Seminário de Sobral: REMINISCÊNCIAS.

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Volto aos meus 12 anos.

Foi numa manhã fria de fevereiro de 1963 que parti de Ubajara para um “longínquo e desconhecido Sobral”. Naquele tempo ainda fazia muito frio na Serra da Ibiapaba. A angústia da separação, a saudade, a ansiedade, tornavam ainda mais frágil a criança que deixava sua cidade natal rumo ao desconhecido.

Dr. LUCIVAN MIRANDA, de Ubajara

Ubajara era uma cidade pequena, poucas ruas, famílias conhecidas, vida tranquila. A luz elétrica era uma novidade. Não oferecia muitas opções de educação para os seus filhos. As primeiras letras aprendi no Patronato N. Senhora de Fátima, colégio dirigido por freiras. Lembro da madre superiora, mulher rígida, autoritária, que metia medo pelo simples olhar. Mas havia a irmã Helena, maternal, doce, sorriso aberto, braços acolhedores.

O vigário era o padre Tarcísio Melo, querido e respeitado por todos os paroquianos.

Um grupo de crianças do Patronato formava o pré-seminário, dirigido pela irmã Helena.  Alguns alunos eram selecionados e encaminhados para o Seminário Diocesano de Sobral. E foi pelas mãos da irmã Helena que tive essa oportunidade.  Com a minha idade, não poderia imaginar a importância que o seminário passaria a ter na minha vida a partir daquele momento.

Todo seminarista tinha um representante em Sobral e, por laços familiares, o meu foi o senhor Apolônio Moura, pai do Aguiar Moura.

Os primeiros meses foram muito difíceis. A rígida disciplina, o estudo, a alimentação, a convivência com alunos novos e veteranos fizeram-me muitas vezes pensar em desistir, voltar para o convívio familiar. Os longos corredores, o dormitório, o refeitório, tudo me parecia de dimensões enormes.  

Aos poucos, no entanto, fui- me adaptando à rotina. Foi também de muita ajuda a companhia de conterrâneos. Todos tinham quase a mesma idade e formávamos um grupo com sentimentos parecidos.  Junto comigo estavam Antônio Gurjão, Gerardo Rufino, João Melo e Flavio Ribeiro.

A convivência duradoura com tantos seminaristas foi criando afinidades. Surgiram os amigos que hoje recordo e sei quanto foram importantes na minha vida.

O seminário foi uma fonte sólida da minha formação religiosa, intelectual e moral. Muito provavelmente não seria o que sou se tivesse permanecido em Ubajara, com todas as limitações de uma pequena cidade do interior.

Não poderia deixar de mencionar a importância que teve o esporte na minha formação. Como crianças, o que queríamos era competir, vencer a qualquer custo. Mas hoje vejo que através do esporte aprendíamos a ter respeito, dignidade e solidariedade para com o outro. Lembro do padre Tupinambá, geralmente o juiz nas partidas “oficiais”, tendo sempre o seu time e atletas preferidos.

Hoje, quando passa em minha mente o filme dos quatro anos vividos naquele templo do saber, só vejo cenas agradáveis. Os momentos difíceis são esquecidos, jogados num remoto canto da memória. Não vale a pena recordá-los.

Dos mestres, tenho muitas recordações. Alguns foram muito marcantes. É unanimidade a forte influência que o padre Osvaldo exerceu sobre todos nós, pelo seu saber e integridade moral, apesar dos momentos estressantes que nos fez passar. Hoje todos o admiram.  Quem não tem os seus versos gravados na memória? Como esquecer: “Lucídia não morreu, Lucídia está no céu” ou  “Sou sacerdote, deixem-me passar!” Mas todos os outros professores tiveram importância na minha formação e sou eternamente grato a eles.

A minha turma viveu a época de transição do seminário. Este foi um fato muito marcante, pois passamos a estudar fora dos muros da Betânia, no Colégio Sobralense. Creio que isto contribuiu para a minha desistência de seguir a carreira religiosa e a de muitos outros colegas. Ficamos soltos, sem a disciplina tradicional do seminário, quase que “dispensados”.

Deixando o seminário, vim para Fortaleza onde minha família passou a residir.  Cursei o ensino médio no Liceu do Ceará e com a ajuda de um irmão pude estudar um ano em um cursinho e me preparar para o vestibular. Assim, Deus abençoou o meu esforço e, na primeira tentativa, fui aprovado para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará – UFC.

Na Faculdade, sempre tive a inclinação para lidar com crianças. Pensei em várias especialidades dentro da pediatria e terminei por optar pela Neurologia Infantil. Parte da especialização fiz no Brasil, em Campinas – SP, concluindo o mestrado em Montevideo-Uruguai.

Voltando a Fortaleza, com poucos especialistas nessa área, facilmente encontrei opções de trabalho, mas o que me motivava era a carreira docente.

Por concurso, ingressei na UFC, onde estou até o momento. Atualmente, além de professor do Departamento Saúde-Materno Infantil, sou diretor do Núcleo de Tratamento e Estimulação Precoce – NUTEP, instituição filantrópica, com 26 anos de existência, com vínculos com a UFC. Trata-se de uma entidade  que tem como missão intervir precocemente em toda criança que tenha risco de apresentar distúrbio no seu desenvolvimento neuropsicomotor ou sensorial.

Considero-me realizado na profissão, tendo ainda muito que produzir para a sociedade, retribuindo a graça que recebi de Deus e o apoio de muitas pessoas importantes que encontrei no meu caminho.

Se tivesse que repetir algumas coisas da vida, com certeza, não desperdiçaria um dia sequer dos anos vividos no saudoso Seminário Diocesano de Sobral.

Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR,

de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA, 2015 – Sobral – Ce.

1 comentário em “Seminário de Sobral: REMINISCÊNCIAS.”

  1. João Batista da Silva

    Reler Lucivan, goleiro da seleção e principal ator da peça Calabar, além do reencontro com a névoa da Ibiapaba, é descer a montanha trazendo saudades no peito e um friozinho na barriga. Viagem de fé:”Sai da tua terra… da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei”.(Gn 12.1)
    Betânia, a Canaã de bem-aventurados “matutos”.

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