SETEMBRO – MÊS DA BIBLIA: que “os pobres não sejam esquecidos e que sejamos livres”

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Como já dissemos sábado passado, estamos celebrando o Mês da Bíblia, até o Dia 30 de Setembro, quando ainda celebraremos o Dia da Bíblia e recordaremos São Jerônimo, o tradutor dos originais: Hebraico, Aramaico e Grego para o Latim, a Língua Vulgar, falada no Império Romano, por isso mesmo chamada de “Bíblia Vulgata”. Lembramos que o Mês de Agosto foi dedicado às Vocações e o Mês de Outubro será o Mês das Missões.

Em setembro, a Comissão para a Animação Bíblico-catequética da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil – de 1971 para cá – tem auxiliado às comunidades diocesanas e paroquiais, oferecendo-lhes subsídios catequéticos para melhor se instruírem sobre a Palavra de Deus e celebrarem dignamente o Mês da Bíblia. O tema deste ano é a “Carta de S. Paulo aos Gálatas” com o Lema tirado de seu Cap. 3, vers. 28: “ todos vós sois um só em Cristo Jesus”.

Mons. Doutor ASSIS ROCHA, de Bela Cruz – Ce.

Nesta Carta aos Gálatas como, em geral, nas demais cartas de Paulo, ele pede para que “os pobres não sejam esquecidos e que sejamos livres”, como colunas mestras para que os cristãos vivam bem a sua fé. Tem-se que querer construir uma sociedade de pessoas livres e libertadas, cuidando bem dos pobres e defendendo-os de toda relação social que os levem à pobreza.

                        Seja no Mês da Bíblia, seja no Mês Missionário ou Vocacional, seja em qualquer outro tempo litúrgico, a Igreja sempre manteve a fé de que a Palavra de Deus, de forma misteriosa, faz-se presente na Bíblia. O que mais queremos é que neste Mês da Bíblia, a leitura orante do Livro da Carta aos Gálatas favoreça um encontro autêntico com a Palavra de Deus, capaz de nos iluminar na busca da verdade, da liberdade, do amor aos pobres e da justiça.

            Vamos aproveitar bem a proposta deste ano para o Mês da Bíblia e vamo-nos deixar iluminar pela palavra orante que a carta aos Gálatas nos convida a aprofundar. Assim como Jesus não nasceu Cristo, mas tornou-se “Cristo”, o “ungido de Deus”, assim também o Apóstolo Paulo não nasceu “discípulo de Jesus”. Como judeu, foi chamado “Saulo”: perseguidor de cristãos, antes de se converter ao Evangelho. Aí sim, tornou-se um dos melhores e maiores apóstolos no meio das primeiras comunidades cristãs. Como cidadão romano e batizado, foi chamado de Paulo. Enfrentou “noites escuras” e “desertos”. “Foi para a Arábia” (Gal 1,17). Sofreu perseguição, incompreensão e o martírio, identificando-se radicalmente com Jesus Cristo, ao ponto de dizer: “não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim” (Gal. 2,20).

 Vamo-nos acostumar com a ideia de fazer sempre, de agora em diante, a Leitura Orante da Palavra de Deus. Faz já algum tempo que o Mês da Bíblia nos vem pedindo isso. Será nossa melhor fórmula de Oração. Vamos tentar?

A Carta aos Gálatas está colocada logo após a Carta aos Romanos e, imediatamente depois da 1ª e 2ª Cartas aos Coríntios. Tem apenas 06 capítulos, mas, em nada, é menos importante ou menos eloquente do que qualquer outra carta paulina. Nesta Carta ele mostra a participação comunitária em 1,2 quando afirma: “eu e todos os irmãos que estão comigo” somos os autores da Carta aos Gálatas. Afirma que Jesus não nos quis tirar do mundo, simplesmente, mas “do mundo mau” (Gal.1,4), isto é, de um mundo com relações sociais escravocratas e alienadoras. Em Gal. 1,6-7 ele abomina a ideia de “vários evangelhos” como se fosse possível moldar o Evangelho de Jesus Cristo segundo interesses de classe e domesticá-lo para justificar pos-turas hipócritas e cúmplices de relações sociais de opressão. Em Gal.1,7 ele confirma o que ensina: maldito quem anunciar a vocês um evangelho diferente.

E acrescenta algumas perguntas: Eu busco aprovação dos homens ou de Deus? Procuro agradar aos homens? É claro que ele não se refere a todo e qualquer homem. Estão fora os homens do poder, dos que sustentam e reproduzem relações políticas, sociais, escravagistas. Estes são voltados para uma vida cristã fundamentalista, voltada mais para o ritualismo, o moralismo ou para uma espiritualidade fora do real. Paulo nos conclama a um compromisso radical com o Evangelho de Jesus com uma vida simples, batalhando do lado dos mais empobrecidos, na luta pela conquista dos seus direitos: à terra, ao teto, ao trabalho com salário justo, num meio ambiente sustentável, superando todos os preconceitos e discriminações. Até o debate “intracristãos”, a quem ele chama de “falsos irmãos” porque são judeus, seguidores do judaísmo/ que se dizem também seguidores de Jesus Cristo. Paulo os chama de “falsos irmãos”. Ele se sentia “apóstolo”, autorizado, diretamente, por Jesus Cristo e por Deus que ele compreendia como “nosso Pai” (Gal 1,3).

Como eu disse antes, o fato de ter apenas 06 capítulos, a Carta aos Gálatas não é inferior a nenhuma outra, porque ela tem elevados conteúdos e conceitos somente por Paulo abordados. Por exemplo: quando ele diz que “Jesus é o Senhor de nossas vidas” é algo, tremendamente, subversivo e revolucionário, pois “Senhor” no império romano era o imperador divinizado. Como sustentar que ‘Jesus fosse o Senhor de nossas vidas’ quando o Império Romano o conhecia como o fora de lei, transgressor e subversivo condenado à morte pela pena mais execrável: a crucifixão? Que Senhor é este que vem tomar o lugar do nosso Imperador? O filho do Carpinteiro? Um Zé ninguém?

A comparação é válida: quantas vezes temos visto pela Imprensa, alguém do povo, um plebeu se casar com descendente da Rainha da Inglaterra e tem que deixar o Palácio Real, morar em outro país, porque o descendente imperial se juntou com essa gentinha, isto é, sujou o sangue azul da família?

O Apóstolo Paulo intuiu bem esta mensagem e esbravejou por todo o Império Romano: maldito quem anunciar a vocês um evangelho diferente do que anunciamos. Ele não adocicou o Evangelho de Jesus Cristo para “agradar aos homens”, sejam os que estão no poder, seja o povão alienado/escravizado.

E ainda arrematou: “não esqueçam os pobres” (Gal 2,10). E mais ainda: “sejam livres” (Gal 5,13).

No início deste meu Comentário de hoje, eu disse que no finalzinho deste mês, mais precisamente, no dia 30, nós celebraremos o Dia do Tradutor, numa referência à Festa Litúrgica de São Jerônimo que – entre os séculos 4º e 5º – traduziu a Palavra de Deus dos originais: hebraico, aramaico e grego para o Latim, a língua mais vulgar, falada no Império Romano e, por isso mesmo ela recebeu o nome de Bíblia Vulgata. Pelo grande trabalho empreendido por São Jerônimo, durante 35 anos, o seu dia litúrgico também é conhecido como o Dia do Tradutor.

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