A PISTOLAGEM RADIOFÔNICA OU “ON LINE”, Leunam Gomes

A história do Rádio é cheia de muitos lances comoventes. O rádio já proporcionou momentos de grande alegria para os ouvintes.  Momentos de emoção, de crescimento intelectual, de aprendizagem.

Houve uma época em que, até para alfabetização, foi usado com muito sucesso. Era o tempo do Movimento de Educação de Base-MEB, quando as comunidades se reuniam em torno de um rádio de onda cativa para participar das escolas radiofônicas.  Muitas lições de cidadania e de convivência comunitária foram transmitidas e assimiladas por grupos comunitários.

O Rádio projetou muitos artistas que depois foram aproveitados pela televisão.  As mensagens musicais criaram muitos laços, possivelmente muitos casamentos.

Passados alguns anos e, paradoxalmente, depois de muitas conquistas tecnológicas, o rádio tem-se destacado mais pelos desenlaces que tem provocado.  Usado com fins políticos ou policiais, o rádio tem servido para jogar pessoas contra pessoas, famílias contra famílias, de forma totalmente irracional. Os programas que estimulam a amizade são considerados bregas, enquanto os de insultos são destaques.  Desenvolvem a pistolagem radiofônica.  Alugam a habilidade de falar e o instrumento de trabalho (o microfone) para prejudicar terceiros, tal como fazem os pistoleiros que alugam a habilidade de atirar e usam de seus revolveres para matar. 

Qualquer suposição sobre atitudes e comportamentos das pessoas é levada ao ar, ao julgamento da comunidade. A pessoa atingida, às vezes inocentemente, não dispõe dos mesmos instrumentos para defesa. Nem tem acesso ao rádio e nem possui habilidade de falar ao microfone em defesa pessoal ou familiar.  Fica difamada e sem defesa. É bem verdade que, quando se trata de pessoa conhecida da comunidade, o desgaste ocorre com o “radialista”.  Acontece que, em muitos casos, o “radialista” nem conhece as pessoas envolvidas e os laços que as unem.  Às vezes nem conhece bem a comunidade, é pessoa trazida de fora com a tarefa de fazer programas com objetivo de cuidar da promoção pessoal de donos ou arrendatários de rádio. Ele não consegue ser acreditado pela comunidade.  Faz barulho, maltrata o idioma, muita gente escuta, abertamente ou às escondidas, mas não desperta credibilidade.  Tal “profissional” nunca é convidado para eventos importantes da comunidade.

Pior ainda é quando isto acontece com rádios tidas como comunitárias, onde quem menos tem chance é a comunidade. Os serviços essenciais não são divulgados. O acesso é restrito a quem é do partido do “dono” da rádio.  Em período pré-eleitoral a situação torna-se muito mais grave.

Há também os usuários de microfones que se atribuem o direito de criticar a tudo e a todos. Acham-se entendedores de todos os assuntos. Colocam-se acima do bem e do mal. A maioria dos tais críticos jamais dirigiu alguma coisa, mas considera-se capacitado a orientar tudo. Não levantam questões, fazem logo afirmações. Não é deste tipo de profissional que o rádio precisa. E o próprio tempo se encarrega de colocar tais pessoas no seu devido lugar. É claro que a crítica é necessária aos administradores, mas o deboche não. É importante que os administradores sejam alertados para alguns problemas, mas isto deve ser feito com decência, com a seriedade de quem quer contribuir com a comunidade.

Os verdadeiros radialistas, que enobrecem a profissão, permanecem porque são pessoas que contribuem para o desenvolvimento de suas comunidades. O tempo passa, os cabelos embranquecem, a voz definha, naturalmente, mas a credibilidade e o prestígio permanecem.

Mais do que nunca, este é o momento oportuno para o rádio estar a serviço da comunidade. As ações do governo, voltadas para a população pobre, precisam ser fiscalizadas. O rádio deve ser este instrumento de orientação, fiscalização e informação. O rádio é a opção do pobre. Está perto dos pobres e, portanto, deve estar ao seu serviço.  Nunca, na história política do Brasil o rádio tornou-se tão importante quanto neste governo. Talvez a maioria ainda não tenha tomado consciência disto.  Ações que privilegiam os ricos assumem dimensões extraordinárias.  Aquelas que se voltam para a população pobre não recebem a mesma acolhida junto aos meios de comunicação.  Como opção do pobre, o rádio deve, cada vez mais estar a serviço deste grande segmento da população.  Se o rádio não tivesse tanta penetração os cantores e gravadoras não pagariam para que suas músicas sejam veiculadas.  É fundamental o papel do rádio nos dias atuais.

Certa vez, quando cursava Teologia, ao participar de um Curso de Jornalismo, promovido pelo Jornal do Commércio, no Recife, ouvi do jornalista Fernando Menezes a seguinte definição sobre a função do jornalista:  “É dizer coisas cada vez mais complicadas, de forma cada vez mais simples, de modo a atingir cada vez mais gente”.  Mais do que nunca, o comunicador precisa colocar esta função a serviço da comunidade. É preciso trocar em miúdos muitos dos direitos da população que passam despercebidos ou que pela forma de comunicação adequada não se tornam ao alcance dos pobres. O rádio tem esta força.

Leunam Gomes

Texto de Leunam Gomes, Professor, Radialista, ex Pró-Reitor de Extensão da UVA,   Especialização em Teleducação. Mestre em Gestão e Modernização Pública. Ex-diretor das Rádios Educadora do Nordeste (Sobral), Gurupi, Educadora e Timbira (São Luis do Maranhão). Publicado em 2007, no jornal Correio da Semana, de Sobral – Ceará.

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