanecem porque são pessoas que contribuem para o desenvolvimento de suas comunidades. O tempo passa, os cabelos embranquecem, a voz definha, naturalmente, mas a credibilidade e o prestígio permanecem.

Mais do que nunca, este é o momento oportuno para o rádio estar a serviço da comunidade. As ações do governo, voltadas para a população pobre, precisam ser fiscalizadas. O rádio deve ser este instrumento de orientação, fiscalização e informação. O rádio é a opção do pobre. Está perto dos pobres e, portanto, deve estar ao seu serviço.  Nunca, na história política do Brasil o rádio tornou-se tão importante quanto neste governo. Talvez a maioria ainda não tenha tomado consciência disto.  Ações que privilegiam os ricos assumem dimensões extraordinárias.  Aquelas que se voltam para a população pobre não recebem a mesma acolhida junto aos meios de comunicação.  Como opção do pobre, o rádio deve, cada vez mais estar a serviço deste grande segmento da população.  Se o rádio não tivesse tanta penetração os cantores e gravadoras não pagariam para que suas músicas sejam veiculadas.  É fundamental o papel do rádio nos dias atuais.

Certa vez, quando cursava Teologia, ao participar de um Curso de Jornalismo, promovido pelo Jornal do Commércio, no Recife, ouvi do jornalista Fernando Menezes a seguinte definição sobre a função do jornalista:  “É dizer coisas cada vez mais complicadas, de forma cada vez mais simples, de modo a atingir cada vez mais gente”.  Mais do que nunca, o comunicador precisa colocar esta função a serviço da comunidade. É preciso trocar em miúdos muitos dos direitos da população que passam despercebidos ou que pela forma de comunicação adequada não se tornam ao alcance dos pobres. O rádio tem esta força.

Leunam Gomes

Texto de Leunam Gomes, Professor, Radialista, ex Pró-Reitor de Extensão da UVA,   Especialização em Teleducação. Mestre em Gestão e Modernização Pública. Ex-diretor das Rádios Educadora do Nordeste (Sobral), Gurupi, Educadora e Timbira (São Luis do Maranhão). Publicado em 2007, no jornal Correio da Semana, de Sobral – Ceará.

Fisioterapia é gratidão e missão!

Cada degrau um sorriso, cada evolução uma conquista e é assim que começa a se realizar o resultado!


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As “lembranças” de Herculano Costa, por Eudes de Souza

A minha critica literária não passa pelo desejo de ser experimental. Como naquela carta de Van Gogh a Theo, em que ele dizia: “Quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente dedicadamente”. Não me comparo o Van Gogh, mas sei o que quero e o que não quero na minha leitura literária. Em suma apenas poder despertar no leitor o interesse por essa ou aquela obra. Posto isto, digo, o que senti lendo o livro: “Lembranças e Relembranças de Meruoca e Sobral”, de Benedito Herculano Costa. O título desta obra não é à toa, aliás, é fruto de histórias, recheadas de muitas revelações.

Escritor, Jornalista e Bancário HERCULANO COSTA

Pois bem, a obra que aqui se impõe caberá ao escritor resgatar o sentido primeiro das palavras, assim, como a minha crítica a iluminação dos territórios fundados pela sua obra literária, isto é, no absoluto das indagações, no profundo organismo do assombro, a procura de suas sombras flamejantes de suas lembranças e relembranças das cidades de Meruoca e de Sobral.

No sinuoso fluxo de algumas lembranças que presenta o livro, não encontraremos outra verdade que não seja a da história, como um elemento do espírito, da inquietude, como um luminoso salto, na busca da existencialidade humana, com referências e recordações dos eventos passados, registrados na história da boa vizinhança e da solidariedade entre o povo Meruoquense e Sobralense.

E válido ressaltar que, as figuras dos coronéis, presentes no livro, sobretudo do coronel João Duarte Ripardo é a imagem das famílias abastadas do naturalismo de Zola, ou mesmo de Aluísio de Azevedo, branco, farto e fleumático, mas boa parte da leitura das lembranças permanece próximo ao universo do autor. Veja por exemplo, da infância duas imagens que não se apagaram: a escola do Mestre Pereira, o balcão da bodega do seu pai, Francisco de Assis Costa.

Portanto, o alcance da sua obra pode ir muito além desse universo, no espaço e no tempo. A dialética que o autor move, é fundamentada na linha intimista da história regionalista, que é a vertente, à qual é mais inclinado, e na qual se sente mais à vontade.

Nas relembranças, ele lembra o gosto do realismo expressivo, pela história oral, concebido sempre como fonte de um passado que se pode sentir com uma predisposição espiritual aos gêneros, ora crônicas, ora contos. Vejamos quando o autor lembra da cultura da assombração, nos relatos míticos nordestinos. Nada experimental na forma de contar, especificamente na linguagem estética, ou de uma reviravolta temática, portanto, o que, aliás, não é o que conta, para que um conto ou uma crônica sejam bons ou que seja amado pelo leitor, pois se sabe que o leitor busca mesmo é uma história tocante, contada em linguagem simples e compreensível, o que o autor consegue com êxito e consistência.

Outras respostas surgem do contato com o regionalismo do tema sobre essa vulnerabilidade humana frente ao destino que o escritor busca furtar do olhar. Ou que, num gesto de sedução, ele tem as mais secretas alegrias e os confessáveis desejos, de um bom nordestino, que tem todo um artesanato rítmico, que passa pela incorporação de elementos e imagens ao rastro das histórias contadas.

Aliás, ao transcorrer pelo subterrâneo do projeto herculaniano, também, descobrimos que, o Herculano estabelece muito bem a comunhão entre o passado e o presente, tal que se poderia dizer, trata-se de um livro, que se faz a aventura estética, em que a palavra vem revestida de vitalidade lúdica, dotada de uma força comunicativa, que abre a possibilidade de o leitor se familiarizar com a sua cidade, no caso dos causos das ruas de Sobral.

No mundo da realidade literária não se chega à definição de uma voz literária sem uma essencial exigência com sigo mesmo, sem aquele natural rigor que faz com que o escritor siga seu curso natural, buscando reflexão de suas temáticas e o corpo real de suas ideias, que tenha um papel na conquista de uma sociedade mais humana.

Por fim, embora em nossos dias, esteja marcado por uma absoluta falta de reflexão, em torno não somente da literatura, mas também da cadeia de experiências, que, através da qual, o homem pode sedimentar sua existência no mundo. Com isto eu não quero dizer que não encontremos mais, entre nós, escritores envolvidos com a verdadeira linguagem literária, porque o livro, “Lembranças e Relembranças de Meruoca e de Sobral,” veio à tona com uma convicção de que a literatura regionalista resiste e resistirá sempre aqui em terra cearense. É assim que avalio a literatura de Herculano Costa.

(*) – Eudes de Souza é Jornalista, Historiador e Crítico Literário

ESTUDANTE, autoria de Aninha Martins

Mesmo distante da sala de aula

Longe do convívio com os colegas

Daquela atmosfera agitada

De risos misturados com cansaço

Sim. Cansaço…

Quem disse que ser feliz não cansa?

Digo SER FELIZ,

Pois, ser ESTUDANTE é sinônimo de felicidade,

Porque é vida intensa, inquieta

De atividades constantes.

Mesmo assim,

“Sozinho” no seu universo

A escola foi ao seu encontro

Invadiu seu espaço

Mas uma invasão permitida,

Necessária

Que levou cor e alegria

Nesse momento cinza,

De apreensão contínua.

Contudo, você se refez,

Procurou se adaptar

Buscou o colorido,

O som das galerias,

O cheiro das amizades,

A cumplicidade do convívio.

E encontrou…

Porque tudo isso

Está dentro de cada um.

Bastou entrar em si

E o mundo escolar se refez.

Esbarrou com sua força interior

Encontrou um herói

Sem capa

Mas que usa máscara

Sinônimo de AMOR

A si mesmo e ao outro.

Sem espada

Porém, com uma arma eficaz

Uma pequena tela

Que lhe conecta ao mundo.

ANINHA MARTINS, de Mirador – IPU, Professora, Poetisa, Escritora

Valorize o seu PAI.

Professor Marcos Castro, de Guaraciaba do Norte

Hoje…

Fique em casa.

Se sair… volte logo.

Abrace seu pai.

Diga que o ama.

Se tiver vergonha…

Fale com os olhos.

Não peça 1 real.

Não lhe cause discórdia.

Não precisa presente…

Seja presente.

Você é o presente.

É a continuação do legado.

Viva feliz ao seu lado.

Ouça.

Lhe dê atenção.

Comemore.

Ore.

Agradeça.

Não o esqueça.

Todo dia ele é Pai.

Todo dia tanto faz…

Lhe dê amor

E muito carinho.

A hora é essa de agir.

E enquanto você existir…

Valorize o seu PAI.

CONTRASTE, autoria de Aninha Martins

Escrevo sobre a essência da vida

Daquilo que não se pode dizer

Do imaginável

Ou da imaginação sentida

Sentimentos que corrompem

A alma e sua atmosfera

Até a última camada

Aquela que se mistura ao vácuo

Vácuo preenchido

De sentidos diversos

Digo das dores

Presentes na carne

Do amor, bálsamo

Daquilo que insiste em gritar

Se espalhar pelo ar

Pesado, sufocado

De não saber dizer

Porque só sabe sentir,

Sentir tanto!

Que atordoa

Pois, não é compreensível.

Difícil entender

O que não é perceptível,

Palpável…

Aliás, é visto

Não pela retina

Da matéria concreta

Mas pelos olhos,

Do subjetivo de nós.

Ensino oderno
ANINHA MARTINS

MANZAPE – Recordações de Jonas Marinho Araújo

Coisas da infância, dificilmente somem da memória. Ainda hoje aos 90 anos, sempre que ando por aquelas bandas compro um pedaço de manzape na feira que acontece todos os sábados na minha cidade natal de MONSENHOR TABOSA.

A curiosidade me pegou e fui saber como é sua fabricação.  No lugar mais alto do povoado visitei uma comunidade. Seu Chico, meu velho conhecido dos tempos do meu pai, e morador, já estava no terreiro, preparando as trempes. Pronto chegou a hora. Não vou perder a oportunidade. Caboclo simpático, riso puro, quase sem dentes. Faltavam 3 só na frente. Gostava muito dele. Era gostoso seu pouco papo. Vocabulário reduzido e, sempre rindo, dizia sim senhor, vou começar a acender o fogo.

A mandioca é a principal fonte de alimentação do sertão. Dela se produz: Farinha, Goma e a Manipeva. Todo o mundo só come com farinha. Feijão com farinha, rapadura com farinha é uma delícia. Pirão de farinha, de galinha gorda. Menino traz a farinha que o doutor gosta. Já agora, nestes nossos tempos, fui almoçar na casa do seu Chico.  Repetiu para mim aquelas mesmas palavras de quando era menino.  Traz farinha que ele gosta. Voltei aos tempos da infância. Neste dia comi uma galinha gorda com pirão de farinha na casa do meu amigo, Seu Chico da LAGOA VELHA.

A goma é outro produto. Hoje todos os dias, passa na frente do apartamento, onde moro, um homem gritando: “Olha a tapioca, tapioca paulista” e vai até a praia onde os turistas compram todas, feitas de goma do Ceará. Todos os dias, recordo o meu sertão. O homem que vende tapioca me faz este favor.

Da Manipeva surge o MANZAPE. Não sou especialista no assunto, mas de uma coisa, sei, gosto muito do PRODUTO. Parece que é venenosa quando não tratada. Tinha um medo danado quando andava nas farinhadas de comer maniva, o mesmo de Manipeva, por descuido. Cuidado com o menino que ele é muito curioso, recomendava meu pai aos feitores. Era tratada, tirado o veneno, curada e secada ao sol. Estava pronta. Rapadura saboga e condimentos cada qual o mais gostoso, e fogo.

Naquele dia Seu Chico estava já cavando o buraco, começava o feitio. Gravetos e palha de milho seco para acender o fogo. Lavareda subia esquentava a trempe feita de uma pedra lisa e larga. Quando já bem quente era espalhada a mistura, uma espécie de pasta que cobria toda a largura e ali se tornava um bolo de um dedo de altura. Enrolado numa folha de bananeira era vendida na feira de Monsenhor Tabosa.

Cuidado o MANZAPE era comida do pobre. O rico podia comer, mas não era bem visto. Havia uma divisão esquisita aceita por todo o mundo. Por exemplo, havia um clube dos ricos e outro dos pobres. No dos ricos, pobres não podiam frequentar. Só olhar de longe. E, no dos pobres, rico podia entrar e era muito bem recebido.

O MANZAPE ainda se fabrica e agora em larga escala. Vendido em Santa Quitéria, Catunda e Tamboril. Bureta é o grande industrial e já emprega duas pessoas para fazer durante a semana. Da próxima vez que por lá andar vou comer MANZAPE e trazer para os amigos, que se dispuseram ler estas memórias.

Dr. Jonas Marinho Araújo, nascido em Monsenhor Tabosa, Médico Otorrinolaringologista, residente em Fortaleza