Pensadores, quase contemporâneos, que sonharam com um Brasil melhor.

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Texto do Mons. ASSIS ROCHA

Depois de tecer comentários sobre Paulo Freire, Dom Helder, Zé Dantas, Dom Paulo Evaristo, e de elencar outros, mais ou menos contemporâneos, cada um na sua área de abrangência, como: Clarice Lispector, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Dom Tomás Balduíno, Gilberto Freire… está-me chegando à mente, Celso Furtado, um dos maiores Economistas brasileiros que dedicou sua vida a produzir projetos de transformação nacional.

            No passado 20 de Julho de 2020, fez 100 anos do seu nascimento em Pombal, na Paraíba, depois de ter sido indicado, como único brasileiro, ao Prêmio Nobel de Economia em 2013, pela vasta bibliografia de mais de 30 livros de investigação à mecânica do subdesenvolvimento do país. Seu nível ou patamar, em nada é inferior aos seus coetâneos, lembrados acima ou a outros a quem não nominamos. Sua fama e capacidade são reconhecidas desde a década de 1940 por sua originalidade técnica e atuação prática. Ele ultrapassou os limites da academia e se tornou um gestor público, ocupando cargos políticos e técnicos centrais para o desenvolvimento do país.

Economista CELSO FURTADO

Celso Furtado levou um de seus projetos técnicos à prática, pela criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), uma das metas do Governo Juscelino Kubitschek. Integrou também o governo de João Goulart, como seu Ministro do Planejamento. Ainda teve tempo para lecionar em universidades estrangeiras e participar da transição democrática e estruturação do Ministério da Cultura.

            Para incentivar com os estudos, a reflexão e instalação da Sudene, Celso Furtado se assessorou da CNBB – Região Nordeste que, a convite do Presidente Juscelino, ex-aluno dos Padres Lazaristas, no Seminário do Caraça, em Minas, recebeu todo o respaldo, o conhecimento da Região e o interesse no seu desenvolvimento, expressos pelos Senhores bispos que, de boa vontade, colaboraram.

            Como já disse acima, Celso Furtado sempre lutou pela união da teoria, à prática. Formado em Direito pela Universidade do Rio de Janeiro, serviu na FEB – Força Expedicionária Brasileira – durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945) e doutorou-se em Economia na França. Em 1949, mudou-se para Santiago, no Chile, integrando a recém-criada Comissão Econômica para a América Latina- (CEPAL), órgão da ONU, voltado para o desenvolvimento regional. A CEPAL era tão importante que se tornou um Centro de debates sobre os aspectos teóricos e históricos do desenvolvimento da época. Oito anos foram suficientes para que Celso Furtado pusesse as bases de novas concepções sobre o desenvolvimento econômico e subdesenvolvimento latino-americano, compreendendo a economia com uma visão interdisciplinar e humana.

            Tantos estudos, reflexões e práticas, envolvidos em toda a sua vida, o levaram a denunciar que o subdesenvolvimento não era uma etapa de desenvolvimento, como se dizia na época, mas uma condição estrutural. Não era um problema apenas de planejamento econômico ou de técnica econômica, mas um problema, fundamentalmente, político. Enfrentá-lo, requereria uma postura, uma vontade política nacional de empreender transformações estruturais na realidade brasileira. Será que nós estamos vendo alguma coisa parecida em tempos atuais, quando os homens sobre os quais estamos falando e especificamente, Celso Furtado, são rechaçados pelo governo atual?

            Celso Furtado deu sua grande contribuição, mostrando a necessidade de transformação estrutural da base de oferta de mercadoria. Era preciso uma indústria forte para deixarmos de ser refém de trocas desiguais de mercado.

            Suas várias obras foram aparecendo, desde 1959, a partir de um de seus livros mais conhecidos: “Formação Econômica do Brasil” em que ele descreveu a evolução da economia brasileira, inserida no paradigma latino-americano, por meio da análise da estrutura produtiva de cada período histórico. Esta obra foi complementada com a publicação de “Desenvolvimento e Subdesenvolvimento” em 1961, que apontava caminhos e possibilidades de intervenção racional do Estado no processo de desenvolvimento econômico, sobretudo no tocante a reformas estruturais.

Logo em 1962, como Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, no Governo de Juscelino e Ministro do Planejamento no Governo de João Goulart formulou o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, estabelecendo as reformas de base, agrária, tributária e social como uma condição fundamental para superar o subdesenvolvimento. É claro que as elites não gostaram desse plano e o levaram à motivação do Golpe civil-militar de 1964. Celso Furtado, que não era socialista, entrou logo na lista dos cem primeiros cidadãos, perseguidos, após o golpe no Brasil. A própria ditadura militar identificava suas ideias como perigosas, diante dos sistemas econômicos. O que ele evidenciava mesmo era ser um pensador nacionalista e estruturalista, fundamentado em sua obra “A pré-revolução brasileira” onde ele continuava se adaptando e perseguindo “a missão de acabar com o subdesenvolvimento do país e interferir no processo de construção da nação”.

Sua teimosia o levou ao exílio, até a Anistia, em 1979, empregando bem seu tempo, em atividades de ensino, estudando, pesquisando em Universidades como de Yale, Harvard e Columbia nos EEUU, de Cambridge, na Inglaterra, e em Sorbonne, na França, sempre pesquisando sobre o subdesenvolvimento de nosso país. O que eu chamo de teimosia, estudiosos e pesquisadores falam dos seus segredos. Ele está sempre formulando categorias, interpretando processos para interferir em condições mais definidas a serviço do bem comum.

Com o seu amadurecimento e à base de tanta reflexão e de tantas idas e vindas, ele entendeu que o Estado não pode tudo. Que certos acordos de classe podem não ser favoráveis ao desenvolvimento nacional que ele propunha.  Faz-nos entender isto, em sua “Dialética do Desenvolvimento” e, mais tarde, em “O Mito do Desenvolvimento Econômico”, em 1974, quando ele constata que ‘a industrialização na periferia não leva à formação de sistemas econômicos nacionais’ como ele havia imaginado antes.

Voltou ao Brasil nos últimos anos da Ditadura, filiou-se a um partido político, participou da Comissão do Plano de Ação do Governo Tancredo Neves, foi nomeado Embaixador do Brasil junto à Comunidade Econômica Europeia, mudando-se para Bruxelas. De 1986 a 1988 foi Ministro da Cultura do Governo Sarney, quando criou a 1ª Legislação de incentivos fiscais à Cultura.

Em 1997 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, permanecendo relevante também na política e no debate político. Até depois de sua morte/2004, o Presidente Lula inaugurou um Centro Internacional, Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento que abriga 7.542 livros que pertenceram ao autor e se encarregou da publicação semestral de “Cadernos do Desenvolvimento”.

Concluindo, podemos dizer que Celso Furtado nunca poderá ser visto como um autor do passado, mas como um intelectual sempre presente nas nossas tentativas de encontrar um projeto de Brasil.

Autor: Mons. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz – Ce.

COMENTÁRIOS RECEBIDOS

De Benedito Herculano Costa, do Sítio São Francisco, em Meruoca – Ce:   sobre ESTA VOCE NÃO SABIA: Acho que o dr. João de Paula Monteiro era filho do sr. Ferreirinha de Crateús. Foi preso político na época da ditadura militar.

Edson Sousa Martins sobre ALMOÇO BIOCÊNTRICO – Não sou Professor mas como bom aluno sempre admirei essa arte. Muito interessante essa explanação fundamentada na BIO. Se entendi somos seres humano com valores e pensamos diferente mas que vive em comunidade. Sendo assim fica mais prazeroso aprender junto com o próximo e não só com o professor e orientador

Rosa Amelia Duarte Lopes, de Aracatiaçu – Sobral – Esse professo Leunam é sempre um exemplo de professor junto com esse seus companheiros. Parabéns,

Francisco José Rodrigues Bezerra de Menezes, de Fortaleza sobre VELHOS MENINOS, de Leunam Gomes: Excelente texto. É gostoso lê-lo, fica-se aguardando uma surpresa à frente. Esses registros são importantes, ficam eternizados.

ANTONIO MAURILIO VASCONCELOS, de Fortaleza – Ce.  – Caro Prof. Leunam parabéns. Que beleza de texto. Nunca vi uma pessoa retratar tão bem aquilo que acontece em uma reunião/encontro.

Lourenço Araújo Lima, do Rio de Janeiro:  Belo texto professor Leunam, retrata com muita propriedade os nossos encontros. Esperamos que o nosso próximo encontro esteja próximo.
Parabéns, grande abraço.

Lourenço Araújo Lima, Veterinário, no Rio de Janeiro – Como sempre belo texto, professor Leunam. Muito bem retratado os nossos encontros. Que a pandemia passe logo para que possamos nos reencontrar.
Grande fraternal abraço Betanista.

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