NA SALA DE AULA: Posicionamento crítico e reflexivo -Texto da Professora Vânia Abreu Pontes

Não quero entrar no conteúdo, mas sim ressaltar o aspecto metodológico, utilizado pelo referido professor na sala de aula. Trata-se de um aspecto que continua a marcar a minha vida em ação e movimento. O lugar de onde eu falo do ponto de vista dos procedimentos metodológicos é muito mais que um lugar específico em que estive inserida, pois o conhecimento adquirido nas aulas de Leunam foi algo que se construiu por meio do posicionamento crítico e reflexivo, do argumento no qual o professor sustentou a escolha das metodologias, de práticas educacionais, de experiências (individuais e coletivas) e de lugares muito diferentes que continuam implicando nas minhas ações educacionais.

Professora Vânia Pontes, com nosso livro autografado

O que mais me encantava naqueles alunos era o entusiasmo que crescia a cada encontro. Rapazes e moças que vinham de vários pontos da zona norte, muitos habitando lugares distantes, na zona rural de seus municípios, estavam despertando para o potencial que conduziam. A maioria tinha que trabalhar até o final da tarde em seus municípios, viajar uma hora ou mais até Sobral, assistir às aulas até dez horas da noite e depois retornar às suas casas. E, mesmo assim, em nossas aulas demonstravam muito ânimo e motivação.

          Leunam ensinou, na prática, que a palavra dita é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apoia sobre mim numa extremidade, na outra se apoia sobre o meu interlocutor, assim a palavra é o território comum do professor e do aluno. Entre ambos existe um “entre nós”. Nesse sentido, o “nós” é a representação de um contrato social, ou seja, é um sujeito plural que direciona a aprendizagem para o alcance de uma dimensão mais democrática e participativa. Nesta dinâmica, o “eu” vive em “nós” a partir do momento em que o primeiro é constituído, intersubjetivamente, por meio da sua relação com outros na sala de aula. Aliás, o deslocamento do “eu” e do “nós” dentro da sala de aula compreende ao movimento inacabado do ser humano, pois onde o sujeito participa da sua formação educacional como igual, há inacabamento. 

       Enfim, “ainda existem histórias possíveis, histórias dignas de um escritor?” Esta era uma pergunta que, meio século atrás, se fazia Friedrich Durrenmat enquanto se preparava para escrever um de seus contos. Depois de ser aluna do professor Leunam, lembrei-me da pergunta de partida do referido escritor. Certamente, ele encontraria, nas nossas aulas de Literatura Cearense e Tópicos Especiais, o pano de fundo necessário para construir um conto de histórias possíveis, histórias dignas de serem contadas no campo educacional. O encontro marcado de cada aula daria um grande Prólogo para Durrenmat, histórias reunidas de participação que trouxeram à tona a relação de cada aluno com as já citadas disciplinas, partindo da construção de sentidos (individual e coletivo), Leunam como mediador preparava a turma para o mundo da vida, onde o Eu é a extensão do Nós no exercício da docência. Esta sensibilidade e preparação deste professor para o diálogo ainda me acompanha, pois é manifesto meu profundo desejo de romper com a voz do silêncio perturbador da sala de aula. 

(*) MARIA VÂNIA ABREU PONTES – Graduada em Letras, Direito e Psicologia, Especialização em Língua Portuguesa e Literatura, Mestrado em Psicologia.  Professora em cursos de Graduação  e no Instituto da UFC Virtual – Gestora Pedagógica do Curso de Direito da FAL/UNINTA -Sobral.

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