Candidato ecumênico

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Texto extraído deste livro

Era ano eleitoral. A campanha política agitava a pequena e simpática Ibicuitinga, cidade do Sertão Central do Ceará. Anilton, candidato a prefeito, e eu, a vice, saímos, como fazíamos durante toda a campanha, às 5 horas da manhã, para visitar os eleitores. Levar nossas propostas. Conquistar seus votos.

− Oi de casa.

− Podem entrar. Sentem-se. Meu esposo já foi pra roça. Estou terminando de tirar o terço – disse Rita, de dentro do quarto da pequena casa.

− Tudo bem. A gente aguarda. Também sou devoto de Nossa Senhora. Inclusive, ando com meu cordão com a imagem da Virgem – respondeu Anilton apertando a medalha sobre o peito.

Logo depois, ela chegou, solícita, para nos atender.

Anilton começou sua fala. Pediu os votos do pessoal da casa. Reforcei o pedido.

Agradecemos pelo atendimento e pelos votos.

Despedimo-nos.

A próxima casa era de uma família evangélica, da Assembleia de Deus.

− Bom dia, irmão Fragoso e todos da família – cumprimentamos.

− Bom dia. Entrem. Vamos tomar café conosco.

Reunimo-nos ao redor da mesa. O dono da casa fez uma oração agradecendo a Deus pelos alimentos. Amém – respondemos em coro.

− Eu gostaria muito de ser evangélico. Admiro como vocês oram… – disse Anilton.

− Então, aceite Jesus – propôs Fragoso.

− Sim, mas não posso ser crente, porque, você sabe, a gente tem que mentir…

Eu intervi, contra-argumentando:

− Nenhuma pessoa tem que mentir, seja evangélico, católico ou até mesmo ateu.

Fragoso contornou. “Depois a gente conversa, vou levar você para um culto” – disse, dirigindo-se ao Anilton, que confirmou com a cabeça.

A próxima casa era de uma família congregada à Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Como era sábado, argumentei que seria bom que passássemos em outro dia. “Vamos até eles. Com umas palavrinhas, quem sabe, a gente agrada e ganha votos” – insistiu Anilton.

A porta estava aberta. A família do Renato Crente estava na sala, todos com a bíblia na mão.

Entramos.

Anilton desfechou:

− Bom dia, irmãos. Quero desejar-lhes um dia santo para toda a família. Contudo, já estamos passando, porque sei que hoje é sábado, e vocês estão louvando ao Senhor. Noutro dia, nós voltaremos para pedir o voto… Fiquem com Jesus.

− Sim, podem voltar, disse o Renato, muito satisfeito com as palavras do candidato.

A esposa cutucou o marido com o pé e cochichou: “Este é um bom cristão, merece nosso voto”.

As palavrinhas agradaram mesmo…

Quando saímos, perguntei:

− Anilton, tu és ou não católico?!

− Calma, Davi. Precisamos conquistar os votos, dançar conforme a música. Somos políticos ecumênicos.

Ri e mais nada comentei. Já o conhecia. Era assim mesmo – bom de lábia.

Já era quase noite. Agora iríamos visitar a família do Alan, um rico fazendeiro. Eram espíritas. No alpendre, estava também o Chico do Zezé, vaqueiro da fazenda. Mataríamos dois coelhos com uma só cajadada – assim pensávamos.

− Deixe comigo. Tenho uma oraçãozinha kardecista para facilitar a nossa solicitação – disse Anilton.

− Boa tarde. “Ao Senhor Deus onipotente suplicamos que envie, para nos assistirem, Espíritos bons. Afaste, igualmente, os Espíritos malfazejos, encarnados e desencarnados, que tentem lançar entre nós a discórdia e desviar-nos da caridade e do amor ao próximo”.

O fazendeiro e sua família ficaram absortos… E muito felizes com aquela introdução.

A partir daí, não faltaram assuntos sobre o espiritismo. A reencarnação foi discutida à exaustão. O vaqueiro ouviu tudo de boca aberta.

Saímos animados. Todos ali prometeram seus votos.

Dias depois, passei na casa do Chico do Zezé. Fiquei surpreso. Observei o retrato do candidato adversário na sua alcova. Questionei sobre aquela propaganda. Seria uma traição eleitoral – pontuei.

− Dr. Davi, não é traição. Como eu já tinha compromisso com este candidato – apontou para a foto – nesta e nas próximas eleições, deixei pra votar em vocês na próxima encarnação…

O autor DAVI HELDER VASCONCELOS, de Sobral – Ce.

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