Mês: outubro 2020

NA SALA DE AULA: Uma nova metodologia de pesquisa

As aulas da disciplina Literatura Cearense, ministradas pelo professor Leunam Gomes, no Curso de Letras, da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, suscitaram experiências bastante significativas, no âmbito do conhecimento literário, produzido em território cearense.

Professora Guida Pontes

Durante o semestre letivo pude compreender melhor a sistemática do ensino organizado pelo referido Professor, que privilegiou os alunos com momentos de pesquisa acerca dos escritores oriundos das mais variadas regiões cearenses. Durante as atividades executadas nas aulas, aconteceram inúmeros relatos dos estudantes sobre a produção escrita de autores cearenses, renomados ou em ascensão, naquele período. Diante disso, posso asseverar que a disciplina foi proveitosa. Possibilitou uma nova metodologia de pesquisa diversificada sobre a literatura produzida na terra de José Alencar.

      O trabalho realizado pelo professor Leunam Gomes proporcionou a seus alunos a realização de estudos sobre a historiografia literária cearense, que foram ampliados nos relatos sobre os autores de suas respectivas localidades. Mais do que uma estratégia didática, a metodologia de ensino pluralizou o currículo da disciplina, mostrando-me novas abordagens de estudos que dialogaram com a tradição e modernidade na literatura cearense.

        Portanto, posso dizer que esta experiência sintomática me motivou a buscar possibilidades de discutir, com meus futuros alunos, os mais variados assuntos na literatura, sem esquecer a relação entre historiografia, produção escrita atualizada e textos literários.

Texto de Margarida Timbó Pontes, de Ipueiras, ex aluna de  Letras da UVA, Doutora em Literatura Comparada, pela UFC, onde já é Professora Tutora do Instituto UFC/Virtual

NA SALA DE AULA: Posicionamento crítico e reflexivo -Texto da Professora Vânia Abreu Pontes

Não quero entrar no conteúdo, mas sim ressaltar o aspecto metodológico, utilizado pelo referido professor na sala de aula. Trata-se de um aspecto que continua a marcar a minha vida em ação e movimento. O lugar de onde eu falo do ponto de vista dos procedimentos metodológicos é muito mais que um lugar específico em que estive inserida, pois o conhecimento adquirido nas aulas de Leunam foi algo que se construiu por meio do posicionamento crítico e reflexivo, do argumento no qual o professor sustentou a escolha das metodologias, de práticas educacionais, de experiências (individuais e coletivas) e de lugares muito diferentes que continuam implicando nas minhas ações educacionais.

Professora Vânia Pontes, com nosso livro autografado

O que mais me encantava naqueles alunos era o entusiasmo que crescia a cada encontro. Rapazes e moças que vinham de vários pontos da zona norte, muitos habitando lugares distantes, na zona rural de seus municípios, estavam despertando para o potencial que conduziam. A maioria tinha que trabalhar até o final da tarde em seus municípios, viajar uma hora ou mais até Sobral, assistir às aulas até dez horas da noite e depois retornar às suas casas. E, mesmo assim, em nossas aulas demonstravam muito ânimo e motivação.

          Leunam ensinou, na prática, que a palavra dita é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apoia sobre mim numa extremidade, na outra se apoia sobre o meu interlocutor, assim a palavra é o território comum do professor e do aluno. Entre ambos existe um “entre nós”. Nesse sentido, o “nós” é a representação de um contrato social, ou seja, é um sujeito plural que direciona a aprendizagem para o alcance de uma dimensão mais democrática e participativa. Nesta dinâmica, o “eu” vive em “nós” a partir do momento em que o primeiro é constituído, intersubjetivamente, por meio da sua relação com outros na sala de aula. Aliás, o deslocamento do “eu” e do “nós” dentro da sala de aula compreende ao movimento inacabado do ser humano, pois onde o sujeito participa da sua formação educacional como igual, há inacabamento. 

       Enfim, “ainda existem histórias possíveis, histórias dignas de um escritor?” Esta era uma pergunta que, meio século atrás, se fazia Friedrich Durrenmat enquanto se preparava para escrever um de seus contos. Depois de ser aluna do professor Leunam, lembrei-me da pergunta de partida do referido escritor. Certamente, ele encontraria, nas nossas aulas de Literatura Cearense e Tópicos Especiais, o pano de fundo necessário para construir um conto de histórias possíveis, histórias dignas de serem contadas no campo educacional. O encontro marcado de cada aula daria um grande Prólogo para Durrenmat, histórias reunidas de participação que trouxeram à tona a relação de cada aluno com as já citadas disciplinas, partindo da construção de sentidos (individual e coletivo), Leunam como mediador preparava a turma para o mundo da vida, onde o Eu é a extensão do Nós no exercício da docência. Esta sensibilidade e preparação deste professor para o diálogo ainda me acompanha, pois é manifesto meu profundo desejo de romper com a voz do silêncio perturbador da sala de aula. 

(*) MARIA VÂNIA ABREU PONTES – Graduada em Letras, Direito e Psicologia, Especialização em Língua Portuguesa e Literatura, Mestrado em Psicologia.  Professora em cursos de Graduação  e no Instituto da UFC Virtual – Gestora Pedagógica do Curso de Direito da FAL/UNINTA -Sobral.

21 de outubro: NOSSOS HOMENAGEADOS: Padre Osvaldo Chaves, Padre José Linhares e Valdeci Vasconcelos

VELHO SEMINÁRIO

Padre Osvaldo Carneiro Chaves

Quando eu te vejo assim tão solitário,

Tenho a impressão de ver amargo pranto

Rolar em fios do teu rosto santo,

Herói de pedra, velho Seminário.

Como uma enorme interjeição de espanto

Interrogas ao céu do teu fadário:

E tudo é mudo ao grito funerário

Que parte do teu peito. No entretanto,

Consola-te: Talvez teu largo seio

De mil recordações já estava cheio,

E os últimos alunos te deixaram

Para museu de tantos, tantos anos

De sonhos, ilusões e desenganos

De todos quantos já por ti passaram.

 (Exíguas, pág. 157 )

Atrasar o esquecimento                               

 Padre Osvaldo Chaves


Não pode não, Mariquinha. Não pode não. Ter filho marcado com paralisia infantil. Eu estava certo de que não me ordenaria Padre. Um parente próximo, padre, diante da empolgação da minha mãe de desejar muito ter um filho Padre, advertia a gente de que seria pouco provável vencer a poliomielite, naquele tempo, nem se chamava assim, dizia-se paralisia.

O que eu aprendi de religião até chegar a minha primeira comunhão, com 12 anos, foi tudo do meu pai da minha mãe. Minha religião é a religião do meu pai e da minha mãe. Orar em certas circunstâncias de tempo e de lugar. Na hora que passar por uma cruz fazer uma oração. Eu via meu pai tirar o chapéu, eu na garupa, bem pequeno (o cavalo nunca reclamou, sinal de que eu era pouco pesado) passando por uma cruz. Noutros tempos a gente ia para sede da Matriz passar a Semana Santa, passar o Natal. Amanhecia o dia rezando. Antes de comer rezava, acompanhando a prática de meu pai e da minha mãe.

Eu baixei o fogo depois de advertência do meu parente não tive mais vontade de ser padre. Três colegas meus iam visitar Dom José. Era uma visita pastoral. Era a última noite que ele passava na cidade de Granja. No final da visita o Bispo conversou com os pixotes. Aquilo me encantou: um homem como Dom José conversar com pixotes,  várias horas, perdendo tempo, ele tinha que arrumar a bagagem para pegar o trem de madrugada para Sobral Aí eu terminei contando Aquela minha história para ele.

Ignorância! Você não anda? Ando, Senhor Bispo, não estou aqui? Ando de bicicleta, de motocicleta, a cavalo, sou campeão de natação. Hoje eu constato que nenhum dos três colegas foram ao seminário. Eu fui ao seminário da Betânia.

Eu considero Dom José o pai do meu sacerdócio. Há religiosos admiráveis. O clero todo é admirável. Fico muito espantado como uma pessoa deixa Pai, deixa mãe, deixa  juventude e vai morar sozinho, como um bobo como eu morei, por muito tempo. Infelizmente a gente tem que botar Dom José fora da lista de notáveis porque ninguém pode se comparar a ele.  Dom Walfrido encheu todas as medidas, foi um bispo muito respeitador do clero. Não sei destacar Papas, na verdade acho que mesmo os ruins são bons. Mesmo os ruins servem de modelo a não ser seguido. Destaco padre Arnóbio Padre Antônio Ximenes Aragão, Padre João Batista Frota que é santo e pode ser colocado como meu confessor.

Eu nunca percebi que a minha missa era marcada pela qualidade do sermão. Era comum,  normal. O sermão é uma insistência de quem preside o culto para que se celebre com fervor, com piedade, com sentido religioso. A dificuldade era as pessoas engolirem a missa muito comprida. Muitos tinham pressa. Uma vez dom Walfrido chegou a sugerir que a minha missa se fosse mais curta. Um colega para Albani, saiu logo em minha defesa. Dom Walfrido, deixe o rapaz fazer do jeito que ele sabe. Há muitas igrejas na cidade, quem achar a missa demorada, vai para outra igreja.

Eu me senti mutilado. Como se tivesse perdido os dois olhos ou um olho inteiro, a mão, depois a gente se acostuma com a mutilação Deixar de celebrar é muito difícil. A condição física governou a minha decisão de para de oficiar a missa. Não que eu tenha ficado inteiramente triste porque eu passei 64 anos celebrando e todo mundo via que chegaria a hora de parar. Mas é muito difícil.

A missa era preparada com zelo, oito dias antes eu já começava a elaboração. Nem sempre aquilo era pensado no primeiro dia de preparação servia, aparecia  outra coisa, outro sentimento. Dizer que eu estudava fundo para realizar uma missa é inventar coisas, era um padre como outro qualquer. Não precisa insistir nisto, havia gente  que fazer melhor. O Monsenhor Francisco Fontenele escrevia toda pregação, fazia mais do que eu. Preparar é escolher bem o texto, a linguagem para chegar com eficiência ao auditório. O roteiro era trabalhado antes da missa, no pensamento sem escritos, acontecendo improvisos porque eu desprezava algumas coisas idealizadas anteriormente, nas primeiras intenções dos preparativos e utilizava outros argumentos outras informações. O sermão deve ser simples e pode ser considerado um texto literário se feita em bom português. Não precisa da literatura cor-de-rosa, com imagens e metáforas absurdas com enfeites e exageros.

Já ouvi dizer que  achavam que eu era um contador de histórias, fazia comparações para temperar as explicações. É que nós chamamos a nossa pregação de Homilia que quer dizer papo, conversa.

Como se fossem assuntos gastos em um encontro informal onde se acaba conversando um bocado de coisa – isso é uma homilia. Dita com a finalidade de divulgação do Evangelho. Então a gente atendia as pessoas que perguntavam,  tínhamos espaço para comentários e participações diversas de quem estava presente, até mudando o curso da fala, introduzindo matérias diferentes do que estava sendo tratado. Como uma boa conversa quase casual.

Se eu fosse me preocupar com opiniões ou rótulos a meu respeito, eu chegaria ao final da missa e não tinha celebrado. Se fosse chamado de subversivo, exagerado, zeloso ao extremo, apurado, e eu desse ouvido a isso eu não poderia fazer o meu trabalho, não poderia continuar.

Se alguém quisesse a minha colaboração, se alguém quisesse me ouvir, seria do jeito apresentado: venha comigo ou não. A ditadura pensou em acompanhar minha atuação colocando gente para vigiar minha igreja.

Frequentemente,  de São Pedro havia camaradas com caras de moradores de outros estados, desconhecidos, assistindo as missas. Houve também  situação de picharem a igreja com acusações de que eu recebia dinheiro da Rússia. Imaginem! São Vicente de Paulo dizia: nada sem dinheiro. Parecia lógico que eu recebesse ajuda de algum lugar. O que acontecia mesmo era a economia.  Em lugar de comprar um carro pagando gasolina, eu economizava. Por exemplo lá na igreja de São Pedro no bairro Dom Expedito a igreja ouvia pancadas de bola e gritos de futebol jogado colado à igreja. Achei que a solução seria comprar um campo de futebol no outro lugar e levar os atletas para lá. Em lugar de resolver o problema, fiz dois campos de futebol. Passaram a usar os dois e continuamos a ouvir filho desta e daquela, ladrão etc.

Defunto é sempre bem comportado e sério. Vocês me verão na minha sentinela bem comportado e sério mais do que o comum. Verão no meu rosto a frustração de não ter alcançado o tempo em que uma freira ou um homem casado pudessem celebrar uma missa.  Antes de eu me ordenar eu já pensava em Padre que bastava de ser um cidadão batizado, trabalhador e com procedimento. Minha esperança era o Papa Francisco, mas vejo que não vai acontecer.

Alguém me perguntou sobre a minha trajetória como padre. Eu não acho diferença nenhuma das outras. Ultimamente, tenho pensado no trabalho do bispos, na dificuldade que é conduzir tantos padres. Padre aparece com chapéu de cowboy, cantando, outros com a roupa toda estreitadinha no corpo, achando muito bonitinho. Vai ser Bispo assim, meu filho!

Em toda coisa é preciso considerar o fim.  Estamos apresentando uma coletânea de sermões escolhidos a partir da gentileza de Jacó Araújo que escreveu um após o outro observando as missas. Um livro de sermões é uma experiência nova. Nunca fiz isso antes. Desejo que seja bom para as pessoas. Também desejo que seja simples, capa lisa, sem malhas. Mas a finalidade principal é atrasar o destino infeliz de todos nós: caminhar para o aquecimento. Atrasar o esquecimento.

Padre Zé Linhares – admiração e respeito!

Texto de Leunam Gomes

Há poucos dias fui desafiado a escrever sobre uma determinada pessoa. Não consegui inspiração suficiente. Hoje tenho que escrever sobre o Padre José Linhares e não sei por onde começar. A situação é bem outra e muito diferente da anterior. São tantas coisas a dizer que acho que as palavras serão poucas e insuficientes para manifestar o que penso. Não são apenas idéias ou impressões. São, sobretudo, sentimentos.

O Padre Zé Linhares foi tão importante em nossas vidas que talvez nos seja impossível traduzir, em palavras, tantos sentimentos, emoções… E por onde começar?

Para jovens adolescentes, oriundos de pequenas cidades ou da zona rural de alguns municípios, encontrar, em Sobral, o Padre Zé Linhares foi uma bênção especial. Para cada um de nós do Seminário de Sobral, do Colégio Sobralense ou do Colégio Santana, tê-lo por perto significava segurança. Era um verdadeiro Anjo da Guarda.

Na realidade, a equipe de padres que dirigia o Seminário Menor de Sobral era composta pelo que havia de melhor no clero diocesano. Era uma verdadeira seleção de craques da competência, do compromisso e do bom relacionamento, três virtudes que tenho, na maturidade, defendido, divulgado e procurado, com todas as forças, cultivar. Não chego nem aos pés daqueles que foram meus mestres, mas procuro inspirar-me neles.

Sobre o Padre Zelinhares, era assim que o tratávamos, há tantas coisas boas que é até difícil enumerá-las. A sua competência nos despertava muita atenção. Aos nossos olhos ele sabia de tudo, pela segurança com que falava sobre os mais diversos assuntos. Era muito claro nas exposições de suas idéias. Como primeiro professor de Latim deixou-me uma marca indelével a que me tenho referido sempre. E ele tinha apenas 26 anos. Foi a sua palavra de estímulo que me fortaleceu o gosto por aquela língua que, desde o tempo de menino, despertara-me curiosidade.

Como acólito do Monsenhor Antonino, em Guaraciaba do Norte, aprendi a ajudar a Missa que, à época, era celebrada em latim. Tinha de cor todas as respostas, embora não soubesse o que as palavras queriam dizer.  Aquela convivência inicial me despertara interesse por um dia saber o que aquelas palavras queriam dizer. Só sabia que eram orações a Deus. Enquanto estudava no Preliminar ouvia muitas referências negativas ao estudo do latim. Os meus colegas mais adiantados eram quase aterrorizados com aquele idioma, no entanto a minha curiosidade era maior do que o medo. E tive sorte de ter o padre Zelinhares como professor. Aí, juntaram-se a competência do Professor com a minha vontade e o resultado foi positivo. Saí-me bem na primeira prova. Tirei um nove. Mais importante do que aquela nota foram as palavras de estímulo do Padre Zelinhares. Para não o decepcionar, redobrava-me no estudo do latim. E por causa daquelas palavras sempre fui bem-sucedido.

Aquele gesto do Padre Zelinhares, certamente, mudou-me a vida. Tenho repetido muito este exemplo sempre que participo de cursos de formação de professores.

No segundo ano ginasial que corresponde hoje à sexta série do Ensino Fundamental, ele foi meu professor de Português. Suas aulas eram verdadeiros shows. Através delas comecei a descobrir o gosto pela leitura. Lembro-me bem das leituras que o Padre Zelinhares fazia do livro O Coração, de Edmundo De Amicis.

Mas além das aulas de disciplinas convencionais, ele nos dava aulas de comportamento. E aí, mais uma vez comprovávamos a competência e a habilidade do Padre Zelinhares ao lidar com tantos meninos vindos do interior. A maioria formada em famílias cristãs que sonhavam com um filho padre, mas nem sempre possuidoras de conhecimentos que pudessem repassá-los aos filhos porque elas mesmas desconheciam. Davam-nos o exemplo, as orientações básicas de convivência e respeito humanos, mas outras noções de comportamento vimos aprender com o Padre Zelinhares.

Além de Professor, cabia-lhe a tarefa de Prefeito de Disciplina. Ao cumprir esta tarefa, de nome aparentemente drástico, ele o fazia com uma suavidade de pai e amigo. Foram coisas simples que nos acompanham até hoje. Eram o comportamento à mesa, o uso de uma toalha de banho, o silêncio, o respeito ao outro pela pontualidade, a cortesia no trato com as pessoas, o uso de uma escova e de uma pasta de dente, e assim por diante. E ele mesmo era o nosso modelo.

Tive a feliz oportunidade de secretariá-lo no período em que ele exercia a função de Ecônomo do Seminário. Foi outra grande experiência. Aprendi coisas a que outros colegas não tiveram acesso que eram noções práticas de contabilidade. Cabiam-me várias tarefas relacionadas a entradas e saídas de dinheiro, fornecimento de materiais solicitados pelos seminaristas: cadernos, lápis, borrachas, pastas, sabonetes etc. Era um novo aprendizado.

São tantas coisas a comentar sobre a convivência e a admiração ao Padre Zelinhares que dariam até um livro. Não recordo nenhum momento que possa registrar como negativo. Certamente deve ter havido momentos de desejos contrariados, mas foram tão irrelevantes que não consigo lembrar-me de nenhum fato específico. Sobraram apenas as boas lembranças. O tempo e as atividades se encarregaram de nos separar fisicamente.  Temos estado muito distantes, fisicamente, mas jamais esquecerei de tantas coisas boas que aprendi com o Padre Zelinhares. A gente nunca esquece um bom modelo.

Bendito seja o Padre Zelinhares! Amém.

MANOEL VALDECI VASCONCELOS

Lembranças do Seminário de Sobral

A minha chegada ao Seminário, se deu no dia 08 de fevereiro de 1950. Lembro-me bem, encontrava-se na sala de entrada do amplo Seminário, dom José, em pessoa, recebendo os seus estimados “matutos”.

“Menino véi”, acanhado, tremia medroso, quando fui arguido, por ele, com 3 ou 4 perguntas, no que julgo a haver-me saído a contento. Foi, desta maneira, que se iniciou a minha história de vida, neste Seminário – durante um período curto – nesta primeira fase, porém, por muitos anos, lá adiante, como professor da UVA.

Apesar do pouco tempo, foi nele que encontrei a sólida base sustentacular, junto com os ensinamentos hauridos, no convento dos frades franciscanos alemães, (1947-1948), em Tianguá, somados às lições primaciais absorvidas no recato abençoado e aconchegante da minha casa. Nesses recintos acolhedores e virtuosos, procurei impregnar-me dos fundamentos essenciais e indispensáveis àqueles que desejam manter uma vida digna: respeitar e seguir, na medida do possível, os preceitos cristãos, agir com firmeza e retidão de caráter, praticar a honestidade em todas as suas atitudes, guardar a consideração ao seu próximo, valorizar a disciplina e apegar-se o sentimento de justiça.

Foram desses oásis exuberantes que se abriram para mim, as perspectivas de alcançar êxito nas áreas dos estudos, no exercício profissional e nas interações sociais.

Por julgar oportuno e achar que existem afinidade e correlação entre si, me permito “data venia” transcrever alguns trechos do discurso pronunciado em 09 de janeiro de 2014, quando recebi o diploma de Bacharel em Direito e representei todos os formandos dos diversos cursos da UVA.

Existe, por dever de justiça, em ocasiões como esta, referir-se à “lembrança do prédio onde estudamos; no nosso caso, o vetusto e imponente casarão da Betânia, que em épocas passadas, abrigou o bem glorificado Seminário São José, sementeira de vocações sacerdotais, gerando quase uma centena de sacerdotes, sob o olhar vigilante e diligente de Dom José Tupinambá da Frota. A outra parte que não se ordenou padre, e que era bem mais numerosa, robustecida pela qualidade do ensino ministrado, pela aplicação contínua e séria da moral e dos princípios cristãos, ao lado de uma disciplina voltada para os bons costumes e retidão do caráter, a dignidade pessoal, o amor ao próximo e o respeito à criatura humana, se constituíram em pessoas bem sucedidas no campo das atividades que abraçaram.

Este majestoso conjunto de edifícios já nasceu predestinado por propósitos divinos para cumprir pioneiros e consagradores compromissos com dois preceitos de insuperável alcance e sublime destinação: o primeiro, foi de ordem mais específica, no labor de preparar os ministros cristãos e religiosos para o munus de pregar a palavra de Deus e apascentar as ovelhas de Cristo e o segundo, o de ser o berço da UVA, que há 46 anos ensina a trilha misteriosa que conduz os obstinados ao tesouro mágico de onde promanam os clarões resplandecentes e esplendorosos que incidem verticalmente e impõem à vista as inestimáveis e mais cobiçadas joias intituladas de: CONHECIMENTO, CULTURA E SABER”.

No discurso citado, exaltei a importância do professor e, aqui desejo homenagear com as mesmas palavras, meus inesquecíveis mestres do Seminário: Pe. Arnóbio Andrade, Monsenhor Tibúrcio Gonçalves de Paula, Pe. Joviniano Loiola,  Pe. Edson Frota, Pe. Edmilson Cruz, Pe. Cardoso, Pe. Aristides Sales, Pe. Moésia Nogueira Borges, Pe. Sabino Guimarães Loyola, Pe. José Gerardo Ferreira Gomes, Pe. Francisco Sadoc de Araújo e Prof. Mariano Rocha.

Destaco “o apreço justíssimo e merecido, à pessoa do professor, do mestre obstinado, que se consome como uma vela acesa, no árduo, cotidiano e diuturno mister, de distribuir conhecimento, transferir saber, aprendizados, ideias construtivas que servirão para as atividades do cotidiano e de toda vida.  O professor é o símbolo perfeito e acabado do espírito de doação, de eterna paciência, é o anjo tutelar, estrela-guia, é a fonte cristalina, a jorrar com exuberância, a límpida água que sacia a sede do corpo, como também irriga e nutre as mais legítimas aspirações da mente e do intelecto.

Gostaria muito, de declinar os nomes daqueles colegas de quem mais me aproximara, porém, o texto já vai longo e falta espaço.

Deixo um abraço fraternal a todos aqueles que me reconhecerem através da leitura desse simples artigo.

Para agradecer a quantos contribuíram para a minha jornada, há longos anos, no saudoso e inesquecível Seminário de Sobral, valho-me da imaginação do famoso escritor e orador, Pe. Antonio Vieira, ao afirmar ser fato tão natural e simples o agradecer, que até as montanhas se enchem de voz, para praticar esta virtude.

Sabem por que as montanhas repetem, de quebrada em quebrada o eco da sua fala? É para agradecer as pródigas dádivas da natureza.

Ultimo este trabalho com um hino de louvor ao bendito Seminário nos seus 90 anos de fundação e com um gesto especial de agradecimento a todos que contribuíram para este livro em sua homenagem.

COMENTÁRIOS SOBRE NOSSAS PUBLICAÇÕES RECENTES:

Sobre: No Seminário de Sobral: O APRENDIZADO PARA A VIDA Isto é que é currículo rico e bem escrito
Nasceu para servir é um apostolo do saber e sua generosidade frutifica num país tão necessitado. Parabéns! ( Jonas Marinho)
Sensacional ler um pouco da história de Leunam! Participei de vários cursos ministrados por Leunam em São Luís do Maranhão e sempre foi um grande prazer sorver tanta informação e tanta sabedoria vinda desse grande mestre. Suas aulas sempre foram de enorme contentamento, pois transmitiam saberes não só para a vida profissional como para o dia a dia nos relacionamentos humanos. Inesquecível o querido professor Leunam com seu método inovador de ensinar e despertar os alunos para novas colocações e feitos. Muito obrigada mestre!                            (Ercy Maria Gandra de Menezes, de São Luis/Maranhão)
Parabéns, fico feliz, cada de nós Betanistas, tem muito do Seminário. Grande abraço. (Lourenço Lima – do Rio de Janeiro)
Professor Leunam, eu gosto muito de seus escritos. Eles são colírio para os meus olhos e bálsamo para minha mente. Muitos aprendizados! Parabéns estimado professor. (Socorro Sousa, de Sobral – Ce.)
Sobre: RESGATANDO A MINHA HISTÓRIA NO SEMINÁRIO DA BETÂNIA, de Raimundo Aguiar Bom resumo. Parabéns!
Também achei honesta historicamente a expressão “golpe civil-militar de 31 de março”. (Francisco Baltazar Neto, de Fortaleza)
Sobre: CONVERSANDO SOBRE O LIVRO “PROFESSOR COM PRAZER -Vivência e Convivência em Sala de Aula Boa noite. Realmente, foi uma conversa bem descontraída, só temos a agradecer pela disponibilidade do Professor Leunam e já estamos ansiosos pelo próximo. Oxalá que todas as escolas tivessem esse momento tão prazeroso. (Leila Maria Freitas Ferreira, de Guaraciaba do Norte)
Excelente, tudo isso é fruto de um trabalho sério e focado no ensino-aprendizagem! Sendo colocado em primeiro plano o professor!
Um forte abraço a todos.  (Evando Gomes, Prof. Esp. ( mestrando em Educação)

LITERATURA CEARENSE: O TREM PAGADOR

Na transcorrência da vida os fatos acontecem e as coisas se modificam, conforme a necessidade ou o momento e quase sempre com o objetivo de melhorar o trabalho, a segurança e a forma de facilitar a vida.

FLÁVIO MACHADO, escritor, de Crateús – Ce.

Já vai longe, bem distante o tempo em que os ferroviários da antiga Rede Viação Cearense (RVC) recebiam seus vencimentos através do trem pagador. Havia uma sistemática para cumprir à risca o cronograma de pagamentos. Primeiro chegavam aqui os contracheques e a alvissareira notícia sobre o dia da vinda do trem pagador. A notícia era motivo de euforia e corria célere pelas antigas bodegas fornecedoras de produtos alimentícios aos empregados da RVC.

Os fornecedores se enchiam de expectativas com a notícia e iniciavam a tarefa de somar os valores anotados nas antigas cadernetas que registravam as compras mensais de cada ferroviário.

Durante o mês, diariamente, bodegueiros atendiam as necessidades dos ferroviários, fornecendo-lhes os produtos de consumo, do feijão ao sabão, tudo anotado na caderneta do cliente e na do bodegueiro, para confronto das mercadorias e valores no prestamento de contas. Entre os fornecedores estavam Belmiro Venâncio, Raimundo Carlos, José Carneiro, Chico Serrano e muitos outros donos de bodegas e mercearias existentes em Crateús há muitas décadas bem distantes.

O trem pagador, com sua função especial, era sempre aguardado e bem-vindo. Compunha-se de locomotiva, um vagão que servia de dormitório, outro que funcionava como restaurante e um vagão especial, de compartimentos com grades e cofres que guardavam o dinheiro a ser distribuído em cada estação.

Os ferroviários previam a hora de chegada do dinheiro, que vinha sob os cuidados da tripulação do trem e da polícia ferroviária, protetora dos valores e do tesoureiro responsável pelo pagamento.

Crateús contava com expressiva quantidade de ferroviários. Além dos que trabalhavam em trechos e os da burocracia, sediava também as oficinas e aumentava a quantidade desses trabalhadores a esperar o trem pagador, proveniente da estação de João Felipe, em Fortaleza, de onde o trem partia rumo às cidades da zona norte do Ceará, num percurso que se encerrava no distrito de Oiticica.

Conversando com os antigos ferroviários Pedro Monte, Luis Kiba e Hamilton Farias, este um dos pagadores, relembramos outros nomes de responsáveis e de condutores daquele dinheiro, entre eles José Euclides, Carlos Alberto de Holanda, Edésio Borges, Clovis Gomes Parente e Braguinha, este muito conhecido por ferroviários de épocas mais recentes.

O trem pagador da RVC, por vezes inúmeras, cumpriu com segurança e sem incidentes, várias viagens conduzindo altos valores e chegava tranquilo ao seu destino. Nos dias atuais aquele trem, talvez não conseguisse sequer dar a partida, pois inapelavelmente seria assaltado.

Esta é uma das matérias do livro Raízes de Crateús -Verdades Históricas – de Flávio Machado e Silva.

“O Comentário da Semana” – Padre Assis Rocha

MONS. ASSIS ROCHA -De Bela Cruz – Ceará para Afogados da Ingazeira – Pe.

Meus primeiros contatos com a comunicação em Rádio, eu tive no início da década de 1960, quando Dom Francisco assumia o comando pastoral da Diocese, em Afogados da Ingazeira. A Rádio Pajeú tinha sido erigida pelo seu 1º Bispo, Dom João Mota, em 1959, e Dom Francisco, com 37 anos, tinha sido eleito, seu sucessor, assumindo a Missão em Afogados, aos 17 de setembro de 1961. Desde o início do ano, eu já estava estudando em Olinda. Logo em 1962, durante a Semana Santa, vim com mais dois colegas – Leunam e Marcelino – colaborar com a liturgia na Catedral e em programas radiofônicos na Rádio Pajeú, pois, no Seminário de Olinda, já éramos iniciados na Pastoral da Comunicação e treinávamos em rádios de Recife.

         Retornávamos a Afogados na Semana Santa dos anos seguintes, tanto que, na de 1964, estávamos aqui, no dia 31 de março, quando se deu o Golpe Militar. Houve um grande transtorno pela falta de transporte para voltar a Recife, que continuou por um bom tempo, enquanto nos adaptávamos aos rigores da ditadura. O contato com D. Francisco, com a Diocese e com a Pastoral que aqui se fazia, bem como os desafios feitos pelo Sertão, me estimularam a vir para ficar. Ao terminar os estudos em Olinda, senti-me chamado a trabalhar aqui em Afogados e para cá me dirigi em 1966. Não me arrependi. Vocês conhecem essa historia. Sou, umbilicalmente ligado a vocês. Meus contemporâneos sabem. Os de agora, ouvem falar.

         Certamente, por ser quase meu contemporâneo, por ter também apresentado o mesmo “Rádio Vivo” na Florescer FM, enquanto eu era Pároco de Flores, por nos termos encontrado inúmeras vezes em várias datas comemorativas e até por ter sido meu convidado a participar da programação da Rádio Educadora, da Diocese de Sobral, quando retornei/ e, mais recentemente, por ter participado do meu Jubileu Sacerdotal, em Bela Cruz, onde moro, o produtor e apresentador do Prog. “Rádio Vivo”, Anchieta Santos, prevendo a satisfação que eu teria em reaparecer pela Rádio Pajeú, convidou-me a participar deste seu Programa a cada sábado, abordando algum tema da atualidade, interessante para todo o povo. Aqui estou.

         Não quero ensinar nada. O meu tempo de ensinar há muito que passou. Àquela época não tínhamos os recursos que se tem hoje. Tudo era muito difícil, longe, tínhamos que ir buscar. Até um fusível, de que precisássemos, tínhamos que ir procurá-lo. Graças ao progresso da tecnologia, à facilidade de comunicação, à instantaneidade da internet, “o longe veio pra perto e a distancia ficou um salto”, como previa Zé Marcolino ao cantar sua “Estrada”.

         Obrigado, amigão, pelo convite! Vamos experimentar esta “última” parceria. Não sabemos até quando. Deus o sabe. Até com o silencio se pode dar uma grande mensagem. Muito obrigado por hoje e até sábado. Bom dia!

No Seminário de Sobral: O APRENDIZADO PARA A VIDA

Quando em entrei no Seminário, em fevereiro de 1955, os veteranos me perguntavam:

De onde tu és, menino?

-De Guaraciaba do Norte, respondia, timidamente. E ouvia os resmungados:

Onde é que fica isto, meu Deus?

Aí eu tinha que arranjar um jeito mais fácil de situar minha terra e respondia:

É uma cidadezinha que fica entre Ipu e São Benedito.

Leunam Gomes, na Betânia, de 1955 a 1961

Mesmo assim eu percebia que ninguém sabia onde ficava. E pensava comigo: por que não nasci numa cidade mais conhecida?  Sobral, Crateús, Ipu, Camocim, Tianguá todo mundo sabia. Mas Guaraciaba do Norte! Naquele tempo, eu gastava dez horas de viagem para chegar a Sobral. Saia às duas da manhã para Ipu, onde tomava o trem, e chegava a Sobral às 12,40h. Lá pegava um “carro de praça” para chegar até a Betânia, do outro lado da cidade.

Meus pais eram muito ligados à Igreja. Ele, José Raimundo Gomes Sobrinho, era músico e fazia parte da Banda de Música que acompanhava o vigário em todas as festas religiosas. Minha mãe, Raimunda Gomes Silva, prima do meu pai, fazia parte do coro da Igreja que, tal como a banda de Música, estava sempre presente em todas as festas religiosas. Foi essa convivência que deu em casamento. Como não havia consenso nas famílias, os dois resolveram fugir e casar-se. Só quando nasceu o primeiro filho homem, que era eu, as famílias se reconciliaram. Depois do sexto filho, minha mãe morreu de parto, o que, lamentavelmente, era comum, à época. Meu pai casou-se com uma irmã dela. Nasceram mais seis filhos. O sustento da família vinha de uma pequena indústria de calçados. E a pregação permanente do meu pai era sobre o estudo. Todos tinham que estudar. Era a herança que podia deixar.

 Aquela grande aproximação dos pais com a Igreja tornou-me acólito. Aprendi, com Dona Milica, Emilia Fernandes Soares, minha primeira professora, a ajudar a missa. Tudo decorado, em Latim.  Ajudar nos atos litúrgicos era o máximo para uma criança de uma pequena cidade onde quase tudo girava em torno da Igreja Católica.

Um dia, em outubro de 1954, ao retornar de uma pequena viagem, a pé, à Fazenda Riachão, no município de Reriutaba, fui informado de que iria estudar no Seminário de Sobral. Teria que submeter-me a um exame de admissão. Em novembro, juntamente com o José Abner, fomos a Sobral, em companhia de nossos pais, onde faríamos o tal exame. Primeiro uma visita a Dom José Tupinambá da Frota, como era de costume. Nunca tínhamos visto um Bispo, de perto. No Seminário fomos entregues aos cuidados do então prefeito dos Menores, Oney Braga. Estávamos encantados com tudo que víamos, especialmente com o tamanho daquele prédio. Quase sempre estávamos perdidos naquela casa. Pior era lembrar o nome do seminarista que ficou de cuidar de nós. Tudo era novidade para nós. Aquela quantidade de meninos, vestidos de batina, nos atraia.

Em fevereiro de 1955 eu fui para Sobral e o Zé Abner para o Seminário de Parnaíba. Eram as nossas oportunidades de continuar os nossos estudos, já que em nossa terra só podíamos estudar até a quarta série do primário. E nada mais. Para nós, aquela oportunidade foi semelhante a um bilhete na loteria. Vestir uma batina preta era o grande sonho. Antes, só vestia a vermelha de acólito. E começou uma nova vida no Seminário. Muitas normas, muitas exigências. Tudo na hora certa. Todos tinham que estar ao mesmo tempo nos mesmos lugares. No terceiro dia, fomos recomendados a levar os calções para o dormitório. Que felicidade! Imaginei que o futebol começaria logo cedo. Veio a decepção, logo às cinco e meia da manhã. O calção era para fazer ginástica.

De 1955 a 1961 foram anos marcantes. Conviver com uma equipe de padres que, a nosso ver, era a seleção do clero sobralense. Todos sabiam bem tudo que lhes cabia fazer. Aprender o Latim que estava presente em tudo, o Grego, o Francês, Inglês, Matemática era ter uma base para a vida. Além disto, os ensinamentos de Ética, Moral, Boas Maneiras fizeram a diferença.

No segundo ano, a nossa turma criou um jornal mural para tornar públicas as nossas produções literárias e divulgar os nossos eventos. Foi uma grande inovação no Seminário. O nosso jornal era aguardado com expectativa por todos. Era escrito à mão, numa folha de cartolina, dividida em cinco ou seis colunas. No quinto ano fizemos uma edição impressa. Outra grande inovação inclusive com patrocínios comerciais. Esta experiência nós a levamos para o Seminário de Olinda, onde fomos cursar o Seminário Maior.

Ter estudado nos Seminários de Sobral, de Olinda e de Camaragibe foi a melhor experiência no campo da formação intelectual. Em Pernambuco tive a oportunidade da convivência com outra seleção de intelectuais de alto nível que incluía o Professor Ariano Suassuna, Joseph Comblin, Eduardo Hoonaert, Dom Hélder Câmara que me conferiu a Tonsura. Foi vendo e ouvindo o prof. Ariano, já então famoso  com o Auto da Compadecida, falar tanto de Taperoá que entendi que se eu não falasse da minha terra, ninguém falaria. E passei a divulgar e tentar fazer algo por Guaraciaba do Norte, conseguindo tempos depois, com a implantação de cursos de graduação, transformá-la no maior polo universitário da zona norte, depois de Sobral.

Concluído o curso de Teologia, vim para Sobral onde trabalhei no Movimento de Educação de Base – MEB, outra grande escola. Passei para a equipe de Fortaleza onde fui Coordenador da equipe local e, depois, da equipe estadual, até que, em 1971, a ditadura me impediu de continuar. Fui para o Maranhão, trabalhar na primeira experiência de TV Educativa do Brasil. Quando a ditadura voltou a me perseguir, transformei-me em publicitário, montando uma Agência de Propaganda, na capital maranhense.

Em São Luis, casei-me no Dia Internacional da Mulher, em 1974 com Maria Myrtes Barreto Cavalcante Gomes, cearense, de Pedra Branca, minha ex-colega no MEB. Retornei ao Ceará, em 1989 como Secretário de Educação em Croatá. Depois ocupei a mesma função em Poranga e Guaraciaba do Norte. A convite, integrei a equipe da Secretaria de Educação do Estado, na primeira gestão do Governador Tasso Jereissati e, simultaneamente, fiz parte do Conselho de Educação do Ceará.  Por doze anos, ocupei a função de Pró-Reitor da UVA onde desenvolvemos vasto programa de alfabetização de adultos. Levamos, a convite, a nossa experiência de formação de alfabetizadores para Cabo Verde, na África. Finalmente, fui Diretor da Imprensa Universitária da UVA até aposentar-me, em 2012.

Como teria percorrido este caminho, sem o Seminário de Sobral?

Texto publicado no livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA – 2015

Mons. Assis Rocha, o aniversariante deste domingo, dia 11 de outubro

RESGATANDO A MINHA HISTÓRIA NO SEMINÁRIO DA BETÂNIA

Antes de qualquer coisa gostaria de destacar a emoção que sinto nesse momento em estar aqui, juntamente com os demais companheiros do Seminário São José de Sobral, para relatarmos nossas experiências vivenciadas durante aqueles inesquecíveis anos de estudo. Foi, sem dúvida nenhuma, um período, que marcou intensamente nossa vida.  Os laços de amizade lá firmados representam hoje o estímulo de estarmos mais uma vez juntos, trazendo à tona lembranças e a certeza de que valeu a pena.

Raimundo Aguiar, na Betânia de 1964 a 1967

Sou Raimundo Aguiar Silva, na época conhecido como Raimundinho do Padre Tupi, filho do casal Pedro Pereira da Silva e Carmosa Aguiar Silva, segundo na escala dos seus sete filhos. Nasci em Sobral em 8 de novembro de 1951, oriundo de uma família pertencente a uma classe social considerada pobre, mas com uma formação religiosa bastante sólida, principalmente manifestada pela minha mãe Carmosa Aguiar Silva e minha avó adotiva Maria Benvinda Cialdini Rangel, pessoas que  influenciaram bastante na minha decisão em entrar para o Seminário. A minha pouca maturidade não me permitiu então perceber ao certo o que necessariamente representava para mim aquela decisão, a não ser vislumbrar uma vida mais fácil, com menos dificuldades financeiras.

Ingressei no Seminário em 1964, época bastante delicada em nosso País, pois vivíamos naquela ocasião o golpe civil-militar de 31 de março, que deu início a um momento conhecido como a Ditadura Militar.  Foi uma situação marcante na nossa história, quando as nossas liberdades foram reprimidas; as nossas vontades, ideais e aspirações, relegados ao silêncio imposto pela repressão. E o Seminário se tornou um reduto da resistência. Éramos mais de cem jovens inebriados pelos princípios revolucionários do Concílio Vaticano II, e o mundo todo ansiava por liberdade e por justiça.

O Seminário nos propunha uma rígida formação religiosa, pautada em preceitos dogmáticos, que não podíamos questionar. Eram-nos passados como verdades absolutas inspiradas na fé. Preceitos e disciplina com que foi construída uma base sólida para toda a nossa formação humana e profissional.  O respeito aos outros, a solidariedade, os bons costumes, o companheirismo, a religiosidade foram inquestionavelmente os alicerces da minha formação, proporcionados  pelo inesquecível   Seminário da Betânia .

Durante quatro anos permaneci no Seminário, que fechou suas portas, por problemas financeiros, no final de 1967, momento de muita tristeza para todos nós. Lá aprendi muito e com uma profundidade tal que os conhecimentos adquiridos naquele casarão vêm superando todas as experiências obtidas em outros espaços e determinando êxito nas minhas atividades pelos caminhos da vida.

Em 1968, não mais seminarista, fui estudar em Fortaleza. Na ocasião, a Escola Técnica Federal do Ceará se destacava na educação brasileira. Pleiteei e consegui ali uma vaga, não obstante o número significativo de concorrentes. Conclui, em 1972, o curso de Estradas, especializando-me em Equipamentos Pesados.

. Em 1976 ingressei no curso de Matemática, posteriormente transferido para Engenharia Elétrica, na Universidade de Fortaleza – UNIFOR, curso que, por questões pessoais, não me foi possível concluir.

Hoje, vivo realizado ao lado de minha esposa e quatro filhos, aos quais procuro transmitir o legado da formação que recebi do Seminário como determinante para uma existência digna: simplicidade de vida, respeito aos outros, fé em Deus e nas nossas potencialidades.

Valeu muito ter estudado no Seminário. De tudo tirei proveito: das aulas, das reflexões conduzidas pelos padres, das orações da manhã, dos terços rezados às cinco horas da tarde, das missas diárias matinais, das conversas nos corredores e no refeitório, dos esportes, dos amigos que lá conquistamos. Tenho certeza de que faria tudo da mesma forma. Aqui lembro o poema de Don Herold (1953),  “ Eu colheria mais margaridas”:

“Se eu pudesse viver minha vida de novo, eu trataria de cometer mais erros na próxima vez (…) correria mais riscos (…) tomaria mais sorvetes.”

Na realidade eu cometeria menos erros, aproveitaria mais as aulas de Música, Latim, Francês e Português. Seria mais acessível aos momentos de reflexão proporcionados pelos nossos mestres e, com certeza, comeria mais finas tapiocas, chamadas de “lenço de parteira”, servidas no lanche das 9 horas  da noite.

 Velhos tempos, belos dias (Roberto Carlos). Se eu tivesse a mesma chance eu faria tudo exatamente da mesma maneira.