PADRE LEITÃO E O RESGATE DE SUA MEMÓRIA Texto de Juarez Leitão

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Abraão Lincoln (1809-1865), famoso presidente norte-americano, costumava dizer: “Gosto de ver um homem orgulhar-se de sua aldeia; gosto de ver um homem de quem sua aldeia costuma orgulhar-se.”

Este sentimento de amor recíproco da comunidade com sua liderança se coadunaria perfeitamente com Nova Russas e o Padre Leitão se uma das partes não estivesse comprometendo um antigo pacto de admiração. Com efeito, a memória do “Velho Cura da Ribeira do Curtume”, como liricamente se apresentava, vem sofrendo um esmorecimento e se debilitando com tal rapidez que, daqui a pouco, ninguém saberá informar nada do homem nem de sua ação na terra que adotou como sua e a cujo povo se entregou completamente.

Professor, Poeta, Escritor JUAREZ LEITÃO, de Nova Russas – Ce.

Em outubro de 2013 fui convidado para participar das festividades do Centenário de Nascimento do Padre Leitão. Rumei para Nova Russas auspicioso e expectante. E enquanto percorria a velha Br 222 ia pensando: Será que a cidade onde o padre desenvolvera a parte mais frutuosa de sua peripécia humana iria lhe dar uma praça, uma grande avenida, uma estátua, um memorial permanente?

Nada disso foi feito. Tocou-lhe uma ruazinha humilde num arrabalde, coisa de homenagear desconhecidos ou parentes em terceiro grau de vereadores.

            Filho de Independência, o menino Francisco (seu Chiquinho, para os parentes) pouco demorou na terra natal. Depois de curta experiência como caixeiro na Vila de Novo Oriente, seguiu para o seminário de Sobral, onde já havia sido precedido por seus irmãos João Teófilo e Joaquim.

Decidido pelo sacerdócio, cursou o seminário maior da Prainha, ordenando-se em 1941. Padre novo, foi professor do seminário e vigário, por pouco tempo, em Aracatiaçu.

Logo depois, porém, D. José Tupinambá da Frota, o celebrado bispo de Sobral, entregava-lhe a difícil missão de substituir o estimado Padre Moraes na paróquia de Nova Russas. Do jovem sacerdote que chegava, cheio de perplexidades, ao líder comunitário, arrojado e empreendedor, pouco tempo decorreu. A pequena cidade, singela, mas propensa às atitudes de progresso, aderiu aos sonhos de ousadia do vigário e, de repente, transformou-se num canteiro de obras.

Padre FRANCISCO SOARES LEITÃO

O Círculo Operário e a Associação dos Vicentinos desenvolveram um dos primeiros projetos de casas populares do Ceará. O antigo solar do Coronel Antônio Rodrigues Veras, adaptado, transformou-se no Ginásio Monsenhor Tabosa. Para além do rio Curtume surgiu o Patronato Auxilium. Aquém, numa das saídas da cidade, a Cooperativa Agropecuária.

 O pastor dinamizava sua ação catequética comprometendo a cidade com o seu futuro, dotando-a do equipamento urbanístico básico para suas necessidades funcionais. A Deus encaminhava as orações por seu povo e às autoridades as demandas e a deferição de verbas que viessem atenuar as carências e estimular o desenvolvimento.

Paredes brotavam do chão como cogumelos e se erguiam em postos de saúde e puericultura. Nascia a fábrica de mosaicos e entrava em funcionamento a escola de artes e ofícios.

O Padre não parava. Sonhava com estradas e açudes (Estrada Nova Russas-Cruzeta, Açude Flores) e as reclamava ardorosamente toda a vez que um político de maior envergadura punha os pés na cidade à cata de votos.

Era o orador oficial das recepções e sempre conseguia impressionar os visitantes com o seu discurso claro e espirituoso, onde discorria, generoso, sobre a índole dos novarussenses e desfilava  as reivindicações.

Com a juventude feminina fundou a Legio Mariae (Legião de Maria), uma instituição de assistência social às pessoas carentes. Era um trabalho de voluntariado. As meninas da Legião de Maria, algumas mal chegadas aos 16 anos, cheias de idealismo juvenil, saiam pelos bairros da cidade auscultando as necessidades das pessoas, confortando os aflitos, resolvendo pequenos e urgentes problemas, aqueles, cuja solução, às vezes, dependia apenas de uma orientação ou de uma palavra amiga.

Até hoje, aquelas que participaram dessa sublime missão se sentem recompensadas pelo bem social que prestaram.

Tinha as iniciativas, mas não agia solitariamente. Convocava os paroquianos, envolvia-os em seus projetos, repartia responsabilidades. Quando contrariava interesses, jamais transformou os que dele discordavam em inimigos. Desmanchava malquereres com uma simples gargalhada e fazia-se de desentendido, ignorando os murmúrios, as caras-feias. Era um aliciador para a concórdia, um diplomata de Genebra em pleno sertão-veredas.

Sua casa, vasta, acolhedora, onde pontificava a governanta Nelsa, era cheia de parentes que, como eu, vinham dos sertões ásperos a procura da asa do tio para estudar e abrir horizontes.

            À boca da noite, a calçada bordada de cadeiras transformava-se numa espécie de senado romano, onde os cidadãos, entre rodadas de café e prosa leve, discutiam o destino da cidade.

Um dia, os sobrinhos crescidos e atirados na vida, sentiu-se só e decidiu deixar o sacerdócio. Casou-se com dona Fransquinha e passou a viver na chácara do Sossego.

Nunca se aquietou, entretanto. Plantava, criava umas vaquinhas e, sobretudo, conversava muito com os amigos. Nova Russas e suas viabilidades econômicas e sociais era o tema constante.

Envelheceu sonhando, abraçando esperanças e erigindo projetos. O horizonte se desenhava todos os dias à sua frente lhe convidando para novos passos.

Alguns, talvez nunca o tenham compreendido. Confundiam sua visão coletiva e abrangente, tomando-a como ambição pessoal.

A verdade, depois, se ofereceu inteira à história e à comunidade: o padre morreu pobre.

            Nova Russas hoje, cidade moderna, assumida social, econômica e culturalmente pela geração que ele batizou e adaptada ao modelo de vida contemporânea, é uma referência de civilização na região.

Não deve, entretanto, perder o fio da história, essa indispensável linha cultural que liga a ação do passado aos resultados do presente, na transmissão contínua do conhecimento. E é de lá, das paragens definitivas da história, que vem a voz timbrada do Padre Leitão reclamando umas brasas na lareira de sua memória.  

                                          

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