MANZAPE – Recordações de Jonas Marinho Araújo

Spread the love

Coisas da infância, dificilmente somem da memória. Ainda hoje aos 90 anos, sempre que ando por aquelas bandas compro um pedaço de manzape na feira que acontece todos os sábados na minha cidade natal de MONSENHOR TABOSA.

A curiosidade me pegou e fui saber como é sua fabricação.  No lugar mais alto do povoado visitei uma comunidade. Seu Chico, meu velho conhecido dos tempos do meu pai, e morador, já estava no terreiro, preparando as trempes. Pronto chegou a hora. Não vou perder a oportunidade. Caboclo simpático, riso puro, quase sem dentes. Faltavam 3 só na frente. Gostava muito dele. Era gostoso seu pouco papo. Vocabulário reduzido e, sempre rindo, dizia sim senhor, vou começar a acender o fogo.

A mandioca é a principal fonte de alimentação do sertão. Dela se produz: Farinha, Goma e a Manipeva. Todo o mundo só come com farinha. Feijão com farinha, rapadura com farinha é uma delícia. Pirão de farinha, de galinha gorda. Menino traz a farinha que o doutor gosta. Já agora, nestes nossos tempos, fui almoçar na casa do seu Chico.  Repetiu para mim aquelas mesmas palavras de quando era menino.  Traz farinha que ele gosta. Voltei aos tempos da infância. Neste dia comi uma galinha gorda com pirão de farinha na casa do meu amigo, Seu Chico da LAGOA VELHA.

A goma é outro produto. Hoje todos os dias, passa na frente do apartamento, onde moro, um homem gritando: “Olha a tapioca, tapioca paulista” e vai até a praia onde os turistas compram todas, feitas de goma do Ceará. Todos os dias, recordo o meu sertão. O homem que vende tapioca me faz este favor.

Da Manipeva surge o MANZAPE. Não sou especialista no assunto, mas de uma coisa, sei, gosto muito do PRODUTO. Parece que é venenosa quando não tratada. Tinha um medo danado quando andava nas farinhadas de comer maniva, o mesmo de Manipeva, por descuido. Cuidado com o menino que ele é muito curioso, recomendava meu pai aos feitores. Era tratada, tirado o veneno, curada e secada ao sol. Estava pronta. Rapadura saboga e condimentos cada qual o mais gostoso, e fogo.

Naquele dia Seu Chico estava já cavando o buraco, começava o feitio. Gravetos e palha de milho seco para acender o fogo. Lavareda subia esquentava a trempe feita de uma pedra lisa e larga. Quando já bem quente era espalhada a mistura, uma espécie de pasta que cobria toda a largura e ali se tornava um bolo de um dedo de altura. Enrolado numa folha de bananeira era vendida na feira de Monsenhor Tabosa.

Cuidado o MANZAPE era comida do pobre. O rico podia comer, mas não era bem visto. Havia uma divisão esquisita aceita por todo o mundo. Por exemplo, havia um clube dos ricos e outro dos pobres. No dos ricos, pobres não podiam frequentar. Só olhar de longe. E, no dos pobres, rico podia entrar e era muito bem recebido.

O MANZAPE ainda se fabrica e agora em larga escala. Vendido em Santa Quitéria, Catunda e Tamboril. Bureta é o grande industrial e já emprega duas pessoas para fazer durante a semana. Da próxima vez que por lá andar vou comer MANZAPE e trazer para os amigos, que se dispuseram ler estas memórias.

Dr. Jonas Marinho Araújo, nascido em Monsenhor Tabosa, Médico Otorrinolaringologista, residente em Fortaleza

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *