SEMINÁRIO DA BETÂNIA: Aquele convívio foi uma dádiva

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Quanta sabedoria acolheu aquele majestoso e quieto casarão! Ele foi o abrigo de muitos sonhos, o celeiro de muitos ideais. De um lado, eram sacerdotes que se entregavam à contemplação da fé. Homens cultos e inteligentes que, no ardor do ideal juvenil, num estoicismo quase sobre-humano, buscavam as pegadas de Cristo. Homens abnegados, que, perscrutando horizontes, pareciam rasgar o véu de um além que pudesse suportar-lhe a inquietude do espírito. Suas palavras pareciam-nos eternas, eram como bálsamo que nos ungia a alma e fomentava-nos o imaginário quase infantil. Neles coadunavam-se sabedoria e saber, evidenciando o sabor da cultura. Quantas daquelas figuras permanecem presentes em nossas divagações, povoando ainda nosso quotidiano?!.

PROFESSOR ORION PAIVA, DE GROAÍRAS – CE.

O seminário da Betânia foi o singelo abrigo de vários sacerdotes e de muitos aspirantes ao sacerdócio. Aqueles mestres deixaram-nos marcas indeléveis. Uns pela rigidez de caráter e pela idiossincrasia inimitável, outros pela convicção com que abraçavam o sacerdócio.  Com eles, aprendemos a enfrentar os óbices da vida e a romantizar nossa própria história.

            De outro lado, estavam os seminaristas, jovens que, consciente ou inconscientemente, formavam uma grande família, cada um com seu lado às vezes brincalhão, às vezes carrancudo ou compenetrado, com seu apelido característico que não nos convém lembrar agora. Naquelas cabeças, povoavam sonhos e fantasias. Não se falava da presença festiva dos hormônios na puberdade, tampouco dos efeitos impetuosos da testosterona, apenas se dizia que fulano estava “chumbado”. Quando alguém conseguia dissimular as tentações, ou controlar os impulsos sexuais, chamavam-no de santo, de sonso ou de piegas. As amizades não podiam ser muito “chegadas” e, quando isso acontecia, logo eram rotuladas de “pegamassa”. Quando o colega expressava mau humor ou qualquer dificuldade de relacionamento ou não conseguia se enturmar, era tido como recalcado. É… “fulano é recalcado”. Havia muito rigor no estatuto que, logo ao adentrar aquele casarão, tínhamos que conhecê-lo. Ser expulso do seminário era um trauma, uma humilhação, às vezes uma vergonha. A vítima era como que banida ou até mesmo marginalizada pelos colegas. Era o império do falso pudor. Havia uma disciplina, uma espécie de ritual que começava logo ao despertar. Feitas as abluções matinais, tínhamos a missa; depois o café, em seguida, pequeno intervalo e logo as aulas. Nós nos divertíamos bastante e trazemos na memória alguns fatos jocosos que convêm ser lembrados: certa vez, após uma pequena sesta, ao descer do dormitório, o Queirós, de Coreaú, depara com o padre Osvaldo e diz: “padre Osvaldo, eu estava tirando uma pequena sonoplastia”. Padre Osvaldo assusta-se e, como de costume, bate a mão no pescoço e diz: “Ô Queirós, não faça isso”. O Israel, primo do François (in memoriam), hoje juiz, desentendeu-se com o Queirós em sala, enquanto esperávamos o professor, subiu na mesa, arrancou um crucifixo da parede e bradou: “vem, caga baixinho, que eu te arrebento com este J.C. “Outros episódios cômicos poderíamos relatar, mas ficarão para a próxima edição.

            Entrei no seminário em 1963, quando o Brasil estava às vésperas de receber o mais tétrico golpe de sua história, quando, no ano seguinte, os militares, pela força e pela violência, tomavam o poder e instalavam um longo e triste período de exceção. Não tomávamos conhecimento das torturas e dos morticínios que ocorriam nos quartéis e nas ruas. Ironicamente ficávamos com a leitura do martirológio romano. Minha estada na Betânia encerrou-se no ano de seu fechamento. Aguiar Moura, José Maria Cisne e eu (foi o que sobrou) fomos mandados para o seminário da Prainha, mas este também, no mesmo ano, fechou, e desistiu da árdua tarefa de formar padres. Fomos vítimas dos efeitos inovadores do Concílio Vaticano II. Voltamos, então, para Sobral. Dom Walfrido pôs-nos para estudar no Colégio Sobralense, completando os estudos clássicos no convento dos frades. Parece que o destino não queria mesmo nos ver ordenados sacerdotes. Padre Aragão, então vigário de Santana, levou-me para São Paulo. Segundo ele, tinha mais futuro para mim. Lá cursei Administração de Comércio Exterior (sem tendência para a coisa) na Faculdade Interamericana. Casei-me em 26 de julho de 1975, na igreja matriz de Groaíras, com Maria de Fátima Ximenes Paiva, um presente que ganhei da Providência. No dia seguinte ao casamento, rumamos para São Paulo, pois lá eu estava bem estabelecido. Tivemos três filhos: Andrea, Marco Antônio e Ricardo. Ao vê-los crescer naquela selva de pedras terrível, achamos por bem voltar para o Ceará, nosso cantinho. Depois vieram três netos: Mariana, João Felipe (gêmeos) e Flora, o mais novo rebento da família. Foi nesses seres, que trazem um toque de divindade, que percebi que na família está a plenitude, a essência da sociedade.

            Profissionalmente o magistério foi sempre a minha paixão. Para exercê-lo, graduei-me em Filosofia na famosa Fafifor (com conclusão na UECE) e fiz pós-graduação em Linguística Textual, também na UECE. Aí, então, caí em campo e entreguei-me ao ensino das Letras. Skema Vestibulares, Colégio Cearense, Colégio Batista, Colégio Santo Inácio, Colégio Santo Tomás de Aquino, Colégio Lourenço Filho, Colégio Santa Cecília, Colégio Evolutivo, Colégio Equipe, Colégio Juventus e Colégio Christus foram meus campos de trabalho. Para completar meu sacerdócio, ministrei cursos de Latim, de Mitologia Greco-romana e de Literatura Brasileira nos institutos da Uva, em Fortaleza. Hoje estou aposentado e agora só ministro alguns cursos especiais.  

            Voltando a falar do seminário, aquele convívio foi uma dádiva, um privilégio de poucos. Foi, certamente, a melhor etapa de nossa vida, mas que passou e que não volta mais. Como dizia Heráclito de Éfeso: “Em um rio, não se mergulha duas vezes na mesma água”. Tudo não passa de um devir constante. E, com isso, vem-me à memória o fim tristonho do romance Iracema de Alencar: “A jandaia ainda canta no olho da palmeira, mas já não se escuta mais o mavioso nome de Iracema. Tudo passa sobre a terra”. Hoje cabe-nos apenas acalentar no peito a amarga saudade. Mas “Como dói!”.

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