O PAPA FRANCISCO, NA TERRA DE ABRAÃO

Divulguei, nos últimos dias, pela Rádio Genoveva em Bela Cruz, nas celebrações paroquiais e pelo telefone, com pessoas amigas, a visita pastoral que o Papa Francisco faria e, de fato a fez, ao Iraque, da sexta feira, 05 de Março, à segunda feira, dia 08, com o mais absoluto sucesso e com a admiração ou espanto de muitos. Mas, por que tanta admiração? Não é seu costume e de seus predecessores, fazer viagens internacionais?

Mons. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz -Ce.

É verdade. Não nas circunstâncias em que esta viagem foi feita: em plena Pandemia, diante de recentes ataques com foguetes e bombas e por ser a 1ª vez que um líder da Igreja Católica se arrisca a visitar uma Nação de origem muçulmana. Ainda no avião declarou: “estou feliz por viajar novamente” e acrescentou: “estou vacinado contra o Coronavírus, bem como toda a minha comitiva”. A única coisa que pesava na sua consciência era a possibilidade de provocar aglomerações, mas os objetivos justificavam realizar essa “viagem apostólica, tão emblemática”. O ‘peso de consciência’ tinha sentido.

            Antes de Francisco, os Papas: Bento XVI e João Paulo II tentaram realizar visitas ao Iraque, mas não aconteceram devido conflitos no país e dificuldades de negociação com o governo local. Agora, para esta visita, o Papa Francisco pediu a oração de todos para que ela ocorresse da melhor maneira possível, dando os frutos desejados. Acrescentava: “o povo Iraquiano nos espera”. Mas, por que o Papa Francisco fez tanta questão da visita? O que havia por traz disso? Além da história multi milenar da Ásia, os últimos 05 mil anos da cidade de Ur, onde nasceu Abraão, Pai das religiões monoteístas que, em número de 03, devem ser conhecidas e respeitadas pelo seu significado: adoram um único e verdadeiro Deus: o judaísmo, o islamismo e o cristianismo.

            Como e por que se atribui esta responsabilidade a Abraão? O que se sabe dele, é que era estéril: ele e Sara, sua mulher. Eram avançados na idade, não tinham filhos e Deus os abençoou, dizendo: “eu vos darei um filho e vós sereis pai e mãe de Nações”. Abraão começou a rir e a pensar: “por acaso um homem de cem anos pode ser pai? Será que Sara, com os seus noventa anos, poderá ter um filho? Se, ao menos, Ismael, filho da escrava, fosse abençoado”!

            Ao que Deus respondeu: “Sara, sua mulher lhe dará um filho e você o chamará de Isaque. Mas vou também atender o seu pedido sobre Ismael: eu o abençoarei e lhe darei muitos filhos e descendentes”. Quando Abraão deu a notícia a Sara sobre a promessa de Deus, a respeito de Isaque, ela disse: “como poderei engravidar agora, que eu e meu senhor estamos velhos”?

            Diante das dúvidas de ambos, Deus fez com Abraão uma aliança: “eu sou Deus, o Senhor. Eu o tirei da Babilônia, da cidade de Ur, a fim de lhe dar esta terra (Canaã) para ser sua propriedade. Esta aliança eu manterei com seus filhos. Olhe para o céu e conte as estrelas se puder. Pois bem! Será esse o número dos seus descendentes. Farei também que eles sejam tantos como o pó da terra. Assim como ninguém pode contar os grãozinhos de pó, assim também não será possível contar os seus descendentes”. (Confiram no livro do Gênesis, capítulo 12 em diante).

            Será que agora dá pra entender o porquê da viagem do Papa ao Iraque?

Antes de criticá-lo, pense bem: ele foi visitar irmãos nossos, Islamitas, descendentes de Abraão, Monoteístas, originários de Ismael, seu filho com a serva, Agar. Sua história é muito longa, cheia de guerras, derrotas e vitórias. Do lado de Sara, veio Isaque, com seus filhos Esaú e Jacó, com muitos descendentes, que formaram o Judaísmo, também Monoteísta.

Só bem depois, viemos nós, os Cristãos. Há pouco mais de 2.000 anos.

            Em tão pouco tempo, nós nos dividimos em cristãos: Católicos, desde o início; Ortodoxos, desde o século XI e Protestantes ou evangélicos, do século XVI pra cá. Somos também Monoteístas. Temos a mesma fé, ele Profeta, Cristo, a mesma Bíblia e, infelizmente, somos tão divididos. Não estão vendo agora, depois de 57 anos de Campanha da Fraternidade, o mal-estar causado, por que está sendo feita de maneira ecumênica? Com esta, são 05 vezes que preparamos, executamos e colhemos frutos de um movimento catequético, sempre feito durante a Quaresma. Mas os “negacionistas”, os que confundem “religião com política”, que “usam o nome de Deus em vão”, que usam de “fake news” como norma, que idolatram mitos, conservadores, não querem aceitar. São os mesmos que, desconhecendo a história, a vacina, a Organização Mundial da Saúde ou a Ciência, se metem a dar palpite errado, a contradizer o Papa e opinar sobre o que não entendem.

O Encontro Histórico do Papa Francisco em Celebrações com os poucos Cristãos do Iraque, unidos à espiritualidade do Pai Abraão entre os Islamitas ou muçulmanos, nos contatos com autoridades políticas, sobretudo na visita ao sítio arqueológico de Ur, onde se acredita ter nascido Abraão, o Papa disse na presença de muçulmanos e de cristãos: “este lugar sagrado nos leva de volta às nossas origens”. E acrescentou: “a hostilidade, o extremismo e a violência não nascem de um coração religioso. São a traição da religião. Nós, crentes, não podemos nos silenciar quando o terrorismo abusa da religião”.

            Faz pouco tempo, na Quarta-Feira de Cinzas – 17 de fevereiro – em sua mensagem de abertura da Quaresma e da Campanha da Fraternidade, o Papa Francisco dizia para todo o Brasil: “ao promover o diálogo como compromisso de amor, a Campanha da Fraternidade lembra que são os cristãos os primeiros a ter que dar exemplo, começando pela prática do diálogo ecumênico”.

            Eu entendo a viagem do Papa Francisco ao Iraque, dentro desta sua linha de raciocínio: “o cristão deve ser o primeiro a dar o exemplo, começando pela prática do diálogo ecumênico”. Será que o chefe de estado Islamita viria encontrar-se com o Papa, por sua própria iniciativa? Esta tem que partir do cristão para que o Ecumenismo ou a convivência aconteça. Se não fosse a iniciativa do “bom samaritano”, o coitado que caíra nas mãos de ladrões, nunca teria sido acudido. Infelizmente, muitos têm até medo, da palavra ecumenismo. Não sabem o seu significado, confundem-na com comunismo e adeus diálogo! Nem entendem, nem querem entender a palavra primitiva grega ‘koinonia’ que deu origem a todas as derivadas: comum, comunidade, comunismo, comungar, bem comum, comunhão. Ecumenismo vem também do grego – “oikos” – que quer dizer “casa”. E o que se pretende com o Ecumenismo? Que se viva unido como se morássemos na mesma casa, como se fôssemos da mesma família. É o que se espera dos cristãos (católicos, ortodoxos e protestantes) ou das Religiões Monoteístas – que adoram um único e mesmo Deus (Islamitas, Judeus e Cristãos). Está difícil? Façamos como disse o Papa: “que os cristãos deem o exemplo: partam na frente”. E na despedida, disse mais: “esperei com impaciência esse momento. Vim como peregrino penitente para implorar perdão e reconciliação em busca de cura para nossas feridas. Obrigado! Desta terra, há milênios, Abraão começou sua viagem. Hoje, cabe a nós, continuá-la, com o mesmo espírito, caminhando juntos pelo caminho da paz”. E viajou.             Obrigado! Disse o Papa. Obrigado, digo eu.

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