Mês: setembro 2021

VELHOS MENINOS – Texto de Leunam Gomes

                                        Um encontro de ex-alunos do Seminário de Sobral é sempre algo muito agradável. Eles vão chegando com aquele ar de gente muito séria. Senhores de cabelos brancos. Sisudos uns. Outros, nem tanto. De longe, alguns logo são reconhecidos. São aqueles que mais frequentam os encontros. Os de primeira vez nunca são reconhecidos pelos outros. Mas também são cinquenta anos de distância.

   Hoje, são respeitados senhores Professores, Empresários, Escritores, Poetas, Jornalistas, Políticos, Padres casados, Padres em pleno exercício do sacerdócio, Juristas, Médicos, Engenheiros, Cientistas. Exercem as mais variadas profissões. Nenhum se perdeu na caminhada. Todos, invariavelmente, saindo-se bem nas atividades que desenvolvem.

Os primeiros momentos dos reencontros são de dúvidas. Quem é este? Não se lembra? Uma dica aqui, outra ali. E então vem aquele abraço. Grandes abraços. Às vezes algumas lágrimas.

ENCONTRO DE EX ALUNOS DO SEMINÁRIO MENOR DE SOBRAL

Após a descoberta é como se fosse retirado um véu. Ou como se desembaçasse um espelho. E logo ressurgem os meninos. Passam a ver-se vestindo a velha batina preta, circulando pelo Seminário da Betânia, rezando em latim, caminhando de braços cruzados nas extensas filas para a capela ou para o refeitório. Relembram-se os apelidos. Tudo acompanhado de muitos sorrisos e gargalhadas. Histórias, encobertas por cinquenta anos, vêm à tona. Parecem meninos velhos insultando-se. Somente coisas boas são relembradas. Muitas saudades. Nenhuma mágoa.  O Seminário de Sobral só fez bem a todos que por lá passaram.

Todos os professores, grandes professores são lembrados. Como era possível que homens tão jovens fossem capazes de tanta sabedoria. Cada um tem uma história a contar de seus bons professores.

Os mais velhos contam histórias da convivência com Dom José. Relembram, com graça, até alguns carões, ou pitos, como eram chamadas as admoestações. Feriados inesperados eram concedidos através de duas pancadas rápidas na sineta. Dom José fazia aquilo para ver a alegria da meninada correndo para a rouparia para vestir calções e correr para o campo de futebol. A Semana da Pátria na Meruoca sempre vem á tona. Eram dias inesquecíveis para todos. Tudo é repassado nos encontros.

E mais: todos se alegram com os êxitos alcançados pelos companheiros. É como se o sucesso de um pertencesse a todos. Afinal de contas eram nove meses de convivência por ano. Muito mais tempo do que com as próprias famílias. E muitos laços se criaram. Uma irmandade. O reencontros são cheios de alegria.

E aqueles, que se  parecem meninos velhos, não passam de velhos meninos que se amam.

(*) Texto publicado no livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura – Edições UVA -2015

A IMAGEM FALA POR SI

E foi ao ver essa imagem que refleti um pouco mais sobre o retorno das aulas presenciais! Quantos alunos voltarão órfãos? Quantos com seus corações ainda doloridos com perdas irreparáveis? Quantos vivendo num outro ambiente (até pouco) familiar? Quantos sofrendo a perda de um pai, de uma mãe, irmão, tio, avó… enfim!

Voltarão incompletos, certamente! Como estarão as escolas se preparando para receber esses alunos, sobretudo, as crianças? Penso eu, que o momento inicial, deveria ter algo de diferente no que diz respeito ao acolhimento! Não é um retorno normal!

Não estavam em férias! Estavam em casa, com restrições de saídas habituais, onde muitas delas (crianças), sem pelo menos duas refeições diárias! Sem contar que, em alguns casos, sua família está incompleta! Lembrando também que não são somente os alunos que estão vivendo essa realidade!

Compreendendo a “didática” do ensino aprendizagem, reconheço o quanto é necessário recuperar conteúdos que deixaram grandes lacunas, porém, mais importante do que isso, será recuperar as “lacunas psicológicas” deixadas pela pandemia (que ainda não acabou)!

A pandemia pode ter sido (otimista, já me referindo ao passado) uma das maiores oportunidades que tivemos de olhar o mundo, as pessoas, o meio ambiente, e tudo mais o que está a nossa volta com outro olhar, onde deixemos para trás o EU e passemos a viver o NÓS!

Creio eu, que o verdadeiro amor, principalmente, com aqueles(as) que estão próximos a nós, já não cabe mais numa vida onde o egoísmo, o desamor, a indiferença, a discriminação, o materialismo fazem morada!

Ser e fazer feliz o outro, hoje, passou a ser o que, realmente, importa!

Texto da Professora CLEONICE ALVES, de Guaraciaba do Norte-Ce.

ANCHIETA SANTOS: Lá estava o Locutor das Multidões, com o seu vozeirão ímpar, unindo e levantando a galera!

Ao terminar de escrever o Comentário da Semana, na tardinha da 5ª feira do passado 09 de setembro, recebi telefonema do amigo – Nil Júnior – diretor da Rádio Pajeú, comunicando-me, em 1ª mão, que o estado de saúde do nosso amigo, Anchieta Santos, estava em fase terminal. Li para ele o que eu já havia escrito no finalzinho do meu comentário de sábado, dia 11 e que já enviara para o apresentador Aldo Vidal: estou me programando para, no próximo sábado, dia 18 – hoje, portanto – fazer meu último comentário. E acrescentava: é que no domingo, 19, faz, exatamente, um ano que iniciei tal participação, aqui no Rádio Vivo e já devo ter cansado vocês, pois eu, pessoalmente, já me estou sentindo cansado. Então, por prudência, devo parar.

MONS. ASSIS ROCHA – Escritor, comunicador

Na 6ª feira, 10, pelas 11 da manhã, mais uma vez, o Nil Júnior me completa a notícia iniciada antes. Agora de maneira fatal: o Anchieta acaba de falecer. Daí pra frente, vocês acompanharam tudo. Daqui de longe, eu também.

            O Anchieta me havia convidado para fazer um Comentário Semanal, a cada sábado, para completar o comentário de 2ª a 6ª, sabiamente apresentado pelo professor e atualizado historiador, Saulo Gomes, que enriquece a progra-mação matinal da Rádio Pajeú. Nem por um instante, eu quis competir com ele. Nós nos enriquecemos, mutuamente, com a informação um do outro.

Amanhã, 19 de Setembro, faz um ano que eu comentei aqui, pela 1ª vez, atendendo convite do meu amigo ANCHIETA SANTOS/, coetâneo à Rádio Pajeú, meu contemporâneo em alguns momentos, solidário em outros, apresentando o Programa que tem sua marca registrada ”Rádio Vivo” na Florescer FM, enquanto eu era Pároco de Flores/, por nos termos encontrado inúmeras vezes em várias datas comemorativas, inclusive no “Fora Collor” aqui em Afogados, por tê-lo convidado a participar da Programação da Rádio Educadora, da Diocese de Sobral, quando voltei para o Ceará e/, mais recentemente, por ter participado, com o Nil Júnior, de meu Jubileu Sacerdotal, em Bela-Cruz e por ter vindo eu participar aqui dos 60 anos da Rádio Pajeú.

            Tudo isso eu lembrei, há um ano, na minha 1ª participação no “Rádio Vivo”, de quem me estou despedindo hoje. Faz um ano, eu dizia aqui: não quero ensinar nada. O meu tempo de ensinar, há muito que passou. Àquela época, não tínhamos os recursos que se tem hoje. Tudo era muito difícil e ficava longe. Tínhamos que ir buscar. Até um fusível de que precisássemos, tínhamos que ir procurá-lo. Graças ao progresso da tecnologia, à facilidade da comunicação e à instantaneidade da internet o longe veio pra perto e a distância ficou um salto como previa Zé Marcolino ao cantar sua “Estrada”.

            Obrigado, amigão, pelo convite! Dizia eu. Vamos experimentar esta última parceria. Não sabemos até quando. Deus o sabe. Até com o silêncio se pode dar uma grande mensagem. Parece-me que este final do nosso 1º Comentário está-se realizando agora. O nosso silêncio vai falar mais alto.

            Nossa amizade foi marcada pelo respeito e pela responsabilidade com que assumíamos nossas funções. Ouvi muitos depoimentos, muitas opiniões e elogios ao seu profissionalismo no desempenho do seu trabalho. Isto era real, notório e inegável. Seus cuidados com o figurino pessoal, com sua voz, com a concentração e reflexão a sós, antes de enfrentar um auditório ou multidão, já lhe dava a garantia do sucesso do evento. Em qualquer tipo de aglomeração humana, sua entrada segura, citando uma passagem bíblica, apropriada para a ocasião, já lhe dava e aos que o convidavam, os pontos positivos esperados. Vi de perto, alguns desses momentos. Ouvi de longe, outros muito grandiosos.

            Em palanques, os mais variados: altares, competições esportivas e colegiais, comícios nacionais, estaduais ou municipais, em qualquer tipo de celebração, lá estava o Locutor das Multidões, com o seu vozeirão ímpar, unin-do e levantando a galera.

            No finalzinho de Agosto, no meu Comentário sobre a Vocação do Leigo e o Dia Nacional do Catequista, eu dizia que me sinto na reta final da minha vida terrena, mas muito feliz por ter aprendido a pensar e a viver com minha consciência cristã. E arrematava como São Paulo em sua 2ª Carta a Timóteo: agora, é só correr para o abraço, com meu Justo Juiz, dizendo-lhe: combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Não será isto, meu querido amigo Anchieta Santos, o que você já fez? “Correu para o abraço”. Quantas vezes você disse isto ao encerrar suas transmissões de futebol? Vinte anos mais novo que eu, antecipou-se a mim, correndo para o abraço com o nosso Justo Juiz. Aguarde-me, meu amigo. Você era um homem de fé. Como dizia Jesus, tantas vezes, em ocasiões diferentes: a tua fé te salvou.

ANCHIETA SANTOS, RADIALISTA

Quantas vezes ouvimos na hora do ‘Rádio Vivo’ – e agora, nas várias retrospectivas da sexta feira (10) e do sábado (11) – o Bom dia de Anchieta Santos, sempre cheio de fé, emoção e com uma música apropriada ao tema, com uma voz bem impostada, impecável e nítida, ecoando por toda parte e concluindo com a saudação: pense nisto, meu amigo, minha amiga, ouvinte do Rádio Vivo! Não esqueceremos jamais. Você marcou a História da radiofonia entre nós. Foi a tão propalada voz do sertão pernambucano, slogan da Rádio Pajeú, que você disse tantas vezes, “ser a sua vida”.

No meio do turbilhão de mensagens que ouvi das mais variadas pessoas, eu quis também me manifestar. Até a equipe da Rádio quis facilitar o meu depoimento. Não aceitei por não me sentir, emocionalmente, preparado. Além disto, eu já me havia programado, antes mesmo de Anchieta falecer, que eu iria afastar-me do Rádio Vivo, pelos motivos já mencionados. Já que eu iria preparar uma reflexão especial para esta despedida no dia de hoje, sem usar um espaço extra, mas no horário que já me era destinado, tive tempo de pensar melhor no que dizer, já passado o 7ºDia e a emoção do momento. Estou conseguindo dizer, com a razão, tudo um pouco, do que ele merece.

Uno-me à sensibilidade e à saudade de Dona Marineide, sua esposa e de sua filha Raíssa que me mantiveram informado durante todo o período em que ele esteve no Hospital da Restauração. Falar destes sentimentos é sempre muito pouco para quem está sendo atingido na alma. Depois, passada a Pandemia, facilitaremos um reencontro, aí, entre vocês, ou aqui no meu Ceará.

Nelas duas, quero estender toda a minha solidariedade aos familiares ou pessoas ligadas a Anchieta Santos nesta hora tão difícil para todos. Na atual equipe de funcionários da Rádio Pajeú, quero lembrar os meus companheiros do passado, vivos ou mortos, por estarmos juntos nesta hora, na esperança de nos reencontramos “do outro lado do caminho” no dizer de Santo Agostinho. São Paulo já havia garantido em sua I Cor 15, 54ss, que, “quando este ser corruptível estiver vestido de incorrutibilidade/ e ser mortal estiver vestido de imortalidade, então estará cumprida a palavra da Escritura: a morte foi tragada pela vitória”. Isto significa dizer que Anchieta e todos os mortos não adoecem mais, não precisam de médicos, não apodrecem debaixo da terra, não se corrompem fisicamente. Tornam-se incorruptíveis e não morrerão mais. Serão imortais. Se a gente acreditar nisso, nossa expectativa sobre a morte será diferente. Na eternidade não se tem mais dor. “É só correr para o abraço”.

PADRE LEITÃO E O RESGATE DE SUA MEMÓRIA Texto de Juarez Leitão

Abraão Lincoln (1809-1865), famoso presidente norte-americano, costumava dizer: “Gosto de ver um homem orgulhar-se de sua aldeia; gosto de ver um homem de quem sua aldeia costuma orgulhar-se.”

Este sentimento de amor recíproco da comunidade com sua liderança se coadunaria perfeitamente com Nova Russas e o Padre Leitão se uma das partes não estivesse comprometendo um antigo pacto de admiração. Com efeito, a memória do “Velho Cura da Ribeira do Curtume”, como liricamente se apresentava, vem sofrendo um esmorecimento e se debilitando com tal rapidez que, daqui a pouco, ninguém saberá informar nada do homem nem de sua ação na terra que adotou como sua e a cujo povo se entregou completamente.

Professor, Poeta, Escritor JUAREZ LEITÃO, de Nova Russas – Ce.

Em outubro de 2013 fui convidado para participar das festividades do Centenário de Nascimento do Padre Leitão. Rumei para Nova Russas auspicioso e expectante. E enquanto percorria a velha Br 222 ia pensando: Será que a cidade onde o padre desenvolvera a parte mais frutuosa de sua peripécia humana iria lhe dar uma praça, uma grande avenida, uma estátua, um memorial permanente?

Nada disso foi feito. Tocou-lhe uma ruazinha humilde num arrabalde, coisa de homenagear desconhecidos ou parentes em terceiro grau de vereadores.

            Filho de Independência, o menino Francisco (seu Chiquinho, para os parentes) pouco demorou na terra natal. Depois de curta experiência como caixeiro na Vila de Novo Oriente, seguiu para o seminário de Sobral, onde já havia sido precedido por seus irmãos João Teófilo e Joaquim.

Decidido pelo sacerdócio, cursou o seminário maior da Prainha, ordenando-se em 1941. Padre novo, foi professor do seminário e vigário, por pouco tempo, em Aracatiaçu.

Logo depois, porém, D. José Tupinambá da Frota, o celebrado bispo de Sobral, entregava-lhe a difícil missão de substituir o estimado Padre Moraes na paróquia de Nova Russas. Do jovem sacerdote que chegava, cheio de perplexidades, ao líder comunitário, arrojado e empreendedor, pouco tempo decorreu. A pequena cidade, singela, mas propensa às atitudes de progresso, aderiu aos sonhos de ousadia do vigário e, de repente, transformou-se num canteiro de obras.

Padre FRANCISCO SOARES LEITÃO

O Círculo Operário e a Associação dos Vicentinos desenvolveram um dos primeiros projetos de casas populares do Ceará. O antigo solar do Coronel Antônio Rodrigues Veras, adaptado, transformou-se no Ginásio Monsenhor Tabosa. Para além do rio Curtume surgiu o Patronato Auxilium. Aquém, numa das saídas da cidade, a Cooperativa Agropecuária.

 O pastor dinamizava sua ação catequética comprometendo a cidade com o seu futuro, dotando-a do equipamento urbanístico básico para suas necessidades funcionais. A Deus encaminhava as orações por seu povo e às autoridades as demandas e a deferição de verbas que viessem atenuar as carências e estimular o desenvolvimento.

Paredes brotavam do chão como cogumelos e se erguiam em postos de saúde e puericultura. Nascia a fábrica de mosaicos e entrava em funcionamento a escola de artes e ofícios.

O Padre não parava. Sonhava com estradas e açudes (Estrada Nova Russas-Cruzeta, Açude Flores) e as reclamava ardorosamente toda a vez que um político de maior envergadura punha os pés na cidade à cata de votos.

Era o orador oficial das recepções e sempre conseguia impressionar os visitantes com o seu discurso claro e espirituoso, onde discorria, generoso, sobre a índole dos novarussenses e desfilava  as reivindicações.

Com a juventude feminina fundou a Legio Mariae (Legião de Maria), uma instituição de assistência social às pessoas carentes. Era um trabalho de voluntariado. As meninas da Legião de Maria, algumas mal chegadas aos 16 anos, cheias de idealismo juvenil, saiam pelos bairros da cidade auscultando as necessidades das pessoas, confortando os aflitos, resolvendo pequenos e urgentes problemas, aqueles, cuja solução, às vezes, dependia apenas de uma orientação ou de uma palavra amiga.

Até hoje, aquelas que participaram dessa sublime missão se sentem recompensadas pelo bem social que prestaram.

Tinha as iniciativas, mas não agia solitariamente. Convocava os paroquianos, envolvia-os em seus projetos, repartia responsabilidades. Quando contrariava interesses, jamais transformou os que dele discordavam em inimigos. Desmanchava malquereres com uma simples gargalhada e fazia-se de desentendido, ignorando os murmúrios, as caras-feias. Era um aliciador para a concórdia, um diplomata de Genebra em pleno sertão-veredas.

Sua casa, vasta, acolhedora, onde pontificava a governanta Nelsa, era cheia de parentes que, como eu, vinham dos sertões ásperos a procura da asa do tio para estudar e abrir horizontes.

            À boca da noite, a calçada bordada de cadeiras transformava-se numa espécie de senado romano, onde os cidadãos, entre rodadas de café e prosa leve, discutiam o destino da cidade.

Um dia, os sobrinhos crescidos e atirados na vida, sentiu-se só e decidiu deixar o sacerdócio. Casou-se com dona Fransquinha e passou a viver na chácara do Sossego.

Nunca se aquietou, entretanto. Plantava, criava umas vaquinhas e, sobretudo, conversava muito com os amigos. Nova Russas e suas viabilidades econômicas e sociais era o tema constante.

Envelheceu sonhando, abraçando esperanças e erigindo projetos. O horizonte se desenhava todos os dias à sua frente lhe convidando para novos passos.

Alguns, talvez nunca o tenham compreendido. Confundiam sua visão coletiva e abrangente, tomando-a como ambição pessoal.

A verdade, depois, se ofereceu inteira à história e à comunidade: o padre morreu pobre.

            Nova Russas hoje, cidade moderna, assumida social, econômica e culturalmente pela geração que ele batizou e adaptada ao modelo de vida contemporânea, é uma referência de civilização na região.

Não deve, entretanto, perder o fio da história, essa indispensável linha cultural que liga a ação do passado aos resultados do presente, na transmissão contínua do conhecimento. E é de lá, das paragens definitivas da história, que vem a voz timbrada do Padre Leitão reclamando umas brasas na lareira de sua memória.  

                                          

SETEMBRO – MÊS DA BIBLIA: que “os pobres não sejam esquecidos e que sejamos livres”

Como já dissemos sábado passado, estamos celebrando o Mês da Bíblia, até o Dia 30 de Setembro, quando ainda celebraremos o Dia da Bíblia e recordaremos São Jerônimo, o tradutor dos originais: Hebraico, Aramaico e Grego para o Latim, a Língua Vulgar, falada no Império Romano, por isso mesmo chamada de “Bíblia Vulgata”. Lembramos que o Mês de Agosto foi dedicado às Vocações e o Mês de Outubro será o Mês das Missões.

Em setembro, a Comissão para a Animação Bíblico-catequética da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil – de 1971 para cá – tem auxiliado às comunidades diocesanas e paroquiais, oferecendo-lhes subsídios catequéticos para melhor se instruírem sobre a Palavra de Deus e celebrarem dignamente o Mês da Bíblia. O tema deste ano é a “Carta de S. Paulo aos Gálatas” com o Lema tirado de seu Cap. 3, vers. 28: “ todos vós sois um só em Cristo Jesus”.

Mons. Doutor ASSIS ROCHA, de Bela Cruz – Ce.

Nesta Carta aos Gálatas como, em geral, nas demais cartas de Paulo, ele pede para que “os pobres não sejam esquecidos e que sejamos livres”, como colunas mestras para que os cristãos vivam bem a sua fé. Tem-se que querer construir uma sociedade de pessoas livres e libertadas, cuidando bem dos pobres e defendendo-os de toda relação social que os levem à pobreza.

                        Seja no Mês da Bíblia, seja no Mês Missionário ou Vocacional, seja em qualquer outro tempo litúrgico, a Igreja sempre manteve a fé de que a Palavra de Deus, de forma misteriosa, faz-se presente na Bíblia. O que mais queremos é que neste Mês da Bíblia, a leitura orante do Livro da Carta aos Gálatas favoreça um encontro autêntico com a Palavra de Deus, capaz de nos iluminar na busca da verdade, da liberdade, do amor aos pobres e da justiça.

            Vamos aproveitar bem a proposta deste ano para o Mês da Bíblia e vamo-nos deixar iluminar pela palavra orante que a carta aos Gálatas nos convida a aprofundar. Assim como Jesus não nasceu Cristo, mas tornou-se “Cristo”, o “ungido de Deus”, assim também o Apóstolo Paulo não nasceu “discípulo de Jesus”. Como judeu, foi chamado “Saulo”: perseguidor de cristãos, antes de se converter ao Evangelho. Aí sim, tornou-se um dos melhores e maiores apóstolos no meio das primeiras comunidades cristãs. Como cidadão romano e batizado, foi chamado de Paulo. Enfrentou “noites escuras” e “desertos”. “Foi para a Arábia” (Gal 1,17). Sofreu perseguição, incompreensão e o martírio, identificando-se radicalmente com Jesus Cristo, ao ponto de dizer: “não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim” (Gal. 2,20).

 Vamo-nos acostumar com a ideia de fazer sempre, de agora em diante, a Leitura Orante da Palavra de Deus. Faz já algum tempo que o Mês da Bíblia nos vem pedindo isso. Será nossa melhor fórmula de Oração. Vamos tentar?

A Carta aos Gálatas está colocada logo após a Carta aos Romanos e, imediatamente depois da 1ª e 2ª Cartas aos Coríntios. Tem apenas 06 capítulos, mas, em nada, é menos importante ou menos eloquente do que qualquer outra carta paulina. Nesta Carta ele mostra a participação comunitária em 1,2 quando afirma: “eu e todos os irmãos que estão comigo” somos os autores da Carta aos Gálatas. Afirma que Jesus não nos quis tirar do mundo, simplesmente, mas “do mundo mau” (Gal.1,4), isto é, de um mundo com relações sociais escravocratas e alienadoras. Em Gal. 1,6-7 ele abomina a ideia de “vários evangelhos” como se fosse possível moldar o Evangelho de Jesus Cristo segundo interesses de classe e domesticá-lo para justificar pos-turas hipócritas e cúmplices de relações sociais de opressão. Em Gal.1,7 ele confirma o que ensina: maldito quem anunciar a vocês um evangelho diferente.

E acrescenta algumas perguntas: Eu busco aprovação dos homens ou de Deus? Procuro agradar aos homens? É claro que ele não se refere a todo e qualquer homem. Estão fora os homens do poder, dos que sustentam e reproduzem relações políticas, sociais, escravagistas. Estes são voltados para uma vida cristã fundamentalista, voltada mais para o ritualismo, o moralismo ou para uma espiritualidade fora do real. Paulo nos conclama a um compromisso radical com o Evangelho de Jesus com uma vida simples, batalhando do lado dos mais empobrecidos, na luta pela conquista dos seus direitos: à terra, ao teto, ao trabalho com salário justo, num meio ambiente sustentável, superando todos os preconceitos e discriminações. Até o debate “intracristãos”, a quem ele chama de “falsos irmãos” porque são judeus, seguidores do judaísmo/ que se dizem também seguidores de Jesus Cristo. Paulo os chama de “falsos irmãos”. Ele se sentia “apóstolo”, autorizado, diretamente, por Jesus Cristo e por Deus que ele compreendia como “nosso Pai” (Gal 1,3).

Como eu disse antes, o fato de ter apenas 06 capítulos, a Carta aos Gálatas não é inferior a nenhuma outra, porque ela tem elevados conteúdos e conceitos somente por Paulo abordados. Por exemplo: quando ele diz que “Jesus é o Senhor de nossas vidas” é algo, tremendamente, subversivo e revolucionário, pois “Senhor” no império romano era o imperador divinizado. Como sustentar que ‘Jesus fosse o Senhor de nossas vidas’ quando o Império Romano o conhecia como o fora de lei, transgressor e subversivo condenado à morte pela pena mais execrável: a crucifixão? Que Senhor é este que vem tomar o lugar do nosso Imperador? O filho do Carpinteiro? Um Zé ninguém?

A comparação é válida: quantas vezes temos visto pela Imprensa, alguém do povo, um plebeu se casar com descendente da Rainha da Inglaterra e tem que deixar o Palácio Real, morar em outro país, porque o descendente imperial se juntou com essa gentinha, isto é, sujou o sangue azul da família?

O Apóstolo Paulo intuiu bem esta mensagem e esbravejou por todo o Império Romano: maldito quem anunciar a vocês um evangelho diferente do que anunciamos. Ele não adocicou o Evangelho de Jesus Cristo para “agradar aos homens”, sejam os que estão no poder, seja o povão alienado/escravizado.

E ainda arrematou: “não esqueçam os pobres” (Gal 2,10). E mais ainda: “sejam livres” (Gal 5,13).

No início deste meu Comentário de hoje, eu disse que no finalzinho deste mês, mais precisamente, no dia 30, nós celebraremos o Dia do Tradutor, numa referência à Festa Litúrgica de São Jerônimo que – entre os séculos 4º e 5º – traduziu a Palavra de Deus dos originais: hebraico, aramaico e grego para o Latim, a língua mais vulgar, falada no Império Romano e, por isso mesmo ela recebeu o nome de Bíblia Vulgata. Pelo grande trabalho empreendido por São Jerônimo, durante 35 anos, o seu dia litúrgico também é conhecido como o Dia do Tradutor.

A educação religiosa e o ambiente de estudo me marcaram, no Seminário de Sobral.

Nasci em ARACATIAÇU- distrito de Sobral, Ceará, onde vivi os primeiros doze anos de minha vida. Ali, numa vida de tranquilidade, nem nos dávamos conta das limitações existentes. Era o nosso mundo. Ele nos bastava. Jamais imaginava o que me viria pela frente, que história podia construir.

Sou filho de Moisés Cavalcante Vasconcelos e de Francisca Guiomar Vasconcelos. Ele comerciante e ela do lar. Casal marcado pela religiosidade, como era comum em nossas pequenas comunidades interioranas.

Meus primeiros professores foram D. GENÉSIA MARINHO E O SR. MANOEL MENDES em Aracatiaçu.

Dentista ANTÔNIO VIANA e esposa

Tive como colegas de infância: Joviniano Lopes e José Raimundo Viana. Durante minha infância fui coroinha durante alguns anos, participei como cruzadinha, na igreja de Aracatiaçu. Fui encaminhado para o Seminário de Sobral, aos 13 anos, em fevereiro de 1960, pelo então vigário Pe. Odilon Marinho de Pinho. Deixei o Seminário em dezembro de l967.

O que mais me marcou no Seminário foi a educação religiosa e o ambiente de estudo. Tenho como principais lembranças: as aulas de Português do Pe. Osvaldo Chaves, de Geografia do Pe. Lira e de Matemática do prof. Arimateia. Dos bons conselhos dos reitores Padre José Linhares Ponte e de Padre Sadoc. Dos bons colegas de classe: Edmilson Andrade, Régis Frota, Marcos Antônio, Macário, Pimpão, Juarez Leitão e muitos outros.

Outras lembranças foram as saídas para a missa na Catedral de Sobral, os jogos de futebol de  salão e as estórias contadas pelo colega Juarez Leitão na hora do recreio. O que mais me motivou a sair do Seminário foi a abertura e mudanças do Pós- Concilio Vaticano Segundo. 

Logo após a saída do Seminário, ingressei na Faculdade Federal de Odontologia do Ceará em 1970. Conclui  o Curso de Odontologia em dezembro de 1974. Tive meu 1º emprego no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ibiapina como cirurgião dentista em 1975.

No ano seguinte montei meu 1º consultório na cidade vizinha de Ubajara. Daí em diante segui os trabalhos como profissional liberal sem vínculos empregatícios.

Em 1978 ganhei o prêmio máximo, casando-me com Antônia Mendes de Vasconcelos que me deu o maior patrimônio da vida: MINHA FAMÍLIA, composta de três filhos: Pollyanna. Daniel e Carlos Eduardo. Pollyanna formou-se em contabilidade, casou-se e me deu a ,alegria do primeiro neto, Mateus, paixão do Vovô, Daniel é cirurgião dentista, casado com a prima Gabrielly, também cirurgiã dentista e moram pertinho de nós na cidade de Tianguá – Ce. Estes completaram a alegria e felicidade, pois nos deram uma linda netinha, Maria Eduarda, minha princesinha. Carlos Eduardo formou-se em Jornalismo e  hoje está fazendo Mestrado em Portugal na Universidade do Porto.

Estamos casados há 36 anos vivendo um pertinho do outro com muito amor. Ainda moramos em Ibiapina, usufruindo do maravilhoso clima de serra. As nossas melhores lembranças são das maravilhosas viagens que fazemos juntos todos os anos.

Todas essas conquistas foram, sem dúvida, fruto da formação adquirida no período vivido no Seminário.

(*) Texto extraído do livro SEMINÁRIO DA BETÂNIA – AD VITAM – 65 DECLARAÇÕES DE AMOR, de Leunam Gomes e Aguiar Moura