Como era a Semana Santa no sertão, nos meus tempos de criança.

         Não se judiava com os animais.  Apenas se estalava a macaca perto dos mais lerdos, sem os atingir. Judiar era coisa de judeu, e falava-se muito mal dessa gente lá em casa. Os passarinhos estavam livres da minha baladeira. Podiam vir cantar nas árvores que circundavam a casa. Na Quinta-Feira Santa tirava-se leite apenas de algumas vacas e era para doar. Na Sexta-Feira Santa não se tirava leite. Era a festa dos bezerros, que mamavam em peitos fartos, deixando cair flocos brancos de espuma.

Igreja Matriz de Groaíras – Ceará

      Os trabalhadores eram liberados nestes dois dias. Na quarta-feira à tarde recebiam para jejum dos dias grandes uma boa porção de feijão, farinha, queijo e toucinho de porco. Toucinho não é carne, podia-se comer. Peixe? Os rios ofereciam com fartura. Bastava botar um jequi, um engodo, usar a tarrafa ou linhas nas águas represadas. Não era época de se pescar com anzol. A não ser à boca da noite quando se pegavam muitos cangatis.

      Nos dias grandes não se varria a casa, nem se tomava banho. Mas como morávamos ao lado de dois rios e era época de grandes cheias, às vazes havia necessidade de atravessá-los a nado. Era um banho sem cometer pecado.

      Minha mãe e minhas irmãs mudavam-se para a nossa casa na cidade – casa que só era usada na Semana Santa, na Festa da Padroeira, em outubro, e no Natal. Nós homens ficávamos no sertão. Íamos apenas participar das cerimônias litúrgicas, prenunciadas três vezes pelo toque das matracas. Morávamos perto da cidade, apenas três quilômetros a distância. Todos tinham que fazer a Páscoa: confessar-se e comungar sob vigilância atenta da mamãe. 

     Na pequena cidade não se ouviam aquelas gargalhadas gostosas, mensageiras da felicidade, vindas de vários pontos. Mesmo um sorriso mais estridente era logo censurado. As pessoas se portavam circunspetas. As conversas, os gestos respeitavam a Paixão de Cristo.

     Tudo mudou. A casa do sertão caiu; a da cidade foi vendida e transformada em ponto comercial; a cidade invadiu o meu sertão; até a Semana Santa hoje é diferente.

JOÃO RIBEIRO PAIVA, de Groaíras, Ce. Betanista Bancário, Professor, Revisor de Textos, residente em Sobral -Ce.

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