Dom Helder: ditadura não é saída honrosa para o povo

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Fico feliz com o retorno que tenho recebido, imediatamente, após cada apresentação deste meu Comentário Semanal, no que aumenta em muito, a minha responsabilidade. No sábado passado, discorri sobre a “viagem apostólica” do Papa Francisco, ao Iraque, numa tentativa ecumênica de entendimento com o povo Islamita, muito religioso (apesar de também, muito guerreiro), que tem a mesma origem penta-milenar de sua fé, enraizada em Abraão, como temos também os católicos e judeus. Todos somos Monoteístas: cremos no  único e mesmo Deus Verdadeiro.

MONS. DOUTOR ASSIS ROCHA, de Bela Cruz – Ce.

Relendo o meu texto e me aprofundando mais na grande motivação que levou o Papa Francisco até o Iraque, pensei em dividir com meus interessados e assíduos ouvintes e leitores, uma fundamentação concreta, atual, experimentada por gente nossa, D. Helder Câmara que, tendo como base a expressão “vivendo a esperança” rezada, todo dia na Missa, após o Pai Nosso, unida à fé e à prática de Abraão, instituiu aqui no Brasil e no Mundo, um movimento a que chamou de “Minorias Abraâmicas”. Por que lhe veio à cabeça esta ideia?

            Porque da segunda metade da década de 1960 em diante, o Brasil e o Mundo viviam momentos políticos conturbados. Dom Helder, que tinha vivido, intensamente, o Concílio Ecumênico, combinando com o Papa Paulo VI, iniciou uma série de Palestras pela Europa/EEUU/Canadá/A.L. e Ásia na defesa dos Direitos Humanos e na esperança de que a Humanidade formasse uma “grande família”. Era a maneira encontrada por ele de pôr em prática o Ecumenismo estudado, propagado e tão desejado de realizar-se, como um dos Documentos Conciliares. D. Helder fundamentou suas palestras na “Esperança em uma Comunidade Mundial”. Só ia a uma Diocese, em qualquer país, com a aceitação do Bispo local. Onde passava, formava grupos, envolvendo brasileiros que por lá morassem ou estudassem, e estrangeiros que tivessem morado no Brasil. A esses grupos ele dava o nome de “Minorias Abraâmicas” e os alimentava com conteúdos, com os textos de suas Palestras que eles traduziam para as diversas línguas, de tal maneira que não lhes faltava assunto e D. Helder se mantinha atualizado com o que acontecia por toda parte.

            Isso lhe rendeu 32 títulos de Doutor Honoris Causa, 54 honrarias e prêmios, 32 participações em organizações nacionais e internacionais, muitos livros em língua portuguesa ou estrangeira (alguns traduzidos), poesias e uma infinidade de cartas já publicadas e outras em via de publicação. Isto porque foi organizado no Rio, em Recife e Fortaleza e em outros subpostos pelo Brasil, o IDHeC – Instituto D. Helder Câmara – contendo um Acervo Histórico-Religioso-Cultural e Pessoal, centralizado em Recife, onde um pesquisador sério pode recorrer. Lá no início da década de 1970, (depois em 80), tive um bom contato com a Equipe das Minorias Abraâmicas de Roma (06 pessoas), onde havia uma brasileira e 05 estrangeiras que também falavam português. Quando D. Helder chegava com seu texto em português, a equipe logo traduzia em 05, 06 línguas e divulgava. Era o trabalho das “formiguinhas” que acreditavam, como Abraão, na vitória das Minorias. Este era o trabalho de D. Helder quando andava pelo mundo: tinha seu cajado de Pastor na Arquidiocese de Olinda e Recife, e tirava duas vezes por ano, parte do seu tempo e da sua ação missionária para ajudar à Igreja a conduzir seu rebanho por toda parte, pregando o Evangelho a todos. Mesmo pronunciados àquele tempo, seus discursos podem ser lidos hoje com sabor de novidade. Já naquela época ele citava como obstáculo à vivência comunitária, o fato de existir um pequeno grupo de famílias privilegiadas cuja riqueza é mantida à custa de muita miséria.

            O Ecumenismo que mostramos estar sendo vivido e praticado pelo Papa, na busca do diálogo com o Islamismo no Iraque, e na abertura da Campanha da Fraternidade Ecumênica aqui do Brasil, já foi vivido e praticado por Dom Helder. Depois do Concílio e durante a Ditadura Militar, sem nenhum medo. De tal modo que, além do Dom que o intitulava como Bispo, todos o chamavam de “Dom da Paz”, pois ele sonhava com a Humanidade, vivendo como uma “grande família”, enfrentando, com audácia, qualquer obstáculo: ‘o egoísmo é um deles’. E acrescentava: “quem não rompe a carapaça do egoísmo, quem não sai de si mesmo, quem gira sempre em volta do próprio eu… jamais contribuirá, de maneira válida, para as primeiras comunidades”.

            Dom Helder não via nas ditaduras ou nos regimes de exceção, a saída mais honrosa para o povo. Este, tinha que se unir, refletir sobre as suas dificuldades, voltar ao Tempo das Catacumbas, como no Império Romano. Tinham que ter a fé de Abraão: acreditar que aos cem anos poderia ser pai; que Sara, aos 90, poderia ser mãe; que deixar Ur, na Caldéia, para ir morar na Mesopotâmia, com todos os seus descendentes, quando ainda não gerara nenhum; o que lhe aparecera, Ismael, era filho dele com a serva, Agar; só treze anos depois, veio Isac, de Sara e este mesmo, Deus pediu para lhe ser oferecido em holocausto. Sem resmungar. Isto sim que é ter fé. E foi este exemplo ou este testemunho que D. Helder aproveitou para nominar a sua Obra Missionária que espalhou por todo o mundo – MINORIAS ABRAÂMICAS – pequenas equipes que iam fermentando e demonstrando que tinham a fé de Abraão. Este foi um dos testemunhos dado em vida por D. Helder.

            Vinte e dois anos depois de sua morte a Arquidiocese de Olinda e Recife ainda lembra Dom Helder, como o Dom da Paz, o Dom que deu vida nova à Igreja Local, aproximando-a da vida do povo. De Maio de 2015 pra cá, o atual sucessor de D. Helder, D. Fernando Saburido tem envidado todos os esforços no seguimento do esquema que o conduza à Canonização, isto é, à Santidade ou à honra dos altares. O Processo iniciado já venceu a 1ª etapa: diocesana ou local: comprovação das virtudes heroicas. Nesta fase, o candidato já é tratado como Venerável, isto é, digno de reverência e veneração. Os fiéis já podem interceder a ele para conseguir de Deus, um milagre. É a fase em que se encontra o “Venerável D. Helder”. Agora, começa a fase Romana. Reconhecido pela Igreja, ele já se torna Beato. É a 2ª etapa para a Santidade. Basta um milagre. Aí vem a 3ª e última etapa: a Canonização. Requer outro milagre, agora, não comprovado cientificamente. Tem que ser por verdadeira prova de fé. Só então a Igreja o declara, oficialmente, Santo, merece a honra dos altares e o mundo todo sabe. Nós esperamos, vivamente, que isso aconteça e logo.

            Nós o reconheceremos como o “Patrono dos Direitos Humanos”, o “Men-sageiro da Esperança”, o “defensor dos pobres” já que o povo simples, os pobres da Arquidiocese de Olinda e Recife, representando todos os pobres do Brasil e do Mundo, que ouviram D. Helder, acompanharam seu trabalho, caminharam com ele, sabem que ele é um exemplo de santidade. O Processo de Canonização vai, oficialmente, confirmar isso. Pena é que nem todos vão celebrar esta premiação, reconhecimento e alegria porque ficaram do lado dos que o apedrejaram. Santo D. Helder Câmara, juntamente com São D. Oscar Romero, de El Salvador, rogai a Deus por nós! Obrigado e tenham um bom dia!

                                                                                                                   O Comentário da Semana – também lido no Programa ‘Rádio Vivo’ na Pajeú, de Afogados da Ingazeira – Pe.

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