Mês: novembro 2021

UNOPAR PROMOVEU, COM SUCESSO, SEMINÁRIO EM CANINDÉ.

Nos dias 24 e 25 os universitários viveram momentos especiais, com o encerramento do I Seminário de Direito dos Sertões de Canindé. A iniciativa da Universidade PITÁGORAS UNOPAR vem confirmar o seu interesse na capacitação da população. Esta é uma ação de Extensão que serve para fortalecer os conhecimentos de nossos alunos.

O evento aconteceu sob a liderança do  Prof. Raul Pinto Félix, coordenador e Profa. Roberta Félix, coordenadora adjunta e com Profa. Vera Lúcia de Araújo, Gestora e Nancizira Monteiro, Secretaria Executiva.

Foram dois temas: O PAPEL das PROCURADORIAS Municipais, e sua participação na defesa dos direitos sociais. O segundo  foi: Gestão e Liderança para o Profissional do Direito.

A palestra sobre Gestão e Liderança para o Profissional do Direito, proferida pelo Dr. Denis Aur, complementa as atividades acadêmicas, destacando a importância do papel do profissional do Direito, na comunidade.

As ações de Extensão, em todas as Universidades, tem sido fundamentais para dar ao universitário uma visão mais prática e mais concreta de suas atividades. Quando mais o estudante se preparar, melhor serviços ele poderá prestar à comunidade.  A competência do Advogado resulta de seu estudo permanente. Jamais o profissional do Direito deve abandonar os estudos. Deve atualizar-se permanentemente.

É pela sua competência, pelo seu Compromisso e pelo seu bom relacionamento na comunidade que o Advogado firmará a sua liderança e saberá melhor desempenhar o seu papel. A atualização permanente é necessária.

Com esta iniciativa, a UNOPAR confirma o seu próprio compromisso com a comunidade de Canindé e região.

PADRE OSVALDO CHAVES: Sabia tudo, sabia muito e sabia bem, como ninguém! Da Série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (X)

Todas as vezes que a gente fala em Pe. Austregésilo ou em D. Francisco aparecem leitores ou ouvintes, ligando-o ao Padre Osvaldo Chaves, outra das maiores referencias do clero sobralense, mutuamente, comparadas. Não escondo a minha admiração pelo meu ex-reitor e bispo, como quero ressaltar o meu eterno respeito pelo meu professor competente, sábio e possuidor de uma vasta cultura como o era o Padre Osvaldo.

Eu o conheci e o tive como professor, à mesma época em que fui aluno  do Pe. Austregésilo. Aliás, ser competente, sábio e culto eram os predicados exigidos por Dom José Tupinambá, para alguém ser formador no Seminário S. José de Sobral. Quem não se lembra do Pe. José Gerardo Ferreira Gomes, o nosso eterno “Mestre”; Pe. Marconi Montezuma, Pe. Luizito, Padres Albany e Sadoc, chegados de Roma à mesma época, só para lembrar alguns. O Padre Osvaldo chegara junto com o Pe. Austregésilo no início de 1952.

Sacerdote, Professor, Poeta PADRE OSVALDO CHAVES, de Granja, Ce.

Nasceu no Sítio Angelim, distrito de Samambaia – Município de Granja – CE aos 21 de Outubro de 1923. Logo criancinha, foi acometido de poliomielite, com atrofia da perna esquerda. Mas isto não o impediu de “sonhar alto”. Com 16 anos ingressou no Ginásio Lívio Barreto, nome de um grande poeta, filho da terra, que o despertou no gosto pela poesia. Em 1940 ingressa no Seminário São José de Sobral, dedicando-se aos estudos e à leitura de prosadores e de poetas clássicos. Cassiano Ricardo foi o poeta que mais o influenciou e o estimulou em sua vocação poética.

            Os estudos de filosofia e teologia no Seminário da Prainha em Fortaleza lhe permitiram dar voos mais altos, até que no final de 1951 estava preparado para a ordenação sacerdotal, na Catedral da Sé, em Sobral, pelas mãos de D. José Tupinambá. Com 28 anos estava o Padre Osvaldo Carneiro Chaves pronto para iniciar suas atividades, lecionando no Seminário onde estudara.

            Sabia tudo, sabia muito e sabia bem, como ninguém. Sabia pra ensinar: português, francês, latim, inglês, grego, literatura luso-brasileira, pedagogia e música. Dependendo da necessidade de cada lugar, por onde passava ia ensinando. Sabia as línguas e as falava no sotaque dos nativos. Aperfeiçoava-se nisso, recorrendo aos linguafones da época, aos métodos de “Assimil”, tão em voga para qualquer língua, com textos e gravações para serem “assimilados”. Como ele era muito organizado, repartia bem o seu tempo e o usava, racionalmente, para que não se perdesse em nada.

            Quando a gente ia assistir ao Sermão do Encontro, na sexta feira antes de iniciar a Semana Santa, que um daqueles “monstros sagrados” da equipe do Seminário era o pregador, quando o víamos subindo ao púlpito e era o Pe. Osvaldo, todos nos sentíamos logo, iluminados, pela áurea que ele espargia. Era tanta sabedoria, tanta eloquência, tanto conteúdo catequético que nem nos cansávamos em ouvi-lo.

            Uma vez ele nos contou em sala de aula que, num desses sermões calorosos e tão formativos, em uma tarde de muito calor em Sobral, ele notou que dois homens se entreolhavam e confirmavam com a cabeça e com gestos, o que lhes ia chamando a atenção. O grande pregador ficou entusiasmado com a cena e apurou-se em suas figuras de linguagem, circunlóquios e outros recursos de oratória, pensando: “pode até a multidão não está ligada no que estou pregando, mas, ao menos a estes dois, eu vou convencer”. E à medida que o calor foi aumentando e a força da retórica foi transparecendo, o suor foi-lhe ensopando a testa e o pescoço que o lenço não dava conta de enxugar.

            O grande pregador se foi conduzindo para o final de seu grande sermão e o encerrou com a palavra “amém” e com o sinal do cristão, invocando a SS Trindade. Ao olhar pros dois homens tão centrados nas suas palavras, eles se entreolharam e um disse pro outro: “isto é que é suar”! Coisas do Pe. Osvaldo!

            Quer ver mais uma? Ao dar-nos uma aula no 1º horário da tarde, um aluno que estava na 1ª fila, à sua frente, bocejou ruidosa e deseducadamente, escancarando a boca; ao que ele reagiu de imediato: “meu filho, eu vi o fundo da sua cueca”! Todos rimos, é claro, diante desse seu lado espirituoso.

            Mas, o que os mais velhos iam passando para os novatos, está bem descrito pelo novo aluno, pré-adolescente, Juarez Leitão, entre as 65 declarações de amor que lembraram os 90 anos do Seminário de Sobral. O que ele narra, tão belamente, é mais ou menos o que nós outros não saberíamos repassar como o fez o colega betanista.

            “O 1º dia de aula foi um amplo festim de novidades. Conheci os novos colegas e vários professores… Foi, então, que ouvi sobre o professor de português. Os veteranos tremiam ao falar dele. Diziam que ninguém o igualava em severidade e exigência de absoluta dedicação à sua matéria. Era um durão”… Esta era a maneira que os outros pensavam: os menos estudiosos ou mais superficiais. Era a resposta que os Apóstolos davam à indagação de Jesus: “o que dizem os homens que eu sou”? Mas Jesus acrescentara: “e vós quem dizeis que eu sou”? L.c. 9, 18-20. Aí, a resposta mudou de feição: “tu és o Filho de Deus vivo”. “Tu és o Emanuel”. “Tu és aquele que deveria vir”. “Tu és o Deus conosco”. Foi a resposta de quem o amava. De quem o conhecia.

            O Juarez Leitão estava cheio das informações dos outros. Conheceu o Pe. Osvaldo e se deixou conhecer por ele. Nunca esqueceu a sua auto- apresentação na 1ª aula: “eu sou o Pe. Osvaldo Carneiro Chaves, professor de vernáculo. Nosso objetivo principal nesta sala e na vida é ser feliz. Todos nós humanos temos um compromisso com a felicidade. Deus nos quer ver felizes. Felizes por nossos sentimentos, por nossa condição humana, por nossa fé, por nossa vocação. Este é o nosso local de trabalho. Estudar é um trabalho. Somos operários, vocês e eu, laborando na procura do conhecimento”.

            Não seria esta a melhor “informação” a ser repassada pelos veteranos? Era assim que o Pe. Osvaldo sempre se apresentava. Todos o entendíamos muito bem. O Juarez entendeu e se apaixonou. Colocou-o na sua formação literária e foi incentivado por ele, para escrever. Chegou à Academia Cearense de Letras e dedica a sua Cadeira de Imortal a seu Mestre que foi o Pe. Osvaldo e não ao assustado aluno dele dos tempos da Betânia. Não é sem razão que ele o proclama, recita nos encontros de Betanistas, nos saraus literários como o Farol de Alexandria.

            Neste 29 de novembro faz 20 anos que cheguei de volta ao meu Ceará, depois de 40 anos em Pernambuco. Pensava em ficar apenas um ano, mas fiquei até agora, sempre ligado com os M.C.S.: na UVA, na Diocese e agora, no site do Leunam, em professorcomprazer.com  

Vi o Pe. Osvaldo, no alto dos seus 80 anos – como eu estou agora – celebrando na Capela do Abrigo, em Sobral, dando verdadeiras aulas de exegese, a partir das sugestões oferecidas pelas leituras bíblicas. Havia um grupo fiel de participantes, ex-alunos e muitos admiradores do Pe. Osvaldo e da sua sabedoria. Foi sábio, pregador, dando-nos uma mensagem de fé e esperança até o fim, ensinando-nos o que sempre ensinou e já me referi: a sermos felizes. É isto que Deus quer de nós

Autor do texto: MONS. ASSIS ROCHA, Mestre e Doutor em Comunicação Social, Escritor – de Bela Cruz – Ce.

ACADEMIA SOBRALENSE DE ESTUDOS E LETRAS DISCURSO DE POSSE DO ACADÊMICO ALARICO ANTÔNIO FROTA MONT’ALVERNE 12 DE NOVEMBRO DE 2021

Apraz-me e enobrece-me aqui estar, na presença de tão preclaros acadêmicos que compõem este colendo Sodalício, como escolhido, pela quase totalidade dos acadêmicos votantes, para assumir a Cadeira 28, cujo patrono, Domingos Olímpio, um dos luminares da vasta galeria da intelectualidade sobralense.

Nasci nesta querida Sobral, a 4 de abril de 1943, à beira do Rio Acaraú e nos contrafortes da aprazível Serra da Meruoca, região causticada pela inclemência do calor abrasador do nordeste brasileiro, cujas altas temperaturas são mitigadas pela aragem confortante da brisa noturna, o “Aracati”. O calor parece que nos purifica da indolência e da preguiça, tornando-nos fortes e destemidos na luta do dia a dia por melhores condições de vida, em busca do progresso em todos os campos de atividade humana. Este contexto tem-nos levado à evolução no campo educacional, médico, industrial e comercial. Somos a capital do norte cearense.

Venho de uma família de onze irmãos. Fui educado com o rigor do sertanejo que acorda cedo e não pode desperdiçar tempo e esforço, valorizando cada raiar do sol. Em nossa mesa aprendemos a compartilhar e a dividir, tornando-nos cada vez mais fraternos.

Meus pais, Antônio Edward Mendes Mont’Alverne, representante comercial, e Maria Yêdda Frota Mont’Alverne, renomada educadora, foram os luminares, farol a clarear os nossos caminhos na senda do saber e da dignidade.

Nos seminários da Betânia (Sobral-CE), da Prainha (Fortaleza-CE), Regional do Nordeste em Olinda (PE) conseguimos, através do silêncio, da meditação e da rígida, porém racional e objetiva disciplina, evoluir interiormente, o que permitiu, então, uma visão cósmica do mundo, disponibilizando-nos ferramentas indispensáveis à evolução do conhecimento técnico-científico e humanista. Honras e méritos à plêiade de valorosos e competentes mestres, responsáveis pela metamorfose que ocorreu em minha pessoa. Minha eterna e imorredoura gratidão.

Este somatório de várias oportunidades me concedeu uma ambiência propícia ao forjamento de minha personalidade, firme e determinada, oferecendo-me excelentes oportunidades para o enfrentamento das etapas posteriores. Após a conclusão do curso de Filosofia no Seminário de Olinda – PE, graduei-me em Geologia (1966) e conclui Mestrado em Geociências (1981) pela UFPE – Universidade Federal de Pernambuco, e ultimamente, em 16 de dezembro de 2001, o Curso de Pedagogia pela Faculdade FACESE , em Curitiba – PR.

Centrei minha vida profissional na cidade do Recife, com ligeiras incursões em vários estados da federação, conseguindo, através da dedicação ao trabalho e do estudo continuado, vencer as barreiras e realizar os objetivos planejados. Como prêmio a todo o esforço desprendido, fui agraciado, como reconhecimento, com o título de Cidadão de Pernambuco (2011), concedido pela Assembleia Legislativa do mesmo estado.

A minha formação filosófica e o hábito de leitor contumaz, que trago desde a adolescência no Seminário da Betânia, levou-me a uma admiração inigualável pelo pensamento “Iluminista” dos séculos XVII e XVIII, representado pelos grandes filósofos Rousseau, Montesquieu, Voltaire, Diderot, 2 D’Alambert, responsáveis pelo desencadeamento da Revolução Francesa na luta pela “LIBERDADE, IGUALDADE e FRATERNIDADE” e pelo espirito de “bem-servir”.

Este ideário levou-me ao campo educacional, com a participação efetiva na fundação (1979) e na manutenção do Colégio Equipe, no Recife, hoje com 42 anos de existência. Trata-se de uma instituição de ensino básico tendo como ideário a educação integral do indivíduo. Esperamos continuar contribuindo por mais tempo nesta casa de educação de crianças e jovens, formando pessoas dignas para a construção de um mundo melhor, mais justo e sem tantas e tamanhas desigualdades sociais.

Em solo pernambucano contraí núpcias com a competente e dedicada pedagoga Florence Mary Ferreira Mont’Alverne, co-fundadora do Colégio Equipe, falecida em 2007, com quem tive duas queridas filhas, Germana Cristina médica, e Suzana Cristina pedagoga.

Nunca esqueci a terra amada que me viu nascer e onde permaneci até os 16 anos, plena adolescência, quando parti para Fortaleza e em seguida para Olinda – PE. Anualmente, sempre, aqui estava para manter vivo os laços familiares e o convívio amável com os queridos conterrâneos, permanecendo atento e atualizado sobre os fatos e acontecimentos sobralenses. Nunca estive completamente ausente, pois, espiritualmente era presença constante.

Porém, a partir de 2008, após o convívio mais próximo com a professora emérita, historiadora, escritora e acadêmica Glória Giovana Saboya Mont’Alverne, e nosso casamento em 2012, voltei a aqui estar mais assiduamente, participando dos eventos familiares e sociais, e como visitante em reuniões da ASEL. E, como nada acontece por acaso, o sonhado momento para ingresso neste Sodalício aconteceu.

 Hoje considero-me extremamente feliz em assumir a Cadeira 28 neste Silogeu, fonte fecunda do saber, através do convívio fraterno e amigável com estrelas de primeira grandeza da intelectualidade sobralense, muitos dos quais são familiares (Giovana, Gerardo Cristino, Alexandre Pinto e Francisco Santamaria), contemporâneos do Seminário da Betânia (Valdeci, João Edison, Aloísio Ponte, Abdias e Davi Helder), professor (Padre José Linhares) e amigos de infância (Arnaud, Almino Rocha, Tereza Ramos…).

Sou imensamente grato aos nobres acadêmicos João Edison Andrade e José Luís Lira pela amabilidade com que se prontificaram em apadrinhar a minha proposta de ingresso, assim como à Diretoria da ASEL, na pessoa de sua presidente Profa. Chrislene Carvalho dos Santos Pereira Cavalcante e à dedicação e lisura da Comissão Eleitoral presidida pelo acadêmico Arnaud de Holanda Cavalcante, na condução do pleito. Aos prezados confrades e confreiras, que, através do voto, depositaram confiança em minha pessoa, a perene gratidão ao me concederam a oportunidade de realização de um sonho. Comprometo-me, então, a participar e colaborar, de maneira efetiva, para com as atividades de nossa academia, e não medir esforços para a consecução deste intento.

Por iniciativa de um grupo seleto de intelectuais foi fundada, em 03 de maio de 1922 a Academia Sobralense de Letras, sob a Presidência de Pe. Leopoldo Fernandes, e Diretoria composta por Dr. Clodoveu de Arruda Coelho, Craveiro Filho, Paulo Aragão, dentre outros.

Após alguns anos a Academia sofreu uma paralização, sendo reativada em 05 de setembro de 1943, com reformulação de seus objetivos, estatutos, e nova denominação, Academia Sobralense de Estudos e Letras, tendo como Presidente Mons. Vicente Martins e compondo a Diretoria, Mons. José Gerardo Ferreira Gomes, Dr. João Ribeiro Ramos, Prof. Maurício Mamede 3 Moreira, Armando Ferreira Baltar e Dr. José Maria Mont’Alverne. A nobre Galeria de Presidentes está composta, em ordem cronológica, pelos intelectuais: Mons. Vicente Martins, Dr. José Saboia de Albuquerque, Mons. José Gerardo Ferreira Gomes, Dr. João Ribeiro Ramos, Prof. José Ferreira Portela Neto, Prof. Evaristo Linhares Lima, Dr. João Edison Andrade, Dr. José Luís Lira, e Profa. Chrislene Carvalho dos Santos Pereira Cavalcante, até a presente data.

A Cadeira 28 foi ocupada pelo acadêmico Prof. Maurício Mamede Moreira, nascido em Ipueiras. Lecionou por mais de trinta anos nos Colégios Sant’Ana, Sobralense e Escola Profissional Dom José, transferindo-se, posteriormente, para Fortaleza, onde faleceu em 22 de março de 1999, e cujo vacância foi ocupada, em 28 de março de 2004, pelo também professor e escritor Dr. João Barbosa de Paula Pessoa Cavalcante, até o dia 24 de junho de 2020, quando veio a óbito.

Para mim, é uma honra incomensurável substituir este querido conterrâneo amigo, vizinho de praças (Praça do Figueira e Praça João Pessoa, à época), um ser humano competente, amável, bondoso, cordial e sempre pronto a servir como tônica de vida, Metódico, perfeccionista, sempre à frente de seu tempo.

Concomitante à carreira bancária manteve o conceituado “Curso Cambosa”, formando gerações de jovens para concursos os mais diversos e para acesso à Universidade através de vestibulares, sempre com excelentes resultados. Foi imensa a sua colaboração, como professor de português e de contabilidade, para o crescimento do nível cultural de jovens que lutavam pela ascensão profissional e acadêmica.

Quando jovem, na década de 50, inicia a atuação no Teatro Escola Sobralense, sob o comando dos renomados atores Clotário Aguiar e Hugo Vinãs, destacando-se como comediante, participando das seguintes peças: “Os 25 Sargentos”, “Almas do Outro Mundo” e “Luzia Homem”.

Também teve notória atuação no atletismo, destacando-se no futebol de salão (futsal) onde conquistou inúmeros títulos de campeão. No futebol de campo compôs as equipes do Ferroviário e do Guarany de Sobral, com reconhecida participação.

Menção especial para a sua atuação na sociedade local, como fundador da AABB (em 1956) participando de várias Diretorias, e, também, fundador do Lions Club Sobral Caiçara. Sempre presente às festividades promovidas pelos clubes da cidade, destacando-se como exímio dançarino. É de se frisar e enaltecer a sua disposição de, após os 50 anos de idade, concluir o Bacharelado em Direito, exercendo esta nova profissão nas cidades de Fortaleza e Sobral, com desvelo e competência.

Destacou-se como cronista do “Diário do Nordeste” e articulista dos jornais “Correio da Semana” e “Noroeste”, com inúmeros artigos publicados.

Como escritor e jornalista o confrade e amigo João Barbosa, contribuiu eficazmente para com a intelectualidade sobralense, brindando-nos com as seguintes obras: “Sobral em Reminiscência – Humor e Saudade”, “Órfão do Agreste”, “Deslizes Linguísticos do Cotidiano”, “Eles Deram a Sobral a Liderança do Norte”, o que muito enriquece a biblioteca da terra que tanto amou e se dedicou até os últimos instantes de sua fecunda existência, chegando a falecer, aos 88 anos, a 20 de junho de 2020.

Resta-me honrar a Cadeira 28, ocupada anteriormente pelo confrade e amigo acadêmico João Barbosa, cujo patrono é a figura insigne de Domingos Olímpio. Este é o compromisso que assumo perante este preclaro Sodalício – Deus me ajude! 4 Domingos Olímpio Braga Cavalcanti, romancista, dramaturgo e jornalista, era filho de Antônio Raimundo Cavalcanti e Rita Braga Cavalcanti. Nasceu em Sobral – CE a 18 de setembro de 1850. Era neto do Capitão José de Holanda Cavalcanti e de Anna Francisca do Carmo, e, pelo lado materno de Rita de Cássia Pinto Braga Cavalcanti, filha de Domingos José Pinto Braga e Maria Antonieta Ferreira Braga. Era o primogênito dos quatro irmãos.

Domingos Olímpio casou-se duas vezes. Em 1875 com Da. Adelaide Ribeiro Braga Cavalcanti, que veio a falecer em 1878, deixando duas filhas, Albertina e Guiomar. Em 1892, casou-se pela segunda vez, no Rio de Janeiro, com Da. Anna Augusta Braga Torres, neta do Governador Francisco Xavier Torres e filha do Brigadeiro Francisco Xavier Torres Júnior e de Maria Pinto Braga Torres, com quem teve cinco filhos: Domingos Olímpio, Martha, Alberto, Ana Violeta e Laura. Os sete filhos lhe deram 34 netos, 50 bisnetos e 5 trinetos.

Estudou as primeiras letras em sua terra natal e após concluir os estudos preparativos em Fortaleza (1866) segue para o Recife, onde se bacharelou em Ciências Jurídicas e Sociais no ano de 1872, época em que foi contemporâneo de Castro Alves, na célebre Faculdade de Direito do Recife. Ainda estudante compôs várias peças teatrais e entre elas “A Perdição”, encenada pelos colegas de faculdade.

Ao concluir o bacharelado em Direito, volta a sua terra natal, exercendo as funções de Promotor de Justiça, quando teve contato direto com os problemas gerados pelas desigualdades sociais, fruto do contexto político-econômico reinante àquela época no sertão cearense, assim como pela inclemência das secas, de periodicidade cíclica e efeitos devastadores para os menos favorecidos. Em sua volta a Sobral teve oportunidade de incentivar as atividades artísticas do Teatro Apolo e, como membro da Sociedade União Cultural Sobralense, colaborou eficazmente na construção do Teatro São João, de inspiração italiana, em estilo neoclássico, um dos ícones da cultura sobralense. Com a morte de sua consorte Adelaide (1878), além de decepções e incompreensões nas atividades políticas, por divergências com a família Accyole, resolveu transferir-se para o estado do Pará, voltando, então, a advogar, onde obteve notáveis conquistas nos tribunais. Concomitantemente, foi eleito pelo Partido Conservador, em Belém do Pará, Parlamentar Provincial. Caracterizou-se como aguerrido abolicionista, republicano sincero e ardente, ideais que defendia com todo fervor na Assembleia Legislativa e como redator dos periódicos “Grão Pará” e “A Província”.

Em 1891, segue para o Rio de Janeiro onde continuou advogando e a exercer as atividades jornalísticas como redator dos jornais “O Paiz”, “Correio do Povo”, “O Comércio”, “Cidade do Rio”, e “Gazeta de Notícias”.

Fundou a Revista “Os Annaes”, colaborando de maneira intensa com a imprensa carioca usando os pseudônimos “Pojucan” e “Jaibara”. A sua intensa atividade jornalística iniciou desde os tempos de acadêmico, no Recife, quando teve convivência estreita com grandes luminares de Direito, literatos de renome e artistas de primeira linha.

Um ano após a sua chegada ao Rio de Janeiro, foi nomeado Secretário da Comissão Diplomática, encarregada de resolver, em Washington, as questões de limites fronteiriços do Brasil com a Argentina (Questão das Missões) e com a Bolívia (Missão Rio Branco).

Ao regressar ao Rio de janeiro prossegue nas atividades advocatícias, no jornalismo e como escritor, quando então, em 1903, publica a sua obra-prima “Luzia-Homem”, o romance “Almirante” (1904 – 1906), uma crítica dos costumes, e “Uirapuru” retratando a vida do extremo 5 norte do país. Deixando inéditas as seguintes peças teatrais, “Rochedos que Choram”, “Túnica Nessus”, “Tântalo”, “Um Par de Galhetas”, “Domitila”, “Os Maçons e o Bispo”, assim como “A História da Missão Especial em Washington”, “A Loucura na Política”, “O Negro”, “A Questão do Acre”, além de inúmeros artigos, contos e crônicas publicadas em vários jornais e revistas de Fortaleza, Belém e Rio de Janeiro.

É de se frisar que quase todas as peças de sua lavra foram apresentadas no Teatro de Santa Isabel, no Recife – Pe, no Teatro São João, em Sobral – Ce, no Teatro José de Alencar, em Fortaleza e no Teatro São Pedro Alcântara, atual Teatro João Caetano no Rio de janeiro.

Relativo à sua obra-prima “Luzia Homem” é de bom alvitre rememorarmos alguns comentários emitidos por escritores e intelectuais notáveis (in História da Literatura em Sobral, Tomo I. Pe. Francisco Sodoc de Araújo, Imprensa Universitária, UVA, Sobral 2011 pág. 92 a 96) sobre o nosso eminente escritor Domingos Olímpio:

 “Domingos Olímpio, romancista, contista e polemista, foi um dos mais interessantes e notáveis prosadores brasileiros. Nele se uniram de maneira curiosa, produzindo uma série de contrastes característicos da sua personalidade, o amor do regionalismo sertanejo, entranhado bairrista mesmo, e o prazer de estudar a vida das cidades, tumultuária e apaixonada, nas suas melhores particularidades. Desde suas primeiras obras se sente que sua alma se deixa arrastar pelas duas correntes opostas, das quais uma teve, por fim, de superar a outra, dominando todo o seu grande espírito e impelindo-o a escrever um dos nossos mais belos romances nacionais. E, essa, felizmente para Domingos Olímpio, e felizmente para nós, foi a do sertanismo, que ele soube compreender sem exageros e realizar com naturalidade”. (Gustavo Barroso, no prefácio da segunda edição do romance “Luzia Homem”).

Olavo Bilac em “História Literária do Ceará” de Mário Linhares, Rio, 1948, pg. 97, afirma: “A publicação de “Luzia Homem” foi tão belo e ruidoso triunfo que esse livro forte, humano e profundamente nacional deu ao autor, em todo o Brasil, uma celebridade que perdurará enquanto formos um povo e enquanto tivermos uma literatura”.

 “O romance ‘Luzia Homem’ é um dos mais importantes elos da cadeia do regionalismo nordestino. O sertanismo tem nele um pintor de paisagens e um caracterizador de personagens de que a ficção brasileira se deve orgulhar.” (Afrânio Coutinho, em Nota Preliminar à edição de “Luzia Homem” da Editora Ática, São Paulo).

“’Luiza Homem’ é um desses livros que servem de colunas ao edifício literário nacional (…). Nenhum livro dá uma ideia fiel da terra cearense do que esse quadro em que se nos mostra sob seus múltiplos aspectos de tragédia, de comédia e de poesia. O que está nessas páginas é flagrante, é verídico, é vivido.” (Antônio Sales, em “Retratos e lembranças”, Fortaleza, 1938, p. 210)

 “É difícil classificar este livro. (…) Como, porém, a seca, o drama secular da gente cearense, constitui o elemento central do romance, influindo nos hábitos e até no feitio das criaturas, o seu lugar há se ser na literatura regionalista de que é, sem dúvida, umas das melhores manifestações 6 entre nós”. (Lúcia Miguel Pereira, em “História da Literatura Brasileira”, vol. XII, Rio, Liv. José Olímpio, 1950, p. 204).

“”Luzia Homem” de Domingos Olímpio foi o grande romance inspirado na seca. Outros versaram o assunto. Ele era obrigatório para as vocações de romancistas no Ceará. (…) Mas, “Luzia Homem”, pelo seu realismo, parece-me ter sido o maior de todos os romances da literatura ligada à terra e à gente cearense.” (Austregésilo de Ataíde, “A Glória de Domingos Olímpio”, em “Diário da Noite”, Rio, Ed. de 18.9.1950.)

 “Há, no ano de 1903, uma alto acontecimento literário que o marca inconfundivelmente: a publicação de ‘Luzia Homem’ de Domingos Olímpio. (…) o enternecimento de Domingos Olímpio pela terra de seu berço era tal, que a primeira página dos originais de ‘Luiza Homem’ encimam-na estas palavras amoráveis e acariciantes: ‘Quadros de Minha Terra Querida’. (Dolor Barreira “História da Literatura Cearense”, 1º. Tomo, Fortaleza. 1948, p. 15 e 2º. Tomo, 1951, p. 132).

Por duas vezes, Domingos Olímpio candidatou-se a uma cadeira para a Academia Brasileira de Letras – ABL. A primeira para a cadeira 02, vaga que ficou para Euclides da Cunha autor de “Os Sertões”; na segunda, concorreu à vaga da cadeira 21, com a morte de José do Patrocínio, novamente saiu vitorioso o poeta Mário de Alencar, filho de José de Alencar.

Após esta curta trajetória luminosa de vida como cidadão digno, profissional exemplar, político honesto e dedicado às causas republicanas, o abolicionista escritor e intelectual de escol, falece, na cidade do Rio de janeiro, de mau súbito, em 7 de outubro de 1906, aos 55 anos, muito jovem, o inesquecível luminar Domingos Olímpio, deixando-nos um rastro de luz e de esperança, o que dignifica cada vez mais a nossa querida Sobral.

Domingos Olímpio, apesar dos percalços políticos por que passou, na luta em defesa da justiça e da verdade, amou tanto a sua terra natal, que a ela se referiu de maneira carinhosa e recorrente:

 “Sobral não precisava de meu preito para afirmar a sua fulgente auréola de cidade intelectual, berço de brasileiros notáveis em todos os ramos de atividade humana” (in Sobral História e Vida – Glória Giovana Saboya Mont’Alverne e Norma Soares, Editora UVA – Sobral, 1997, pg. 98.

Encerrando, trago à baila, para os que já passaram dos sessenta anos, um sábio e profundo pensamento, essencialmente realista e confortante:

“Na maturidade estamos voltados mais para o interior e encanta-nos o que é próprio dela. Do tempo não podemos fugir e nem devemos. Com o inexorável só há uma saída que não será fugir, é vivenciá-lo da melhor maneira possível, colhendo os frutos das sementes germinadas nas primeiras fases da vida.

Muito obrigado a todos.

Sobral, 12 de novembro de 2021

ALARICO ANTÔNIO FROTA MONT’ALVERNE

Cadeira 28

Clarice Lispector: Da Ucrânia para a Literatura Brasileira, via Pernambuco

Da série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (IX)                             por Mons. Assis Rocha

Em julho de 1966, chegava eu a Afogados da Ingazeira, com 25 anos, para estagiar naquela sede diocesana – cerca de 400 km da Capital, no interior de Pernambuco – tendo em vista a ordenação sacerdotal. 

            Passei a ter como superior e orientador, o próprio Bispo, Dom Francisco Austregésilo, que já fora meu Reitor e professor no Seminário de Sobral, a quem eu sempre admirei e respeitei muito. Foi logo depositando confiança em mim, fazendo-me vice-diretor de um bom Colégio da Diocese, de 1º e 2º graus, até então dirigido por Religiosas Franciscanas e, a partir dali, por diretores indicados pelo Bispo. Tive a sorte de trabalhar com a super competente diretora, Dona Ione de Góes Barros, integrando a sua equipe de professores. 

            Dom Francisco me deu também a Direção Administrativa da Rádio Pajeú que já estava em seu 7º ano de existência, como pioneira em todo o sertão e me ofereceu uma casa da diocese, bem no centro da cidade, para transformá-la em um “Clube de Jovens de Afogados da Ingazeira”, o Club JAI, com jogos de mesa, músicas da jovem guarda, revezando com MPB, com hora marcada para iniciar e terminar, já que a energia termoelétrica faltava às 22 horas, com um rápido aviso dez minutos antes. Tempo suficiente para pararem os jogos, organizá-los e correr pra casa. 

            No início de 1967 o ano era novo para todas as atividades. A base já estava pronta para entrar em ação. Inexperiente, é claro, mas com muito gás e com muitos planos não só por conta do estágio, mas para lançar os alicerces de toda uma vida dali pra frente. 

            Apesar da importância que eu dava à preparação para ser Padre, não eram menos importantes as outras atividades que preenchiam o meu tempo e, uma delas, é claro, era o meu desempenho e interesse pela educação: no JAI, no Colégio e na Rádio Pajeú de Educação Popular. 

            À função de vice-diretor eu acumulava a de professor de certas matérias ou disciplinas importantíssimas para nossos alunos: Literatura Brasileira era uma delas. Não encontrando compêndios apropriados, sem recorrer à internet, bibliotecas ou a arquivos que me pudessem ajudar, logo em 1967 organizei um livreto, “manuscrito” por mim mesmo, pesquisado no que estivesse ao meu alcance na biblioteca do Bispo, do Pe. Antônio, Pároco da Catedral e nos meus “alfarrábios” pessoais, que eu ia formando ao longo do tempo e repassava para meus alunos. Tudo era de grande “novidade” para muitos deles.  

            Assim eu me expressei, falando-lhes sobre o Modernismo: “é o movimento artístico que se caracteriza pelo desprezo às correntes anteriores (medieval e clássica) e pela busca de novos caminhos artísticos e estéticos”. E acrescentava: “os primeiros movimentos modernistas no Brasil se fizeram através das artes plásticas em oposição a tudo o que vinha do passado e agitava a Europa”. Em seguida eu desfilei 22 escritores da Modernidade Brasileira (da 1ª à 3ª etapa) sobressaindo algumas escritoras: Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa e Clarice Lispector, mesmo tendo falado depois sobre Lília Pereira da Silva, representando a Literatura e Arte Contemporâneas, dentre 09 outros escritores mencionados. 

Escritora CLARICE LISPECTOR

            É aqui que quero dedicar a parte mais especial da minha reflexão, dando sequência ao desfile que estou fazendo de “pensadores que sonharam com um Brasil melhor” agora sob o Nº IX: Clarice Lispector. Como é possível ter eu elencado mais de 30 “pensadores”, “sonhadores”, “literatos” há 54 anos, nem Padre eu era, e estar vivo para apreciar esta história, até com ex-aluna minha? 

            Sob a “Organização da LETRART – Recife” tenho em mãos a II Coletânea de Memórias, intitulada de “Cartas a Clarice Lispector”, assinadas por nomes a mim familiares, por ter vivido em Pernambuco por 40 anos: Quintella, Borba, Menezes, Gusmão, Japiassu, Rego Barros, Valença e, é claro, minha ex-aluna e querida amiga Fátima Brasileiro. Entre eles há até um “Estadunidense de Sobral” para não fugir à regra de que “cearense está por toda parte”. Eu que o diga. 

            Entre as minhas resumidas ‘anotações’ que eu chamei de ‘manuscritos’, para as 30 biografias, eu segui o mesmo esquema: vida, obras e apreciação. Não me envergonho de mostrar a minha limitada sabedoria. A Clarice nasceu aos 10 de dezembro de 1920, na Ucrânia. Filha de um casal judaico. Todos tiveram que fugir do país devido a perseguições aos judeus durante a guerra civil russa. Vieram para o Brasil, entrando por Maceió, quando Clarice tinha dois meses de idade. Depois foram para o Recife onde ela aprendeu a ler e escrever e já foi mostrando sua vocação para escritora. Integrou o Modernismo Brasileiro já na sua 3ª etapa, junto a Rubem Braga, Lúcio Cardoso e Fernando Sabino. Ressaltei-lhe as Obras até 1967, enquanto eu escrevia meus resumos: “Perto do Coração Selvagem” (1944). “O Lustre” (1946). “A Cidade Sitiada” (1949). “Alguns Contos” (1952). “Laços de Família” (1960). “A maçã no escuro” (1961). “A Paixão segundo G.H.” (1961 – sigla passível de vários significados). “A Legião estrangeira” (1964). “O Mistério do Coelho pensante” (1967). 

            Minha Apreciação à época foi: “até aqui, citei estas obras, imaginando o tanto que ela seria capaz de produzir. Conteúdo e bagagem ela tinha de sobra. Casada com um Diplomata viajava pelo mundo em sua companhia. Poliglota, tradutora e com uma carreira literária pela frente”… 

            Aos se aproximar do dia 10 de dezembro de 2020 e pelo ano de 2021 adentro, começou-se a falar de Clarice de uma maneira mais direcionada pela passagem dos 100 anos de seu nascimento, já que sua presença entre nós foi muito benfazeja. Cartas e mais cartas lhe foram direcionadas pelos seus mais diversos admiradores, estudiosos e escritores dos mais diversos pontos do país, sobretudo pernambucanos, que não se contiveram na ocultação de seus sentimentos, já que haviam bebido na fonte de seus conhecimentos e escritos que teriam de passá-los adiante. Eu, apesar de não ser escritor, por ter tido uma pálida passagem por sua vida, enquanto professor interiorano no sertão de Pernambuco e depois de ter visto uma ex-aluna minha – Fátima Brasileiro – tão belamente se referindo a ela, não me contive. Quis também eu usar este espaço que me é oferecido pelo meu amigo e colega, Professor Leunam, para opinar também sobre este centenário de alguém que também “pensou e agiu para tornar o Brasil melhor”.  

            Clarice morreu jovem ainda – um dia antes de completar 57 anos – aos 09 de dezembro de 1977 no Rio de Janeiro. Nos 10 anos de sua vida – entre a data que parei de escrever minhas anotações de Literatura Brasileira (1967) e a data de sua morte (1977) – ela ainda escreveu: “A Mulher que matou os Peixes” (1969). “Uma aprendizagem ou Livro dos Prazeres” (1969). “Felicidade de Clandestina” (1971). “Água Viva” (1973). “Imitação da Rosa” (1973). “A Via crucis do Corpo” (1974). “A vida íntima de Laura” (1974). “A Hora da Estrela” (1977). Com uma Bibliografia tão vasta é impossível resumi-la em poucas palavras. No entanto ouso indicar algumas frases: “eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca”. “A grandeza do mundo me encolhe”. “O verdadeiro pensamento parece sem autor”. “A vida é oblíqua e muito íntima… Venho da dor de viver”. 

     

Mons. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz, Mestre e Doutor em Comunicação Social, Articulista, Escritor

COMENTÁRIOS RECEBIDOS:

De Lourenço Araújo Lima, de Ipueiras, residente no Rio de Janeiro

Sobre Dom Helder Câmara:  Como é bom rememorar este apóstolo da paz.
Simples e objetivo em tudo. Que a espiritualidade amiga continue ao seu lado, para que possa continuar a nos orientar.
Bom fim de semana.

sobre Celeste Vidal: Muito boa a história de Celeste. Obrigado por me fazer conhecê-la.

Sobre Dom Francisco Austregésilo:  Cada vez que ouço ou leio algo sobre D Francisco como ficou conhecido, me vem à lembrança do Pe. Osvaldo que sempre se referia a ele com respeito e muita admiração. Foram dois apóstolos de verdade. Parabéns, Mons Assis Rocha, grande abraço.

De Edilma Mendonça, de Guaraciaba do Norte, Médica, em Fortaleza:

Sobre Celeste Vidal: Interessante a trajetória de Celeste Vidal. Não a conhecia. Mais um lance de cultura na poesia.

DOM HELDER CÂMARA – UM CEARENSE A CAMINHO DOS ALTARES Série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (VIII)

Na sequência de minhas “Crônicas Semanais”, a de Nº III – sobre Dom Francisco Austregésilo – foi desdobrada em 03 partes, a critério do editor, por motivos óbvios: estava bastante longa. É claro, não é todo dia que se tem oportunidade para falar sobre Dom Francisco. Aproveitei!

Hoje, vamos recolocar em ordem: será a de Nº VIII. Na anterior, sobre Celeste Vidal, citei o “meu querido D. Helder Câmara”. É sobre ele que quero falar. Um cearense famoso, conhecido, internacionalmente, que nos deu mensagens de vida e coragem, de luta pela justiça, desafiando os poderosos da ditadura militar e das riquezas injustas, com seus pronunciamentos proféticos, dentro e fora do país. Sua “espiritualidade” era sua maior força.

Nasceu aos 07 de fevereiro de 1909, em Fortaleza e morreu em Recife aos 27 de agosto de 1999, com mais de 90 anos, bem vividos, de consagração e dedicação ao bem, à verdade e ao combate por uma sociedade justa, solidaria e de amor, preferencialmente, pelos pobres.

Teve uma vida normal de criança católica comum: batizado, crismado, primeira comunhão e entrada no Seminário em Fortaleza. Nessa ocasião, seu pai, Sr. João Câmara, guarda-livros de firmas comerciais e meio sem religião, disse-lhe uma frase que ele guardou para sempre: “meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar, se deixar devorar”…

DOM HELDER CÂMARA

Sem esquecer essa máxima, o seminarista (1923), o padre (1936), o bispo auxiliar do Rio de Janeiro (1952) e o arcebispo de Olinda e Recife (1964) pautou a sua missão dentro do Movimento Operário, dos Departamentos de Educação, da Teologia da Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base, da Renovação Conciliar, dos Encontros de Irmãos, da conscientização política, das Conferencias Episcopais, dos Conselhos e Comissões, em todos os níveis, dentro e fora do Brasil, de tal maneira que não havia uma pastoral da Igreja, um serviço eclesial, junto á Santa Sé, ou um convite internacional para palestra ou debate em qualquer Universidade ou país do mundo, que ele não estivesse presente.

Eu mesmo presenciei, em Milão, no norte da Itália, uma caminhada, com cerca de 500 mil jovens, em cujo encerramento ele desenvolveu o tema: “todo homem é o meu irmão.” E em Atenas, a Capital da Grécia – Mãe da Democracia – em um debate com vários estadistas e em diferentes línguas, eles responderam à indagação: “há possibilidade de democracia hoje”? Lá estava o nosso Dom Helder dando a sua mensagem de esperança num mundo “sem fronteiras”, mais unido e mais saudável, onde todos pudéssemos viver como irmãos.

Quantas vezes o vi e ouvi, em redes de televisão europeia – algumas entrevistas, marcadas por mim – ou se pronunciando em auditório lotado de gente, como em Castelamare di Stabia, perto de Napoli, com voz forte e corajosa opondo-se a “ditaduras de  esquerda ou de direita, como nos hediondos tempos de Stalin ou de Hitler”, com aplausos ou críticas de muitos.

Durante seu pastoreio em Olinda e Recife deu vida nova à Igreja local, aproximando-se da vida do povo. Viajava, constantemente, ao exterior, fazendo palestras em todas as partes do mundo. Recebeu 32 títulos de Doutor Honoris Causa, além de mais outros 54 prêmios e honrarias. Fez parte de mais 32 organizações nacionais e internacionais. Deixou muitos livros, originalmente, escritos em português ou em outras línguas e traduzidos pelo mundo afora. De 1970 a 1973 foi candidatíssimo ao Prêmio Nobel da Paz. A ditadura o boicotou.

É bom que a gente saiba. Àquela época foram convocados os diretores e presidentes de todas as empresas escandinavas no Brasil – Volvo, Scania Vabis, Ericson, Facit, Nokia e outras de menor porte – e lhes foi solicitado que interviessem na Fundação Nobel para evitar a concessão do “seu Prêmio” a Dom Helder Câmara Todos lamentaram não poder intervir no caso, ao que o oficial general que presidia a reunião ameaçou: “se os senhores não intervierem com firmeza e Dom Helder chegar a receber o Prêmio Nobel da Paz, então as suas empresas no Brasil não poderão remeter um centavo de lucros para as respectivas matrizes”. Tinha falado “a mão de ferro” do General Médici. O governo tinha meios para adotar tão grave atitude.

Certa vez, um repórter perguntou a Dom Helder porque, em meio a tantos limites e perseguições ele ainda tinha tanta vivacidade, fazia tantas viagens, recebia tantos títulos de doutor, tantas condecorações, tantos prêmios internos e externos, ao que ele respondeu com naturalidade e simplicidade: “para mim é muito simples compreender e viver estes acontecimentos. Em tudo isso, procuramos sentir nossa universalidade de católicos. Deus é criador e pai de todos”. Não era sem razão que este homem era aplaudido, calorosamente, em toda parte do mundo ao desenvolver os temas da fraternidade, da justiça, da não violência, do desarmamento nuclear, da democracia, ao mesmo tempo em que desafiava a ditadura militar, mostrando seus horrores, denunciando suas injustiças e ficando do lado daqueles que eram torturados, expulsos do país, exilados no exterior e, muitas vezes, mortos. Ele se indignava, batalhando na defesa deles, visitando-os no exílio, levando e trazendo notícias para suas famílias sem nenhum medo de estar traindo o evangelho ou de ser criticado por “estar fazendo política”. Ele estava, sim, unindo fé e política, como seu Mestre Jesus fazia e a sua Igreja, através da Constituição Gaudium et Spes aconselha que o façam: “com empenho se deve cuidar da educação civil e política… a fim de que todos os cidadãos possam desempenhar o seu papel na vida da comunidade política”.

Foi essa sua confiança profunda no Pai, sua fé constante no Filho, sua “espiritualidade” firme no amor e no serviço indubitável à Igreja, que o levaram, como “Servo de Deus” a um Processo de Canonização – estudado, trabalhado e apresentado em Concelebração na Catedral da Sé, da Arquidiocese de Olinda e Recife, aos 27 de agosto de 2021, quando se completaram 22 anos de sua morte – para ser encaminhado ao Vaticano – agora como “Venerável”. Estes títulos de “Servo de Deus” e “Venerável” são de âmbito arquidiocesano.

Os títulos seguintes de “Beato” e de “Santo” são da alçada do Estado do Vaticano. Tem que haver “provas” mediante “milagres”, cientificamente comprovados, ou alcançados pela Fé. Aí, o “Processo” muda de configuração.

Para completar a informação e aguçar a curiosidade de meus possíveis leitores, acrescento que – enquanto “Servo de Deus” e “Venerável” – todos estes anos foram consumidos em digitalizar e imprimir 60.520 páginas, organizadas em 07 coleções: correspondências (41 volumes); programas de rádio (33 volumes); discursos (31 volumes); cartas circulares (24 volumes); hemeroteca (publicações de jornais – 25 volumes); meditações (19 volumes) e livros (07 volumes). Demandou um longo tempo nesse levantamento material. Agora é com Roma. O que se vai fazer por lá, depende de algo sobrenatural. É provar que o Deus em quem D. Helder sempre confiou, o quer mais perto d’Ele.

MONS. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz. Mestre e Doutor em Comunicação Social

Candidato ecumênico

Texto extraído deste livro

Era ano eleitoral. A campanha política agitava a pequena e simpática Ibicuitinga, cidade do Sertão Central do Ceará. Anilton, candidato a prefeito, e eu, a vice, saímos, como fazíamos durante toda a campanha, às 5 horas da manhã, para visitar os eleitores. Levar nossas propostas. Conquistar seus votos.

− Oi de casa.

− Podem entrar. Sentem-se. Meu esposo já foi pra roça. Estou terminando de tirar o terço – disse Rita, de dentro do quarto da pequena casa.

− Tudo bem. A gente aguarda. Também sou devoto de Nossa Senhora. Inclusive, ando com meu cordão com a imagem da Virgem – respondeu Anilton apertando a medalha sobre o peito.

Logo depois, ela chegou, solícita, para nos atender.

Anilton começou sua fala. Pediu os votos do pessoal da casa. Reforcei o pedido.

Agradecemos pelo atendimento e pelos votos.

Despedimo-nos.

A próxima casa era de uma família evangélica, da Assembleia de Deus.

− Bom dia, irmão Fragoso e todos da família – cumprimentamos.

− Bom dia. Entrem. Vamos tomar café conosco.

Reunimo-nos ao redor da mesa. O dono da casa fez uma oração agradecendo a Deus pelos alimentos. Amém – respondemos em coro.

− Eu gostaria muito de ser evangélico. Admiro como vocês oram… – disse Anilton.

− Então, aceite Jesus – propôs Fragoso.

− Sim, mas não posso ser crente, porque, você sabe, a gente tem que mentir…

Eu intervi, contra-argumentando:

− Nenhuma pessoa tem que mentir, seja evangélico, católico ou até mesmo ateu.

Fragoso contornou. “Depois a gente conversa, vou levar você para um culto” – disse, dirigindo-se ao Anilton, que confirmou com a cabeça.

A próxima casa era de uma família congregada à Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Como era sábado, argumentei que seria bom que passássemos em outro dia. “Vamos até eles. Com umas palavrinhas, quem sabe, a gente agrada e ganha votos” – insistiu Anilton.

A porta estava aberta. A família do Renato Crente estava na sala, todos com a bíblia na mão.

Entramos.

Anilton desfechou:

− Bom dia, irmãos. Quero desejar-lhes um dia santo para toda a família. Contudo, já estamos passando, porque sei que hoje é sábado, e vocês estão louvando ao Senhor. Noutro dia, nós voltaremos para pedir o voto… Fiquem com Jesus.

− Sim, podem voltar, disse o Renato, muito satisfeito com as palavras do candidato.

A esposa cutucou o marido com o pé e cochichou: “Este é um bom cristão, merece nosso voto”.

As palavrinhas agradaram mesmo…

Quando saímos, perguntei:

− Anilton, tu és ou não católico?!

− Calma, Davi. Precisamos conquistar os votos, dançar conforme a música. Somos políticos ecumênicos.

Ri e mais nada comentei. Já o conhecia. Era assim mesmo – bom de lábia.

Já era quase noite. Agora iríamos visitar a família do Alan, um rico fazendeiro. Eram espíritas. No alpendre, estava também o Chico do Zezé, vaqueiro da fazenda. Mataríamos dois coelhos com uma só cajadada – assim pensávamos.

− Deixe comigo. Tenho uma oraçãozinha kardecista para facilitar a nossa solicitação – disse Anilton.

− Boa tarde. “Ao Senhor Deus onipotente suplicamos que envie, para nos assistirem, Espíritos bons. Afaste, igualmente, os Espíritos malfazejos, encarnados e desencarnados, que tentem lançar entre nós a discórdia e desviar-nos da caridade e do amor ao próximo”.

O fazendeiro e sua família ficaram absortos… E muito felizes com aquela introdução.

A partir daí, não faltaram assuntos sobre o espiritismo. A reencarnação foi discutida à exaustão. O vaqueiro ouviu tudo de boca aberta.

Saímos animados. Todos ali prometeram seus votos.

Dias depois, passei na casa do Chico do Zezé. Fiquei surpreso. Observei o retrato do candidato adversário na sua alcova. Questionei sobre aquela propaganda. Seria uma traição eleitoral – pontuei.

− Dr. Davi, não é traição. Como eu já tinha compromisso com este candidato – apontou para a foto – nesta e nas próximas eleições, deixei pra votar em vocês na próxima encarnação…

O autor DAVI HELDER VASCONCELOS, de Sobral – Ce.

Paraibana “da gema” nascida nas vizinhanças de Pernambuco Da série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor–(V) Texto de Mons. Assis Rocha.

Faz alguns dias, recebi uma “provocação” ou “desafio” de meu amigo Poeta e Mestre Dedé Monteiro – da cidade de Tabira, no interior de Pernambuco – pedindo por um grupo de poetisas, cantoras e participantes de um Conjunto Musical, intitulado de “As Severinas”, interessadíssimas em colher mais informações a respeito da “ativista” Celeste Vidal, ao tempo em que eu ainda estudava no Seminário de Olinda. Não me fiz de rogado: dei um prazo de 10 dias para mandar-lhes a resposta, no entanto não tive a paciência de esperar e me adiantei logo. Aprendi muito cedo que “não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje”.

Entendi a justificativa delas que, ‘sem estarem à frente do Projeto’ não se negariam a participar, colaborando efetivamente, para que aconteça.

Do jeito que admiramos tantas mulheres que participaram de nossa história e que ‘sonharam com um Brasil melhor’, espalhadas por todo o país – Maria da Penha, Nísia Floresta, Berta Lutz, Celina Guimarães, Pagu (Patrícia Galvão), Juliana de Faria, Anita Garibaldi, apenas para lembrar algumas – ressalto Celeste Vidal. Fui contemporâneo dela (sem nos encontrarmos) no início da década de 1960. Eu tinha meus 20 anos de idade, iniciando meu 2º ano de filosofia no Seminário de Olinda, seguido do curso de teologia da libertação, e ela – 10 anos a mais que eu – lutando pela “libertação do povo” através das “Ligas Camponesas” na zona canavieira de Pernambuco, centralizadas no Engenho Galileia, Município de Vitoria de Santo Antão. Eu me abastecendo de conhecimentos filosóficos e teológicos, além da Doutrina Social da Igreja junto a um Curso de Comunicações e de Sociologia, para levar ao meu povo, após a Ordenação Sacerdotal; e ela já praticando seus conhecimentos na luta sindical, enfrentando a Ditadura Militar e todos os seus horrores. Tu também sabes disso, Leunam.

Seguíamos caminhos diferentes, mas, cada um a seu modo, buscando libertar o povo de tantos males. Para isto, ela se embrenhou na Zona da Mata pernambucana, mais precisamente, no Engenho Galileia, município de Vitoria de Santo Antão, fazendo parte das históricas Ligas Camponesas que tinham o Deputado Francisco Julião, como mentor, acobertado pelo Governador Miguel Arrais, que se tornou “um mito” entre os camponeses.

Trazer à tona esta história, sem dúvida, é algo importantíssimo, pois nos remonta à época do deposto Presidente João Goulart, da usurpação do poder pelos militares, por 24 anos, desmantelando a nossa democracia que tem penado para se reorganizar e está cada vez mais difícil em face da “democratura” que está sendo maquiada agora. Os políticos comprometidos com o social, voltados para a organização do povo e capazes de exigirem uma reforma não têm encontrado espaço na conjuntura atual, buscando mudança. Foram-se os Brizola, Arrais, Francisco Julião, Gregório Bezerra, Padre Paulo Crespo, Celeste Vidal (coetânea de Maria da Conceição Tavares), Maria Luiza Fontenele, e tantas outras pessoas comprometidas com a fé e o social.

Os sobreviventes, como eu, confiantes na transfusão do sangue novo de vocês e de tantos outros incentivadores da Cultura Nordestina, por certo, vamos fazer a recontação desta e de outras histórias que nos favoreçam o direito de fantasiar ou imaginar o que os nossos antepassados fizeram. Retomar os “Poemas a meio pau e versos de viola” ou “Metade sol, metade sombra” de Celeste Vidal e reeditá-los, colocá-los nas mãos de leitores ávidos pelo conhecimento e abertos para reviverem uma história de luta de um passado, ainda tão perto de nós, topando até com sobreviventes, deverá ser alguma coisa de incomensurável e que nos trará uma esperança enorme de ver a história revertida, recontada, atualizada, transformada.

É a esta reversão que estamos procurando. Quando tudo parece sombra ou escuro, abre-se uma luz, semelhante a um fio de esperança, mas que nos vem iluminar, feito o sol do amanhecer que a gente tem certeza do seu clarão e do seu calor mais tarde. Era assim que Celeste Vidal antevia ou previa ao nos premiar com seus poemas. Que suas reedições proporcionem a muitos que ainda não tiveram contato com ela, uma abertura para a vida, para o direito de sonhar e de ser otimista com o futuro que ela vislumbrava em sua luta. Talvez a situação em que nos encontremos, atualmente, nos torne pessimistas ou reticentes quanto à vitória.

O meu querido D. Helder Câmara – arcebispo de Olinda e Recife, ao tempo das Ligas Camponesas – dizia: “quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”. E, parafraseando Dostoievski e Celeste Vidal, acrescentava: “quanto mais negra for a noite, mais clara é a sua aurora”.

Ficou curioso depois destas rápidas “pinceladas” sobre a Celeste? Não nos é tão conhecida aqui pelo Ceará. É uma paraibana “da gema” nascida nas vizinhanças de Pernambuco: na cidade de Água Branca, em 1929, onde fez seus estudos primários. Na sequência, procurou a cidade pernambucana mais próxima – Tabira – que lhe deu o 1º grau, mas tinha ideais mais elevados: foi a Caruaru fazer o Curso Pedagógico, interna no Instituto Católico Sagrado Coração das Irmãs Beneditinas. Formada em 1945, adquiriu muita experiência como professora e se tornou Secretária Assistente Mediadora entre os camponeses e o Governo do Estado. Era grande oradora, falava com clareza ao trabalhador rural e era reconhecida e respeitada por todos eles.

Ninguém melhor do que ela para intermediar, coordenar e unir as “Ligas Camponesas” nascentes no Governo de Miguel Arraes e Xico Julião, onde ela sempre estava na linha de frente, com muita bravura, resistindo o Golpe Militar. Era respeitadíssima como mulher, esposa, mãe, professora, nordestina e poetisa, encantando a todos com seus belos poemas. Conheça-a.

Autor: Mons. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz – Ce.