Paulo Freire instituiu um método libertador de alfabetização.

A liturgia da Semana passada me levou a refletir, mais profundamente, em todas as Missas que presidi, sobre tema que eu já vinha desenvolvendo nesse Comentário, sobre a Vocação Sacerdotal, afirmando e confirmando que o Sacerdócio é um serviço que se presta sem visar lucro ou vantagens materiais. Cheguei a dizer que os Sacerdotes, ‘temos uma sólida formação teológica que nos mostra um Deus perto de nós, que convive dia a dia conosco, que nos ajuda a libertar-nos de todo erro e a levar o nosso povo a se libertar também’. Disse-lhes ainda que ‘quero continuar a ver a realidade que nos cerca, julgá-la à luz da Palavra de Deus e levar todos a agirem de acordo com a sua consciência’. Acrescentei que ‘foi assim que eu aprendi desde muito cedo, e agora, na minha maturidade, ainda me sinto bem, em repassar para os outros’.

Meus ex-alunos que me leem agora, certamente, recordam que seu velho professor, no início de cada aula, sempre dava um resumo do que havia sido ensinado, até então/, para acrescentar o novo assunto que ia dar. Faço a mesma coisa com os meus programas de rádio e celebrações

Mons. ASSIS ROCHA Mestre e Doutor em Comunicação Social

Quando afirmei a pouco que ‘foi assim que eu aprendi desde muito cedo’ é porque eu tive, no Seminário de Olinda, os melhores Professores de Teologia e sagrada escritura, sociologia e filosofia, História da Igreja e Direito Canônico, todos empenhados em nos transmitir o que havia de melhor e mais atualizado, bem como oferecendo as melhores bibliografias para completar os estudos, já que não havia os recursos de Internet para pesquisar. Em tudo havia o incentivo, o apoio e o profetismo do Arcebispo de Olinda e Recife, D. Helder, a segurança do Reitor do Seminário, Pe. Marcelo Carvalheira e Professores como Pe. Arnaldo Cabral, Newton Sucupira, Pe. Luís Sena, Ariano Suassuna, Pe. Almery Bezerra, Vamireh Chacon, Pe. José Comblin, os Padres Irmãos Zeferino e Zildo Rocha e tantos outros da maior competência.

            Nossos cursos de Filosofia e Teologia nos fizeram entender que tais Ciências não deveriam ser fechadas, difíceis de ser atingidas e por fora das realidades. Ambas nos deveriam dar uma formação crítica diante de nossa condição humana. Até então se falava de estudos teóricos para as duas ciências, que nos levariam a uma prática, mais tarde, na Pastoral da Igreja. Eram teorias, dissociadas da prática. Graças a Deus, veio para a Arquidiocese de Olinda e Recife, o Arcebispo Dom Helder Câmara, que já era conhecido, mundialmente, pela pregação que unia teoria à prática, palavra à obra, oração à ação. Estávamos vendo nascer, a Ditadura Militar, com todos os rigores que o regime nos impunha. Não havia oposição política ao Regime. Não havia, na prática, quem se atrevesse a contestar. Dom Helder foi um dos primeiros a ver, profeticamente, o trabalho da Igreja do lado dos mais fracos, dos injustiçados e dos mais pobres. Unido a outros estudiosos da Filosofia e da Teologia, de modo especial/, estimulando a equipe de formação do seu Seminário, em Olinda, sugeriu a inserção de formadores e formandos no meio dos pobres, onde melhor se descobria o Cristo Crucificado, para porem em ação, aquilo que, teoricamente, iam aprendendo nas aulas do Seminário.

            Na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e no Regional Nordeste II da CNBB, apareceu um Grupo de Bispos Proféticos que, corajosamente, defendia os Direitos Humanos, sob a opressão da ditadura militar. Também Sacerdotes e leigos – muitos leigos – entenderam a necessidade de serem Igreja, adotando uma Teologia mais aberta pra libertação dos cativos e pobres.

            Essa Teologia trouxe uma outra percepção do que é “ser Igreja” numa hora em que o Brasil e a América Latina viviam momentos de grande dureza. Ela nasceu, exatamente, da preocupação da Igreja com a pobreza das grandes maiorias marginalizadas. Eis que surgem os Profetas da Igreja: D. Helder Câmara, D. José Maria Pires, D. Antônio Fragoso, D. Francisco Austregésilo, D. Pedro Casaldaliga, D. Paulo Evaristo e tantos outros que, no Nordeste do Brasil ou em qualquer Regional da CNBB sentiram que a Missão da Igreja é do lado dos pobres para ser libertadora e não assistencialista.

Entre os leigos cristãos estava o Professor Paulo Freire que instituiu um método libertador de alfabetização, expresso em duas de suas obras clássicas: “Pedagogia do Oprimido” e “Educação como prática da Liberdade”, baseadas no vocabulário cotidiano da realidade dos alunos. Citando o Frei Leonardo Boff, ele dizia: “a Teologia da Libertação não seria uma nova disciplina teológica, mas um novo modo de fazer teologia, arrancando do inferno da pobreza/ e optando pelos condenados da Terra”.

Apesar da grande novidade da Teologia Libertadora que deveria ser ensinada e espalhada entre todos, houve Bispos, sacerdotes e leigos que não a acataram e criaram problemas e mal entendimentos entre governantes e governados.  Mesmo assim ela encontrou aceitação: com o Padre Gustavo Gutiérrez no Peru; Jon Sobriño em El Salvador; Leonidas Proaño no Equador; Juan Luís Segundo no Uruguai; o Santo Oscar Romero na Nicarágua e no Brasil: os primos Leonardo e Clodovis Boff; Frei Betto; Frei Carlos Mesters; Pe. José Marins; Rubens Alves, Hugo Assman, Pe. Libanio e o belga-brasileiro Pe. José Comblin, só para lembrar alguns.

Nosso grande e estudioso Teólogo da Libertação, Frei Leonardo Boff, responde àqueles que criaram problemas e mal-entendidos na compreensão e na aceitação desta maneira de estudar, de ver e aprofundar a Teologia, que “Marx não foi nem pai nem padrinho da Teologia da Libertação. Foi o grito dos oprimidos do Êxodo, foram os profetas bíblicos, foi a mensagem e a prática de Jesus e dos apóstolos/ que estão na base desta Teologia”. É claro que uma visão dessas, bem diferente daquela maneira tradicional de ensinar e aprender Teologia, só podia causar o impacto que causou. Havia muita teoria a respeito de Deus.  Ele permanecia lá nas alturas. E eu vivia de amargura na terra do meu Senhor. Cantava João do Vale em sua composição musical, “Carcará”, mostrando a desigualdade entre a Teoria e a prática; isto é, os estudiosos, os acadêmicos, os graduados lá em cima; longe da realidade, enquanto nós, os pobres mortais, os sem terra, sem teto, moradores de rua, desempregados, vivendo de sofrimento e amargura na terra do mesmo Deus que habitava longe de nós. Não dava para nos entendermos, mesmo sabendo que o Filho de Deus já se tinha tornado um de nós. Este é o grande impasse: a Teologia estava na Universidade, na Academia, lá entre os grandes/, e o povo, os operários, os pequeninos, abandonados. Não se entendiam. A Teologia da Libertação vem para unir as duas realidades: a teoria à prática; a fé à obra; a oração à ação.

É este Deus que se fez homem, que viveu conosco, que escolheu os pobres, os pequeninos, os desprotegidos pela sorte/, que nos vem trazer o Deus que é Pai e o Espírito de Deus, que é a vida para nos libertar de toda injustiça, do egoísmo, do mal e de todo o pecado. Somente o Deus Libertador nos poderá fazer conviver, fraternalmente, como irmãos. Como ser contra uma Teologia ou a um conhecimento de Deus bem mais perto de nós? Foi assim que estudei. Assim aprendi. É assim que tenho catequizado. Vc. vai discordar?

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