Mês: janeiro 2021

Paulo Freire instituiu um método libertador de alfabetização.

A liturgia da Semana passada me levou a refletir, mais profundamente, em todas as Missas que presidi, sobre tema que eu já vinha desenvolvendo nesse Comentário, sobre a Vocação Sacerdotal, afirmando e confirmando que o Sacerdócio é um serviço que se presta sem visar lucro ou vantagens materiais. Cheguei a dizer que os Sacerdotes, ‘temos uma sólida formação teológica que nos mostra um Deus perto de nós, que convive dia a dia conosco, que nos ajuda a libertar-nos de todo erro e a levar o nosso povo a se libertar também’. Disse-lhes ainda que ‘quero continuar a ver a realidade que nos cerca, julgá-la à luz da Palavra de Deus e levar todos a agirem de acordo com a sua consciência’. Acrescentei que ‘foi assim que eu aprendi desde muito cedo, e agora, na minha maturidade, ainda me sinto bem, em repassar para os outros’.

Meus ex-alunos que me leem agora, certamente, recordam que seu velho professor, no início de cada aula, sempre dava um resumo do que havia sido ensinado, até então/, para acrescentar o novo assunto que ia dar. Faço a mesma coisa com os meus programas de rádio e celebrações

Mons. ASSIS ROCHA Mestre e Doutor em Comunicação Social

Quando afirmei a pouco que ‘foi assim que eu aprendi desde muito cedo’ é porque eu tive, no Seminário de Olinda, os melhores Professores de Teologia e sagrada escritura, sociologia e filosofia, História da Igreja e Direito Canônico, todos empenhados em nos transmitir o que havia de melhor e mais atualizado, bem como oferecendo as melhores bibliografias para completar os estudos, já que não havia os recursos de Internet para pesquisar. Em tudo havia o incentivo, o apoio e o profetismo do Arcebispo de Olinda e Recife, D. Helder, a segurança do Reitor do Seminário, Pe. Marcelo Carvalheira e Professores como Pe. Arnaldo Cabral, Newton Sucupira, Pe. Luís Sena, Ariano Suassuna, Pe. Almery Bezerra, Vamireh Chacon, Pe. José Comblin, os Padres Irmãos Zeferino e Zildo Rocha e tantos outros da maior competência.

            Nossos cursos de Filosofia e Teologia nos fizeram entender que tais Ciências não deveriam ser fechadas, difíceis de ser atingidas e por fora das realidades. Ambas nos deveriam dar uma formação crítica diante de nossa condição humana. Até então se falava de estudos teóricos para as duas ciências, que nos levariam a uma prática, mais tarde, na Pastoral da Igreja. Eram teorias, dissociadas da prática. Graças a Deus, veio para a Arquidiocese de Olinda e Recife, o Arcebispo Dom Helder Câmara, que já era conhecido, mundialmente, pela pregação que unia teoria à prática, palavra à obra, oração à ação. Estávamos vendo nascer, a Ditadura Militar, com todos os rigores que o regime nos impunha. Não havia oposição política ao Regime. Não havia, na prática, quem se atrevesse a contestar. Dom Helder foi um dos primeiros a ver, profeticamente, o trabalho da Igreja do lado dos mais fracos, dos injustiçados e dos mais pobres. Unido a outros estudiosos da Filosofia e da Teologia, de modo especial/, estimulando a equipe de formação do seu Seminário, em Olinda, sugeriu a inserção de formadores e formandos no meio dos pobres, onde melhor se descobria o Cristo Crucificado, para porem em ação, aquilo que, teoricamente, iam aprendendo nas aulas do Seminário.

            Na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e no Regional Nordeste II da CNBB, apareceu um Grupo de Bispos Proféticos que, corajosamente, defendia os Direitos Humanos, sob a opressão da ditadura militar. Também Sacerdotes e leigos – muitos leigos – entenderam a necessidade de serem Igreja, adotando uma Teologia mais aberta pra libertação dos cativos e pobres.

            Essa Teologia trouxe uma outra percepção do que é “ser Igreja” numa hora em que o Brasil e a América Latina viviam momentos de grande dureza. Ela nasceu, exatamente, da preocupação da Igreja com a pobreza das grandes maiorias marginalizadas. Eis que surgem os Profetas da Igreja: D. Helder Câmara, D. José Maria Pires, D. Antônio Fragoso, D. Francisco Austregésilo, D. Pedro Casaldaliga, D. Paulo Evaristo e tantos outros que, no Nordeste do Brasil ou em qualquer Regional da CNBB sentiram que a Missão da Igreja é do lado dos pobres para ser libertadora e não assistencialista.

Entre os leigos cristãos estava o Professor Paulo Freire que instituiu um método libertador de alfabetização, expresso em duas de suas obras clássicas: “Pedagogia do Oprimido” e “Educação como prática da Liberdade”, baseadas no vocabulário cotidiano da realidade dos alunos. Citando o Frei Leonardo Boff, ele dizia: “a Teologia da Libertação não seria uma nova disciplina teológica, mas um novo modo de fazer teologia, arrancando do inferno da pobreza/ e optando pelos condenados da Terra”.

Apesar da grande novidade da Teologia Libertadora que deveria ser ensinada e espalhada entre todos, houve Bispos, sacerdotes e leigos que não a acataram e criaram problemas e mal entendimentos entre governantes e governados.  Mesmo assim ela encontrou aceitação: com o Padre Gustavo Gutiérrez no Peru; Jon Sobriño em El Salvador; Leonidas Proaño no Equador; Juan Luís Segundo no Uruguai; o Santo Oscar Romero na Nicarágua e no Brasil: os primos Leonardo e Clodovis Boff; Frei Betto; Frei Carlos Mesters; Pe. José Marins; Rubens Alves, Hugo Assman, Pe. Libanio e o belga-brasileiro Pe. José Comblin, só para lembrar alguns.

Nosso grande e estudioso Teólogo da Libertação, Frei Leonardo Boff, responde àqueles que criaram problemas e mal-entendidos na compreensão e na aceitação desta maneira de estudar, de ver e aprofundar a Teologia, que “Marx não foi nem pai nem padrinho da Teologia da Libertação. Foi o grito dos oprimidos do Êxodo, foram os profetas bíblicos, foi a mensagem e a prática de Jesus e dos apóstolos/ que estão na base desta Teologia”. É claro que uma visão dessas, bem diferente daquela maneira tradicional de ensinar e aprender Teologia, só podia causar o impacto que causou. Havia muita teoria a respeito de Deus.  Ele permanecia lá nas alturas. E eu vivia de amargura na terra do meu Senhor. Cantava João do Vale em sua composição musical, “Carcará”, mostrando a desigualdade entre a Teoria e a prática; isto é, os estudiosos, os acadêmicos, os graduados lá em cima; longe da realidade, enquanto nós, os pobres mortais, os sem terra, sem teto, moradores de rua, desempregados, vivendo de sofrimento e amargura na terra do mesmo Deus que habitava longe de nós. Não dava para nos entendermos, mesmo sabendo que o Filho de Deus já se tinha tornado um de nós. Este é o grande impasse: a Teologia estava na Universidade, na Academia, lá entre os grandes/, e o povo, os operários, os pequeninos, abandonados. Não se entendiam. A Teologia da Libertação vem para unir as duas realidades: a teoria à prática; a fé à obra; a oração à ação.

É este Deus que se fez homem, que viveu conosco, que escolheu os pobres, os pequeninos, os desprotegidos pela sorte/, que nos vem trazer o Deus que é Pai e o Espírito de Deus, que é a vida para nos libertar de toda injustiça, do egoísmo, do mal e de todo o pecado. Somente o Deus Libertador nos poderá fazer conviver, fraternalmente, como irmãos. Como ser contra uma Teologia ou a um conhecimento de Deus bem mais perto de nós? Foi assim que estudei. Assim aprendi. É assim que tenho catequizado. Vc. vai discordar?

Reforçando a Saudade!

Dizia o Monsenhor Sabino Loiola, um dos Reitores do Seminário da Betânia, que não se mata a saudade, aduba-se. Parece que foi com este objetivo que Flávio Machado deixou a sua querida Crateús e foi a Sobral rever o Seminário da Betânia. Menino ainda, chegou ao Seminário em 1959 e lá ficou até 1962. Havia um grupo só dos Machados: Fransquinho, Gustavo, Antônio e Flávio. Viajavam de trem até Sobral, como faziam todos os demais que se originavam daquela região. Crateús tinha a maior turma de seminaristas, depois de Sobral. Na Betânia, foi logo rever a estátua de Dom José Tupinambá da Frota, como pedindo licença para visitar o Seminário. Observou o cenário inesquecível dos dois prédios, interligados por aquele grande corredor por onde todos passavam, em fila, pelo menos oito vezes por dia. Na frente, onde ficava o campo de futebol, está a grande biblioteca da UVA e várias salas de aula. Foi ver o pátio interno, a grande área de lazer onde estavam dois campos de voleibol. Hoje a UVA- Universidade Estadual Vale do Acaraú, transformou em um grande local de eventos. Até colações de grau acontecem ali. Foi naquele espaço em que lançamos o nosso livro AD VITAM, em 2015. Possivelmente, lá, iremos lançar AD LABOREM – A Nossa caminhada profissional – Revendo aqueles espaços, é difícil segurar as emoções. Mas vale a pena.

DEMOCRACIA AMEAÇADA

Quando alguém me diz, por ex.: “que bom lhe ouvir, mestre Assis. Acabo de escutar sua aula”, ou “entre um pouco mais na política, como antigamente”, ou ainda: “não mudou nada; é como se estivesse te ouvindo no colégio”. Como não ficar feliz com um retorno desses, tão imediato! É claro que eu não posso ser o mesmo, do meu tempo de jovem. A idade me faz mais prudente. Os problemas que nos afetavam, ideias que nos separavam e tantas realidades que enfrentávamos juntos, dificuldades causadas pelas distâncias, quase intransponíveis, tudo está tão diferente, que eu dou mil graças a Deus por ter convivido com vocês no tempo certo.

Mons. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz – Ce.

Já se vão 55 anos. Não somos mais os mesmos. Ainda bem que sou Padre, e como tal, ainda posso dizer que exerço o sacerdócio: a missão que recebi de Deus, a quem eu não posso trair. Às vezes, escuto políticos dizerem que “exercem um sacerdócio”. Ouço também de médicos ou de outros profissionais prestadores de serviços. O sacerdócio não se pode aplicar a todo mundo, é claro. Não é um emprego, não rende bens materiais, não dá lucro, não dá pensão vitalícia, nem patrimônios materiais para o resto da vida. Alguns usam a Missão Sacerdotal, de maneira errada. Eu quero continuá-la usando da maneira correta, até o fim.

            Quero continuar a “ver” a realidade que nos cerca, “julgá-la” à luz da Palavra de Deus e levar todos a “agirem” de acordo com a sua consciência. É assim que todos nos devemos comportar, politicamente.

            Sábado, dia 09, eu me referi às eleições e posses dos eleitos, “pedindo-lhes para exercerem suas funções sem visar lucro material, prestigio ou boa pensão vitalícia, mas as vivessem como um serviço prestado ao povo”.

            Depois de duas semanas que todos os Prefeitos e Vereadores tomaram posse pelo Brasil afora, já tem prefeito reclamando da quebradeira de seus municípios, da desorganização encontrada e até de pedidos de auditoria em algumas prefeituras, pois estão verdadeiros descalabros. Toda vida foi assim.

            Quando a Igreja é convidada a celebrar Missa em Ação de Graças por ocasião das posses, a celebração é apenas um enfeite, uma honraria, em que o sacerdote celebrante não pode falar sobre os tais “descalabros”, não pode aconselhar os novos gestores a ter mais atenção para com o povo, sobretudo os mais pobres. E se falar das politicagens, das compras de voto, dos currais eleitorais e do tratamento ao povo, como gado, aí a revolta é grande por parte dos políticos que queriam uma Missa de enfeite e não para falar de política. A religião, a fé, o Deus deles não é o Deus que se fez homem, que escolheu os pobres, os desempregados e os que sofrem todo tipo de discriminação. O Deus deles é o poder, o dinheiro, o luxo, as ricas fazendas. É um Deus teórico.

            O Deus da verdade se encarnou, tornou-se gente, um de nós e veio para salvar a todos. Em sua primeira apresentação na Comunidade Judaica, em Nazaré, “deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, achou a passagem em que está escrito: ‘o Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a boa nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor’. Fechou o livro, sentou-se e disse: hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Servir a um líder desses é exercer, realmente uma Missão ou realizar, verdadeiramente, uma ação sacerdotal. Porque confundir “Missão tão Santa” com ideologias conservadoras, mentirosas, enganadoras da boa fé do povo? Não é confundir alhos com bugalhos?

            Quando fazemos parte desta Igreja conscientizadora, que une oração e ação, fé e obra, teoria e prática, que dá o bom exemplo pela vida que leva/, aí o incômodo é geral entre os politiqueiros: usam o nome de Deus em vão, escondem seus malfeitos, usando a fé/, têm uma vida dupla ou tripla em todos os sentidos, defendem uma família monogâmica, embora tenham filhos de 03 ou mais mulheres diferentes, enfim, enganam com palavras, aquilo que não vivem na prática. E o povo, coitado, apelidado de gado, “em cercadinho, como num curral”, gritando “mito” em todas as aglomerações, vai alimentando o “populismo” de seus governantes, vai embarcando na religiosidade que dizem ter e vai se afastando das orientações sadias, voltadas para o social e para o bem comum de quem só quer o bem de todos e a participação da maioria.

            Infelizmente, reapareceu no Brasil, uma elite dirigente que não se envergonha de mostrar o seu conservadorismo, adquirido no regime militar e aprofundado por civis neoliberais, que visam o lucro, o crescimento econômico e deixam o povo de lado. Este só é visto nas horas de aglomerações proibidas – devido a pandemia – e para maquiarem o “governo de popular”, quando o que de fato há, é puro “populismo”. Para completar, um grupo de pentecostais – evangélicos e, infelizmente, católicos – faz parte deste projeto, exigindo maior discussão acerca das relações entre religião e política. Além do retrocesso na caminhada já feita, há um novo ciclo político e de disputas. Nós, os que havíamos encetado esta luta pelo “popularismo ideológico”, estamos notando a saída de um presidencialismo de coalizão para um presidencialismo de colisão.

            Significa afirmar que a democracia brasileira está ameaçada. Nós vamos deixar que isso aconteça?

            É aqui que eu entro como “sacerdote” naquela visão original: sem visar lucro material, poder econômico, uma aposentadoria que me garanta a velhice, prestígio social, uma herança material que eu possa repassar a alguém. Nada disto. Tenho que ver esta realidade, julgá-la à luz da Palavra de Deus para iluminar/ e encaminhar a ação a ser deflagrada com todos, para solucionar. Os pretensos “sacerdotes” que enganam tanto o povo, dizendo exercerem funções públicas “como um sacerdócio” estão usando um conceito certo em pessoas erradas. Por isso eu dizia acima que a democracia brasileira estava ameaçada.

Vamos “remendá-la enquanto é tempo”. Eu já “combati o bom combate. Estou terminando minha carreira. Conservo a minha fé” (II Tim.4,7-8).

            Obrigado, por hoje e tenham todos, um Bom dia! .

(*) Mons. Assis Rocha, de Bela Cruz – Ceará – Escritor – Radialista – Mestre e                                 Comunicação Social – Sacerdote Aposentado

HOJE ÀS 19 HORAS: MEMÓRIAS REVELADAS

Hoje (21/01), às 19h, acontece o lançamento do documentário “Memórias Reveladas: os jornalistas cearenses vítimas da ditadura militar 1964/1985”. A produção tem roteiro e direção da jornalista Marilena Lima e apoio do Sindjorce e da Fenaj. A convite, estaremos representando a Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou.

Acione lembrete para assistir:

No Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=Bx4uT6-cM8I&ab_channel=CanalSindjorce
Ou no Facebook: https://www.facebook.com/218382234864140/posts/3680049998697329/

A propósito, estes dois livros são muito importantes para compreender a Ditadura em Sobral e Zona Norte do Ceará, nas décadas de 60 e 70. Escritos por duas Professoras da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA.

O SEMINÁRIO EM MINHA VIDA-Davi Helder Vasconcelos

Desde tenra idade, fui educado para o sacerdócio. Aliás, minha vocação vem do berço, fruto de um “decreto” de meu pai. E de uma época em que o sacerdócio era a aspiração de muitas famílias sobralenses. Com o decorrer do tempo, amadurecera em mim o ideal de ser padre, o que me levaria a ingressar no Seminário Diocesano São José, de Sobral, em 1963, aos 13 anos de idade, ali permanecendo até 1966.

Davi Hélder  de Vasconcelos Na Betânia: 1963/1966

Às margens do rio Acaraú, sob os olhares atentos de Nossa Senhora das Dores, em Sobral, nasci em 29 de dezembro de 1949. Meu pai, Francisco Gomes de Vasconcelos, foi caixeiro viajante e depois bancário; minha mãe, Lili Nunes de Vasconcelos, era dona de casa e costurava nas horas vagas para auxiliar na renda da família.

Na minha infância, convivi num ambiente familiar favorável à minha aspiração vocacional: meus pais eram muito religiosos, católicos. Toda a família rezava o terço, diariamente, ia às missas aos domingos e dias santos. Meu pai era Irmão do Santíssimo e Mariano. Aos nove anos, ele me presenteou com o livro de Gaston Lemesle – Você gostaria de ser Padre? – Esta obra fortaleceria minha vocação. Tive também amigos de infância que me proporcionaram uma convivência benéfica e saudável, como os também “betanistas” Aloísio Ribeiro da Ponte, José Maria Cisne Mesquita e Antônio Anésio de Aguiar Moura.

Meus primeiros estudos foram realizados em casa, tendo minha mãe como professora. Estudei a “Carta do ABC” e, em seguida, a “Cartilha”, acompanhada da tabuada.

Após aprender a ler, a escrever e a fazer as “quatro operações”, com minha mãe, comecei o então curso primário no Colégio Estadual Professor Arruda, encerrando-o na Escola São Luiz de Gonzaga (Pré-Seminário). Em seguida, prestei “exame de admissão” para ingressar no curso ginasial (hoje, ensino fundamental) do Seminário.

No início de 1963, a bagagem estava pronta. Destino: Seminário Diocesano de Sobral. Na mala, além das roupas, um presente de minha mãe: um missal (hoje, ainda o preservo, com muito carinho). Na alma, uma angústia, um conflito: iria dar um pulo no escuro: enfrentaria um enigmático futuro.

Em poucos minutos (residia próximo à nova morada), estava eu ali entre as enormes paredes do velho Casarão da Betânia. Foram momentos difíceis: era enorme a saudade de casa, dos pais, dos irmãos, da “liberdade”.

Mas os dias foram passando, e eu adaptava-me à vida do internato. Durante os quatro anos, levei uma vida com tranquilidade: aceitava e cumpria a rigorosa disciplina da casa, as exigências de estudo e de oração. Vivi também agradáveis momentos de lazer. O futebol de salão era meu entretenimento predileto. Jogava no time dos “médios” (os jogadores eram classificados em “fundos”, “médios” e “bons”, de acordo com a habilidade no campo).

Foi marcante sobre mim a influência de alguns mestres. Lembro-me, com prazer, das aulas de “Civilidade” e de Inglês do padre Francisco Sadoc de Araújo; das orientações espirituais do padre Joviniano Loiola Sampaio; das aulas de Português do padre Osvaldo Carneiro Chaves; das aulas de Latim do padre Francisco Tupinambá Melo, também nosso coordenador de futebol; das aulas do professor polivalente e cientista, padre Luizito Dias Rodrigues; das aulas de francês do bem-humorado padre Moésia Nogueira Borges.

Ao Seminário devo também o meu ingresso na vida profissional: em 1966, aos 16 anos, fui nomeado professor da Escola Cura D’Ars pelo então prefeito de Sobral, Cesário Barreto Lima. A escola, que se localizava dentro dos muros do Casarão da Betânia, fora idealizada pelos colegas João Ribeiro Paiva e Lourenço Araújo Lima (o “Rei Mago”) que receberam o apoio do então reitor, padre Francisco Sadoc de Araújo. A escola que, posteriormente, foi conveniada com a prefeitura, tinha o objetivo de alfabetizar jovens carentes que moravam nos bairros próximos.  

Com terna recordação, lembro-me das visitas que recebia de meus parentes. Eram encontros que me davam ânimo e força para suportar os momentos de ostracismo impostos por aquelas largas e altas paredes do Casarão. Recordo também, com satisfação, a visita semanal de meu irmão Alexandre Vasconcelos, que me levava roupas lavadas e algumas bugigangas. Estabelecia também um elo entre mim e o mundo lá fora.

Nas festas religiosas, os seminaristas deslocavam-se ao centro da cidade. A batina, já abolida no dia a dia, era indumento obrigatório nesses eventos: missas solenes, celebradas pelo bispo; procissões; atos litúrgicos da Semana Santa etc. Naqueles momentos sentia-me um “pouco padre”…

Mas, ao final do quarto ano de Seminário, a vida celibatária tornara-se pouco atraente para mim. Nas férias, senti uma forte atração por uma jovem que morava próximo à minha casa, surgindo entre nós um relacionamento que extrapolava uma simples amizade. Meu pai tentou, em vão, afastar-me da jovem adolescente para salvar minha vocação sacerdotal.

Chegara então o momento crucial: teria que comunicar à minha família a decisão de “deixar a batina”. Meu pai era austero e possivelmente iria opor-se à minha resolução. Com a intermediação de minha mãe, que era meiga e conciliadora, consegui a anuência dele.

Deixei o Seminário e fui enfrentar a vida além-muros.  A vida fora, a despeito da liberdade que conseguira, trazia algumas dificuldades. Exigia adaptação. Mas os ensinamentos lá recebidos eram como que uma bússola que me mostrava o rumo do bem viver. Bússola que até hoje guia meus passos. 

Continuei meus estudos, fazendo os dois primeiros anos do Científico (assim era denominado o ensino médio naquele tempo) no Colégio Sobralense e o terceiro no Colégio Estadual Professor João Hipólito de Azevedo e Sá, em Fortaleza. Concluído o segundo grau, ingressei, em 1972, no curso de Farmácia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Em 1976, concluí esta graduação juntamente com especialização em Análises Clínicas.

Enquanto cursava a faculdade, lecionei em vários colégios de Fortaleza.    Também, nesta época, no ano de 1974, casei-me com Emília Maria Fernandes Vasconcelos. Inicialmente, nasceram minhas duas filhas gêmeas, Leila Mara de Vasconcelos, hoje empresária; e Keila Mara de Vasconcelos, graduada em Administração de Empresas. Juntos, tivemos mais três filhos: Davi Helder de Vasconcelos Junior, médico; Davis Yuri de Vasconcelos, odontólogo; e Tales Emanoel de Vasconcelos, farmacêutico-bioquímico.

Em 1977, voltando a morar em Sobral, comecei a lecionar na faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). De certo modo, resgatava os bons momentos do Seminário, pois o prédio da Betânia passara a sediar esta Universidade. Além disso, o reitor e vários professores da UVA eram ex- seminaristas.

Atuei como farmacêutico-bioquímico em vários laboratórios e farmácias. Hoje, ainda trabalho no Laboratório Regional de Sobral e na Farmácia Aguiar.  Paralelamente a estas atividades, instalei, em 1989, uma empresa de vendas de material médico-hospitalar, a “Equilab Saúde”, que ainda hoje está em funcionamento.

Em 2012, aposentei-me como professor da UVA. Logo depois, em 2013, preencheria este tempo editando o jornal Circular, de periodicidade mensal e que se encontra em sua 16ª edição.

Por tudo isso, ressalto a importância do Seminário nos sólidos alicerces da minha formação humana, religiosa, intelectual e profissional. Portanto, expresso minha satisfação em pertencer à família “betanista” e minha eterna gratidão aos que estiveram envolvidos naqueles momentos da minha vida: minha família, amigos, mestres e funcionários do velho Casarão da Betânia.

Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM-65 DECLARAÇÕES DE AMOR,                                             de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA, 2015 – Sobral – Ce.

COMENTÁRIOS RECEBIDOS

Sobre SEMINÁRIO DE SOBRAL – REMINISCÊNCIAS, de Lucivan Miranda

DE MARCELO GONÇALVES MIRANDA

Querido Tio,

A vida nos traz enormes desafios e ultrapassa-los, um a um, nos tornam realizados.

De certa forma, sou uma repetição sua, e em muitos momentos, seu espelho em diversos aspectos. Também vivi durante um tempo em Ubajara. Na minha época, com certeza, as coisas já eram mais estruturadas que na sua. Também tive esse prazer de estudar no Patronato Nossa Senhora de Fátima, e guardo muitas recordações das freiras da mesma forma sua.

Sai de lá para Fortaleza, e tive o prazer de morar com você, e digo com sinceridade que a sua disciplina, conseguida nos tempos de seminário foram fundamentais para mim, na minha formação. Hoje, sei que seu exemplo foi e é, fundamental, uma mola no meu desenvolvimento. Minha graduação, minhas especializações, meu mestrado e, principalmente, minha correção na conduta do dia a dia, tem muito de você.

Obrigado meu tio, pelo seu exemplo

Marcelo Miranda

De João Batista da Silva

Reler Lucivan, goleiro da seleção e principal ator da peça Calabar, além do reencontro com a névoa da Ibiapaba, é descer a montanha trazendo saudades no peito e um friozinho na barriga. Viagem de fé: ”Sai da tua terra… da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei”.(Gn 12.1)
Betânia, a Canaã de bem-aventurados “matutos”.

Sobre PASSANDO EM BETÂNIA

De João Batista da Silva

Caríssimo Lourenço,
Nosso vilarejo permanece simples e hospitaleiro.
Quem sabe possamos ter a honra de em breve recebê-lo.
Um “betânico” abraço”!

IPU – POSSE NA ACADEMIA

No próximo dia 16, a Professora, Poetisa e Escritora Ipuense ANINHA MARTINS será empossada na Academia Ipuense de Letras. Uma justa e merecida honraria a uma Professora que tem contribuído muito para o desenvolvimento da Literatura na Terra de Iracema. Frequentemente, tem criado projetos envolvendo seus alunos em diversas experiências de produção literária. Aí está o convite.

Seminário de Sobral: REMINISCÊNCIAS.

Volto aos meus 12 anos.

Foi numa manhã fria de fevereiro de 1963 que parti de Ubajara para um “longínquo e desconhecido Sobral”. Naquele tempo ainda fazia muito frio na Serra da Ibiapaba. A angústia da separação, a saudade, a ansiedade, tornavam ainda mais frágil a criança que deixava sua cidade natal rumo ao desconhecido.

Dr. LUCIVAN MIRANDA, de Ubajara

Ubajara era uma cidade pequena, poucas ruas, famílias conhecidas, vida tranquila. A luz elétrica era uma novidade. Não oferecia muitas opções de educação para os seus filhos. As primeiras letras aprendi no Patronato N. Senhora de Fátima, colégio dirigido por freiras. Lembro da madre superiora, mulher rígida, autoritária, que metia medo pelo simples olhar. Mas havia a irmã Helena, maternal, doce, sorriso aberto, braços acolhedores.

O vigário era o padre Tarcísio Melo, querido e respeitado por todos os paroquianos.

Um grupo de crianças do Patronato formava o pré-seminário, dirigido pela irmã Helena.  Alguns alunos eram selecionados e encaminhados para o Seminário Diocesano de Sobral. E foi pelas mãos da irmã Helena que tive essa oportunidade.  Com a minha idade, não poderia imaginar a importância que o seminário passaria a ter na minha vida a partir daquele momento.

Todo seminarista tinha um representante em Sobral e, por laços familiares, o meu foi o senhor Apolônio Moura, pai do Aguiar Moura.

Os primeiros meses foram muito difíceis. A rígida disciplina, o estudo, a alimentação, a convivência com alunos novos e veteranos fizeram-me muitas vezes pensar em desistir, voltar para o convívio familiar. Os longos corredores, o dormitório, o refeitório, tudo me parecia de dimensões enormes.  

Aos poucos, no entanto, fui- me adaptando à rotina. Foi também de muita ajuda a companhia de conterrâneos. Todos tinham quase a mesma idade e formávamos um grupo com sentimentos parecidos.  Junto comigo estavam Antônio Gurjão, Gerardo Rufino, João Melo e Flavio Ribeiro.

A convivência duradoura com tantos seminaristas foi criando afinidades. Surgiram os amigos que hoje recordo e sei quanto foram importantes na minha vida.

O seminário foi uma fonte sólida da minha formação religiosa, intelectual e moral. Muito provavelmente não seria o que sou se tivesse permanecido em Ubajara, com todas as limitações de uma pequena cidade do interior.

Não poderia deixar de mencionar a importância que teve o esporte na minha formação. Como crianças, o que queríamos era competir, vencer a qualquer custo. Mas hoje vejo que através do esporte aprendíamos a ter respeito, dignidade e solidariedade para com o outro. Lembro do padre Tupinambá, geralmente o juiz nas partidas “oficiais”, tendo sempre o seu time e atletas preferidos.

Hoje, quando passa em minha mente o filme dos quatro anos vividos naquele templo do saber, só vejo cenas agradáveis. Os momentos difíceis são esquecidos, jogados num remoto canto da memória. Não vale a pena recordá-los.

Dos mestres, tenho muitas recordações. Alguns foram muito marcantes. É unanimidade a forte influência que o padre Osvaldo exerceu sobre todos nós, pelo seu saber e integridade moral, apesar dos momentos estressantes que nos fez passar. Hoje todos o admiram.  Quem não tem os seus versos gravados na memória? Como esquecer: “Lucídia não morreu, Lucídia está no céu” ou  “Sou sacerdote, deixem-me passar!” Mas todos os outros professores tiveram importância na minha formação e sou eternamente grato a eles.

A minha turma viveu a época de transição do seminário. Este foi um fato muito marcante, pois passamos a estudar fora dos muros da Betânia, no Colégio Sobralense. Creio que isto contribuiu para a minha desistência de seguir a carreira religiosa e a de muitos outros colegas. Ficamos soltos, sem a disciplina tradicional do seminário, quase que “dispensados”.

Deixando o seminário, vim para Fortaleza onde minha família passou a residir.  Cursei o ensino médio no Liceu do Ceará e com a ajuda de um irmão pude estudar um ano em um cursinho e me preparar para o vestibular. Assim, Deus abençoou o meu esforço e, na primeira tentativa, fui aprovado para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará – UFC.

Na Faculdade, sempre tive a inclinação para lidar com crianças. Pensei em várias especialidades dentro da pediatria e terminei por optar pela Neurologia Infantil. Parte da especialização fiz no Brasil, em Campinas – SP, concluindo o mestrado em Montevideo-Uruguai.

Voltando a Fortaleza, com poucos especialistas nessa área, facilmente encontrei opções de trabalho, mas o que me motivava era a carreira docente.

Por concurso, ingressei na UFC, onde estou até o momento. Atualmente, além de professor do Departamento Saúde-Materno Infantil, sou diretor do Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce – NUTEP, instituição filantrópica, com 26 anos de existência, com vínculos com a UFC. Trata-se de uma entidade  que tem como missão intervir precocemente em toda criança que tenha risco de apresentar distúrbio no seu desenvolvimento neuropsicomotor ou sensorial.

Considero-me realizado na profissão, tendo ainda muito que produzir para a sociedade, retribuindo a graça que recebi de Deus e o apoio de muitas pessoas importantes que encontrei no meu caminho.

Se tivesse que repetir algumas coisas da vida, com certeza, não desperdiçaria um dia sequer dos anos vividos no saudoso Seminário Diocesano de Sobral.

Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR,

de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA, 2015 – Sobral – Ce.

ARCA DA MEMÓRIA

A Professora, Doutoranda em Psicologia, MARIA VANIA ABREU PONTES, teve o seu texto Arca da memória selecionado para publicação no livro ANTOLOGIA MEMÓRIAS que acaba de ser editado.

MARIA VÂNIA ABREU PONTES, de Ipueiras – Ceará.