NOSSAS AÇÕES DE APOIO AOS EXILADOS, NA DITADURA, COM DOM HELDER CÂMARA – Da Série Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (XIV)

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Este meu contato semanal através do site “professorcomprazer.com” sob a responsabilidade do Professor Leunam, me tem feito conectar com vários amigos e colegas, de há muito afastados: física, geográfica e emocionalmente, que me têm dado um prazer imenso no “reencontro”. Se não são “pensadores históricos” como os que já tenho abordado, são “sonhadores contemporâneos”, vivos como eu, coetâneos a mim, que participamos dos últimos acontecimentos nacionais e mundiais, que transtornaram a nossa história.

            Quando estudante em Roma, no início da década de 1970, recebi ou embarquei Dom Helder Câmara no Aeroporto Fiumicino – de Roma – em suas constantes idas e vindas à Europa para “missões internacionais” em que ele dava tempo para se encontrar com “refugiados políticos brasileiros”, expulsos daqui pela ditadura militar. Além de levar-lhes notícias de suas famílias, trazia correspondências para serem entregues a elas.

DOM HELDER CÂMARA

Dom Helder tinha suas equipes de “minorias abraâmicas” pela Europa que traduziam seus discursos do português para as línguas dos países onde ele iria falar. Toda a equipe falava suas próprias línguas e sabia português. Era através dela – que se conectava com a anistia internacional – que ele agendava esses encontros fraternais. Foi por essas vias, que eu também, com meu colega, Pe. Zémaria mantivemos um bom contato com brasileiros, nossos irmãos, que estavam exilados.  Empreendíamos qualquer esforço possível para irmos à Holanda, Alemanha, França, Inglaterra, Roma e interior da Itália para encontrar-nos com eles e falarmos da saudade, das esperanças que ficaram pra trás, do que faríamos se retornássemos, enfim, eram encontros de muito diálogo, muito incentivo e coragem para não desistirmos da luta. Nós dois não éramos refugiados. Estávamos em Roma por motivos de estudo, com retorno garantido no seu final. Pela nossa opção pastoral, nossos compromissos com a Igreja do Vaticano II e pelo apoio que tínhamos de nossos bispos diocesanos, nossos contatos com todos eram realizados com o maior dos prazeres.

            Sempre o fazíamos no Tempo do Natal: 1973, em Paris, com uns 15 brasileiros, “tronchos” de saudade. Tornei-me amigo de um ateu, que tinha sido preso político e se estava doutorando na Sorbone. Fiz-lhe o casamento, batizei seus dois filhos e somos amigos até hoje, inclusive participando de minhas bodas sacerdotais. Meu colega, Pe. Zémaria estava presente.

            Em 1974 fomos passar o Natal em Grenoble, no sul da França, na casa de uma família “parabucana”, isto é, de Pedra de Fogo-Itambé situada bem no limite entre os dois estados: metade Paraíba, metade Pernambuco, cada lado com o seu nome: Pedra de Fogo/Itambé. Era o casal e duas filhinhas lindas. Os dois padres, mais uma vez, estávamos presentes, junto a um grupo maior de refugiados políticos: uns 25. 

            Em 1975, outro Natal maravilhoso. Dessa vez, na Alemanha. Estávamos lá, com um bom grupo de exilados brasileiros, inclusive com um casal alemão da Anistia Internacional, seguindo o mesmo esquema dos encontros anteriores.

            Porque no Natal? Porque nos países onde os brasileiros eram exilados havia o recesso natalino. Todos podiam participar, viajando para o local, até ajudando àquele ou àquela que não podia pagar o transporte. Sem serem todos cristãos, sabiam repartir: eram “companheiros”. E, para nós padres, era uma excelente oportunidade de marcar o nosso próprio natal, servindo a todos: com desconfiança, no início, mas se acostumando com nosso entrosamento.

            Todos demonstravam uma saudade enorme da família e do Brasil.

            Chegávamos ao local do encontro. Os que já se conheciam faziam aquela algazarra de sempre, abraços e beijos e deixavam de lado suas mochilas, sentindo-se em casa, sem muita procura por agasalho melhor. De olho no tapete, a gente já ia marcando lugar: pra se acomodar e até pra dormir.

            Púnhamos em dia as notícias da terrinha distante, sobretudo da política reinante. Os padres, tínhamos sido convidados pelo anfitrião de quem éramos conhecidos; sempre chegávamos por primeiro, de modo que, quando os desconhecidos chegavam, comentavam: “soube até que vêm uns padres aí, não sei porque. Não irão atrapalhar-nos?”. A essa altura estávamos entrosados e felizes pelo natal que iríamos passar. Víamos logo a partilha de todos. Além do dinheiro que ajudavam com as passagens, traziam um pouco de alimentos não perecíveis que eram colocados na cozinha para o consumo de todos. Era a prática dos antigos cristãos dos Atos dos Apóstolos: ‘punham tudo em comum’.

            Chegados, acomodados e entrosados uns com os outros e com a casa, íamos começando a nossa celebração do Natal: sem tempo para terminar, sem roteiro pré-estabelecido, sem esquemas intelectualizados e sem comando de uns sobre os outros. Entrávamos pela noite adentro. Em qualquer dos países da Europa em que nos encontrávamos, ouvíamos, à meia noite, as alegrias manifestadas ao modo europeu pela passagem do natal. Sabíamos que àquela hora não era a meia noite no Brasil. Faltavam ainda 04 horas. Iríamos aguardar a meia noite brasileira. Faltava bastante tempo para continuarmos nossos bate-papos, ingerindo a “caipirinha” feita de cachaça com limão, com tira-gosto de “paçoca”, tudo procedente do Brasil, de tal modo que, às 04 da manhã na Europa, meia noite no Brasil, todos estávamos mais saudosos do que embriagados. Ficávamos de pé, cantávamos o Hino Nacional Brasileiro, chorando, abraçados, unidos às alegrias de nossos familiares que, aqui, viviam o Natal, morrendo de saudades de nós que lá nos encontrávamos. E, diga-se de passagem, àquela época não tínhamos como nos comunicar nem sequer, por telefone, para ouvir alguém falando a nossa linguagem de amor.

            É isto que me está vindo à mente nesta Noite de Natal. Foi assim que o comemoramos, tantas vezes, no “exílio” por conta da ditadura. A desconfiança que os irmãos refugiados tinham de nós padres, antes de nos conhecerem, era a mesma que tínhamos de qualquer brasileiro que encontrássemos no metrô, num museu, na Praça de São Pedro, nos Champs-Elysées, na Piazza Navona ou no Areópago ou em outro logradouro público de que nos aproximássemos. Podíamos encontrar um brasileiro, espião, a serviço da ditadura.

            Nestes próximos 02-04 anos vão-se completar 50 anos de nossos natais sofridos, saudosos, solidários e, paradoxalmente, cristãos. Muitos já se foram, inclusive o meu irmão Padre Zémaria. Outros estamos à deriva, por mares nunca dantes navegados. Perdemos o contato. Com um casal de mineiros que tinha ido de carro: Paris – Grenoble viajei para a Itália. Dormimos em Bolonha, passamos por Pietrelcina, terra de Frei Pio e fomos pra Roma onde eu morava. Pena que não sei mais, nem os nomes do gentil casal e se vivem ainda.

            Se, por milagre deste Natal, alguém me lê, reencontra-me por este ‘site’ e se interessa num reencontro pessoal, terei imenso prazer que isto aconteça. O meu tempo já está em contagem regressiva: estou com 81 anos. Com um pouco de boa vontade, ainda dá pra gente se ver… E vai ser muito bom!

            Que os nossos natais do modo que celebramos, as nossas lágrimas e emoções de outrora nos tenham treinado para vivermos agora o Verdadeiro Natal.

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