GALILEU, de Jonas Marinho Araújo

Era conhecido como O GALILEU. Acho que o apelido veio da teimosia que lhe era peculiar. Professor universitário, ia dar aula numa bicicleta velha, chegava suado, ensinava matemática. Perdeu dois dentes da frente, mas recusou em colocar prótese.  Dava muito trabalho. Mesmo banguela, seus alunos o adoravam. Era brilhante.

Jonas Marinho Araújo

Galileu o grande físico italiano, quase morre na fogueira, todos nós sabemos de sua história. Também era teimoso, o apelido cabia bem ao nosso esculápio. A pergunta era simples: A terra gira ou não gira em redor do sol? Se diz não, escapa e se diz o contrário gira em torno do sol, a fogueira já estava acesa. Era contra as Escrituras. Disse Não, escapou, mas num gesto escondido disse, SIM. A terra é quem gira em redor do sol e não sol em redor da terra. Era a vitória da ciência.

Histórias que vão se repetir através dos séculos. As dificuldades humanas e seus erros vão fazer frequentes estas cenas dolorosas, ainda por muito tempo. Os enganos, enganos graves, fazem parte do aprendizado humano. Nossa luta é diminuir o tempo da compreensão.

Nosso Mestre era um grande amigo meu. Gostava de seu papo e humor fino, de tudo tirava uma piada.

Uma ocasião fizemos uma viagem em meu carro até a Pedra Branca. Tudo bem, fui guiando até a metade do caminho e ele só na folga. A outra metade foi minha vez. Dias bons, leite farto, galinha gorda, tudo gostoso. Fomos ao açude do Povo, passeamos pela cidade.

Na volta para Fortaleza chegou para mim e disse: Deixe que começo a guiar. Fiquei apreciando a paisagem. As casinhas simples, uma porta e uma janela, me dava uma tristeza como alguém morava ali em tão pequeno canto? Fazia a mim, esta pergunta. Terra seca, caatinga, ninguém por perto, tudo quase deserto. Vez outra um pico de serra sem mata. Lugarejos de poucas casas, velhos sentados em tamborete na calçada. Tristes. Olhando para o tempo… Lembrei-me de O TEMPO E O VENTO, de Érico Veríssimo. A tristeza é contagiosa assim como a alegria. Estava também ficando triste, reagi. Passamos por uns dois destes povoados. Nosso homem do interior sabe ficar só, em pura meditação. Tempos de “COVID” para eles é café pequeno.

Viagem continuou e eu gostando, viajando na maionese, filosofando, apreciando o mundo e analisando. Quando cuidei, estava entrando em Fortaleza, tinha que dizer alguma coisa a meu motorista, pois tinha esquecido de guiar o meu pedaço, a metade do caminho como na ida. Rapaz: viagem com dois motoristas é outra coisa em? Foi minha saída. Olhou para mim e disse: realmente é uma BELEZA.

Fez somente um sorriso crítico e sem uma palavra, acho que disse: DE OUTRA VEZ LHE PEGO.

Um grande cunhado, éramos irmãos. Uma ocasião, não dá para esquecer. Ficamos eu e Gilberto, o NOSSO GALILEU na sala do meu apartamento conversando sobre FÍSICA QUÂNTICA.

Há algum tempo, formamos eu e mais dois amigos GUTO E OSVALDO um grupinho interessado neste assunto. Cresceu e todos os meses no nosso apartamento nos reunia para discutir FÌSICA QUÂNTICA. A primeira vez que tocamos neste assunto aconteceu numa mesa do CAIS BAR na praia de Iracema. Nós três conversamos até de manhã, o sono faltou. A “causa” Aquelas tão estranhas e novas ideias. Outros amigos fizeram parte destes estudos e se prolongou por vários anos.

Carl Sagan esteve em Fortaleza, um dos pilares e divulgador no mundo inteiro da nova ciência. Estivemos com ele. Estávamos aficionados. O Mundo Quântico dos átomos, do mistério, do quase místico. Voltamos à primeira infância tudo cor de rosa, o assunto predileto, despertando a curiosidade cada dia com mais novidades e surpresas.

O conceito do OBSERVADOR foi nossa maior dor de cabeça. Sempre nos encontrávamos e uma vez, entusiasmado, cheguei para o Gilberto e disse: Esta cadeira aqui, e apontei para uma cadeira que estava na sala: Se torna uma cadeira só porque estou observando. Para que disse tamanha doidice! O mundo desabou! Gilberto corou, ficou vermelho, não admitia tamanha heresia. Estávamos, à época, bem no início de nossos estudos. Cada qual queria ser o mais sabido coisa de principiante, o mais danado, o mais inteligente.  Não teve conversa: Correu, saiu da sala onde estávamos, entrou na cozinha, móvel vizinho, fechou a porta e gritou: Jonas:  diga a cadeira existe? ela ainda está aí ou já sumiu? Entrou na sala onde estava a cadeira quase pronto para a briga.  AGORA EXISTE PARA MIM E PARA VC, disse sem saber direito, PORQUE ESTAMOS OBSERVANDO.

Foi a resposta compreendida muito tempo depois. O conceito do OBSERVADOR ficou mais palatável.

JONAS MARINHO ARAÚJO, de Monsenhor Tabosa – Ceará, é Médico/Otorrino, em Fortaleza

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