TUDO COMEÇOU ASSIM

Meu pai nasceu em 10 de dezembro 1888, numa casa de nove cômodos, localizada no sítio Norte, à margem direita do riacho do Norte, divisor de dois morros cobertos por densa vegetação da Mata Atlântica, na Serra da Meruoca. Seus pais, Manoel Tomás Fernandes Vieira e Rosa Fernandes, criaram o casal de filhos, José Tomaz Fernandes e Maria (a tia Marica) como era conhecida. Tia Marica casou-se com o Raimundo Zuza de Albuquerque (Tio Doca), irmão mais velho da minha mãe

AFONSO RODRIGUES FERNANDES, de Meruoca – Ceará

Minha mãe nasceu no sítio Algodões no dia 02 de fevereiro de 1900, era filha de Leonília Bento de Albuquerque e José Rodrigues Zuza da Silveira. Desta união nasceram Raimundo (Doca Zuza), João, Virgílio, Gonzaga, Afonso, Maria, Luiza, Francisca, Filomena, Amélia e Raimunda (Tia Doca). Saliente-se que os onze filhos não estão na ordem cronológica de nascimento.

Meu pai conheceu minha mãe e se casaram em 1918 e foram morar nos fundos da loja de tecidos que papai tinha, num puxado com apenas dois cômodos, sala e camarinha como era chamado o quarto de dormir, e um quintal murado.

Depois em 1820 meu pai construiu a casa da família. Esta casa ainda existe, só que em situação precária devido não ter mais ninguém da família residindo nela. Da união dos meus pais nasceram 17 filhos. Hoje apenas quatros estão vivos. Na ordem cronológica de nascimento foram: José Júlio, Valdemar, Rosa, Maria Júlia, Maria da Conceição, Petronilio, Antônio, Vicente, Luíza (Duca), Francisco, Manoel, Afonso Sebastião, Júlia, casada com Argemiro Alcântaras, João Tiago e Francisca Emília (Nova).

Meus irmãos mais velhos estudaram com professores residindo em Sobral, cidade a 30 quilômetros do Sítio Norte. Os professores ensinavam de segunda a sexta-feira,

Salienta-se que meu pai era a única pessoa da Serra da Meruoca, na época, que levava professores de Sobral para ensinar os filhos.

Depois de alguns anos em Santo Antônio dos Fernandes, distrito criado em homenagem à família do meu pai, meus irmãos passaram a estudar na Escola de D. Marieta, professora muito competente. 

Enquanto isso, nós, os filhos menores como Manoel, Afonso Júlia e João estudávamos perto de casa, com a professora Maria Alves, esposa de um primo de Papai, chamado de Brahunstim.

Meus pais se preocupavam muito com o estudo e educação dos filhos.  Eles almejavam um futuro promissor para cada um de nós. Certo dia, mandada certamente por Deus, mamãe recebeu a visita de D. Raimunda, uma senhora humilde, negra, trabalhadora, morava na cidade de Meruoca, trazia consigo um menino, franzino e bastante estudioso, chamado de Francisco com aproximadamente oito anos de idade.

Na hora do almoço, Francisco chegou com pedacinho de jornal amarrotado que ele encontrou, não se sabe onde, começou a lê-lo corretamente para todos que ali estavam, inclusive papai e mamãe. Foi o suficiente para papai e mamãe decidirem comprar uma casa em Meruoca, localizada na praça da Matriz e vizinha à Casa Paroquial. Um local privilegiado. A casa chamava a atenção pelo janelão em forma de ovo na frente. Este janelão foi um modelo escolhido pelo papai em Sobral de onde trouxe para a reformá-la um pedreiro/marceneiro muito competente. Terminada a reforma, fomos, com a Maria da Conceição como responsável, eu, Manoel, Júlia e João Tiago estudar na Escola de Dona Isa, professora que veio do Rio de Janeiro para Meruoca junto com sua irmã Maria do Carmo. Na matrícula foi o primeiro encontro com minha nova professora calada, séria, parecia muito segura, moralista, competente, mas também muito severa. Usava um vestido cobrindo os joelhos, violáceo ou roxo, cabelos lisos, curtos e pretos, tom de voz firme.

Na escola de Dona Isa estudei três anos, 1950, 1951 e 1952. Nesse período aprendi todas as matérias dos quatro anos do Primário. Não sei quanto tempo Dona Isa ensinou na cidade de Meruoca. Francisco das Chagas Eduardo, um ex-aluno, disse-me que Dona Isa já havia falecido e Dona ‘Ducarmo’ tinha voltado para o Rio de Janeiro.

No início de 1952, meus primos, os irmãos Manoel e Antônio Fernandes Vieira, foram, por interveniência do nosso Vigário Padre José Furtado, para os OBLATOS DIOCESANOS em Sobral, instituição religiosa, criada pelo Padre Joaquim Arnóbio de Andrade, onde em 1953 cheguei por influência do Padre José Furtado. Quando cheguei aos OBLATOS DIOCESANOS soube que era uma Instituição de Irmãos Religiosos. Na verdade, nunca tinha pensado em ser irmão leigo, mas como já estava sendo, fiquei e assumi a responsabilidade que a Congregação exigia. Mas, com certeza, foi a oportunidade que Deus me deu para entrar no Seminário São José de Sobral. Poucos dias na Congregação, Padre Arnóbio disse-me que eu iria levar para as Agências dos Correios as correspondências dos padres professores. Conversei com os professores, acertamos o que deveria ser feito e no dia seguinte iniciei o trabalho.  De repente uma surpresa, os padres me doaram uma bicicleta novinha para fazer os serviços deles.  As irmãs de caridade conseguiram para eu fazer o Curso de Datilografia ministrado no colégio delas, fiquei muito alegre e agradecido.

Nos OBLATOS o tempo passou rápido, apenas o ano de 1953.

Minha aproximação com os padres Osvaldo, Edmilson Cruz, Edson Frota, Amarildo, Sabino e Sadoc facilitou minha entrada no Seminário.

Entrei no Seminário no início de 1954. Neste mesmo ano passei a usar batina preta, colarinho de plástico branco e faixa azul na cintura.

A vida de seminarista era repleta de felicidades. O Seminário oferecia uma formação diferenciada de qualquer outra instituição de ensino. O Seminário educava para a vida. Todo ex-seminarista tem uma vida diferenciada devido à facilidade de lidar com os problemas que surgem.

  Passei no Seminário mais de nove anos. Seis no Seminário Menor em Sobral, onde fiz o curso Ginasial e o Cientifico e três anos e dois meses no Seminário Maior da Prainha em Fortaleza, onde concluí o curso de Filosofia e iniciei o de Teologia.

Esse período me traz algumas boas recordações.  No Seminário chamaram-me a atenção: o estudo, o silêncio, a disciplina rígida no salão de estudos, na capela, nos deslocamentos pelos corredores que traziam arcadas que lembram o império romano, no refeitório, no dormitório, no banho, na rouparia e nas salas de aulas. Todos estes locais eram considerados sagrados e por isso cada um deles trazia lição de vida para as pessoas que deles se beneficiaram.   O deslocamento para qualquer destes locais era feito em filas duplas, tanto para a divisão dos maiores como para a divisão dos menores. As divisões eram supervisionadas por um seminarista mais experiente, escolhido pela direção do Seminário. No refeitório geralmente havia leitura durante as refeições, era escalado um aluno para ler na tribuna. 

Os momentos de recreação também eram sagrados, e mantidos com muita responsabilidade. O seminarista para não participar da recreação tinha que mostrar motivos comprovados.

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