Barbosa, meu amigo Barbosa!

ntrei no Liceu do Ceará sem conhecer ninguém. Vinha do Seminário de Sobral. Ano de 1.946, 16 anos. Primeira saída de casa para a clausura do Seminário em Sobral. Criado entre serras, sem transporte e estradas, já vivia numa solidão, ilusão de liberdade! Ai, parti para um regime de internato, a mesma situação, o mesmo desolamento, mudou apenas o local.

Dr. Jonas Marinho Araújo e Maria Tereza

Prédio enorme, pessoas estranhas. Caras fechadas, muita disciplina, rigidez própria da época. Refeitório grande para muita gente. Dormitório em camas paralelas quase se tocando. Horário rígido de quartel. O mundo para mim girava em torno de dogmas, de verdades absolutas, coração de criança do interior. A capital era um sonho, possibilidade rara onde podia obter conhecimentos e me salvar de uma vida limitada demais do sertão onde nasci.

Mons. Tabosa. Serra das Matas. Longe demais e muitas vezes ouvi: Aqui é o fim do mundo. Clima frio, quase muito frio, propício para o recolhimento. Todo o mundo agasalhado. De manhã cedo, hora da missa, as pessoas encolhidas se largavam céleres, queixos batendo, para ouvir a prédica da salvação. Minha mãe não perdia uma missa das 5, saia sozinha com seu chale no pescoço. Possuía uma cadeira cativa na Igreja e quando agora estive por lá, sua cadeira não estava mais, só o local que não me saiu da mente. Aquele clima gostoso nunca saiu do meu pensar. As pessoas, os tipos próprios de cada lugar, as amigas de minha mãe. As casas, os momentos vividos por aqueles locais. Meus amigos de brinquedo! Por isso que o poeta canta: “Ó que saudades que tenho…”!  O sol se fazia furtivo e muitas vezes passava de 7 ou mais dias sem mandar seu calor para aqueles corpos ansiosos e amortecidos pelo frio.

Nossa casa ficava bem no centro de tudo: Igreja, na mesma praça, um pulo, bem pertinho. Mercado, do outro lado, podia-se quase ouvir o lamento dos donos de lojas para vender seus produtos. Ainda, a chamada Avenida, onde a mocidade se reunia aos domingos e noites de festa para trocas de olhares e quando muito até um aperto, um abraço às escondidas e furtivamente um casto beijo na face. Vez ou outra volto lá.

Chegando hoje naquele mesmo local, fico a maturar a causa de tanta mudança. Tudo diferente, residências construídas no meio da praça, casas comerciais, um galpão para feira livre. Até a sede da Prefeitura. A bela praça, a grande praça do meu tempo, acabou. E o Tempo mudou. Quente, seco, poeira em abundância, sem vento e muito sol.

Olhando para o horizonte observei, horrorizado, que acabaram com as matas. As fruteiras sumiram, nem mesmo os pés de manga, tão em abundância. O homem destruindo seu próprio lar. Os riachos secaram. Queimaram tudo. Tudo tristeza, desolação. As secas vieram como vingança, a terra torrou, virou pedra, perdeu seu viço. Insensível a seu dever o homem chora pedindo a Deus e a São Sebastião que faça chover, que tenham piedade. Fazem procissões e vêm os frades franciscanos fazer retiro e rezar, rogando misericórdia. Outra seca agora bem mais viva. Clamor! Ninguém nos ouviu. Os céus nos abandonaram! É a cegueira e a festa dos que poderiam esclarecer a causa de tanto sofrimento.  Falam até em indústria da seca! 

Enfrentar uma capital com todos os seus mistérios foi um desafio quase intransponível. Um dilema, uma aventura. Sonhei vezes repetidas, procurando prever o que encontrar naquele mundo desconhecido. Soube de edifícios enormes, até chamados de arranha céus. O mar misterioso, diziam não se via o fim. Lojas enfeitadas todas como se fosse festa de S. SEBASTIÃO. As casas de morada tinham dois andares, luz elétrica e até vitrolas tocando o dia inteiro. Quis desistir! Procurei ajuda dos céus, recorri a nosso padroeiro, confessei os meus pecados e estou contando a história.

Subi no velho caminhão ainda em cima duma carrada de mamona rumo a meu destino. Raciocinei assim: Se PEDRO ALVARES CABRAL descobriu o Brasil em cima daqueles pobres barcos, por que eu não? Por que não? Repetia. Por que ter medo de descobrir Fortaleza? A coragem voltou, a força da razão ganhou. Desci do meu querido transporte numa pensão, situado à Rua Senador Pompeu. Tudo diferente, um horror de gente, gente bem vestida, mais de um jipe nas ruas. Movimento nunca visto estava querendo me assombrar. Hospedei-me, acalmei minha cabeça tomei um banho. As coisas foram se acomodando. No outro dia de manhã me aventurei e fui até o fim do quarteirão, parei, vi que a cidade não tinha fim, era grande demais. Voltei. Várias tentativas depois, já estava dominando as ruas e sabia já andar em Fortaleza! Triunfo afinal. Por fim meu pai alugou uma casa onde fui morar com minhas irmãs.

Consegui, a duras penas, uma vaga para estudar no LICEU. Colégio muito solicitado, melhores professores, o de maior prestígio em matéria de ensino. Telegrafei a meus pais anunciando a minha vitória, estava matriculado e as aulas iam começar. Enfrentar nova realidade, outros costumes, conhecer pessoas de todas as partes, fazer amizade, estudar com afinco. Um misto de incertezas, medo e de curiosidades. Que colegas encontrar, se havia trote e como conviver com professores catedráticos de tanta fama e prestígio. Drama de todo jeito. Cheguei lá. Meu nome matriculado chegou à realidade, a dura realidade! Agora é enfrentar.

A sorte não me deixou! Entrei na sala de aulas, sentei-me perto de um desconhecido. Mesma rotina todos os dias e terminei a conversar mais alegre com o meu companheiro. Surpresa: Encontrei um matuto igual a mim. Conhecia o vocabulário do sertão com uma diferença vital, era um matuto civilizado, proveniente de uma cidade perto da cidade grande. Conhecia alguma coisa do mundo. Puro acaso se é que ele existe. Seu nome Francisco Ibiapina Barbosa. Matuto bom de papo, um achado! Foi um alívio! Conversa vai, conversa vem, senti que gostava dele. Morava perto de mim e todos os dias por força do casual fazíamos nosso roteiro a pé rumo ao nosso LICEU. Mais curioso do que eu, perguntava sempre onde eu morava e se era só, quem fazia minha comida, coisas assim de gente do interior. Cada vez aumentava nossa amizade, aquela conversa fiada fazia parte de meu vocabulário.

Fui conhecer sua casa e ele também foi conhecer a minha. Apresentei a ele minha irmã. Ficamos conversando algum tempo. Voltamos a nossa rotina assistindo as aulas. Eu não conhecia ninguém, mas ele tinha um amigo que era professor de Inglês, o professor Deoclécio e isto lhe dava muito prestígio. Nosso conceito subiu diante dos outros alunos. Éramos conhecidos de um professor, falava com a gente como parceiros. Pouco a pouco nos firmamos e dominamos os costumes e fizemos muitas amizades. Aquele jeitão de gente do sertão do meu companheiro e aqueles meus hábitos do Seminário, por tabela, foram sendo esquecidos, substituídos por outros mais modernos.

Um tempão alegre, solto! Todos os dias no fim das aulas, em tropa, nos largávamos até a PRAÇA DO FERREIRA, cantando guarrachias, um canto alegre não sei de onde. Escurecia e a gente lá. Dinheiro curto não dava para cinema. Tempos inesquecíveis! Depois de muitos anos encontrei colegas desta época. Compenetrados, recordávamos, com saudade, momentos que já se foram. Quatro anos passaram ligeiro. Vestibular, a fera a nos espreitar. Decidi Medicina, mas antes tive que servir ao Exército no CPOR. E Barbosa?

Pois é, começou frequentar lá em casa, inventava qualquer motivo. Ora queria beber água, tinha esquecido por lá um livro e não sei mais o quê. Comecei a desconfiar. Adulava-me e pagava merenda, uma amizade danada. Quando cuidei o homem estava era apaixonado.

D. Monica não era de brincadeira, cabelos longos, muito bonitos, alegre, fala franca, pernas grossas e que rebolado possuía!  A pele era de veludo, um rosto modelado parece feito a pincel num molde de porcelana. Olhar franco, vivo, transmitia paz e confiança. Flechas de amor, de bondade, bondade pura das moças do sertão. Sua simplicidade, em transmitir seus sentimentos, era cativante, notada à flor da pele. Barbosa captou de relance todo aquele tesouro imaculado. Vivo demais e de uma inteligência rara impossível ficar indiferente diante de tanta abundância.

Mônica, minha querida irmã, na minha análise puxou a sinceridade da mamãe e a alegria do papai. Para onde fosse, levava alegria, não havia tristezas a seu redor. Nas festas em seu tempo de menina, recitava, fazia drama, representava, fazia qualquer papel para que lhe fosse solicitado. No nosso tempo, eram comuns as representações artísticas geralmente de temas religiosos, realizados no salão paroquial. Os chamados dramas. Toda a sociedade tomava parte e nos dias de representação era uma festa. Vigário e outras autoridades todas presentes. As artistas vibravam com as palmas recebidas e cada vez mais se aprimoravam na arte de representar. Uma atração muito aceita por todos. Geralmente aos domingos à noite.

A Igreja e o Padroeiro de Mons. Tabosa -Ce.

Tomava à frente das festas do padroeiro São SEBASTIÃO, organizava a procissão. Para o leilão tomava partido. Eram dois: O Azul E O ENCARNADO. A finalidade arrumar prendas junto à população e assim iam, de casa em casa, dentro e fora da cidade. Prendas para o leilão. Quem dá mais? O grito de animação dado para que os presentes arrematassem. Dinheiro para a IGREJA. Uma rivalidade sadia às vezes o AZUL ganhava no lucro, às vezes o ENCARNADO, o mesmo fim, a intenção sadia prevalecendo. Monica crescia em beleza externa e interna num vaso de alabastro. As quermesses, como eram animadas com o mesmo fim, faziam parte das festas de S. SEBASTIÃO. Vendiam guloseimas, a meninada adorava. Agoniava os pais pedindo dinheiro para gastar com as novidades e os brinquedos. Não sobrava nada. A coisa que não tomava parte era na corrida de cavalos. Partia do Cemitério até o centro uma farra dos donos de cavalos bonitos e fogosos.

Beleza e simpatia numa jovem, não há coração que não caia. Vou dizer nunca vi alguém mais doido por outra como o meu amigo. Homem apaixonado saia da frente! Vou fazer ODONTOLOGIA, me confessou. Eia, não era MEDICINA?  Retruquei na hora. É mais curta.  Vou me casar com sua irmã foi sua resposta curta e seca. Caí o queixo. O homem estava mesmo caidinho, deixou de fazer de Medicina, trocou por Odontologia. Por nada não, só para terminar mais cedo, e se casar logo. Quatro anos em vez de seis. Se tivesse engenho e arte como disse o poeta, para saber contar este romance, faria um POEMA DE AMOR! 

Inteligência rara passou bem no vestibular. Curso brilhante, muito estudioso dominou logo toda a matéria. Não se tornou PROFESSOR, porque teve uma desavença com o Diretor, o Dr. Torquato.

Chegou o dia, chegava ao céu: Casou-se com sua amada. Amor comovente! Acompanhei de perto seus momentos de ternura. Dava a impressão que voava, vivia num sétimo céu. Ria atoa e saltitava muitas vezes sem causa e motivo aparentes. Ali estava aberto um livro mostrando a força do amor. Bastava só apreciar. Tornaram-se um só corpo e uma só alma, origem de irmãos gêmeos numa eternidade sem fim. Nossa amiga logo notou e gostava. Desconfio: Muitas vezes se fazia de dodói para receber mais e mais palavras doces e dolentes.

Uma ocasião, já muito tempo depois, estava no SITIO LAGOA VELHA, EM MONS TABOSA. Eu, Gilberto, meu cunhado, Barbosa e Monica. Estávamos no alpendre apreciando o tempo e avistamos D Monica, ao longe, comendo sem pena e piedade uma tapioca e não sei o que mais. Barbosa gritando aflito: Minha filha o seu remédio. Gilberto olhou para mim, deu uma tossidinha e sorriu com a mão na boca. Disse será D. Monica? Respondi sim.   E ele na hora: Porque: Doente? Doente com este apetite, ela não está não.  Fiquei em dúvida até hoje.

Alugou casa, montou consultório. Trabalhava ligeiro para voltar logo e nunca mais sentiu tristeza. Se precisasse de alguma coisa a qualquer hora ia buscar em qualquer parte. Com tão ardente amor só podia nascer uma prole tão especial. Não se perdeu nenhum cada qual o mais solidário, o mais humano, os mais ensinamentos de Jesus. 

 “Uma ocasião nos encontrávamos por lá” eu e Sebastião e começamos a tomar de leve uma cervejinha. Barbosa trabalhava fora, em Palmácia aos sábados e chegava aos domingos. Tirou o nosso couro estávamos melados. O nosso IBIAPINA BARBOSA era um gozador impossível perder tão boa oportunidade.  Sebastião já deitado numa rede começou a falar de uma paquera antiga. O sono vindo, mas não esquecia o nome da sua querida. Repetia, molemente, até adormecer e talvez sonhar com um amor escondido no fundo de sua alma. Foi o papo do dia seguinte. Dois amigos, dois irmãos!

Morou primeiro na Vila S. José, no Jacareacanga. Passei por lá, nestes dias, reconheci a casa. Parei, desci do carro, duas lágrimas quentes surgiram de repente. Hospedei-me ali muitas vezes quando vinha do meu sertão, já médico, visitar a capital. Estive lá a convite do dr. POLICARPO, seu primogênito que, saudoso, me pediu para mostrar a primeira morada de seus pais.

Uma raridade na espécie humana! Muitas qualidades numa pessoa só! Confunde. Quando, prematuramente, partiu para outra dimensão não consegui me comover. Não chorei. Fiquei intrigado, éramos amigos dos tempos do Liceu. Descobri enfim: Foi tão generoso com o outro, tão solidário, que deixou aqui na terra a sua essência: O amor incondicional!

Logo que terminei meu curso de Medicina, em Recife, fui morar com meus pais em Mons. Tabosa onde passei 4 anos. Vida solitária demais não aguentava ficar por lá muito tempo sem uma saidinha. Quase todo o mês vinha a Fortaleza e era para a morada de d. Monica e Dr. Barbosa que me vinha e me hospedava nada de cerimônia. Tratado como se eu mesmo fosse o dono era assim que recebiam qualquer hóspede. Agora me lembrei da piada do coronel: Já muito velha, mas gostosa.

Chegou à casa de um coronel lá do sertão um pessoal do Banco do Brasil. Naquele tempo uma novidade e uma honra. O banquete de tirar água da boca. Coronel: o Sr. recebe muito bem aqui em sua casa os convidados, parabéns. Aí é que foi, o Coronel se aprumou na cadeira da cabeceira e disse inocentemente: Aqui na minha casa recebo todo o mundo muito bem por mais vagabundo que seja.

De tanto frequentar aquele meu segundo lar, tornei-me dono e eu mesmo não sabia se estava em minha própria casa. Aquela cativante maneira de me tratarem, firmou mais ainda uma amizade até nestes dias. Deus já os chamou e os mesmos laços de amor persistem numa prole de beleza e de amor herdados de tão rica fonte. Seus filhos, feitos da mesma energia, continuam transmitir paz e harmonia. Parecem possuir o dever de transmitir e de disseminar aquelas lições de harmonia e de paz de um lar feito de amor.

Pouco a pouco, praticando a sua profissão, o mundo foi conhecendo a grandeza daquele doutor tão abnegado. Trabalhava duro o dia inteiro no consultório e aos sábados e domingos, dava assistência aos mais necessitados que morassem no interior. Atendia a qualquer pessoa, não cobrava de ninguém. O cliente teria que tomar a iniciativa perguntar quanto devia. Alguns se aproveitavam e, mesmo podendo, só faziam agradecer. D. Monica danava-se e eu também. Era da sua natureza. Esta sua maneira de agir parecia mesmo nata, pois se alguém dele necessitasse dia ou noite abandonava tudo e ia ajudar.

Uma ocasião quando já morava em Fortaleza, Marcelo meu primeiro filho adoeceu. Morávamos numa casinha no PARQUE ARAXÁ. Febre não cedia, criança definhando, mesmo bem medicado. Ajudei o que pude, mas mole de natureza aguentei pouco tempo, fiquei a puxar os cabelos de aperreio. Maria Tereza depois da segunda noite esmoreceu. O nosso caridoso soube e se largou, fumou três carteiras de cigarro só na primeira noite e mais três na segunda e Marcelo escapou. Deu-lhe soro oral por duas noites seguidas de hora em hora. Obrigado Dr Barbosa, valeu a pena eu tanto alcovitar. Ele dizia para todo o mundo que eu alcovitava o seu namoro com minha irmã. Gaiatice.

Vivia fora do tempo e do espaço. Quando folgado de dinheiro trazia quase a feira toda para casa, era comida para toda banda. São pormenores que não dar para esquecer. Se metia a consertar tudo. Saia a marmota maior do mundo, mas funcionava era o que interessava. Botou uma bica para os banhos de chuva, um cano de esgoto dos antigos de bem um metro de comprimento e sabe onde? Bem de frente a casa. Água muita quando chovia era uma festa. Podia até ficar feio, mas funcionava.

Barbosa, meu amigo Barbosa, de tudo entendia, Muitas vezes desconfiei que era lorota, mas não era e sim se tratava de um sábio. Deixou-nos cedo demais, sua personalidade continua numa prole para a eternidade.

Texto de JONAS MARINHO ARAÚJO, de Monsenhor Tabosa, Médico Otorrinolaringologistas, em Fortaleza – 26/08/2020

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