PADRE CICERO E CONSELHEIRO SONHARAM E REALIZARAM

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Série: Pensadores que sonharam com um Brasil melhor (XIII) – Texto do Mons. ASSIS ROCHA

Tenho refletido sobre controvertidos “pensadores” que perseguiram, tenazmente, seus “sonhos de tornarem o Brasil melhor”, embora nem todos os meus leitores sejam unânimes em concordar com as minhas colocações.

            Vejo na disparidade ideológica, um enriquecimento mútuo, muito mais do que um distanciamento ou uma ruptura. Tento, sobretudo, um diálogo. Isto não é fácil quando a gente “reage” ou se fecha na abordagem.

            Hoje eu quero falar sobre dois Cearenses ‘contemporâneos e históricos’ que, em situações semelhantes, sonharam com a melhoria do povo: Pe. Cícero e Antônio Conselheiro.

            Pe. Cícero, nascido no Crato, zona sul do Cariri cearense, aos 24 de março de 1844, onde fez seus 1º e 2º graus, até entrar no Seminário da Prainha, em Fortaleza, para cursar filosofia e teologia com os padres lazaristas, ordenando-se em 1870 com 26 anos de idade. Teve sua personalidade formada na intransigência, na combatividade, na persuasão e na disciplina, como era, em geral, a educação dada nos Seminários.

PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA

Voltando ao Cariri, fixou-se em Juazeiro do Norte, onde desempenhou suas funções sacerdotais, até 20 de julho de 1934, quando morreu, tendo implantado no meio do povo, as bases de uma fé profunda, vivida até hoje, e de uma ação política, comprometida com as transformações sociais, mesmo que para isso tivesse, ele mesmo, de entrar na política partidária, como o fez.

            Apesar de não ser esta a opção política que defendemos, queremos fazer referencia a ela, para sermos fiéis ao que estamos dizendo sobre o Pe. Cícero, pois entre 1912 e 1934 ele participou, ativamente, da vida política, arriscando a sua própria pele, a sua conduta moral e religiosa, enfrentando movimentos pela emancipação política de Juazeiro, eleições sucessivas para vice-presidente do Ceará, deputado federal e prefeito de Juazeiro e até da rebelião que depôs o presidente do Ceará, Franco Rabelo, fatos que o transformaram na personagem mais forte, mais controvertida e de maior prestígio em toda a região.

            Eu dizia ali acima que apesar de não ser esta a opção política que defendemos, no entanto descubro a sua coragem em combater também ao lado de uma política social, ao lado do bem comum, de quem tem a fé encarnada na realidade, numa luta constante pelo povo. O Pe. Cícero doou uma propriedade sua – o Sítio Caldeirão, no município do Crato, com cerca de 400 hectares de terra – para fazer uma verdadeira reforma agrária. Ali, por volta de 1922, em plena efervescência de sua política partidária, ele reuniu algumas famílias “sem terra” para a realização de um trabalho sócio-comunitário, em que todos se unissem, trabalhassem, pusessem tudo em comum, se alimentassem, participassem dos lucros e vivessem ‘suprindo a necessidade de cada um’ como narram os Atos dos Apóstolos 2,42ss e 4,32ss.

            A Comunidade do Caldeirão conseguiu uma invejável produção de alimento e de algodão, de todos os instrumentos de trabalho, de vestimentas e, sobretudo conseguiu uma excelente participação comunitária na luta pela libertação do povo. Infelizmente, tudo foi reprimido e dissolvido policialmente, sob a alegação de se estar transformando em um aldeamento tipo Canudos que – fazia 25 anos – tinha sido desestabilizado pela Igreja e pelo Governo que tinham medo da organização do povo. A polícia, instituição que deveria manter a ordem, não pensou. Obedeceu. Como em Canudos, destruiu tudo a ferro e fogo, como veremos já, referindo-nos a Antônio Conselheiro.

            Antônio Vicente Mendes Maciel é o seu verdadeiro nome. Originário de uma família de pequenos proprietários de terra do Sertão Cearense, nascido em Quixeramobim aos 13 de março de 1830. Foi vítima do poderio dos Araújo, grandes proprietários na região.

            Tendo fracassado, material e conjugalmente, abandonou tudo, tornando-se “penitente”. Vestia um camisolão, usava bordão e sandálias e começou a andar pelos sertões e caatingas do Nordeste, pregando o Evangelho.

            “É um maluco” diziam alguns. “Coitado, perdeu tudo, inclusive a mulher. Vai fazer o que”? Nem imaginavam do que ele era capaz. Em pouco tempo, era grande a multidão em torno dele. Vinha ouvir-lhe a pregação, pedir milagres e escutar seus “conselhos”. Era o que ele fazia de melhor. Daí, o seu apelido de Antônio Conselheiro. Sua fama de santo e penitente corria os sertões. Muitas famílias, vendendo ou abandonando seus haveres, o acompanhavam. Cada dia aumentava o número de seus adeptos, que caminhavam com ele, por onde quer que fosse, em toda a região do Nordeste.

            No interior da Bahia, chegaram à margem do riacho Vasa Barris, onde acamparam e começaram a construir uma Igreja e, em torno dela, as latadas e cabanas de morada. Era proibida a ingestão de cachaça e ninguém podia viver em concubinato. Canudos era agora uma Cidade Santa. Chegou a ser a maior cidade da Bahia, depois da Capital.

ANTONIO VICENTE MENDES MACIEL – o CONSELHEIRO

A notícia de sua existência se espalhava, rapidamente, por toda parte, não só entre a população miserável, espoliada e faminta dos sertões, mas chegava também aos ouvidos da Igreja e do Governo, que temiam pela desestabilização de seus poderes. Quem já viu “povo organizado”?

            Esse temor era, totalmente sem fundamento, pois Antônio Conselheiro tinha poucas aspirações com relação ao poder. Sua política era a do bem comum, da vivencia comunitária, da participação de todos no trabalho, na confecção de produtos manufaturados e de uma união enorme entre a fé e a vida ou entre a oração e a ação, como lhes ensinava os Atos dos Apóstolos ao se organizarem as primeiras comunidades cristãs: “não havia necessitados entre eles”, como entendera também o Pe. Cícero depois, no Caldeirão.

            Em ambas as ocasiões, a elite, os governantes e setores da Igreja não ficaram contentes com isso e se sentiram ameaçados, mesmo que houvesse fundamentação bíblica para realizarem o trabalho de evangelização. Tinham que dar um paradeiro nessa situação. Até diziam: “Imaginem! Um povo organizado, sem classes sociais, todo mundo igual! Jamais!”.

Enviaram expedições nacionais e estaduais de soldados “para dissolver o grupo de fanáticos”. Na luta foram perdidas cerca de dez mil vidas. Aqui em Canudos, como, mais tarde, no Caldeirão, “a polícia não pensou. Obedeceu”, causando as mais estúpidas consequências: no dia 22 de setembro de 1897, o Conselheiro teve sua cabeça cortada e o arraial foi arrasado, na batalha que durou vários dias, desfazendo-se uma esperança de reforma agrária, como o foi também em Caldeirão.

Nossas duas experiências cearenses – de um correto uso da terra, de um trabalho comunitário que unia oração e ação – desapareceram. A república respirou aliviada. Pra que povo organizado? Pra que pobre ser gente? Quem já viu pobre com terra? Como trabalhar nela? Deixa para os latifundiários, para os exploradores do agronegócio, pra quem pode comprar máquina pesada e produzir muito para exportar. A gente pode morrer de fome, contanto que o mundo se alimente com os frutos do nosso trabalho. Dá pra entender?

Texto do ASSIS ROCHA, Mestre e Doutor em Comunicação Social, de Bela Cruz – Ce.

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