A FOME era a verdade pura, denunciada e comprovada por Josué de Castro

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Da Série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (XI)– Texto escrito pelo Mons. ASSIS ROCHA

Mantendo a linha de reflexão que tenho dado nestes 10 últimos artigos, vem-me à mente – Josué de Castro – um contemporâneo dos demais, que também influenciou em minha vida, sobretudo no contato que tive com a sua obra, através das minhas atividades pastorais, voltadas para o social, ao tempo em que convivi na Zona Canavieira de Pernambuco, na Paróquia de Amaraji.

Nasceu em Recife aos 05 de setembro de 1908 onde viveu, estudou e fez vestibular para Medicina na Universidade da Bahia, graduando-se no Rio de Janeiro em 1929. Ao se formar, retorna ao Recife e é convidado a trabalhar na Secretaria de Educação do Estado com Sílvio Rebelo, Gilberto Freire, Olívio Montenegro, integrando a equipe do novo governador José Maria Belo.

Nenhum assumiu por causa da Revolução de 1930 e isto mudou a sorte de Josué de Castro. Começou a clinicar em Recife, a trabalhar como médico em uma grande fábrica que, em 1932, o levam a realizar um Inquérito sobre as condições de vida das classes operárias no Recife.

            Isto o fez mostrar a que veio. Casou-se com Dona Glauce Rego Pinto, companheira pra toda vida, cúmplice, parceira e guardiã de seus escritos. Com ela teve 03 filhos. Prestou concurso para o cargo de Professor Titular em Geografia Humana da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, defendendo a Tese: “Fatores da localização da Cidade do Recife”.

            Mesmo longe, não esqueceu suas origens. No Rio, clinicava, lecionava, estudava e pesquisava, passando a ter atuação destacada em políticas públicas: nos movimentos em prol da criação de um salário-mínimo justo; na fundação dos Arquivos Brasileiros de Nutrição sob o comando do Serviço Técnico de Alimentação Nacional, em parceria com a Nutrition Foundation of New York; na fundação da Sociedade Brasileira de Alimentação, tudo em conexão com o Serviço de Alimentação da Previdência Social – SAPS – criado pelo Ministério do Trabalho. Sua ação foi tão eficaz em âmbito nacional que repercutiu entre os “Hermanos Argentinos” que o convidaram para estudar e implantar algo semelhante ao que fazia no Brasil, quanto à alimentação e nutrição, e isto se espalhou pelo México, República Dominicana e EEUU.

            De 1943 a 1954 centrava seus esforços aqui no Brasil, como: Professor Catedrático da cadeira de Nutrição do Curso de Sanitaristas do Departamento Nacional de Saúde enquanto dirigia o Serviço Técnico de Alimentação Nacional e se desdobrava na assessoria que ia prestando a países que o convidavam.

Com tantas atividades dentro e fora do Brasil, ainda foi eleito Presidente do Conselho Executivo da FAO e reeleito, por unanimidade, para mais um mandato. Naquela época, enquanto vivia na Europa, ainda despertou interesses em cineastas do neorrealismo italiano, que se motivaram e realizaram o filme “O Drama das Secas”, baseados em sua “Geografia da Fome” e “Geopolítica da Fome”.

Josué de Castro era o gênio que“tocava todos os instrumentos”. Com a facilidade que tinha de comunicação, com os livros que ia escrevendo, abordando a vida real do povo, não precisou nem de “campanha política” para se eleger e reeleger-se deputado federal por dois mandatos pelo seu Estado de Pernambuco. Não precisava de propaganda melhor do que sua obra escrita (mais de 100 livros) e sua prática profissional como já aventamos neste texto.

            Quando estudei no Seminário de Olinda – na 1ª metade da década de 1960 – nas aulas de sociologia do Pe. Almery Bezerra ou nas aulas de filosofia dos professores Newton Sucupira e Zeferino Rocha ou nas de Economia do Professor Vamireh Chacon, fui orientado pastoralmente pelo Pe. Paulo Crespo.

            Éramos seminaristas, provenientes do norte/nordeste, cheios do espírito renovador do Concílio Vaticano II e ansiosos pela atualização dos currículos que o Seminário Regional do Nordeste nos estava oferecendo. Tínhamos uma competente equipe de direção e o braço forte de D. Carlos Coelho, sucedido pelo “profetismo” de D. Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife.

            Acompanhávamos toda a efervescência política de Pernambuco e sua consequente ação social, bem como a evolução do pensamento ideológico que ia norteando “aqueles que sonhavam com um Brasil melhor”. Entre os muitos que já lembramos e ainda vamos lembrar, hoje trago Josué de Castro.

            Nossos professores citavam suas obras e nos estimulavam a conhecer algumas, pelo menos, as mais importantes. Falavam-nos de suas pesquisas, por exemplo, “Sobre as Condições de Vida das Classes Operárias no Recife” ou sobre o “O Nanismo a que estavam ameaçados os Trabalhadores Rurais da Zona da Mata” em Pernambuco, Alagoas e Paraíba. Eram gerados na fome, subalimentados com fome e desnutridos pela fome. Que estatura poderiam ter?

            Eu me tornei Padre em 1968. Josué de Castro ainda era vivo, exercendo a função de embaixador do Brasil na ONU, desde 1962. Com o golpe militar em 1964, ele foi destituído do cargo de embaixador-chefe em Genebra, teve seus direitos políticos cassados por 10 anos e foi impedido de voltar ao Brasil. Ficou exilado na França. Como seus valores pessoais eram muito maiores do que o cargo que ocupava, ele permaneceu em Paris, exercendo suas atividades intelectuais. Fundou em 1965 e dirigiu até 1973, o Centro Internacional para o Desenvolvimento, tornou-se Presidente da Associação Médica Internacional para o Desenvolvimento, além de ser também Presidente da Associação Médica Internacional para o Estudo das Condições de Vida e Saúde. Como se não bastasse, em 1969, o Governo Francês o designou Professor Estrangeiro associado ao Centro Universitário de Vincennes (setor VIII) da Universidade de Paris, onde trabalhou até sua morte/de saudade/ aos 24 de setembro de 1973.

Como eu disse acima, no 1º parágrafo, ‘ao tempo em que convivi na Zona Canavieira de Pernambuco, na Paróquia de Amaraji’ é porque eu tive a felicidade de trabalhar naquela área, quando eu tinha 10 anos de sacerdócio.

Iniciei meu ministério em Afogados da Ingazeira – de 1968 a 1973 – fui pra Roma, estudar um pouco e, quando retornei, assumi a direção de uma Escola Polivalente em Paratibe, no grande Recife, quando me decidi – em 1978 – a abandonar tudo e trabalhar na Arquidiocese, que me ofereceu como missão pastoral, a Paróquia de Amaraji, onde fiquei até 1983. Foi muito bom!

Experimentei de perto, ao vivo, convivendo com aquela realidade, no meio de Engenhos e dentro da Usina Bonfim, o que Josué de Castro já falara sobre a sucessão de gerações “nanicas”. Na Missa da Criança, comparávamos o físico de um menino nutrido, bem-criado e alimentado, com um menino da mesma idade, desnutrido, faminto, gerado já nessa situação. Era a verdade pura, denunciada e comprovada por Josué de Castro e ensinada no Seminário.

É claro que o proprietário de 20.000 hectares de terra, toda cheia de cana de açúcar, não gostava da denúncia que fazíamos, pela imprensa, com exemplos concretos e com dados fornecidos pela FEBEM Local. A melhor oposição ao trabalho da Igreja era de desmoralização dos seus padres e leigos conscientes da sua missão ou de apelidá-los de comunistas como, infelizmente ainda se faz hoje. Ah! Josué de Castro! Você foi vítima de um sistema podre que o matou de saudades. Mas o que um agricultor me dizia lá, ainda é verdade: “vou morrer como nasci: nu e com fome”. Nunca o esqueci.

Mons. ASSIS ROCHA -Sacerdote aposentado, Mestre e Doutor em Comunicação Social, residente em Bela Cruz – Ce.

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