As “lembranças” de Herculano Costa, por Eudes de Souza

A minha critica literária não passa pelo desejo de ser experimental. Como naquela carta de Van Gogh a Theo, em que ele dizia: “Quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente dedicadamente”. Não me comparo o Van Gogh, mas sei o que quero e o que não quero na minha leitura literária. Em suma apenas poder despertar no leitor o interesse por essa ou aquela obra. Posto isto, digo, o que senti lendo o livro: “Lembranças e Relembranças de Meruoca e Sobral”, de Benedito Herculano Costa. O título desta obra não é à toa, aliás, é fruto de histórias, recheadas de muitas revelações.

Escritor, Jornalista e Bancário HERCULANO COSTA

Pois bem, a obra que aqui se impõe caberá ao escritor resgatar o sentido primeiro das palavras, assim, como a minha crítica a iluminação dos territórios fundados pela sua obra literária, isto é, no absoluto das indagações, no profundo organismo do assombro, a procura de suas sombras flamejantes de suas lembranças e relembranças das cidades de Meruoca e de Sobral.

No sinuoso fluxo de algumas lembranças que presenta o livro, não encontraremos outra verdade que não seja a da história, como um elemento do espírito, da inquietude, como um luminoso salto, na busca da existencialidade humana, com referências e recordações dos eventos passados, registrados na história da boa vizinhança e da solidariedade entre o povo Meruoquense e Sobralense.

E válido ressaltar que, as figuras dos coronéis, presentes no livro, sobretudo do coronel João Duarte Ripardo é a imagem das famílias abastadas do naturalismo de Zola, ou mesmo de Aluísio de Azevedo, branco, farto e fleumático, mas boa parte da leitura das lembranças permanece próximo ao universo do autor. Veja por exemplo, da infância duas imagens que não se apagaram: a escola do Mestre Pereira, o balcão da bodega do seu pai, Francisco de Assis Costa.

Portanto, o alcance da sua obra pode ir muito além desse universo, no espaço e no tempo. A dialética que o autor move, é fundamentada na linha intimista da história regionalista, que é a vertente, à qual é mais inclinado, e na qual se sente mais à vontade.

Nas relembranças, ele lembra o gosto do realismo expressivo, pela história oral, concebido sempre como fonte de um passado que se pode sentir com uma predisposição espiritual aos gêneros, ora crônicas, ora contos. Vejamos quando o autor lembra da cultura da assombração, nos relatos míticos nordestinos. Nada experimental na forma de contar, especificamente na linguagem estética, ou de uma reviravolta temática, portanto, o que, aliás, não é o que conta, para que um conto ou uma crônica sejam bons ou que seja amado pelo leitor, pois se sabe que o leitor busca mesmo é uma história tocante, contada em linguagem simples e compreensível, o que o autor consegue com êxito e consistência.

Outras respostas surgem do contato com o regionalismo do tema sobre essa vulnerabilidade humana frente ao destino que o escritor busca furtar do olhar. Ou que, num gesto de sedução, ele tem as mais secretas alegrias e os confessáveis desejos, de um bom nordestino, que tem todo um artesanato rítmico, que passa pela incorporação de elementos e imagens ao rastro das histórias contadas.

Aliás, ao transcorrer pelo subterrâneo do projeto herculaniano, também, descobrimos que, o Herculano estabelece muito bem a comunhão entre o passado e o presente, tal que se poderia dizer, trata-se de um livro, que se faz a aventura estética, em que a palavra vem revestida de vitalidade lúdica, dotada de uma força comunicativa, que abre a possibilidade de o leitor se familiarizar com a sua cidade, no caso dos causos das ruas de Sobral.

No mundo da realidade literária não se chega à definição de uma voz literária sem uma essencial exigência com sigo mesmo, sem aquele natural rigor que faz com que o escritor siga seu curso natural, buscando reflexão de suas temáticas e o corpo real de suas ideias, que tenha um papel na conquista de uma sociedade mais humana.

Por fim, embora em nossos dias, esteja marcado por uma absoluta falta de reflexão, em torno não somente da literatura, mas também da cadeia de experiências, que, através da qual, o homem pode sedimentar sua existência no mundo. Com isto eu não quero dizer que não encontremos mais, entre nós, escritores envolvidos com a verdadeira linguagem literária, porque o livro, “Lembranças e Relembranças de Meruoca e de Sobral,” veio à tona com uma convicção de que a literatura regionalista resiste e resistirá sempre aqui em terra cearense. É assim que avalio a literatura de Herculano Costa.

(*) – Eudes de Souza é Jornalista, Historiador e Crítico Literário

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