Literatura Cearense

O ROMANCE E OS PERSONAGENS, de Eudes Sousa

Segundo o filósofo Lukács, as narrativas da história antiga, os mitos da Idade Média e os relatos chineses e indianos, teriam sido os precursores do romance histórico. Referindo-se à informação histórica e o passado apresentado como realidade acabada. Mas, aqui não queremos nos confrontar com o filósofo. No romance, o nosso confronto é com as personagens e o seu mundo.

Como se sabe, as mudanças se fazem numa velocidade tão rápida que já anunciaram a morte do romance histórico tradicional, que a sua narrativa seria uma forma de realçar valores passados, já na pós-modernidade, há uma reflexão sobre esses valores, o que representa uma reflexibilidade de interpretação dos personagens sobre os fatos históricos, que pode ser questionado em todas as formas de romances.

O grande crítico literário Frankin de Oliveira, diz que o melhor método para definir as tendências de uma literatura está como se comportam os personagens dos romances que é ela capaz de produzir. Assim, podemos afirmar que não devemos conceder privilégio ao romance em relação ao um estilo literário, mas mostrar as tendências formadas pelos personagens no romance.

Desta compreensão sobre o romance e de seus personagens já mereceram atenção de grandes escritores brasileiros, porque muitos deles estavam de acordo em seguirem os personagens, que os levavam diretamente ao mundo das mudanças. Sabiam eles que a literatura supera facilmente estas barreiras e que isso é uma das suas possibilidades. O romance, em suas raízes, é a vida cotidiana, que é vida do homem por inteiro, porque a sua prática exige a mobilização de todas as suas potencialidades. Daí nascem os grandes personagens.

Aqui gostaríamos de citar, entre muitos, o romance histórico “Os Tambores de São Luís”, de Josué Montello.  O negro Damião, personagem principal do romance, ele se insere no próprio centro do acontecer dos fatos históricos, que nos remete a uma realidade passada, dentro de uma visão presente nos reais problemas sociais.

Portanto, no romance, o personagem é um agente dotado de uma multiplicidade de vozes. A personagem reflete a trama das relações sociais, ou seja, os personagens passam a valer como paradigmas sociais. Como bem sintetiza Frankin de Oliveira, que é através do estudo das personagens que podemos refletir sobre o destino de uma literatura.

Mário de Andrade tinha razão, os grandes personagens que se criaram no Brasil, depois de Macunaíma. Vamos encontrá-lo vivenciado pelos João Valério, o Paulo Honório e o Fabiano, de Graciliano Ramos; o Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro; para citamos apenas alguns autores que modelaram suas personagens pelo tema lhe foi imposto por uma realidade social.

Na atmosfera gerada pela frustração de 30, houve autores como José Lins do Rego, com os personagens como Ricardo, Vitorino Papa-Rabo. Ricardo compreende o significado de uma greve política e caba preso; Vitorino luta, embora lute equivocadamente, sonhando restaurar um mundo perdido.

Por isso, o romance em geral é função da intensidade e da complexidade da vida social a qual se vincula dentro de um poder acusatório. Quando Edouard Maynial diz que o romance, como, de resto toda literatura, é, historicamente, um ato de denúncia e de protesto. Com esta observação, afirmamos é o que deve ser a missão civilizatória dos personagens no romance brasileiro. Como fez Machado de Assis, que proveu a radiografia da sociedade brasileira.

Mas, no Brasil depois de 1964 não sugiram romances com os personagens informados por uma visão crítica da realidade social. Trata-se de um tipo de carência como funciona a máquina social que fabrica o Brasil de hoje, que mostra aquilo que o cineasta Glauber Rocha chamou de a estética da fome.

Portanto, a literatura precisa de uma “galeria de personagens”, para sua definição. Por quê? Porque o romance do nosso tempo é para usar o pensamento literário de Lukács, a epopeia de um mundo abandonado por Deus, o mundo da burguesia que traiu seus compromissos revolucionários.

Vemos, que a sociedade brasileira de hoje tem uma nova classe social e um novo operariado. Em consequência, multiplicaram-se a situação da mulher, mudou o padrão ético. Um exemplo tem hoje, no País, mais de 20 milhões de menores abandonados. São mais de 20 milhões de crianças relegadas à miséria, condenadas ao crime. E assim se procede, com a vida do país comandado por tecnocratas e autoritaristas.

O romancista tem que operar no concreto, examinar os ingredientes da  sociedade brasileira, isto é, os representantes do fascismo e dos assassinos dos pobres, os defensores das torturas e da morte, todos aqueles que na história recente do país não medem esforços para impedir de se produzir avanços nas lutas centrais do povo brasileiro.

Por isso, um ficcionista brasileiro com senso de contemporaneidade, quer dizer, tem ingredientes a uma autêntica literatura em todas as formas de romances. 

Já disseram e repito: Balzac mostrou a importância desses ingredientes para ficção. Dostoioevski mostrou, também, a importância da rua para o romance, como se viu em muitos criadores literários regionalistas brasileiros. Por isso, em vez de falar-se de um passado de uma realidade acabada em literatura, deve-se apenas falar de suas transformações.

Afinal, quando questionamos o romance de todas as figuras estilísticas e de todos os recursos da arte de compor, queremos que os seus personagens se tornem contemporâneos de nossa realidade social. Não estamos pedindo que o romancista atue como ensaísta e nos dê ensaios socioeconômicos disfarçados em ficção. Estamos pedindo romance mesmo, construído rente ao real, capaz de ir às raízes das forças sociais que movem os destinos do povo brasileiro.

EUDES SOUSA, Jornalista e Critico Literário, cearense, residindo em São Luis do Maranhão

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