No Seminário de Sobral: O APRENDIZADO PARA A VIDA

Quando em entrei no Seminário, em fevereiro de 1955, os veteranos me perguntavam:

De onde tu és, menino?

-De Guaraciaba do Norte, respondia, timidamente. E ouvia os resmungados:

Onde é que fica isto, meu Deus?

Aí eu tinha que arranjar um jeito mais fácil de situar minha terra e respondia:

É uma cidadezinha que fica entre Ipu e São Benedito.

Leunam Gomes, na Betânia, de 1955 a 1961

Mesmo assim eu percebia que ninguém sabia onde ficava. E pensava comigo: por que não nasci numa cidade mais conhecida?  Sobral, Crateús, Ipu, Camocim, Tianguá todo mundo sabia. Mas Guaraciaba do Norte! Naquele tempo, eu gastava dez horas de viagem para chegar a Sobral. Saia às duas da manhã para Ipu, onde tomava o trem, e chegava a Sobral às 12,40h. Lá pegava um “carro de praça” para chegar até a Betânia, do outro lado da cidade.

Meus pais eram muito ligados à Igreja. Ele, José Raimundo Gomes Sobrinho, era músico e fazia parte da Banda de Música que acompanhava o vigário em todas as festas religiosas. Minha mãe, Raimunda Gomes Silva, prima do meu pai, fazia parte do coro da Igreja que, tal como a banda de Música, estava sempre presente em todas as festas religiosas. Foi essa convivência que deu em casamento. Como não havia consenso nas famílias, os dois resolveram fugir e casar-se. Só quando nasceu o primeiro filho homem, que era eu, as famílias se reconciliaram. Depois do sexto filho, minha mãe morreu de parto, o que, lamentavelmente, era comum, à época. Meu pai casou-se com uma irmã dela. Nasceram mais seis filhos. O sustento da família vinha de uma pequena indústria de calçados. E a pregação permanente do meu pai era sobre o estudo. Todos tinham que estudar. Era a herança que podia deixar.

 Aquela grande aproximação dos pais com a Igreja tornou-me acólito. Aprendi, com Dona Milica, Emilia Fernandes Soares, minha primeira professora, a ajudar a missa. Tudo decorado, em Latim.  Ajudar nos atos litúrgicos era o máximo para uma criança de uma pequena cidade onde quase tudo girava em torno da Igreja Católica.

Um dia, em outubro de 1954, ao retornar de uma pequena viagem, a pé, à Fazenda Riachão, no município de Reriutaba, fui informado de que iria estudar no Seminário de Sobral. Teria que submeter-me a um exame de admissão. Em novembro, juntamente com o José Abner, fomos a Sobral, em companhia de nossos pais, onde faríamos o tal exame. Primeiro uma visita a Dom José Tupinambá da Frota, como era de costume. Nunca tínhamos visto um Bispo, de perto. No Seminário fomos entregues aos cuidados do então prefeito dos Menores, Oney Braga. Estávamos encantados com tudo que víamos, especialmente com o tamanho daquele prédio. Quase sempre estávamos perdidos naquela casa. Pior era lembrar o nome do seminarista que ficou de cuidar de nós. Tudo era novidade para nós. Aquela quantidade de meninos, vestidos de batina, nos atraia.

Em fevereiro de 1955 eu fui para Sobral e o Zé Abner para o Seminário de Parnaíba. Eram as nossas oportunidades de continuar os nossos estudos, já que em nossa terra só podíamos estudar até a quarta série do primário. E nada mais. Para nós, aquela oportunidade foi semelhante a um bilhete na loteria. Vestir uma batina preta era o grande sonho. Antes, só vestia a vermelha de acólito. E começou uma nova vida no Seminário. Muitas normas, muitas exigências. Tudo na hora certa. Todos tinham que estar ao mesmo tempo nos mesmos lugares. No terceiro dia, fomos recomendados a levar os calções para o dormitório. Que felicidade! Imaginei que o futebol começaria logo cedo. Veio a decepção, logo às cinco e meia da manhã. O calção era para fazer ginástica.

De 1955 a 1961 foram anos marcantes. Conviver com uma equipe de padres que, a nosso ver, era a seleção do clero sobralense. Todos sabiam bem tudo que lhes cabia fazer. Aprender o Latim que estava presente em tudo, o Grego, o Francês, Inglês, Matemática era ter uma base para a vida. Além disto, os ensinamentos de Ética, Moral, Boas Maneiras fizeram a diferença.

No segundo ano, a nossa turma criou um jornal mural para tornar públicas as nossas produções literárias e divulgar os nossos eventos. Foi uma grande inovação no Seminário. O nosso jornal era aguardado com expectativa por todos. Era escrito à mão, numa folha de cartolina, dividida em cinco ou seis colunas. No quinto ano fizemos uma edição impressa. Outra grande inovação inclusive com patrocínios comerciais. Esta experiência nós a levamos para o Seminário de Olinda, onde fomos cursar o Seminário Maior.

Ter estudado nos Seminários de Sobral, de Olinda e de Camaragibe foi a melhor experiência no campo da formação intelectual. Em Pernambuco tive a oportunidade da convivência com outra seleção de intelectuais de alto nível que incluía o Professor Ariano Suassuna, Joseph Comblin, Eduardo Hoonaert, Dom Hélder Câmara que me conferiu a Tonsura. Foi vendo e ouvindo o prof. Ariano, já então famoso  com o Auto da Compadecida, falar tanto de Taperoá que entendi que se eu não falasse da minha terra, ninguém falaria. E passei a divulgar e tentar fazer algo por Guaraciaba do Norte, conseguindo tempos depois, com a implantação de cursos de graduação, transformá-la no maior polo universitário da zona norte, depois de Sobral.

Concluído o curso de Teologia, vim para Sobral onde trabalhei no Movimento de Educação de Base – MEB, outra grande escola. Passei para a equipe de Fortaleza onde fui Coordenador da equipe local e, depois, da equipe estadual, até que, em 1971, a ditadura me impediu de continuar. Fui para o Maranhão, trabalhar na primeira experiência de TV Educativa do Brasil. Quando a ditadura voltou a me perseguir, transformei-me em publicitário, montando uma Agência de Propaganda, na capital maranhense.

Em São Luis, casei-me no Dia Internacional da Mulher, em 1974 com Maria Myrtes Barreto Cavalcante Gomes, cearense, de Pedra Branca, minha ex-colega no MEB. Retornei ao Ceará, em 1989 como Secretário de Educação em Croatá. Depois ocupei a mesma função em Poranga e Guaraciaba do Norte. A convite, integrei a equipe da Secretaria de Educação do Estado, na primeira gestão do Governador Tasso Jereissati e, simultaneamente, fiz parte do Conselho de Educação do Ceará.  Por doze anos, ocupei a função de Pró-Reitor da UVA onde desenvolvemos vasto programa de alfabetização de adultos. Levamos, a convite, a nossa experiência de formação de alfabetizadores para Cabo Verde, na África. Finalmente, fui Diretor da Imprensa Universitária da UVA até aposentar-me, em 2012.

Como teria percorrido este caminho, sem o Seminário de Sobral?

Texto publicado no livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA – 2015

Mons. Assis Rocha, o aniversariante deste domingo, dia 11 de outubro

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