LITERATURA CEARENSE: O TREM PAGADOR

Na transcorrência da vida os fatos acontecem e as coisas se modificam, conforme a necessidade ou o momento e quase sempre com o objetivo de melhorar o trabalho, a segurança e a forma de facilitar a vida.

FLÁVIO MACHADO, escritor, de Crateús – Ce.

Já vai longe, bem distante o tempo em que os ferroviários da antiga Rede Viação Cearense (RVC) recebiam seus vencimentos através do trem pagador. Havia uma sistemática para cumprir à risca o cronograma de pagamentos. Primeiro chegavam aqui os contracheques e a alvissareira notícia sobre o dia da vinda do trem pagador. A notícia era motivo de euforia e corria célere pelas antigas bodegas fornecedoras de produtos alimentícios aos empregados da RVC.

Os fornecedores se enchiam de expectativas com a notícia e iniciavam a tarefa de somar os valores anotados nas antigas cadernetas que registravam as compras mensais de cada ferroviário.

Durante o mês, diariamente, bodegueiros atendiam as necessidades dos ferroviários, fornecendo-lhes os produtos de consumo, do feijão ao sabão, tudo anotado na caderneta do cliente e na do bodegueiro, para confronto das mercadorias e valores no prestamento de contas. Entre os fornecedores estavam Belmiro Venâncio, Raimundo Carlos, José Carneiro, Chico Serrano e muitos outros donos de bodegas e mercearias existentes em Crateús há muitas décadas bem distantes.

O trem pagador, com sua função especial, era sempre aguardado e bem-vindo. Compunha-se de locomotiva, um vagão que servia de dormitório, outro que funcionava como restaurante e um vagão especial, de compartimentos com grades e cofres que guardavam o dinheiro a ser distribuído em cada estação.

Os ferroviários previam a hora de chegada do dinheiro, que vinha sob os cuidados da tripulação do trem e da polícia ferroviária, protetora dos valores e do tesoureiro responsável pelo pagamento.

Crateús contava com expressiva quantidade de ferroviários. Além dos que trabalhavam em trechos e os da burocracia, sediava também as oficinas e aumentava a quantidade desses trabalhadores a esperar o trem pagador, proveniente da estação de João Felipe, em Fortaleza, de onde o trem partia rumo às cidades da zona norte do Ceará, num percurso que se encerrava no distrito de Oiticica.

Conversando com os antigos ferroviários Pedro Monte, Luis Kiba e Hamilton Farias, este um dos pagadores, relembramos outros nomes de responsáveis e de condutores daquele dinheiro, entre eles José Euclides, Carlos Alberto de Holanda, Edésio Borges, Clovis Gomes Parente e Braguinha, este muito conhecido por ferroviários de épocas mais recentes.

O trem pagador da RVC, por vezes inúmeras, cumpriu com segurança e sem incidentes, várias viagens conduzindo altos valores e chegava tranquilo ao seu destino. Nos dias atuais aquele trem, talvez não conseguisse sequer dar a partida, pois inapelavelmente seria assaltado.

Esta é uma das matérias do livro Raízes de Crateús -Verdades Históricas – de Flávio Machado e Silva.

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