Paraibana “da gema” nascida nas vizinhanças de Pernambuco Da série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor–(V) Texto de Mons. Assis Rocha.

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Faz alguns dias, recebi uma “provocação” ou “desafio” de meu amigo Poeta e Mestre Dedé Monteiro – da cidade de Tabira, no interior de Pernambuco – pedindo por um grupo de poetisas, cantoras e participantes de um Conjunto Musical, intitulado de “As Severinas”, interessadíssimas em colher mais informações a respeito da “ativista” Celeste Vidal, ao tempo em que eu ainda estudava no Seminário de Olinda. Não me fiz de rogado: dei um prazo de 10 dias para mandar-lhes a resposta, no entanto não tive a paciência de esperar e me adiantei logo. Aprendi muito cedo que “não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje”.

Entendi a justificativa delas que, ‘sem estarem à frente do Projeto’ não se negariam a participar, colaborando efetivamente, para que aconteça.

Do jeito que admiramos tantas mulheres que participaram de nossa história e que ‘sonharam com um Brasil melhor’, espalhadas por todo o país – Maria da Penha, Nísia Floresta, Berta Lutz, Celina Guimarães, Pagu (Patrícia Galvão), Juliana de Faria, Anita Garibaldi, apenas para lembrar algumas – ressalto Celeste Vidal. Fui contemporâneo dela (sem nos encontrarmos) no início da década de 1960. Eu tinha meus 20 anos de idade, iniciando meu 2º ano de filosofia no Seminário de Olinda, seguido do curso de teologia da libertação, e ela – 10 anos a mais que eu – lutando pela “libertação do povo” através das “Ligas Camponesas” na zona canavieira de Pernambuco, centralizadas no Engenho Galileia, Município de Vitoria de Santo Antão. Eu me abastecendo de conhecimentos filosóficos e teológicos, além da Doutrina Social da Igreja junto a um Curso de Comunicações e de Sociologia, para levar ao meu povo, após a Ordenação Sacerdotal; e ela já praticando seus conhecimentos na luta sindical, enfrentando a Ditadura Militar e todos os seus horrores. Tu também sabes disso, Leunam.

Seguíamos caminhos diferentes, mas, cada um a seu modo, buscando libertar o povo de tantos males. Para isto, ela se embrenhou na Zona da Mata pernambucana, mais precisamente, no Engenho Galileia, município de Vitoria de Santo Antão, fazendo parte das históricas Ligas Camponesas que tinham o Deputado Francisco Julião, como mentor, acobertado pelo Governador Miguel Arrais, que se tornou “um mito” entre os camponeses.

Trazer à tona esta história, sem dúvida, é algo importantíssimo, pois nos remonta à época do deposto Presidente João Goulart, da usurpação do poder pelos militares, por 24 anos, desmantelando a nossa democracia que tem penado para se reorganizar e está cada vez mais difícil em face da “democratura” que está sendo maquiada agora. Os políticos comprometidos com o social, voltados para a organização do povo e capazes de exigirem uma reforma não têm encontrado espaço na conjuntura atual, buscando mudança. Foram-se os Brizola, Arrais, Francisco Julião, Gregório Bezerra, Padre Paulo Crespo, Celeste Vidal (coetânea de Maria da Conceição Tavares), Maria Luiza Fontenele, e tantas outras pessoas comprometidas com a fé e o social.

Os sobreviventes, como eu, confiantes na transfusão do sangue novo de vocês e de tantos outros incentivadores da Cultura Nordestina, por certo, vamos fazer a recontação desta e de outras histórias que nos favoreçam o direito de fantasiar ou imaginar o que os nossos antepassados fizeram. Retomar os “Poemas a meio pau e versos de viola” ou “Metade sol, metade sombra” de Celeste Vidal e reeditá-los, colocá-los nas mãos de leitores ávidos pelo conhecimento e abertos para reviverem uma história de luta de um passado, ainda tão perto de nós, topando até com sobreviventes, deverá ser alguma coisa de incomensurável e que nos trará uma esperança enorme de ver a história revertida, recontada, atualizada, transformada.

É a esta reversão que estamos procurando. Quando tudo parece sombra ou escuro, abre-se uma luz, semelhante a um fio de esperança, mas que nos vem iluminar, feito o sol do amanhecer que a gente tem certeza do seu clarão e do seu calor mais tarde. Era assim que Celeste Vidal antevia ou previa ao nos premiar com seus poemas. Que suas reedições proporcionem a muitos que ainda não tiveram contato com ela, uma abertura para a vida, para o direito de sonhar e de ser otimista com o futuro que ela vislumbrava em sua luta. Talvez a situação em que nos encontremos, atualmente, nos torne pessimistas ou reticentes quanto à vitória.

O meu querido D. Helder Câmara – arcebispo de Olinda e Recife, ao tempo das Ligas Camponesas – dizia: “quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”. E, parafraseando Dostoievski e Celeste Vidal, acrescentava: “quanto mais negra for a noite, mais clara é a sua aurora”.

Ficou curioso depois destas rápidas “pinceladas” sobre a Celeste? Não nos é tão conhecida aqui pelo Ceará. É uma paraibana “da gema” nascida nas vizinhanças de Pernambuco: na cidade de Água Branca, em 1929, onde fez seus estudos primários. Na sequência, procurou a cidade pernambucana mais próxima – Tabira – que lhe deu o 1º grau, mas tinha ideais mais elevados: foi a Caruaru fazer o Curso Pedagógico, interna no Instituto Católico Sagrado Coração das Irmãs Beneditinas. Formada em 1945, adquiriu muita experiência como professora e se tornou Secretária Assistente Mediadora entre os camponeses e o Governo do Estado. Era grande oradora, falava com clareza ao trabalhador rural e era reconhecida e respeitada por todos eles.

Ninguém melhor do que ela para intermediar, coordenar e unir as “Ligas Camponesas” nascentes no Governo de Miguel Arraes e Xico Julião, onde ela sempre estava na linha de frente, com muita bravura, resistindo o Golpe Militar. Era respeitadíssima como mulher, esposa, mãe, professora, nordestina e poetisa, encantando a todos com seus belos poemas. Conheça-a.

Autor: Mons. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz – Ce.

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