O DOM QUE VIVE EM NÓS. Li e gostei, imensamente!

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Série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (XVI)

Em meu comentário semanal, na véspera do Natal, eu dizia da minha esperança em “reencontrar amigos e colegas de há muito, afastados: física, geográfica e emocionalmente”, acrescentando que eles, “se não fossem pensadores históricos, como os que já tenho abordado, são sonhadores contemporâneos, vivos como eu, coetâneos a mim, que participamos dos últimos acontecimentos nacionais e mundiais, que mudaram a nossa história”.

            Deixei escrito para o site: professorcomprazer.com divulgar/ e viajei para o Recife a fim de encontrar amigos, ter um Natal de muita paz e felicidade e aumentar a saudade de todos; como digo: “saudade não se mata; aumenta-se”.

            Hospedei-me, como sempre, no “Lar Sacerdotal” onde encontro colegas, que passam, como eu, ou que vivem lá, permanentemente, como aposentados ou por tratamento de saúde, ou ainda por motivo de estudos. É um ambiente muito fraternal. Reencontrei, como em vezes anteriores, o Padre Edson, da Diocese de Pesqueira, ainda fazendo sua dolorosa hemodiálise, no aguardo de um transplante e ele me foi oferecendo para ler, enquanto lá pousava, um livro super atraente e de muito interesse de minha parte, intitulado: O Dom que vive em nós de autoria do Dr. Pedro Eurico.

            Além de ser um livro sobre Dom Helder Câmara – com 492 páginas, recheadas de escritos, fotografias, depoimentos e muito conteúdo profético do Dom – tem o testemunho afetuoso, respeitoso, amoroso mesmo, do próprio autor que iniciou sua carreira de advogado na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Olinda e Recife, a convite do próprio Dom Helder, na defesa de presos políticos, moradores de ocupações de terra, de gritantes injustiças institucionalizadas e dos direitos humanos, tudo em sintonia com as ideias e as atitudes defendidas pelo Dom.

Um livro empolgante!

Durante a semana que parei no Recife dividi bem meu tempo entre visitas a amigos e recebendo outros no Lar Sacerdotal. Li, sofregamente, nas horas livres, todo o conteúdo literário, organizado pelo Dr. Pedro Eurico, para aproveitar melhor toda a temática da obra que eu tinha em mãos: 445 páginas de leitura e umas 50 para contemplar as fotografias. Que maravilha!

            Entre os 23 entrevistados havia alguns nomes de pessoas que eu não conhecia, embora tivesse ouvido falar nelas. Mas, encontrei alguns não só, ligados a mim, pela amizade, como me senti feliz por vê-los em sintonia com o que aprendi e até vivenciei, pessoalmente, ao lado do Dom. Foi assim em Amaraji e Primavera, onde fui pároco. Também em Afogados da Ingazeira e Serra Talhada para participar de solenidades e palestras, a convite de Dom Francisco; e de 1973 a 1976, quando estudei em Roma, recebendo-o no aeroporto ou embarcando-o de volta depois de proferir palestras, ou dar entrevistas em canais de televisão, ou encontrar-se com suas equipes de “minorias abraâmicas” ou com grupos de refugiados políticos brasileiros na época de chumbo da ditadura militar aqui no Brasil. Dom Helder lhes levava mensagens de suas famílias e trazia, de volta, correspondências para elas.

            Gostei muito de todos os depoimentos, sobretudo daqueles que eu conhecia o depoente. Até tentei conseguir algum contato telefônico para estes a fim de comentar o que eles disseram e o carinho e destemor do próprio Pedro Eurico na condução da mensagem que ele queria passar.

Se eu pudesse, entraria em contato com Leda Alves, Padres Reginaldo Veloso, Ernane Pinheiro e Vito Miracapillo; com Dom Sebastião Armando, biblista, meu colega de seminário, em Olinda, como também Abdalaziz Moura.

E você, João Bosco Gomes, tanto que me ajudou quando eu estava em Amaraji e na Diocese de Afogados da Ingazeira! Que pena! Perdi seu contato! Mas, pelo seu depoimento, parabéns!

Graças a Deus, reatei-o com Pedro Eurico. Tenho recordado duros momentos que presenciei: em Ribeirão, nas escaramuças de Donos de Engenhos que invadiram a Matriz, em plena celebração da Missa, exigindo a expulsão do Padre Vito, de Ribeirão e do Brasil. Infelizmente, conseguiram.

Numa periferia, em ocupação de terra, junto a moradores indefesos, o Dr. Pedro Eurico – enfrentando um trator que teimava em derrubar as casas e, na iminência de atropelá-lo – resistia diante do Dom, de Padre Edvaldo, Luciano Bezerra (um acadêmico de direito, estagiário na Comissão de Justiça e Paz, hoje Defensor Público) e o tratorista não o matava, porque seria um absurdo: além de derrubar os casebres, sacrificaria um corajoso advogado diante de tantas testemunhas. Lembro-me tanto disto, meu amigo.

O fato que chamou a atenção de todos os depoentes foi o assassinato e funeral do Padre Antônio Henrique (1969) meu colega de seminário, nascido no mês de outubro de 1940, como eu. O féretro partiu da Matriz do Espinheiro, até o Cemitério da Várzea, por 12 km, ocupando toda a mão direita da Av. Caxangá. Dom Helder presidiu tudo, pedindo o silencio total de todos. Seria a melhor maneira de protestar contra a ditadura: o silencio. E conseguiu.

O Pe. Antônio Henrique, com apenas 29 anos de idade, foi sequestrado, torturado e, brutalmente, assassinado pela ditadura militar. A atuação do Dr. Pedro Eurico, à frente da Comissão de Justiça e Paz foi fundamental na defesa de Dom Helder e de sua Arquidiocese a quem o mártir, Pe. Henrique servia, relacionando “política e religião”, lutando por moradia e para que os pobres fossem evangelizados pelos pobres, como defendia o Dom. O Dr. Pedro Eurico assumia esta mentalidade, sabedoria e postura de Dom Helder como sua própria bandeira e o comparava a tantos outros símbolos de resistência, como: Luther King, Gandhi, Mandela ou a mais recente líder Malala Yousafzai que, segundo “famoso negacionista” não passa de uma “pirralha”, enquanto os demais foram “agitadores” e até “energúmeno” como apelida a Paulo Freire. É a mentalidade de alguns que não querem reverenciar D. Helder nos altares.

Estou muito feliz, meu caro Pedro Eurico, pelo rápido contato que tive com o seu livro. Li-o todo, sem pular uma página. Gostei, imensamente. Revi a história que tanto conheço e vivi, em boa parte, junto ao Dom. Já a indiquei para que outras pessoas também leiam. Neste momento em que o Dom está sendo indicado para o culto da Igreja, rumo à santidade, já o reverenciamos como “Servo de Deus” e como “Venerável”. Todo o acervo está em Roma: 60.520 páginas digitalizadas e impressas; 41 volumes de correspondências; 33 de programas de rádio; 31 volumes de discursos; 24 de cartas circulares; 25 de hemeroteca (publicações em jornais/revistas); 19 de meditações e 07 de livros. Faltou só O Dom que vive em nós, porque ainda não tinha sido editado.

Tudo o que foi pra Roma está sendo estudado, minuciosamente, para que seja dado o 3º passo: o da Beatificação. Para isto, tem que haver um milagre, cientificamente, comprovado. Depois, o último passo: a Canonização. A prova para outro milagre tem que ser a fé. É algo extraordinário que nem a Ciência comprova. Só assim o nosso dom será declarado Santo. Toda a nossa torcida é para que isto aconteça. O mundo todo vai venerá-lo nos altares.

Enquanto isso, vamos invocar ao Servo de Deus e Venerável’ D.Helder! Rogai por nós!  Mantenhamo-nos unidos. Com o nosso Dom, venceremos.

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