DOM HELDER CÂMARA – UM CEARENSE A CAMINHO DOS ALTARES Série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (VIII)

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Na sequência de minhas “Crônicas Semanais”, a de Nº III – sobre Dom Francisco Austregésilo – foi desdobrada em 03 partes, a critério do editor, por motivos óbvios: estava bastante longa. É claro, não é todo dia que se tem oportunidade para falar sobre Dom Francisco. Aproveitei!

Hoje, vamos recolocar em ordem: será a de Nº VIII. Na anterior, sobre Celeste Vidal, citei o “meu querido D. Helder Câmara”. É sobre ele que quero falar. Um cearense famoso, conhecido, internacionalmente, que nos deu mensagens de vida e coragem, de luta pela justiça, desafiando os poderosos da ditadura militar e das riquezas injustas, com seus pronunciamentos proféticos, dentro e fora do país. Sua “espiritualidade” era sua maior força.

Nasceu aos 07 de fevereiro de 1909, em Fortaleza e morreu em Recife aos 27 de agosto de 1999, com mais de 90 anos, bem vividos, de consagração e dedicação ao bem, à verdade e ao combate por uma sociedade justa, solidaria e de amor, preferencialmente, pelos pobres.

Teve uma vida normal de criança católica comum: batizado, crismado, primeira comunhão e entrada no Seminário em Fortaleza. Nessa ocasião, seu pai, Sr. João Câmara, guarda-livros de firmas comerciais e meio sem religião, disse-lhe uma frase que ele guardou para sempre: “meu filho, você sabe o que é ser padre? Padre e egoísmo nunca podem andar juntos. O padre tem que se gastar, se deixar devorar”…

DOM HELDER CÂMARA

Sem esquecer essa máxima, o seminarista (1923), o padre (1936), o bispo auxiliar do Rio de Janeiro (1952) e o arcebispo de Olinda e Recife (1964) pautou a sua missão dentro do Movimento Operário, dos Departamentos de Educação, da Teologia da Libertação, das Comunidades Eclesiais de Base, da Renovação Conciliar, dos Encontros de Irmãos, da conscientização política, das Conferencias Episcopais, dos Conselhos e Comissões, em todos os níveis, dentro e fora do Brasil, de tal maneira que não havia uma pastoral da Igreja, um serviço eclesial, junto á Santa Sé, ou um convite internacional para palestra ou debate em qualquer Universidade ou país do mundo, que ele não estivesse presente.

Eu mesmo presenciei, em Milão, no norte da Itália, uma caminhada, com cerca de 500 mil jovens, em cujo encerramento ele desenvolveu o tema: “todo homem é o meu irmão.” E em Atenas, a Capital da Grécia – Mãe da Democracia – em um debate com vários estadistas e em diferentes línguas, eles responderam à indagação: “há possibilidade de democracia hoje”? Lá estava o nosso Dom Helder dando a sua mensagem de esperança num mundo “sem fronteiras”, mais unido e mais saudável, onde todos pudéssemos viver como irmãos.

Quantas vezes o vi e ouvi, em redes de televisão europeia – algumas entrevistas, marcadas por mim – ou se pronunciando em auditório lotado de gente, como em Castelamare di Stabia, perto de Napoli, com voz forte e corajosa opondo-se a “ditaduras de  esquerda ou de direita, como nos hediondos tempos de Stalin ou de Hitler”, com aplausos ou críticas de muitos.

Durante seu pastoreio em Olinda e Recife deu vida nova à Igreja local, aproximando-se da vida do povo. Viajava, constantemente, ao exterior, fazendo palestras em todas as partes do mundo. Recebeu 32 títulos de Doutor Honoris Causa, além de mais outros 54 prêmios e honrarias. Fez parte de mais 32 organizações nacionais e internacionais. Deixou muitos livros, originalmente, escritos em português ou em outras línguas e traduzidos pelo mundo afora. De 1970 a 1973 foi candidatíssimo ao Prêmio Nobel da Paz. A ditadura o boicotou.

É bom que a gente saiba. Àquela época foram convocados os diretores e presidentes de todas as empresas escandinavas no Brasil – Volvo, Scania Vabis, Ericson, Facit, Nokia e outras de menor porte – e lhes foi solicitado que interviessem na Fundação Nobel para evitar a concessão do “seu Prêmio” a Dom Helder Câmara Todos lamentaram não poder intervir no caso, ao que o oficial general que presidia a reunião ameaçou: “se os senhores não intervierem com firmeza e Dom Helder chegar a receber o Prêmio Nobel da Paz, então as suas empresas no Brasil não poderão remeter um centavo de lucros para as respectivas matrizes”. Tinha falado “a mão de ferro” do General Médici. O governo tinha meios para adotar tão grave atitude.

Certa vez, um repórter perguntou a Dom Helder porque, em meio a tantos limites e perseguições ele ainda tinha tanta vivacidade, fazia tantas viagens, recebia tantos títulos de doutor, tantas condecorações, tantos prêmios internos e externos, ao que ele respondeu com naturalidade e simplicidade: “para mim é muito simples compreender e viver estes acontecimentos. Em tudo isso, procuramos sentir nossa universalidade de católicos. Deus é criador e pai de todos”. Não era sem razão que este homem era aplaudido, calorosamente, em toda parte do mundo ao desenvolver os temas da fraternidade, da justiça, da não violência, do desarmamento nuclear, da democracia, ao mesmo tempo em que desafiava a ditadura militar, mostrando seus horrores, denunciando suas injustiças e ficando do lado daqueles que eram torturados, expulsos do país, exilados no exterior e, muitas vezes, mortos. Ele se indignava, batalhando na defesa deles, visitando-os no exílio, levando e trazendo notícias para suas famílias sem nenhum medo de estar traindo o evangelho ou de ser criticado por “estar fazendo política”. Ele estava, sim, unindo fé e política, como seu Mestre Jesus fazia e a sua Igreja, através da Constituição Gaudium et Spes aconselha que o façam: “com empenho se deve cuidar da educação civil e política… a fim de que todos os cidadãos possam desempenhar o seu papel na vida da comunidade política”.

Foi essa sua confiança profunda no Pai, sua fé constante no Filho, sua “espiritualidade” firme no amor e no serviço indubitável à Igreja, que o levaram, como “Servo de Deus” a um Processo de Canonização – estudado, trabalhado e apresentado em Concelebração na Catedral da Sé, da Arquidiocese de Olinda e Recife, aos 27 de agosto de 2021, quando se completaram 22 anos de sua morte – para ser encaminhado ao Vaticano – agora como “Venerável”. Estes títulos de “Servo de Deus” e “Venerável” são de âmbito arquidiocesano.

Os títulos seguintes de “Beato” e de “Santo” são da alçada do Estado do Vaticano. Tem que haver “provas” mediante “milagres”, cientificamente comprovados, ou alcançados pela Fé. Aí, o “Processo” muda de configuração.

Para completar a informação e aguçar a curiosidade de meus possíveis leitores, acrescento que – enquanto “Servo de Deus” e “Venerável” – todos estes anos foram consumidos em digitalizar e imprimir 60.520 páginas, organizadas em 07 coleções: correspondências (41 volumes); programas de rádio (33 volumes); discursos (31 volumes); cartas circulares (24 volumes); hemeroteca (publicações de jornais – 25 volumes); meditações (19 volumes) e livros (07 volumes). Demandou um longo tempo nesse levantamento material. Agora é com Roma. O que se vai fazer por lá, depende de algo sobrenatural. É provar que o Deus em quem D. Helder sempre confiou, o quer mais perto d’Ele.

MONS. ASSIS ROCHA, de Bela Cruz. Mestre e Doutor em Comunicação Social

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