Série: Pensadores que sonharam com um Brasil Melhor

Compatilhar

DOM AUSTREGÉSILO DE MESQUITA (Parte III)Texto do Mons. Assis Rocha

Políticos que passavam pelo sertão, enganando o povo, prometendo o que nunca iriam cumprir, querendo comprar-lhe a consciência e o voto, encontraram em D. Francisco, um opositor fortíssimo, sempre na defesa dos mais fracos.

O Vale do Pajeú inteiro sabe que, quando Presidente da CODEVAP, (Comissão de Desenvolvimento Econômico do Vale do Pajeú) ele conseguiu a instalação das redes elétricas de Paulo Afonso para toda a região.

Afogados da Ingazeira tem certeza de que, se não fosse D. Francisco, somando-se à força política do Deputado Federal, Mons. Arruda Câmara, não existia uma Agência do Banco do Brasil na sede Diocesana Afogadense.

Também, ninguém duvida, que bem antes de aparecerem a EMBRATEL, a TELPE e a Internet pelo Sertão Pernambucano, ele fundava em Afogados da Ingazeira, a COTELAI – Cia. Telefônica de Afogados da Ingazeira – com uma central de atendimento e de distribuição de linhas para todos os seus usuários, via telefonista. Foi essa mentalidade progressista de D. Francisco, que fez dele uma presença viva, de Igreja, no Vale do Pajeú.

Sempre foi uma pessoa incômoda, junto aos ricos, aos políticos e poderosos da região, pois diante do menor deslize da parte deles, ele estava pronto para denunciar e ficar do lado indefeso.

Durante todos esses anos, mesmo depois de Emérito, marcava presença constante, em todos os recantos da Diocese, onde ele residiu até a morte.

Cuidou das Vocações Sacerdotais, quando á frente da Diocese, criando novas Paróquias, arranjando Padres, fora do Brasil e estimulando as Vocações nativas. Ele nunca media esforços quando se tratava de motivar, acompanhar e sustentar uma vocação para o Sacerdócio. Ele dizia sempre que dinheiro não era o problema. Era um dos problemas, para o qual se encontrava solução.

Dom Austregésilo, ouvindo Dom Helder

A Diocese de Afogados da Ingazeira conta com um bom número de sacerdotes nativos, em plena atividade pastoral, e tinha, àquele tempo, outro tanto de estudantes de filosofia e teologia no Seminário Provincial da Paraíba, como fruto do seu operoso e comprometido trabalho. Hoje isto existe na diocese mesmo.

D. Francisco deixou na Diocese, o que muitos bispos têm medo de criar: o Diaconato Permanente.

Depois de uma preparação de 03 anos, ele impunha as mãos em homens casados, ordenando-os de Diáconos Permanentes, que estão prestando excelente serviço às Paróquias onde vivem. Aliás, o retorno à ordenação de homens casados para exercerem a função de diácono permanente, se deve a ele, quando durante o Concílio Ecumênico, levantou sua voz firme e contundente, pedindo a volta dessa prática, lá dos Atos dos Apóstolos, quando os primeiros diáconos apareceram. Conseguiu reunir assinaturas de padres conciliares e apresentou o projeto no Concílio Ecumênico para todos os bispos do mundo. Obteve êxito.

Igualmente, com 03 anos de estudos, formava sucessivos grupos de agentes pastorais leigos, provenientes de todas as Paróquias, para atuarem nas várias pastorais pela Diocese afora. Junto a isso, apoiou e deixou uma bem estruturada Pastoral da Família, com grupos de ECC em todas as Par

Era o compromisso com a Formação Permanente de Padres – inclusive no exterior – de Diáconos e de Leigos, que fez de D. Francisco, um Bispo, mesmo depois de aposentado, atualizadíssimo e de acordo com as necessidades da Igreja hoje. São poucos os Bispos desse quilate. Todos deviam imitá-lo.

Se era pelo bem de Afogados da Ingazeira, D. Francisco envidava todos os esforços, até mesmo cedendo a estrutura física e material da Diocese, para atender em uma necessidade.

Assim foi, por ex., com relação à saúde, cedendo o Hospital; à educação, cedendo o Seminário e a Escola Normal; às organizações sindicais e associativas, cedendo espaços na programação da Rádio Pajeú; à implantação de órgãos de utilidade pública, cedendo terrenos para suas instalações.

E se era pela criança, nem se fala. A Pastoral da Criança foi até o fim, ¨a menina dos seus olhos¨. Sempre teve nele, além de excelente assessor jurídico, um defensor e propagador ardoroso, reconhecido até pela UNICEF, pelos bons serviços que lhe foram prestados.

D. Francisco morreu com mais de 82 anos de idade. Afastei-me dele, geograficamente, mas não fiquei distante dele afetivamente. Continuei admirando-o e respeitando-o, como um dos homens mais sérios da minha Igreja. Mesmo com a idade avançada, ele continuava com voz firme, decidida, corajosa e forte, sempre na defesa da verdade e dos humildes.

Continuava bem-informado. Lia muito e lia tudo. Era capaz de dar uma aula sobre qualquer tema, com a mesma disposição, segurança e poder de persuasão, que tinha quando era Padre Jovem, em Sobral.

Era impossível ouvi-lo falar, e continuar como se estava antes. Ele mexia com a cabeça da gente. Valia à pena escutá-lo, para admirar sua capacidade de comunicação e o conteúdo do que ele transmitia.

Há alguns anos, D. Francisco recebeu o título de cidadão pernambucano. Não foi uma unanimidade na votação da Assembleia Legislativa, e nem podia ser. Com um “curriculum” desse, não há como Deputados conservadores, inimigos do povo, agraciarem a quem nunca traiu o povo.

Quase que o título não saía. Mesmo com mais da metade de sua vida dedicada ao Estado, ao Sertão e à Igreja daquela diocese, houve quem o chamasse de forasteiro como demérito para a concessão do título.

Faz tempo que escrevo sobre ele. Meus escritos têm sido usados por outros que querem falar sobre ele. Não me incomodo, mesmo sem citarem a fonte de informação. Cheguei a questionar pela imprensa, àquela época: será que, todos os pernambucanos, tinham uma folha de serviços, prestados ao seu Estado, como a dele?

E me dirigia a ele, dizendo assim: se os homens são tardios em reconhecer o seu valor, Deus o reconhece em dobro, Senhor Bispo, pelo muito que V. Excia.  nos tem dado, pelo compromisso contínuo com a verdade e a justiça, e pelos riscos que o Sr. sempre correu na defesa dos excluídos de nossa sociedade.

Mesmo depois de morto, parabenizo D. Francisco, por esses seus 82 anos, bem vividos, cheios de tantas lutas, de tantos ensinamentos e de tantas vitórias.

Parabenizo Reriutaba, Seu Francisco Austregésilo e Dona Clausídia, por nos terem dado tão ilustre filho e que tantos bons serviços nos prestou.

Parabenizo Afogados da Ingazeira, por ter a felicidade de possuí-lo por tão longo tempo, por permanecer com ele, no ventre daquele chão e por ter aprendido com ele tantas lições.

Parabenizo também a D. Egídio Bisol, seu 2º sucessor, que conviveu com ele em seu presbitério, com quem, certamente, aprendeu muito para desempenhar a missão que agora faz, pelo documentário – Memórias Fecundas – preparado sobre ele e que foi divulgado por ocasião de seu cinquentenário de nomeação, ordenação episcopal e posse no ano de 2011.

Isto sim que é a verdadeira união de teoria e prática. De oração e ação. De fé e obra. Isto sim que são Memórias Fecundas, narradas pelo Documentário da Diocese de Afogados da Ingazeira, que o Pe. Luizinho – Cura da Paróquia de São Francisco – resume numa bela canção:

Dom Francisco, quanta saudade o senhor deixou entre nós.

Hoje, vivo em nossa luta, dá mais força a nossa voz.

Patriarca do Pajeú e profeta do sertão,

Deste abrigo aos viajantes, deste pão aos teus irmãos.

Defendeste o pobre sem voz, foste a voz de todo o sertão,

Somos gratos ao teu amor pelo povo do nosso torrão.

O Pajeú chorando saudoso se curva em silencio de oração.

Obrigado, velho querido, Pai aguerrido de bom coração.

Dom Francisco, quanta saudade o senhor deixou entre nós.

Autor: Mons. Assis Rocha

COMENTÁRIOS RECEBIDOS

Sobre Ipueiras 138 anos

Nison Gomes:  Parabéns Ipueiras pelos seus 138 anos de emancipação política e a todos os munícipes!!

Felipe Lima Moreira – Parabéns ao município de Ipueiras e parabéns ao vereador e autor desse texto que da visibilidade as questões indígenas de nosso município, do resgate de sua história e busca por identidade

Sobre Pensadores que sonharam um Brasil Melhor

Lourenço Araújo Lima, do Rio de Janeiro – Além das qualidades do bispo, a gratidão do Mons. Assis, que representa a grande virtude do ser humano. Parabéns.

1 comentário em “Série: Pensadores que sonharam com um Brasil Melhor”

  1. Cada vez que ouço ou leio algo sobre D Francisco como ficou conhecido, me vem à lembrança do Pe. Osvaldo que sempre se referia a ele com respeito e muita admiração. Foram dois apóstolos de verdade. Parabéns Mons Assis Rocha, grande abraço.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *