RESGATANDO A MINHA HISTÓRIA NO SEMINÁRIO DA BETÂNIA

Antes de qualquer coisa gostaria de destacar a emoção que sinto nesse momento em estar aqui, juntamente com os demais companheiros do Seminário São José de Sobral, para relatarmos nossas experiências vivenciadas durante aqueles inesquecíveis anos de estudo. Foi, sem dúvida nenhuma, um período, que marcou intensamente nossa vida.  Os laços de amizade lá firmados representam hoje o estímulo de estarmos mais uma vez juntos, trazendo à tona lembranças e a certeza de que valeu a pena.

Raimundo Aguiar, na Betânia de 1964 a 1967

Sou Raimundo Aguiar Silva, na época conhecido como Raimundinho do Padre Tupi, filho do casal Pedro Pereira da Silva e Carmosa Aguiar Silva, segundo na escala dos seus sete filhos. Nasci em Sobral em 8 de novembro de 1951, oriundo de uma família pertencente a uma classe social considerada pobre, mas com uma formação religiosa bastante sólida, principalmente manifestada pela minha mãe Carmosa Aguiar Silva e minha avó adotiva Maria Benvinda Cialdini Rangel, pessoas que  influenciaram bastante na minha decisão em entrar para o Seminário. A minha pouca maturidade não me permitiu então perceber ao certo o que necessariamente representava para mim aquela decisão, a não ser vislumbrar uma vida mais fácil, com menos dificuldades financeiras.

Ingressei no Seminário em 1964, época bastante delicada em nosso País, pois vivíamos naquela ocasião o golpe civil-militar de 31 de março, que deu início a um momento conhecido como a Ditadura Militar.  Foi uma situação marcante na nossa história, quando as nossas liberdades foram reprimidas; as nossas vontades, ideais e aspirações, relegados ao silêncio imposto pela repressão. E o Seminário se tornou um reduto da resistência. Éramos mais de cem jovens inebriados pelos princípios revolucionários do Concílio Vaticano II, e o mundo todo ansiava por liberdade e por justiça.

O Seminário nos propunha uma rígida formação religiosa, pautada em preceitos dogmáticos, que não podíamos questionar. Eram-nos passados como verdades absolutas inspiradas na fé. Preceitos e disciplina com que foi construída uma base sólida para toda a nossa formação humana e profissional.  O respeito aos outros, a solidariedade, os bons costumes, o companheirismo, a religiosidade foram inquestionavelmente os alicerces da minha formação, proporcionados  pelo inesquecível   Seminário da Betânia .

Durante quatro anos permaneci no Seminário, que fechou suas portas, por problemas financeiros, no final de 1967, momento de muita tristeza para todos nós. Lá aprendi muito e com uma profundidade tal que os conhecimentos adquiridos naquele casarão vêm superando todas as experiências obtidas em outros espaços e determinando êxito nas minhas atividades pelos caminhos da vida.

Em 1968, não mais seminarista, fui estudar em Fortaleza. Na ocasião, a Escola Técnica Federal do Ceará se destacava na educação brasileira. Pleiteei e consegui ali uma vaga, não obstante o número significativo de concorrentes. Conclui, em 1972, o curso de Estradas, especializando-me em Equipamentos Pesados.

. Em 1976 ingressei no curso de Matemática, posteriormente transferido para Engenharia Elétrica, na Universidade de Fortaleza – UNIFOR, curso que, por questões pessoais, não me foi possível concluir.

Hoje, vivo realizado ao lado de minha esposa e quatro filhos, aos quais procuro transmitir o legado da formação que recebi do Seminário como determinante para uma existência digna: simplicidade de vida, respeito aos outros, fé em Deus e nas nossas potencialidades.

Valeu muito ter estudado no Seminário. De tudo tirei proveito: das aulas, das reflexões conduzidas pelos padres, das orações da manhã, dos terços rezados às cinco horas da tarde, das missas diárias matinais, das conversas nos corredores e no refeitório, dos esportes, dos amigos que lá conquistamos. Tenho certeza de que faria tudo da mesma forma. Aqui lembro o poema de Don Herold (1953),  “ Eu colheria mais margaridas”:

“Se eu pudesse viver minha vida de novo, eu trataria de cometer mais erros na próxima vez (…) correria mais riscos (…) tomaria mais sorvetes.”

Na realidade eu cometeria menos erros, aproveitaria mais as aulas de Música, Latim, Francês e Português. Seria mais acessível aos momentos de reflexão proporcionados pelos nossos mestres e, com certeza, comeria mais finas tapiocas, chamadas de “lenço de parteira”, servidas no lanche das 9 horas  da noite.

 Velhos tempos, belos dias (Roberto Carlos). Se eu tivesse a mesma chance eu faria tudo exatamente da mesma maneira.

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