O Grito dos Excluídos: uma nova visão da realidade! Texto do Mons. Assis Rocha

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Estamos comemorando 3ª Feira, 199 anos do Grito de “Independência ou Morte”, dado por D. Pedro I, aos 07 de Setembro de 1822, às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo. Os motivos que o levaram a tomar aquela atitude são os mesmos que levam os homens de hoje à busca insana pelo poder: “as elites brasileiras queriam – e permanecem querendo – conquistar a autonomia política”.

E assim continua: quem tem dinheiro quer ser o detentor também do poder. Quer ter em mãos o controle econômico, o aumento dos impostos sobre os mais pobres, a cobrança de altos juros, contanto que os ricos continuem mais ricos, à custa dos pobres que continuam cada vez mais pobres. Esta é a mentalidade ou a ideologia do “colonizador”, do “invasor”, do patrão, daquele que manda.

Mons. Assis Rocha, de Bela Cruz – Ce.

O dinheiro que devia servir à educação, à segurança, à saúde e ao bem-estar de todos fica em mãos das elites ou daqueles que têm poder, e a maioria que se “exploda”. Em nossa curta história – de cerca de 521 anos – desde a “invasão” dos portugueses até 1889 não sabíamos o que era democracia, apesar de ter sido dado, fazia 67 anos, o Grito da Independência. Continuávamos como, anteriormente: não elegíamos autoridade, porque, para a função de Imperador ninguém vota. Tínhamos ficado livres do Império português, mas o regime adotado aqui, continuava sendo o Imperial.

Os motivos que levaram à Proclamação da República foram os mesmos que haviam levado ao grito da independência: foi por um desejo das elites que queriam também conquistar a autonomia política, como já dissemos.

Nesses últimos 132 anos – de 1889 para cá – tivemos a mudança do Império para a República, dois/três Golpes de Estado, duas nítidas Ditaduras – a de Getúlio e a Militar – (agora, mais uma ditadura, camuflada de democracia) dois “impeachments” de mandatos, democraticamente votados, eleitos e assumidos; ultimamente temos estado às voltas com escaramuças, atentados, prisões e toda sorte de trapaças para impedir eleições livres e, como em toda a nossa história, as elites não dormiram, se uniram, amordaçaram o povo, usaram de forças antidemocráticas e apavoraram a todos, dando-lhes uma insegurança total.

Só os inocentes ainda se enganaram à procura “de um pau que tenha sombra” e se arriscaram na defesa de “canalhas, canalhas, canalhas”. Será que precisa ir muito longe para conferir isso que estamos dizendo? Não será entre nós que os homens se sucedem no poder, levando consigo os afilhados e bajuladores, sem concurso, sem habilidades para exercerem determinadas funções, sem qualificação profissional, simplesmente por que são “do lado do homem” ou daquele que está de plantão no momento? “O QUE É ISSO, COMPANHEIRO” perguntava Fernando Gabeira em sempre atualizado livro de nossa literatura e o Documentário, prefaciado por Dom Arns, acrescentava: Brasil, nunca mais! Que mentira! Disfarçamos uma Ditadura.

            Para ajudar nessa reflexão e rever nossas posições políticas, partidárias e, sobretudo, democráticas, desde 1995 – há 27 anos, portanto – que a Igreja do Brasil promove o grito dos excluídos: um conjunto de manifestações populares que ocorre por toda parte, ao longo da Semana da Pátria, que se encerra nesta 3ª feira: Dia da Independência – 07 de Setembro. Sua origem remonta à Segunda Semana Social Brasileira, promovida pela Pastoral Social da C.N.B.B. realizada entre 1993 e 1994. Além da CNBB, outros organismos participam da organização e realização do Grito dos Excluídos, tais como: o (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) CONIC, os Movimentos Sociais, a OAB e outras entidades envolvidas com a justiça social.

Desde 1995 há um Tema Geral: “A Vida em 1º lugar”, seguido de Lemas específicos, como lembraremos agora.

Nestes últimos 27 anos, participamos de manifestações, as mais criativas e variadas possíveis: celebrações, atos públicos, romarias, seminários e debates, teatro, música, dança e feiras de economia solidária, sempre dentro de um Tema Geral e de Lemas Específicos como estes: “Trabalho e Terra para viver”. “Queremos justiça e dignidade”. “Aqui é o meu país”. “Brasil: um filho teu não foge à luta”. “Progresso e Vida – Pátria sem dívidas”. “Por amor a essa pátria, Brasil”. “Soberania não se negocia”. “Tirem as mãos… o Brasil é nosso chão”. “Brasil: mudança pra valer, o povo faz acontecer”. “Brasil! Em nossas mãos, a mudança”. “Brasil: na força da indignação, sementes de transformação”. “Isto não vale: queremos participação no destino da Nação”. “Vida em 1º lugar: direitos e participação popular”. “Vida em 1º lugar: a força da transformação está na organização popular”. “Vida em 1º lugar: Onde estão nossos direitos? Vamos às ruas para construir o projeto popular”. “Pela vida, grita a terra… Por direitos, (gritamos) todos nós”. “Queremos um Estado a serviço da Nação, que garanta direitos a toda a população”. “Juventude que ousa lutar, constrói projeto popular”. “Ocupar ruas e praças por liberdade e direitos”. “Que país é este, que mata gente, que a Mídia mente e nos consome”? “Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata”. “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”. Em 2018, além do Tema Geral, que foi sempre o mesmo em todos esses anos – “a vida em 1º lugar” – tivemos como lema: “Desigualdade gera violência: basta de privilégio”. Para o ano de 2019, em todo o Brasil, a semana da pátria teve como reflexão: este sistema não vale; lutamos por justiça, direitos e liberdade”. Foi a melhor maneira encontrada para celebrar as Bodas de Prata do nosso Grito. No ano passado, 2020, 26º Ano do Grito tivemos o Tema de sempre, com o Lema: basta de miséria, preconceito e repressão! Queremos trabalho, terra, teto e participação.

Neste 27º ano do Grito dos Excluídos, além do Tema de todos os anos – a vida em 1º lugar – deter-nos-emos sobre o Lema: na luta por participação popular: saúde, comida, moradia, trabalho e renda já.

De 1995 para cá as Pastorais Sociais da CNBB deram um novo enfoque àquela prática política que, desde a “Invasão” portuguesa, acontecia aqui no Brasil. Qualquer reforma, qualquer mudança, qualquer movimentação social tinha que enveredar pela ótica dos poderosos, das elites, dos mais ricos, que só visavam o lucro. As soluções apresentadas eram liberais demais, voltadas para o Capitalismo selvagem que desprezava os mais pobres. Estes não contavam. Eram tidos como um peso. O Grito dos Excluídos veio dar-nos uma nova visão da realidade e se começou a celebrar o Dia da Independência de maneira diferente. Não é que tenha mudado alguma coisa na cabeça dos homens públicos, mas o pouco que se está fazendo, rói demais a consciência de alguns. Somos um pingo d’água na floresta em chamas. Se cada um fizer a sua parte pode acontecer o que se refletiu no Grito de 2006: na força da indignação, sementes de transformação. Ou mesmo no Grito de 2017: por direitos e democracia a luta é todo dia. O Grito de 2020 foi muito ousado. Já estão cozinhando demais nossa paciência: “basta de miséria, preconceito e repressão! Queremos trabalho, terra, teto e participação.

O tempo vai passando e a consciência do Grito vai-se depurando. Quanto mais o sistema nos aperta, mais corajoso é o Grito atual: na luta por participação popular: saúde, comida, moradia, trabalho e renda já

No 25º ano do Grito dos Excluídos, celebramos também sua 25ª edição dentro do mesmo esquema de pensamento e de conscientização nacional. Nem dá para os eleitos pensarem que o Grito se opõe a eles. Sua maneira de proceder já faz parte de nossa História. Não temos como mudá-la para alinhar com eles. Temos é que aprofundar nossa história, atualizá-la e continuá-la.

Está na hora de pararmos para pensar nisto. Apesar de já estarmos no 3º ano das últimas eleições presidenciais, os eleitos não pararam de fazer sua politicagem. Estão sempre em campanha, preparando-se já para as próximas eleições, mesmo sem terem governado nada ou solucionado nossas tensões. A nossa situação social e política continua cheia de muitas inquietações. Os problemas sociais se agravam cada vez mais. Inseguranças, assaltos, roubos, drogas, Covid 19, tudo nos persegue sem solução. Nossos políticos estão deixando-nos cada vez mais intranquilos. Não nos podemos deixar vencer por suas ideologias contrárias à nossa história tão cheia de lutas e vitórias.

Obrigado, mais uma vez, pela atenção e tenham todos, um bom dia!

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