DOM EDMILSON CRUZ – UM BISPO CORAJOSO E COERENTE! Texto do Mons. ASSIS ROCHA

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Em nome do clero sobralense, fui convidado, a saudar D. Manoel Edmilson, em duas oportunidades: em 2016, na concelebração com o clero, quando completou 50 anos de episcopado e em Aranaú, sua terra natal, ao saudá-lo, presencialmente, na inauguração do Memorial, construído em sua homenagem, diante de parentes, familiares e conterrâneos no dia 16 de novembro de 2019. Em ambas as ocasiões eu o saudei com muito prazer.

            Agora me surge mais uma oportunidade de me unir mais a D. Edmilson. Ele é Betanista como eu. Em 2015, 65 de nós, ex-alunos do Seminário da Betânia, nos unimos para escrever “Ad vitam – 65 declarações de amor” nos 90 anos do Seminário da Betânia. Ele nos presenteou a todos, escrevendo uma bela e comovente “Apresentação” para a nossa 1ª edição.

Dom Manoel Edmilson da Cruz

Os autores, ficamos tão empolgados com os bons resultados da 1ª edição, que já estamos com a 2ª edição pronta, acrescida de outros autores – desta vez para mostrar a nossa prática – daí, a expressão: Ad laborem – em qualquer que seja a nossa situação – padres ou não – para falarmos do nosso trabalho ou da nossa prática. Dom Edmilson – no alto dos seus 97 anos – estará conosco, na sua sensatez e na sua sabedoria. Eu continuo admirando-o muito. Também, pudera! Nós temos Naturalidade Acarauense. Apenas 16 anos nos separam: ele de 03 de outubro de 1924 e eu de 11 de outubro de 1940. Encontramo-nos no Seminário São José, em Sobral, no início da década de 1950: ele, meu professor, com 28 anos, e eu, seu aluno, com 12 anos. E que Professor era ele! Competente, preparado, seguro, em qualquer das matérias que lecionava, sobretudo as línguas: inglês, latim, francês, português ou outras disciplinas, como: física, química, ciências ou história. Era bom em tudo.

            Naquele tempo não havia o computador, é claro. Mal utilizávamos a máquina datilográfica. Nem sequer tínhamos o mimeógrafo a álcool para multiplicar as provas ou os exercícios escolares. Isso não era problema para o autodidata professor Padre Edmilson. Ele diferenciava cada questão da prova que copiava no quadro de giz com os mais variados caracteres e aliviava as dificuldades dos alunos que não confundiam nenhuma questão entre si. Hoje nós temos uma infinidade de “fontes” no computador que podemos alterá-las e diferenciá-las à vontade em cada quesito ou assunto que queiramos sublinhar.

            Além de exímio professor, serviu ao Seminário de Sobral como Prefeito de Disciplina, Vice-reitor e Diretor Espiritual, além de funções pastorais também fora do Seminário: Capelão da Igreja do Coração de Jesus, da Cadeia Pública e de algumas Comunidades Religiosas de quem era também Confessor, como: das Irmãzinhas da Imaculada, do Ginásio Santana, do Patronato Maria Imaculada e da Santa Casa de Misericórdia. Foi Diretor Diocesano da Catequese e da Obra das Vocações Sacerdotais, enquanto ia praticando o seu trabalho catequético nos bairros do Sagrado Coração de Jesus e do Alto da Expectativa. Com um Curriculum desses estava a um salto do Episcopado. Passou por uma fase intermediária na Arquidiocese de Fortaleza em 1964, integrando a Equipe de Direção no Seminário Provincial como Prefeito e Professor de Lógica, Ascética e Mística, Catequese e Diretor Espiritual, até que, em Agosto de 1966, o Papa Paulo VI o escolheu para Bispo Auxiliar em São Luís do Maranhão, recebendo a Ordenação Episcopal, aos 06 de novembro de 1966, das mãos do Sr. Arcebispo de São Luís, Dom João José da Mota e Albuquerque, que fora Bispo de Sobral até 1964. D. Edmilson assumiu a sua função em São Luís, no dia 28 de dezembro de 1966.

            Entre a Ordenação Episcopal e a posse em São Luís, o novo Bispo, Dom Edmilson da Cruz, celebrou com sua Comunidade de origem, em Acaraú e convidou para fazer o Panegírico, seu colega, amigo e também Bispo, Dom Francisco Austregésilo de Mesquita, que já se destacava na Diocese de Afogados da Ingazeira, em Pernambuco, como um Bispo valente, corajoso, excelente orador, comprometido com o Concílio Ecumênico Vaticano II que, de pronto, atendeu o convite e deu uma grande mensagem a todos que ali se encontravam, sobre a Missão de um Bispo e a responsabilidade que ele tem na condução de um povo.

            (Estou fazendo referência a esse fato, porque eu vim com D. Francisco, como seu motorista, e naquela ocasião, eu era estagiário na sua Diocese, em preparação para o Sacerdócio, com apenas 26 anos de idade. Nem imaginava eu ser um dia Vigário Paroquial de Cruz, cuidando, pastoralmente, de Aranaú, por quase 03 anos, na terra de Dom Edmilson).

            Dom Mota, conhecedor das opções pastorais de seu novo Auxiliar e confiando no bem que ele poderia fazer aos mais necessitados de sua Arquidiocese, confiou-lhe logo, em 1967, a Vigararia Episcopal do Brejo, distante 318 km. de São Luís, uma região desafiadora, que estava requerendo do novo bispo, todo o empenho possível, a fim de mais tarde, poder criar ali também, uma sede diocesana. Isto se deu aos 14 de setembro de 1971.

            Dom Edmilson não temeu os desafios. Em 04 anos deu total apoio às Comunidades Eclesiais de Base, fundou a Associação Brejense da Caridade e desenvolveu uma ação básica de pastoral voltada para os mais necessitados, de tal modo que, em 1971, Brejo estava amadurecida para receber o seu 1º Bispo titular: Dom Afonso de Oliveira Lima, que ficou na Diocese até 1991. Fazia 100 anos que Brejo era Sede Municipal (11.07.1870) e, pouco mais de 100 anos depois (14.09.1971) se tornava também Sede Episcopal. Dom Edmilson permaneceu por mais 03 anos como Auxiliar de São Luís, ao lado do seu Arcebispo, Dom Mota, que ficou até 1984.

            Em 1974 D. Manuel Edmilson foi nomeado Bispo Auxiliar de Fortaleza, tomando posse aos 07 de Agosto, ocupando algumas funções de destaque no Novo Regional Nordeste I: Membro da Comissão Episcopal Pastoral do Regional, da Comissão Regional da Seca; Responsável pela Pastoral Urbana e pela Pastoral da Comunicação e chegou a ser Vice Presidente do Regional NE I e Coordenador das várias Foranias da Arquidiocese, sempre em comunhão com o Cardial Lorscheider, Arcebispo de Fortaleza, onde ficou até 1995.

            Sem deixar de ser Bispo Auxiliar de Fortaleza, em Maio de 1992 foi nomeado pelo Papa João Paulo II, Administrador Apostólico “sede plena” da Diocese de Limoeiro do Norte, acumulando as duas funções, até 1994, quando foi eleito, em Maio, Bispo Diocesano daquela porção da Igreja do Ceará, onde permaneceu até 06 de Maio de 1998, data em que o Vaticano aceitou sua renuncia por motivo de saúde. Como Bispo Titular (até agora fora sempre Auxiliar) em apenas 04 anos, foi o mesmo Pastor: zeloso e incansável, humilde e paciente, obediente e compreensivo, homem de oração e de ação, muito consciente de sua vocação, externada no seu lema episcopal: “verbum caro factum” que ele bem traduziu na máxima: “se eu nascesse 50 mil vezes, eu queria ser padre 50 mil vezes”.

            Dizia eu, anteriormente que, Dom Edmilson, “com o seu Curriculum, estava a um passo, do Episcopado”. Com essas pinceladas de sua bela História, cheia de oração e de ação, ele se enquadrava entre os Bispos que honram a História de nossa Igreja, no Brasil e no Mundo, como declarou São João XXIII ao conclamar o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962 a 1965), expressando seu desejo de que a Igreja fosse “principalmente uma Igreja dos pobres”. O Papa Francisco, mostrando seu elo com a mesma mensagem de seu predecessor – que já era a mensagem do próprio Jesus – acrescenta em uma de suas homilias: “a pobreza é o centro do Evangelho. Se tirarmos a pobreza do Evangelho, nada se entenderia da mensagem de Jesus”.            

Dom Edmilson entendeu bem essa máxima, vivenciando-a em todo o seu ministério. Foi na defesa dos mais pobres que ele se insurgiu contra os poderosos, num episódio, com repercussão, dentro e fora do Brasil, ao se pronunciar no Senado Federal, aos 21 de Dezembro de 2010, rejeitando a “Comenda de Direitos Humanos – Dom Helder Câmara” que lhe era oferecida e nem passou pela cabeça “daquelas excelências” que ele iria recusá-la, afirmando muito bem, em alto e bom som, que aquela comenda não honrava a história de Dom Helder. Não a representava. Pelo contrário, até a desfigurava. E acrescentou com o seu jeito simples, afável, educado, mas incisivo de falar, que “não tinha ressentimentos e agia por amor a todos os Senhores e Senhoras Senadores, por quem rezava todos os dias, mas só lhe restava uma atitude: recusar a Comenda”. E arrematava: “quem aumenta 61,8% nos seus salários não é parlamentar; é pra lamentar”… e disparou mais um cartucho: “votar em corruto é votar na morte”. É claro que “suas excelências” não gostaram, achando seu pronunciamento “inoportuno”. É este tão querido Bispo que apresentou “ad vitam” e vai-nos mostrar na prática “ad laborem”.

Monsenhor Doutor ASSIS ROCHA, de Bela Cruz – Ceará
O livro PROFESSOR COM PRAZER está na Papelaria Educativa, em Guaraciaba do NorteCeará

1 comentário em “DOM EDMILSON CRUZ – UM BISPO CORAJOSO E COERENTE! Texto do Mons. ASSIS ROCHA”

  1. Sou mais um admirador de Mons Assis Rocha, pelo seu lado apostólico e também exímio historiador. Parabéns grande irmão Betanista. Que Deus continue nos abençoando e nos dando longa com alegria de viver.

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